Húmus

Raul Brandão · Capítulo 3 de 23

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Húmus

O Sonho

Estamos aqui todos á espera da morte! estamos aqui todos á espera da morte!

 

O SONHO

 

6

Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adhere. Há dias em que não distingo estes sêres da minha propria alma; há dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a impassibilidade, dôr; há dias em que o céo e o inferno esperam e desesperam. Presinto uma vida oculta, a questão é fazel-a vir á supuração.

Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos seculos, e os sêres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem não viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A arvore cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar á aquiescencia e á regra? Crio cama e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.

 

—É necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos.

É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos magneticos de sapo. É uma parte do meu sêr que abomino, é a unica parte do meu sêr que me interessa. Ás vezes deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos o espero. Chamo-o, não comparece. Se quero ser pratico, gesticula dentro do casaco arripiado:—A alma! a alma!—Singular philosopho! É capaz de desejar a morte para vêr o que há lá dentro; é capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado da vida constroe outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealisaveis, transformam-se-lhe nas mãos em barro informe. Toda a gente se ri— já sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho. Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas. Na arvore vê a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo. Põe a mão e molha. Destinge sonho...

—A alma—diz elle—ao contrario do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma côr. Há sêres cuja alma é uma continua exhalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda—immensa, dorida, phrenetica. Há-os cuja alma é d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da materia comunicar. O amor não é senão a impregnação d'esses fluidos, formando uma só alma, como o odio é a repulsão d'essa nevoa sensivel. Assim é que o homem faz parte da estrella e a estrella de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas lagrimas, vem á tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes, na pedra concentrada e recalcada, que dôr inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flôr.

Para elle estas coisas ethereas são visiveis. Vê tão exactamente como eu te vejo a ti a paixão, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados d'oiro, de piedade e de genio. Há noites em que não resisto: fecho-me com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós préga e nos deixa aturdidos. Ás vezes consigo afastal-o, mas succede que fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre é elle quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e quando rio como toda a gente ri, só a elle o ouço no mundo. Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um cão vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz. Vem feliz! É elle que me préga:—Toda a agitação é inutil. Não tenhas medo da desgraça!—E eu tenho medo da desgraça. Á força de habito cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou a vida toda.

Mora n'um velho pardieiro encostado á muralha, abafado d'um lado pela muralha da villa, que á noite redobra de porporções. O granito enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra dá calafrios a quem entra.

—Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada sêr realiza uma primavera é que é tudo. O resto insignificancia. É ella que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte...

D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o céo, do outro o sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada. Dentro d'isto sonho. Ponho-me a olhar para elle—ponho-me a olhar para mim. Passou a vida n'aquella inutilidade, de que sae a revêr sonho, e com os côtos partidos a esvoaçar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do laboratorio, á procura da pedra philosophal.—Ridiculo. Depois na aplicação da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que se desentranham em flôr, sem produzirem fructo.—Grotesco. Agora ninguem o arranca a infindaveis monologos cahoticos:—A morte! a morte! a morte!— Incongruencia, obscuridade e dôr tambem; a dôr de quem vem da irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho titubia e não sabe onde põe os pés. Tem as azas partidas. Comprehende então a sua inutilidade e desespera-se até reentrar na nuvem que o envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouço a sua voz magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco:

—Isto é um fluido dôr, falta-me condensal-o. É uma nuvem que envolve tudo, que vem do turbilhão da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e ascende em espiral até Deus. Não, a sensibilidade não é individual, é universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos até á Via Lactea, para transformar as noções do tempo, do espaço, da vida e da morte—basta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...

 

7

 

A villa é tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é d'elle: a propria casa de granito revê sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrahe sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru não ouve, não vê, não sente. O sonho isolou-o da propria mulher transida de frio, no casarão que deu á costa como uma nau do passado, com o cavername roido pelo mar das trevas.

 

É um sêr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se sumiu n'um sôpro cada vez mais ephemera, com dois olhos verdes de espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado, perdido, como uma coisa inerte...

 

Morreu transida de frio. Uma mulher palida—o que vale um passaro. Ternura e dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal pousa os pés no chão, chora baixinho, e vae talvez acordal-o, queixar-se... Não se atreve, e esboça um sorriso logo molhado de lagrimas. Morre de frio. Agosto—morre de frio. Até para lhe sorrir se esconde, e põe-se então a olhar o muro (vou-te dizer o sitio) a falar com o muro, a queixar-se á grande nodoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de espanto, um vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de ternura tel-a-hia salvo—ninguem o arranca áquelle sonho informe. Morta...

Ninguem. Depois que a perdeu tresvariou. Estende fios no chão entre as arvores, e as arvores, sob o fluido electrico, todo o inverno se desentranham em flôr. Pegou-lhes sonho tambem. É um desbarato, uma profusão que as devora. Absurdo. O quintalorio ao pé da muralha, que há seculos revê humidade, não é maior que um lenço; a primavera só chega aqui tarde e de mau modo, com pena das arvores de saguão. Arrepende-se logo. Já veem que o absurdo é maior ainda... Dezembro e primavera. O céo gelado, um brilho de estrellas em engastes novos, e, entre a carie das paredes, as macieiras baixinhas e humildes como exhalações de ternura. Mortas. Mortas, seccas de sonho. Mortas as arvores desfeitas em flôr.

—Este efluvio é que é tudo: a torrente de ideias e a torrente de paixões. A minha athmosphera, a alma, penetra a tua athmosphera, e dissolve-a, domina-a, conquista-a. Recua, tacteia, hesita. Mas escusas de falar para que eu te entenda. A materia muitas vezes não me deixa comprehender, mas é raro que eu não saiba logo quem tu és, e, mesmo que seja a primeira vez que te fale, as vezes que te tenho encontrado no mundo.—E logo:—A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta é que dei com ella. Mas que importa! Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos sempre, amar-nos-hemos sempre...

A noite é d'aparato. A lua de coral sobe por traz da montanha em osso, e depois na chanfradura das ameias. Mais flôres—todos os galhos dão flôr. Sente-se, quasi se ouve, a dôr das arvores, dos sêres vegetativos, ao terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.

—Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais dois dias e tinha suprimido a morte!

Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae neve e abrem os primeiros botões. A arvore transforma-se n'um sêr dorido e esplendido—transforma-se em sonho —em sonho desfeito em flôr, em flores espezinhadas uma atraz das outras por camadas sucessivas. Os ramos espremidos escorrem dôr. Até as pedras deitam tinta. O quintal escorre sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas apodrecidas, e velhas pedras iludidas põem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos, que sae da fealdade como uma inutil queixa de desventura. A noite concava e branca—gelada—cobre indiferentemente tudo isto. Que não cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco tambem a noção da realidade.

—Tanta flôr!

—Para a sua cóva.—E pondo em mim os olhos atonitos:—O que é preciso é ir buscal-os ao fundo da mixordia, arrancal-os á obscuridade, juntar outra vez as boccas dispersas. Não morrer é nada: vou resuscital-os...

Imagina o negrume d'um poço—imagina dentro o espanto, e não sei que luz viva, não sei que dôr recalcada, não sei que de humilde, que quer viver apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha. Escuridão e oiro—silencio e oiro—espanto e oiro.

—Vê tu a arvore... Uma camada de flôr—um grito; outra camada de flôr—outro grito. Vê tu a arvore como se transforma n'um phantasma d'arvore, e depois em emoção!...

Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O sonho transborda, o luar transborda—branco e dôr—branco e sonho. Depois o silencio, depois a sua voz magnetica— depois a sombra immensa que ameaça desabar sobre nós, no quintal do tamanho d'um lenço. Desato aos gritos quando todas as roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando da cathedral e do silencio caem uma, duas, tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres vezes o coração. E o Gabiru com olhos de phrenesi insiste:

—Não morrer é nada, suprimi a morte. O que é preciso é arrancar os outros ao silencio. É uma coisa simples, é uma questão de synthese.

—A morte,—afirmo-lh'o—é o repouso eterno.

—Repouso eterno, estupido! É exactamente o que está vivo, a morte. É o que está mais vivo.

 

10

 

Na escuridade e no silencio o sonho deita braços desconformes. Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avança para mim como uma exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da villa quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma... Isto é possivel ou isto não passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho grotesco?

De que é feita a tibornea, o liquido viscoso, côr de sabão, com filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, atravez da luz—a maior descoberta do seculo, o sôro que acaba de vez com a velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium, o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone—e sonho. Dezasete elementos, entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico—e dôr. Materia, espirito e concentração. O misterio é este e mais nenhum: é exprimir como o que é espirito se transforma em materia, como a poeira se condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa? Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das vozes submersas, a discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas boccas que falam, a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade, d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. Não te rias. Já t'o disse: é um sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se agitam n'um desespero para voar. Não se contenta com esta vida nem dá por ella, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é possivel tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe em mim os olhos turvos e teima, insiste, repete:

—Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera cinzenta, composta de todas as athmospheras: é a alma da villa.—E afirma cheio de convicção:—Deito-lhe sonho dentro.

 

Queira ou não queira faz-me scismar... Na realidade morrer é absurdo. Nunca me capacitei a serio que tivesse de morrer. Morrer é estupido. Não comprehendo a morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a essa hora extrema, só essa hora me interessa... Um sêr grotesco, um unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos. É caricato e pega-me doirado.

E o peor é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguem o confessa senão a si proprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a gente se esquece a vida tem já passado. E quando a vida tem já passado é que nos agarramos com mais saudades á vida. A resignação custa muitas horas doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte... A morte é inevitavel? —pergunto baixinho. E como a morte é inevitavel, como não lhe posso fugir, para não perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem sabe se este sonho que a humanidade traz comsigo desde que pôz o pé no mundo não é o maior de todos os sonhos e o unico problema fundamental?

A verdade é que teima. Não nos larga na vida e levamol-o escondido para a cóva. A verdade é que foi esta sempre a nossa maior aspiração, que há-de acabar talvez por se converter em realidade. Temos construido o universo assim, podemos construil-o de outro modo. Falta só um passo... A vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que nós queremos é este sol, esta pobreza, esta dôr, estas ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a vida que acceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro primario. Protestas do fundo do teu sêr: a morte é absurda. É preciso cortar um nó que não existe. E passar do imperio do possivel para o imperio do impossivel é talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos os instantes. Acordo e grito:—Eu não vivi! eu não vivi!—E cada vez o meu protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida e inutil, quero recomeçar a desgraça.

 

Ninguem pode com semelhante peso. Não há quem possa com elle. Na solidão, a primeira coisa que procuro é a ninharia para esquecer a morte. Um minuto sós a sós com o espanto, recamado de mundos, que caminha desabaladamente no silencio, dura um seculo e outro seculo ainda. Não posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma espada e olhar para a voragem d'um e d'outro lado; não posso arcar todos os dias com esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia. E agora até a insignificancia me é impossivel. O silencio... O peor de tudo é o silencio e o que se cria no silencio, o que eu sinto que remexe no silencio...

 

Carrega em cima de nós tal peso que ninguem o suportava se désse por elle. É o peso do espanto.

 

Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume que levanta os côtos esfarrapados, como se fosse voar, quando o padre Thimotheo dá o seu passeio habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia de metros quadrados com arvores ethicas do jardim, as Souzas arrastam os vestidos, ultima moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa de humidade a que ella costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela voz de desespero cada vez mais phrenetica, que não cessa de prégar, e que me põe em frente de mim mesmo, que é o que mais temo no mundo.

—O que eu quero, é tornar a viver. A minha saudade é esta. O que eu quero é recomeçar a vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas. Não reparei que vivia e agora é tarde. Sinto-me grotesco. Recomeçal-a nas tardes estonteadas da primavera e na alegria do instincto. Encontrei há pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de pé, e um unico ramo ainda verde desentranhou-se em flôr... Podesse eu recomeçar a vida!—Cala-te!—Terei de confessar a mim proprio que nunca amei, que nunca fui arrastado até ao amago pelo desespero ou pela paixão e que de tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida a mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a cóva com a bocca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a fél—antes a dôr!...—Mas sonhaste, estupido!—Sonho. E o que me resta nas mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos de velho, senão grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com alguma tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver com o instincto, como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as féras, sem pensar, sem sonhar, sem palavras nem leis, até cahir a um canto, morto e feliz, de barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...—Quantas conversas temos tido juntos! quantas discussões inuteis! quantos desesperos de que não há sahir, batendo com a cabeça na mesma parede! Ás vezes subjugo-o:—Cala-te! cala-te!—Ás vezes fala elle mais alto e domina-me. Rio-me de ti e impões-te-me. És ridiculo e só tu te atreves; só tu és feliz porque te atreves a dizer inconveniencias sem fé nem lei. Só tu não tens methodo, só tu te fechas a sete chaves á tua vontade, livre, feliz e despresado. No fundo invejo-te.

Aquilo incha, trasborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e molha-me. Aturde-me. É só elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado e mais alto, com interjeições e gestos desordenados pelo meio:— Estupido!—Hei-de falar! quero falar! hei-de por força falar!—E há aqui dôr e ridiculo. Há um esgrouviado a dizer vulgaridades, e uma coisa que vem da raiz da vida n'um fremito e que me mete medo. Um bafo, e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a prégar sem tom nem som.—Toda a gente se ri de ti...—Deixal-o.—Toda a gente se ri! toda a gente se ri!—Quero por força tornar a viver! hei-de por força tornar a viver! Sinto que a minha vida não termina aqui. Este sonho hei-de leval-o a cabo.

Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:

—Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno não é uma palavra vã. É um desespero sem consciencia nem gritos. A vida não é senão uma tregua —um ah—e logo um mergulho n'esse inferno de dôr. Na dôr estreme. Eis o que é a morte: a dôr estreme, a dôr emudecida. O terror instinctivo da morte é uma advertencia. Não quero morrer e vou resuscital-os!... Viver sempre! amar sempre! sonhar sempre!—que esplendido sonho! A vida é quasi nada. Tudo que custou tanto desespero, tudo sumido n'um buraco para sempre. Ouves? Para todo o sempre. De que serviram os gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tôpo do calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo a que me apego é impalpavel: é a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma expressão de ternura, e que nunca mais tornarás a encontrar; é aquella manhã de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e que se não repete, é o minuto que nos escorre das mãos como um fio d'agua, mas doira-o o sol, e é esse mesmo minuto translucido que quero

tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa mesma ninharia que é a vida a que deito as mãos com desespero. A vida é nada—é esta côr, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo. É os meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, até da fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as horas inuteis, o possivel e o impossivel. A floresta não faz parte do meu sêr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida da floresta; o céo não faz parte do meu sêr, e eu sou o céo profundo, o céo tragico e o céo esplendido. Dá-me a vida—dou-te tudo em troca... Agarro-me como um naufrago, agarro-me com uma saudade, que vem não só de mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para todo o sempre!—E, com um suspiro mais fundo, repete:—Suprimi a morte, vou resuscital-os!

Trago comigo um pó capaz de doirar a propria eternidade. Não sei d'onde me vem, nem porque nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco deante do negrume—elle reanima-me. Insiste deante das forças desabaladas e da imagem da morte. Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria e cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe horror.

 

Se com o nosso esforço colectivo forjamos o mundo, porque deixamos a morte de pé? Criei o universo. Destaquei da massa confusa o tempo—destaquei o sonho.

Fui eu que dei valôres e perspectiva ao quadro. Fui eu que lhe entornei ilusão. Na verdade só existem côres como só existem gritos. Porque não hei-de acabal-o? É talvez uma questão de vontade. Se até para dar o primeiro passo precisamos de crêr, porque não havemos de dar o ultimo passo? Ilusão, mentira? Mas eu é que faço a verdade e a mentira. Dou-lhes o meu bafo. Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade pode não existir. Com uma mentira posso forjar outro mundo. Arredemos de vêz este suor frio.

 

A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos. Ainda vivo, já estou em seu poder: faço parte da legião. Noite immensa sem gritos. Peor que sofrer é não sofrer— para sempre. É nunca mais sentir. É ter as orbitas vazias voltadas para o céo e n'ellas não se reflectir a luz das estrellas. Mais um passo e é o silencio absoluto. Mais um passo e tapas-me para sempre a bocca.

 

Não me importa ser feliz—não me importa ser desgraçado. O que me importa é o que há depois, é o que está por baixo da terra e o que está por cima da terra.

 

Já não lucto. E elle insiste e cada vez préga mais alto:

—Eu não vivi. Que importa, vaes morrer! Para sempre, para todo o sempre, o mesmo buraco d'onde não sae rumôr. Escuta isto: d'onde não sae rumôr. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicação te é licita, nenhuma transacção é possivel. A morte não espera nem atende. É estupida. Primeiro é estupida, depois é incomprehensivel. É tremenda porque contem em si mistificação ou belleza. Absurdo ou uma belleza com que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginação não atinge. Se é o misterio, e se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se é o nada repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrellas, e outros vagalhões de estrellas... Para ella tanto vale um segundo como um seculo, carrega um sêr inutil ou um sêr delicado com a mesma indiferença para o tumulo. Tens passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde a arredamos: a vida não é senão uma constante absorpção na morte. Então para que nasci? Para vêr isto e nunca mais vêr isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para presentir o misterio e não desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro. Estou nas tuas mãos... Adeus sól que não te torno a vêr, e agua que te não torno a vêr. Arvores, adeus arvores que minha mãe dispôz; adeus pedra gasta pelos seus passos e que meus passos ajudaram a gastar. Para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te. Interrompes os meus calculos. És o maior dos absurdos. Vêr para não vêr, ouvir para não ouvir, viver para morrer!...

E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como á cobra a pelle, a vida comesinha. Se é a vida superior é tambem o meu lume. É o ruido monotono da chuva nas vidraças. Além da alma há outra alma que se apega ás pequenas coisas, á columna d'oiro perfumada que me entra de manhã pela janella—outra alma humilde e pequenina, que se acomoda com um fio d'agua, um cantinho de lume... É a alma da materia. Não, o fim logico da vida não é morrer, é viver sempre, é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou resuscital-os! Vou resuscital-os! E em elles se pondo a caminho vaes vêr doirado. A vida toma novo impulso. Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vaes vêr a côr que toma o mundo, as tintas que o mundo escorre, e as flôres que as arvores criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...

A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atraz de outra, a reflorir. Há sepulchros até ao fundo do globo. De mais longe vem um impeto—são outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra que se despega da obscuridade, com todas as lagrimas que se choraram no mundo condensadas, vae desabar sobre nós. As suas palavras criam. O peor foi tocar-lhe! Neste debate entra agora o mundo todo. Entram as arvores e as pedras. Não há duvida para mim: quando sahir disto tenho renascido: o mundo não é o mesmo mundo, o céo o mesmo céo, a vida a mesma vida. O que existe é outra coisa doirada e immensa, esfarrapada e immensa. Põe-se a caminho outro panorama, como se todo o infinito de repente se aproximasse de nós, com os seus mundos, o seu misterio indecifrado. Põe-se a caminho a immensa floresta apodrecida, outras arvores como nunca vi arvores, e outros sêres desmedidos e phreneticos. Põe-se a caminho uma vida que há muito sentia aqui ao lado, sem me atrevêr a olhal-a. Tudo mudou de repente. Repara que o céo augmentou em profundidade. O que existe são gritos, o que existe é o espanto. O peor foi tocar-lhe...