Húmus

Raul Brandão · Capítulo 5 de 23

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Húmus

Papeis do Gabiru

 

26

 

O que me impede de vêr a tragedia da vida, é a ninharia da vida.

 

A alegria é a luz. A luz suprema é Deus.

 

Se elle não existe—nós creamol-o.

 

Cheguei a um ponto da vida em que nem os outros me interessam, nem eu interesso os outros. Não falamos a mesma lingua. Só entendo alguns desgraçados.

 

Tudo na natureza são fórmas da minha alma. Minha alma passa como uma luz em frente da escuridão. Extincta só resta a treva.

 

Se não fosse o habito uma arvore matava-me. Não posso olhar o céo sem terror, e tenho de fechar todas as portas para voltar á vida comesinha.

 

Para o outro mundo é preciso uma iniciação.

 

Sinto que cada passo que dou é irremediavel.

Se me perguntassem o que queria ser—queria ser isto mesmo. Assim na eternidade te queria, minha alma, com o mesmo sonho, a mesma vida e os mesmos erros. Não te troco por outra alma.

 

Não há belleza completa sem uma pontinha de saudade.

 

A pobreza, a desgraça e a dôr metem-me medo. Mas que prestigio! Ser alimentado pela desgraça dá outra fibra, que só á desgraça pertence. Faz-se parte d'uma legião esplendida.

 

Há uma porção melhor do nosso sêr, não há negal-o. Luz entre residuos, gritos e instinctos. Se não existe outra vida, pergunto para quê?

 

Se fosse possivel suprimir a ilusão—morriamos todos á uma. Vivo entre quatro paredes, e entre quatro paredes analizo e commento e construo o universo. Fora d'esse casulo nada existe para mim. Succede, porém, que da parte de fóra é que está o resto...

 

Se me perguntam o que é a vida—não sei o que é a vida. Sei que me devora—sei que tenho ao pé de mim a morte.

 

Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciaes. Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.

Sei que tudo são aparencias, com uma unica realidade, a morte. Para morrer não valia a pena viver, para me encher de saudade não valia a pena viver. Só para ser mistificado não valia a pena viver.

 

 

A melhor parte da vida—é a saudade da vida.

 

A que se reduz afinal a tua vida? Algumas ideias mesquinhas—e a uma coisa que não cabe cá dentro.

 

Sim a vida tem minutos bellos, quando a gente a esquece. E acima de tudo o sonho. O sonho vale a vida.

 

É nada e menos que nada. Impulso, desconcerto e logica, e no fundo do teu sêr uma ancia superior a tudo, que é a melhor parte do teu sêr. Melhor, que te faz desgraçado. Melhor que teima em querer um universo a seu modo, e que pouco e pouco, apezar de tudo, contra tudo, tem construido o mundo a seu modo. Foi ella que fez Jesus. É ella que te impele para cima, cada vez mais para cima.

 

Ouço-me viver com terror—e caminho nas pontas dos pés para a morte.

 

Se a vida futura é um absurdo, esta vida é um absurdo maior. É tudo uma questão de habito. Tanto sonhei comtigo que te construi.

Sou aqui tão necessario como as estrellas do céo. Aqui estou, creatura mesquinha, com a dôr a meu lado, com sonho a meu lado. Hei-de acabar por te dominar. Não há morte que te valha!

 

 

Isto é abjecto, ás vezes é grotesco—mas se isto desaparecesse, desaparecia Deus, e, com o maior dos sonhos, todos os outros sonhos.

 

30

 

A vida é tecida como o linho: um fio de dôr, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.

 

Só dei por ella depois de morta. As horas mais bellas perdi-as a sonhar, quando a vida estava a meu lado. Eu não vivi! eu não vivi!

 

Agora é que me lembro della, como d'uma tarde que viesse devagarinho na ponta dos pés, e se fixasse n'um minuto, no silencio, nas coisas suspensas na luz—nos botões quasi a abrir.

 

Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a sua vida.

 

O dia d'hoje não existe para mim: só penso com sofreguidão no dia d'amanhã. Ora amanhã é a morte. E succede tambem que só dou pelas coisas bellas da vida, depois que passaram por mim, e que as não posso ressuscitar.