Húmus

Raul Brandão · Capítulo 11 de 23

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Húmus

Outra Villa

E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de duvida. Do que tenho saudades é d'esta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o moribundo faz ao arrepanhar o lençol é um gesto de naufrago.

 

D'um lado a materia, do outro o espirito. D'um lado consciencia, debate, lucta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexoravel. Nenhum grito a perturba. D'um lado a vida gasta n'um segundo, do outro a successão ininterrupta dos seculos, indiferente e eterna. Como acaso é atroz, a não ser que outra coisa nos espere.

 

Se não nos detivessemos com palavras, se avançassemos todos ao mesmo tempo, esquecendo o que é inutil, para esta coisa que nos devora, subjugavamol-a. Conquistavamol-a por uma vez, por maior que ella fosse. Mas nenhum de nós se atreve e passamos a vida a fingir que não existe. E só ella existe.

 

OUTRA VILLA

 

12

O tempo era limitado, a paciencia pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura seculos ninguem espera um minuto.

 

 

Tenho aqui a villa sufocada de espanto, e, n'este momento de silencio e mudez, todos encaram com desespero os proprios phantasmas. Está aqui o fel—e o fel está vivo. Está aqui a mentira—e a mentira está viva. Está aqui a D. Leocadia e o dever, a D. Bibliotheca e o postiço, o Anacleto e as conveniencias. Estão todos. Não falta ninguem á chamada. Está aqui tambem o espanto e a mania, e a mania tem os cabellos em pé. Custa-me a admitir-te na minha companhia, custa-me a arrancar-te de profundidades ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro, reconheço-o. Passei a vida a arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a prégar-me:—Não metas ahi o nariz.—E a minha vontade era meter alli o nariz.—Passei a vida a cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a arredar-te e agora tenho por força de viver comtigo. E tu?—e tu?—e tu?...—Gastei-me, gastei-a...—exclama a D. Leocadia. Cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir o meu dever lhe repeti a toda a hora que os pobres teem um logar marcado na vida. Fil-o por dever. Não transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tiral-a do asilo por ser do meu sangue, assim o meu dever era educal-a para pobre e reduzil-a a um sêr passivo e inerte. Vesti-a com um sacco e gastei-me um dia, gastei-a outro dia, a ponto de usarmos as feições e de não nos reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em frente da outra, no silencio gelido da villa, onde se ouvia o trabalho lento das aranhas no fundo dos saguões.—Dei-te o sustento, tens de ser agradecida. Tirei-te do nada, livrei-te da fome, é preciso seres agradecida. Cumpre o teu dever. Eu cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, n'um perpetuo dize tu direi eu, n'uma eterna contradição, mas cumpri-o. Cheguei a tiral-o á bocca para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever. Usei assim a vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente, com a barriga á bocca, á espera que eu cumpra o meu dever até final. Qual é o meu dever? Reconheço que a odeio—odiei-a sempre. Mas qual é o meu dever? pergunto. Qual era afinal o meu dever? Se fazia o bem, amargava o bem; e tu não me largavas se tentava o mal. A minha vida tem sido um perpetuo inferno, contrariada e impelida, e sempre a cumprir o meu dever amargo, o meu dever estupido.—E os olhos não se lhe despegam do phantasma coçado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe:—Cumpri sempre o meu dever! Se não cumprisse o meu dever ia parar a uma viella.—Queda-se estrangulada e surpreza, mais estrangulada e surpreza ainda, diante da voz que lhe diz não sei o quê de temeroso...—E tu?—pergunto—tiveste inveja?—Tive e recalquei-a. Arranquei tudo, destrui tudo, por ti que não existias.—Mas isto é infame, isto não sou eu!—És, és, mais do que nunca o foste.—Eu mesmo reconheço que sou outra casta de intrujão. Tenho outros preconceitos, falo outra lingua e julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujão. O que me falta é desplante. Prendo-me a inutilidades, e, para me engrandecer, admiro os meus escrupulos e dou importancia ás minhas teias de aranha. A minha vida é uma serie de transigencias secretas—e por cima medo...—Fala mais alto! fala mais alto!—A minha vida tão bem construida é uma aparencia, a minha serenidade, aparencia. Talvez um pouco de logica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de mim mesmo tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e ás vezes surprehendo-me a pensar:—Sou um doido? sou um doido?—É que me vem não sei d'onde, não sei de que confins ou de que recanto d'alma que tenho medo de explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?—Cada velha se põe a recuar deante de si mesma; cada sêr procura afastar-se; cada um a si proprio se repele. Mas todos são enrodilhados no pé de vento, que os leva sufocados e atonitos, balouçados entre a vida e a morte, entre o assombro e o inferno. E é grotesco este encarar com o sonho, pé atraz pé adeante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que quer ser mentira até á ultima extremidade.—Tu não deste um passo na vida sem obedeceres ás conveniencias e sem consultar o teu codigo de meticulosidade. Tens um Devee Haverdo tamanho d'um predio. A praça considera-te, Deus considera-te. E tu torturaste-a segundo as conveniencias, habituaste-a a conter as lagrimas e a ser correcta com o mesmo grito recalcado ao fundo do coração. E esse drama correcto, torna-se mais correcto ainda, e, seculo atraz de seculo, há-de acabar por atingir a correcção suprema.—Não tenhas medo, avança um passo, outro passo ainda...—Que é isto? que é isto que se me pega, diz a Telles, diz a Reles—e que me não deixa pensar na mania?—E nos olhos de idiotia, a vida, camada atraz de camada, chega a vir á superficie.—Ah, a mania D. Telles, das Telles das Reles, a mania! Pensar n'este trapo um dia, e só pensar n'este trapo! Fazer de ti e de mim mania e só mania!— Dois castiçaes de prata foram a minha vida. Pensei n'elles com minucia. Um nada—ou Deus—bastou para me encher a vida. Acordei com elles, dormi com elles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a razão do meu sêr. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia morrer com esta mania, levava-a para a cóva, sem ter pensado no resto, e agora encontro-me sós a sós comtigo, desprevenida e sósinha. Foste para mim um filho. Alimentei-te e alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor cantinho do meu sêr. Salvaste-me do desprezo de mim propria, peor que o desprezo alheio. Quando me sentia mais humilhada e mais pobre, recorria a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente até de si duvida, quanto mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me. Foste a carne da minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu não me deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte—e eras um trapo, uma corôa de lata, dois castiçaes de prata! Agora mesmo procuro agarrar-me— mas isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... Há só uma coisa que eu queria ainda dizer, e não a sei dizer diante de isto que tenho ao pé de mim, dentro de mim e me não larga...—Ai! ai! ai!—Tambem tu, tambem tu, prima Angelica, que passaste a vida debruçada sobre a meia, tambem tu te ergues n'um arrebatamento, passa-te não sei que dôr na escuridão cerrada, e procuras, com a agulha afiada como um punhal, furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram bem!... Mas tanta inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma meia eterna, a que mãos caridosas já não desfazem as malhas, e que tem tres metros de comprido...—A meza da bisca lambida cahiu por terra, e de tal maneira se olharam nos olhos, que não foi possivel tornar a juntal-as. Só a mesma voz persiste dentro de nós mesmos, no silencio e na mudez da noite infinita, tal qual a D. Leocadia:—Mas eu não posso! eu não posso! Tu obrigas-me a fazer o que não devo! Tenho aqui fel e hei-de, para cumprir o meu dever, fazer o contrario do que sinto: dominar-me todos os dias, moer-me todos os dias, prégar-me todos os dias:—A gente só vem a este mundo para cumprir o seu dever!...—O que há de peor no mundo é arrancar os desgraçados á desgraça! O que há de peor no mundo é não haver outra vida e passar esta vida a arremedal-a!

15 .

 

Até agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificancia e as palavras tornaram-me a vida possivel, a vida onde á custa de palavras cheguei a ser Eleutheria da Fonseca, Balsamão, Elias de Mello ou Melias de Mello. Só á custa d'isto pude aturar a vida e o horrôr da vida. Só por não a vêr, pude encaral-a. Só emquanto fui feito de pequenas miserias e de palavras inuteis a pude suportar. Mas agora que me resta se tudo é vazio de significação?

Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo, a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sêr. É certo que metade d'isto— metade pelo menos—é representado. Se te confessasses dirias:—Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento sempre até quando sou sincero; até quando digo o que sinto, é outro, e noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou a vel-o representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre nós e dentro de nós um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes é mentira, mas sei tambem que tenho obrigação de ajudar a mantel-a. Respeitamos um compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver só lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não existe: se existisse seriamos bichos. Esta vida é uma mentira—a outra vida é monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que ahi está por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois atravez de terrores e de indescriptiveis esforços. Custou aos vivos e aos mortos a dôr das dôres, poderem discernir dois ou tres factos essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou seculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a cumprir e legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e seculos—mas tiramol-o do nada. No principio só fomos almas, creamos depois a casca. Tambem as arvores só a poder de tempo se revestiram d'um envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo—e a mentira. Tudo—e o habito. Tudo—e a paciencia. O sonho não é senão uma reminiscencia. Todas as inutilidades não passam de adaptações á vida. Essas pequenas coisas são ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia é uma tragedia. D'estes sêres saem outros sêres grotescos e terriveis—terriveis e grotescos. No silencio a mania toma proporções chimericas, e não sei como hei-de juntar estas duas coisas—mania e desespero.

 

Dentro de cada sêr resurgem os mortos. Crescem dentes ás velhas, afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expressão. Quasi toda a gente emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se. Qual é o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar unidade. Uma ninharia —um impulso—um habito. É isto que constitue o meu ser, ou é esta serie de imagens, já desaparecidas, que formam a minha e a tua vida? Não, o meu verdadeiro sêr sacode a poeira na colera, na paixão, no amor ou no odio,—porque aos sentimentos tambem é preciso desenterral-os—e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitações e as duvidas, porque já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha vontade: são os mortos. E é quando me sinto viver.

E a insignificancia? Até a insignificancia. A insignificancia com orgulho, a insignificancia com desespero.

21

 

Aqui está a villa toda—mas as figuras mudaram. São disformes. O proprio Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas á rua. Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrôr. O silencio redobra, a dôr redobra. E com isto uma alegria a que falta o resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não nos dá tregoas e que atinge o desespero:—Não grites, D. Leocadia, não grites. Reconheço que és feita d'uma peça só. Foste sempre inteiriça.—Tirei-o á bocca para a manter...—Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida, e o dever, que fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti. E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos ignorados...—Mas então não há dever nenhum e eu não sou a D. Leocadia, 29-3.º-D.?—Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...—Que exiges tu de mim então, que não comprehendo? Que exiges tu de mim contra a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?—Não grites...—Que exiges tu de mim de absurdo com que não posso arcar? Um esforço sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso, uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado? Melhor será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de colera?... Eu posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de mim?!— Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta conforme pode n'este balanço...

—Mas então não há dever nenhum? não há bem nenhum? Que fiz eu d'este sêr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?—Oh D. Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio, uma construcção de trapos e de palavras que chegou ao céo e substituiu o céo—como tu tapas os olhos com desespero para não vêr! Hás-de aguentar com este pezo, que não podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres só fél e vinagre, mas temos de ver o que não nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, até a cobra adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o problema— todos temos de dar o passo. A villa é a mesma villa, as pedras as mesmas pedras. Nós mesmos não mudamos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, até este desespero; tudo estava vivo, até este grotesco. Nós é que estavamos mortos.

 

Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se entranhou na vida que custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a escuridão, só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez a lez na aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.