Húmus

Raul Brandão · Capítulo 19 de 23

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Húmus

A Arvore

Agora é que ella anda á solta! agora é que ella anda á solta!

 

A ARVORE

 

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Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que dê sombra e ternura—uma velha arvore carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio morto de cansaço e de mentira deito-me ao pé d'ella e renasço. Todos a aproveitam—para o lume—para traves—para o caixão.

 

É filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.

 

A dôr afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignação. E depois desta vida acceita ainda outra com o purgatorio e o inferno.

Pouco e pouco a ternura torna á supuração. A filha desapareceu. Sabe que a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente a desgraça da filha do que a pobreza da D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de cão há uma inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Está afeita. Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis vintens, doze vintens... De dia carrega bahus, á noite o quadro é este: a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico na cabeça, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.

Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por outras mãos, atraz d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que embalaram berços, choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão mais pesado. Até já nem é Joanna que fala, mesmo para contar a sua historia. Ou só, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:

—E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu disse-lhe:—Deita-me ahi pão quente n'uma malga com meio quartilho de vinho.—E vae ella disse-me:—Tenho ahi pão velho, não enxerto o outro.—E vae eu disse-lhe: —As bagadas que tenho chorado caiam sobre ti.

Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dôr. Se lhe falam dos ladrões finge que não entende. Se insistem, a Joanna responde com olhos de pasmo:

—Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.

Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida. Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de louça para lavar, de carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a, engrandeceste-a!...

 

Deante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela dôr. O ultimo gesto que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas esboçado apenas, como quem segue um fio já muito tenue de sonho que não tem força para levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao peito—gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo, repetido pelas successivas imagens de mulheres já desfeitas em pó, repetido no futuro por milhares de sêres incriados.

O trabalho da vida é persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma pedra sobre outra pedra Não é só por fóra que creamos rugas: por dentro a usura é immensa. Só a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a dizer era como se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flôr. Um fio d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás mãos e aos trapos que a vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz. Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão maxima da dôr. A Joanna debruça-se sobre uma grandeza com que não posso arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem só ella no mundo não se importa de morrer.

Talvez a morte seja para ella a vida.

 

Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos. É como a faúlha d'uma estrella, perdida na immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito—sempre. Por isso ella teimava:—O menino está vivo!...—Por vezes parece que se apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada há seculos. Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva, a sua humildade é instinctiva... Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que tira a codea á bocca para a dar aos netos. É a velha que encontraste há bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto á cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não poude pousar. Embala os berços. Pega nas creanças ao collo. Desde o principio do mundo que estas mãos asperas amparam. Não é uma figura—é uma serie de figuras...

16

 

O desabar da chuva lá fóra dil-o-hieis não exterior, mas ligado ao teu proprio sêr: são lagrimas que tenho ainda para chorar. Da escuridão opaca resurgem e rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a alvenaria, e os cavadores que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma dôr. Este cheiro a pobre, estes traços corroídos pelas lagrimas, estes typos amolgados pela desgraça, povoam-me a noite toda e dizem bem com o desabar ininterrupto de lagrimas lá fóra. Outra coisa exprimem as figuras denegridas que vão aparecendo por traz da figura da Joanna...

Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem um velho que móe e remóe obstinado uma codea de pão. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando morreu. Deram com elle cahido sobre o lar, levaram-n'o em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:

—Vocemecê conhece-me? vocemecê conhece-me?

Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pelle é como a crosta que calcamos. Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afóra os cabellos brancos que o tornam humano. O tempo revestiu-o da mesma côr dos montes. Deshabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silencio só o comparo á pedra. Tudo isto foi pedra. Elle e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida está ligada á vida da terra. Creou-a. Á terra só falta comel-o.

Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos de rocha e mortos, poeira d'arvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pelle como a tua pelle.

 

A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Christo, a um Christo que tivesse vindo até á velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.

 

Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz: —O corpo pede-me terra:—A pobre, com um sacco de estopa ás costas, espera a esmola e reza. Agora este... Este resequiu como os morros de pedra, como a lage compacta. A pedra pega pedra. As mãos tem terra nas rugas desde que lidaram com terra. Curtiu annos de fome e de terra entranhada na pelle, entranhada na alma.

O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se d'um lado ao coração do monte. Por tecto uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflição, tudo no mundo deita as mesmas raizes. Uma casa não é só alvenaria: é dôr e vida e morte. A arvore tambem aqui entra: a arvore é uma construcção viva.

 

A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que, para o que havia de nascer, só amanharam um panninho, duas camisas e um lenço. Vieram as dôres e nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas, rasgou o lenço e o panno ao meio, e, no casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher poz-se a chorar dando um seio a cada um.

 

Mais outras figuras se destacam ainda da noite. São de terra e pedra, são figuras deshumanas. Remóem o pão devagar, e o fumo sobe pela parede e enegrece-a, camada atraz de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra é um calháo arrumado á parede, uma lasca negra e resequida. E agora, noite funda, todos os mortos estão alli presentes e atendem... A pedra tosca do lar, a pedra salitrosa á volta da qual se juntam, é muito mais que um calháo. A pedra é sagrada.

Está alli o montante que acometeu a pedra do monte dura como aço, e dias após dias curvou-se sobre a fraga e meteu-lhe o ferro até á raiz. Um delles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabeça encostada ao granito. A terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e caracter. Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e o monte suportam a mesma dôr, que não sabem exprimir.

A côr é a côr da fome, o frio o da pobreza. Gasta-o e desgasta-o o uso da vida e a terra entranhada.

É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na mulher as lagrimas. Ficou só a expressão descarnada, como nos montes, como na propria casa onde as coisas são simples e eternas. Pariu-lhe alli a mulher, entrou-lhe lá dentro a morte. E as palavras reduziram-se tambem a esqueleto e teem o mesmo emprego sobrio: nem o cavador nem a femea teem que dizer um ao outro. Só o môrro consegue deitar um fio d'agua, que lima alguns palmos d'herva. Concentrou-se em muda aflição para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.

 

O escuro gera uma serie infinita de mulheres... Há em todas um momento de ternura antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos a femea encardida está velha. Está velha de fome. Está velha de trabalho. Ella carrega. Ella levanta-se de noite para coser a fornada ou para ir á villa. Ella quando tem um dia de folga vae ganhar seis vintens de jornal. Ella pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão mais pequeno. Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraça, e com os annos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas, salientam-se traços, e a mesma côr humilde reveste a mulher e a alvenaria. Ella e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem e o dia d'amanhã; ella e os filhos para crear, os carretos para fazer; ella e a vida, todos os dias se vão amalgamando, luctando, empurrando com desespero, até se crear esta figura e se apagar a outra, gasta pelo uso da dôr e pelo uso das lagrimas.

Sósinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e exhaustas espalham ainda ternura. Curvam-se sobre os berços, vão pedir pelos homens. E sobre isto ignoram-se.

—Mãe—pergunta a filha mais moça—mãe que coisa é casar?

E ella responde como sua mãe lhe respondera:

—Filha, é fiar, parir e chorar.

A vida é uma coisa seria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado mais amargo, a tarefa peor de fazer. Se choram, choram baixinho para que as não ouçam chorar, alli nas quatro paredes de alvenaria, alli onde as trouxeram pela mão, entre as coisas familiares, o fôrno, o lar, os potes, a enxerga... Na enxerga onde morreu a mãe, nasceram tambem os filhos.

 

Há seculos que a mesma serie de figuras repete os mesmos gestos. Há seculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a terra. Há seculos que comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até á cova. Há seculos que choram as mesmas lagrimas e o monte deita a mesma agua. As mulheres trazem os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes falaram a ellas. O que se gasta, o que a dôr e a vida consomem, é a parte externa: as lagrimas renovam-se sempre. As leiras dão sempre o mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio d'agua, que, como o fio de ternura reproduz a vida e remoça sempre quatro palmos d'herva. A mulher, esta ou outra, chora, debruçada sobre a maceira, pare com dôr no mesmo catre, morre com dôr na mesma enxerga.

 

E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro saem gemidos. A casa desapareceu: só correm lagrimas. Sinto uma mão que procura a minha mão, e uma voz que me diz ao ouvido:

—Escuita! escuita!

É a creada que serve o cavador desde pequena, a pobre que só tem de seu a saia que traz vestida, que mistura lagrimas ás minhas lagrimas.

—Escuita! escuita!

E aquece-me as mãos com bafo.