Húmus

Raul Brandão · Capítulo 20 de 23

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Húmus

Papeis do Gabiru

E se remexo o brazeiro—vejo outras figuras, outras ainda, até ao inicio da vida. Estão alli o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado de terra, mal o descortino. E atraz d'estes, ainda outros, mudos e disformes—outros como terra—outros como arvores decepadas—outros como fome e que mal sabem exprimir-se—outros a quem só se vêem as mãos nodosas—e a serie sumida de mulheres, bronco e dôr, que a vida consumiu, e que procuram debruçar-se para ouvir... Tão longe! tão longe!... Mal descortino já a luz tão pequenina e humilde, mal distingo a vida na treva condensada—uma luzinha de candeia, que há seculos vem de mão de mulher em mão de mulher... Tudo volta á cinza. Diante de mim está sosinha a Joanna, que me mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as mãos só dôr...

 

 

O mundo é feito de dôr—a vida é feita de ternura.

 

PAPEIS DO GABIRU

 

20

 

Chove um dia, outro dia, sempre... Amanhece um dia nublado, outro dia alvoroce negro e aspero. O vento abala a pedra sobre que é construido o casebre. O inverno tem a sua voz propria, a sua côr, o seu vestido em farrapos com que agasalha os montes deixando-lhe os ossos de fóra. Mas o inverno é sonho. Só agora o comprehendo. É sonho concentrado: sob esta casca resequida está uma primavéra intacta. Esta voz clamorosa é a voz dos mortos. Uma pausa, a prostração da tempestade, e depois redobra o clamor... Andam aqui as suas lagrimas... Na sufocação reconheço esta voz que me chama. E depois a tempestade, novos gritos, a escuridão profunda...

 

Lá andaremos todos não tarda! lá andaremos todos não tarda!

 

E ouço sempre a mesma voz:

«Que frio o outro mundo! Que impassibilidade a do outro mundo!

 

Saudade, saudade de tudo, até do fél, saudade de te não sentir ao pé de mim. Tenho saudade da vida. Só poder aquecer-me ao lume, só sentir o lume n'este inverno sem limites, n'este frio de morte—sem outra primavéra! O que a vulgaridade sabe bem! o que a materia sabe bem!

 

Não vejo. Ceguei.

 

Disperso-me, e por mais esforços que faça, sinto-me desagregar: perco pouco e pouco a consciencia de mim mesma. Sou ainda ternura e pouco mais. Já não tenho lagrimas.

Quem me dera a desgraça!

 

E uma pena da vida! uma saudade da vida! uma tristeza de não poder misturar-me á vida! A vida—e um cantinho do lume, a vida banal, a vida comesinha... Tenho saudades do muro a que costumava queixar-me.

 

Vive devagarinho. Aquece-te á restea do sol como quem nunca mais tornará a aquecer-se; perde todas as horas a trespassar-te da vida.

 

Deixa que sobre ti caia o pó d'oiro. Vive-a.

 

Tu és a nuvem, tu és a arvore. Enche a consciencia de todas estas coisas, porque não tardarás a perdel-a.

 

Vive—não tornas a viver. Põe d'acordo a tua alma com a pedra, extrahe encanto do céo e da miseria. Pudesse eu gritar! pudesse eu ter fome!

 

Só agora dou pelo sabor das lagrimas.

 

Sorri, esquece, dorme, sonha...»

 

21

 

Não me comprehendo nem comprehendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo me parece inutil, e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um naufrago a um pedaço de taboa.

 

Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dôr; chamo vida e morte a este cataclismo. É a immensidade e um nada que me absorve; é uma queda immensa e infinita, onde disponho d'um unico momento.

Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha propria alma. Faço parte duma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dôr ligada á minha dôr, consciencia ligada a minha consciencia.

 

Estou até convencido que nenhum d'estes sêres existe. Este fél é o meu fél, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são apenas expressões de dôr—e mais nada.

 

Nós não vemos a vida—vemos um instante da vida. Atraz de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavéra está aqui, mas atraz d'este ramo em flôr houve camadas de primavéras d'oiro, immensas primavéras extasiadas, e flôres desmedidas por traz d'esta flôr minuscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que ahi vem um tropel, um sonho desmedido que ha-de realizar-se. E nenhum grito é inutil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A alma que vae desesperada á procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os mortos.

O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma n'este turbilhão infinito e perpetuo, n'este movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A dôr gera dôr n'um desespero sem limites.

 

 

Eu não sou nada. Sou um minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto—nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.

 

Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos d'uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos d'uma coisa embravecida pela eternidade das eternidades. Sinto-me nas mãos d'uma coisa immensa e cega—d'uma tempestade viva.

 

Toda a vida está por esplorar: só conhecemos da vida uma pequena parte—a mais insignificante. E o erro provem de que reduzimos a vida espiritual ao minimo, e a vida material ao maximo. O homem é um S. F. ligado a todo o universo.

Deus é eterno com a mascara sempre renovada. A alma há-de acabar por se exprimir, Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa bocca, há-de acabar por falar claro.

Está tudo errado. Só há um momento em que o comprehendemos. Mas n'esse momento já não podemos voltar para traz. É quando, fazendo ainda parte dos vivos, fazemos já parte dos mortos.

Não só a sensibilidade é universal—a inteligencia é exterior e universal.

 

O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração.

 

A materia tambem existe em estado de nublosa—isto é um estado de dôr.

 

Toda a theoria mechanica do universo é absurda. D'ahi a alguns annos todos os systemas serão ridiculos—até o systema planetario.

 

O sonho completo é o universo realizado.

 

23

 

Há dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mãos da morte. Há dias em que não distingo a vida da morte, e agarro-me como um naufrago a este sonho...

...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu és o meu sonho phrenetico. Não há outro maior. Cheguei ao ponto em que te não distingo da vida. Tu és a vida maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua deixa o seu rasto, caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida e avança desenraizada para mim... Cheguei ao ponto, Morte, em que não me metes medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me. Só tu agora me prendes os olhos e de ti não posso arrancal-os. És o unico misterio que me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu que só de ti espero. Só tu resolves e explicas. Só tu acalmas. Acceito-te mas intimo-te. Toma a forma que quizeres, mais negra, mais tragica, mais torpe—bem funda é a noite e está cheia de luzeiros:—recebo-te, mas como um passo a mais para outra iniciação, para outro assombro, e até para outra dôr se quizeres, porque da dôr extraio mais belleza, mais vida e mais sonho.