Húmus
Dialogo dos Mortos
Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo, tornou-se humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. Á força de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dôr. E aquillo persegue-a, encarniça-se sobre a velha tropega, n'um espectaculo ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha d'um lado, do outro a grande sombra tragica que subverteu o mundo; o escantilhão sôfrego, e o gesto que a mulher da esfrega faz para o afastar de si. Ao mesmo tempo a alma dorida, a ternura que a não larga, e o contacto feroz que não explica e a que sente o pezo.—Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!—Atormenta-a, sufoca-a, e como não pode mais, como não comprehende—não consegue—e como aquillo se encarniça, a Joanna mostra-lhe as mãos enormes, as mãos roídas, as mãos só dôr...
Tem as mãos como cepos.
DIALOGO DOS MORTOS
12
Há em mim varias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era suportavel. Mas agora não: agora põem-se a falar ao mesmo tempo.
Sintiste-o avançar, pouco e pouco, no silencio? Sentiste o teu pensamento disforme avançar mais um passo no silencio? É porventura possivel que o que se passa no mais recondito do teu sêr, alguem o presinta e o ouça avançar no silencio?
Perpetuo combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo—a cóva. Eu e o outro—eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me, aturde-me. Perpetuo debate a que não consigo fugir, e de que sahimos ambos esfarrapados, á espera que recomece—agora, logo, d'aqui a bocado—porque só essa lucta me interessa até ao amago... Estou prompto!
Todos nós pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a vida artificial, uma architectura mais temerosa que todas as cathedraes do globo postas umas em cima das outras.
Se me esqueço o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...
Vejo-o caminhar e não o posso deter. Por mais esforços que faça não o posso deter. É como se eu creasse figuras, que se puzessem logo a caminho. Todos os phantasmas se dissolviam á luz da madrugada. Agora estas figuras teem de cumprir um destino. E pergunto a mim mesmo baixinho se na verdade eu não desejo que avancem um passo—e outro passo ainda...
Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora tanto faz entrar na morte repulsivo, como transfigurado e só dôr.
Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade—porque nunca mais se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem vibração, nem na ternura... O momento em que me sorriste, balouçado entre o nada e o nada, nunca mais se tornaria a repetir, identico e completo, em todos os seculos a vir! Estava alli a morte—está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes dizer—já eu o disse a mim proprio. Até hoje falava a alguma coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, a mim mesmo me interrogo.
Tu luctas contra esta figura que dentro de ti te impele;— tu queres fugir de ti proprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só consegues, á custa de esforços desesperados, manteres-te dentro da formula ou da mascara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e fingir e sorrir; tu podeste iludir o phantasma, seguindo pelo caminho trilhado. Iludiste os outros e a ti proprio te iludiste. Agora não. Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que te entravaram a vida, eil-as reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a lucta? O homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancôres, com resquicios d'oiro á mistura. O que pode fazer é dominal-os. Mas sae sempre da lucta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho:—Valeu a pena? valeu a pena?—Depois que se venceu que lhe resta? Elle e o vacuo, elle e a saudade da lama que fazia parte integrante do seu sêr. Ficou diminuido. A escuma tambem tem os seus direitos.
Há entre as figuras que compõem o meu sêr, duas encarniçadas uma contra a outra. Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as cobardias, outra capaz de todas as audacias. Há uma prompta para todos os rasgos e outra que a observa e comenta.
Mas há entre as figuras que compõem o meu sêr, uma que está calada. É a peor. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça.—Por muito que me accuses, já eu me tenho accusado muito mais!
Olhas-me e eu estremeço. A sofreguidão dos teus olhos, a sofreguidão verde dos teus olhos, que me reclamam como um abysmo de dôr e de espanto onde encontro emfim a vida!
Se te quizesse descrever, não te podia descrever. Sei que me pertences e que te pertenço.
Talvez as almas fossem mal conduzidas, talvez já adivinhassemos o universo e depois o esquecessemos. Creio que se não complicassemos a vida e a dirigissemos n'outro sentido, presentiriamos tudo e resolveriamos tudo. Há em todas as existencias alguns segundos em que sentimos o contacto do mysterio—de que nos separam logo leguas de impenetrabilidade.
Alguma coisa porem se interessa pela minha dôr. Todas as noites grito, todas as noites sufoco os gritos. Todas as noites me debato com o mesmo problema e a mesma angustia. E há uma coisa que assiste a este espectaculo e se interessa, que cada vez me mergulha mais fundo para que eu me despedace—e se interessa...
15
Com que saudades me aparto da mentira! Dos nadas, das pequenas coisas que dão sabôr á vida. Já
reparaste que são as pequenas coisas da vida que nos fazem chegar as melhores lagrimas aos olhos? Na natureza os ultimos dias d'outomno que se despedem de nós com saudade, o oiro humido, o ultimo sol nas fôlhas molhadas; as noites cheias de estrellas, em que se adivinham outras estrellas ainda; a ternura que não tem existencia real, a sensação que passou por nós n'um segundo, sem deixar vestigios; e as horas que creamos, esquecidos e penetrados um do outro, ao pé do lume, já sumidas tambem na voragem. Nada—tudo. A tua expressão em certos momentos, em que uma figura transparece sob outra figura, como se me fôsse dado contemplar, n'um rapido instante, a tua alma limpida—todos os sentimentos que geramos de ilusão, de sonho e de tristeza. Tudo e nada.
Agora a vida é amarga. Acabou a saudade e este sabôr amargo é o sabôr da vida nova que começa.
Até hoje bastava uma palavra tua para me prender, ou a ternura que os teus olhos exprimiam. Um fio detinha o meu horrivel pensamento. Tu sorrias... Um sorriso e mais nada, ternura e mais nada. Uma forma transitoria, sonho e mais nada.
Das estrellas a luz phosphorescente envolvia o mundo. A noite tinha é certo negrumes profundos e espaços tão negros, que n'elles só morava o vacuo, mas no silencio a vida das estrellas estava mais perto do meu coração. A impressão que me sufoca deante da eternidade sem limites e da duração da vida astral, misturava-se a ternura de teus olhos, que me faziam ascender do subterraneo para a luz, que me ensinavam a soletrar o abcdo céo, que antes de mim, na vida ephemera, outros tentaram decifrar, levando-o impresso na alma para o tumulo.
Ilusoria irrisão. Tudo isto não existe, ou só existe como agitação e desespero frenetico. Tudo isto desaba há milhares d'annos n'uma queda infinita, n'um grito que nunca cessa nem echôa. Que desapareças amanhã e as mesmas estrellas indiferentes luzirão no céo, o mesmo impeto de vida galopará no espaço. Só os teus olhos não procurarão os meus cheios de sofreguidão e espanto... Arredo a tua figura, a figura palida que teima em me acompanhar sem palavra, a figura transida e palida de que desvio o olhar. Encontrei-te n'outra luz, n'outra vida, n'outro mundo talvez, e os teus olhos tristes enchem-me de inquietação e terrôr. Tu não existes! tu não existes! Escusas de soluçar. Não te tolero. Não sei quem és e conheço-te. Tens vivido na minha companhia, e és uma fórma transitoria e mais nada, um sorriso de ternura e mais nada.
Espera... Quantas vezes me tens confessado, sufocada de lagrimas, que te vem, não sabes d'onde, uma vontade do fugir pelo mundo fóra para onde ninguem te conheça, deixando tudo, e abandonando tudo—fugindo a ti propria?... Para isso bastou aquella folha doirada, que o primeiro arripio de vento léva sem destino. É essa mesma sensação que todos experimentamos a certas horas em que o universo se nos afigura monstruoso e inutil, com uma unica certeza—a de caminharmos todos, atravez da incoherencia, para a morte. Felizmente essa impressão dura um segundo. Num segundo todos ouvimos os passos da morte.
20
Agora não contenho a multidão que constitue a minha alma. Nunca estou só e ouço-os que clamam cada vêz mais alto. Sinto phantasmas até á raiz da vida. Minha alma é um tablado onde todos os mortos se degladiam. Ouço-os! ouço-os! são impulsos, são sêres que actuam e falam como se eu não existisse. N'esses momentos sou apenas um espectador que os vejo a caminho sem me poder defender. Ouço-os! ouço-os!
Se Deus não existe e a outra vida não existe—se disponho só d'esta vida, os deveres que tenho a cumprir são apenas os do instincto. Só tenho deveres emquanto não me pezam. Não te deixes iludir.
Era sempre com secreta irritação que eu fazia o bem. O bem contraria. Fugi sempre a este problema... Era sempre n'um impulso de paixão—e com todo o meu sêr, que eu fazia o mal... O sacrificio, a piedade, a bondade só teem logar no mundo como culturas artificiaes.
Repete isto: a bondade é um sentimento falso e o mais artificial de todos os sentimentos.
Ah, a ironia... Há de te servir agora de muito a ironia!
O dever acabou, o estupido dever, o dever que me dominava, a vida com um pezo de chumbo, o dever de fazer todos os dias as mesmas coisas inuteis. Respiro.
Sim, a amizade... Falemos aqui baixinho um com o outro. Essa amizade era o meu interesse ou o teu interesse. Dominavas-me ou dominava-te. Passei annos sob esse jugo, e agora descubro com alegria que te detesto. Detestei-te sempre.
Odeio-te porque vales mais do que eu; odeio-te porque podes mais do que eu.
Assistir á ruina dos nossos amigos é talvez melhor do que assistir á ruina dos nossos inimigos.
Eu sou a unica consciencia n'esta barafunda cega e sofrega.