Húmus

Raul Brandão · Capítulo 21 de 23

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Húmus

Terceira Noite de Luar

...E contudo esta resignação é ficticia... Não, nunca acordei sem espanto nem me deitei sem terror. Ainda bem que o digo!

 

Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho e a ferro. É ternura, desgraça o desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão do lodo. Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.

 

TERCEIRA NOITE DE LUAR

 

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Ha no mundo uma falha. Os poentes são labaredas rôxas com resquicios de escarlate e dois, tres grandes jactos violetas que se estendem pelo céo—uma maravilha chimerica. A outra primavéra prolonga-se: superabundancia de flôres nas arvores, espiritualidade na materia, como se as arvores antes de morrer se exgotassem em sonho. Mais flôres, mais poentes onde o oiro e o rôxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de côres, que presagiam catastrophes, e um ruido apagado, esquisito, insuportavel dentro de nós proprios, que comparo ao som d'uma borboleta esvoaçando contra as paredes d'um vaso.

 

É a morte que faz falta á vida.

 

Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnetico, onde se misturam todas as coleras, todos os interesses e todas as paixões, e essa alma envolve, penetra e reclama dôr. Formam-se tempestades e terrores electricos. Anda ávida, desencadeia catastrophes, desaba desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se—é peor: ninguem lhe suporta o peso. Produz jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes incendios no céo, como se o globo ardesse. Despenha-se em montanhas de côr, em abismos rôxos, paira em campos ethereos de uma serenidade elysea. São talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez a vida universal perturbada. São outras gerações esquecidas, camadas informes de que ninguem suspeita o nome, legiões sobro legiões incognitas—é a vida embrionaria que reclama a sua entrada na vida.

 

E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro subterraneo: ouço passos e vozes de mais outros ainda que sobem para a superficie. Todos os mortos se misturam aos vivos. Arrombaram de vez os sepulchros. Tu que não viveste queres agora por força viver; tu que não mataste queres agora por força matar. Mais mortos desde o inicio—maior mixordia. Todo o esforço era para virem á supuração. Atraz d'uma camada havia outra camada. Ha seculos que carregamos nas tampas dos sepulchros para os não deixarmos sahir. Na realidade nunca se jogou o gamão, nem se disseram palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia estava intacta uma coisa desconforme, e ás vezes por uma fresta irrompia a claridade do inferno... Agora a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em fumo.

 

O que era vida irreal, é agora realidade, o que era vergonha, ninharia e ridiculo, com mancha em cima] é a vida agora. O que toma pé são os sonhos, o que se agita são as paixões desregradas. Não ha limites nem peias. Vêem-nos como eu te vejo a ti. Tenho deante de mim este espectaculo, como se fosse possivel aos homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias e paixões. Elles são aquillo que ocultamente desejavam ser, são o que não se atreviam a ser. Sob um mundo de verdade ha outro mundo de verdade. É esse mundo invisivel e profundo que passa a ser o mundo visivel. É esse. Todo o homem é uma serie de phantasmas e passa a vida a arredal-os. Chegou a vez dos phantasmas. As nossas ideias e paixões é que formam as figuras que actuam na vida.

 

Terceira noite de luar. O perfume estonteia. Terceira noite de luar branco, indiferente, coalhado, terceira noite de espanto. Redemoinhos de figuras e d'acção até aos confins dos seculos. Outr'ora, n'uma vida monotona e incerta, só se realisavam duas ou tres horas de exaltação. A vida agora é uma exaltação perpetua.

Tudo mudou: a arvore não existe como a pedra não existe. O unico mundo real é o mundo irreal. Todos nós andamos a crear um mundo que é o unico verdadeiro— os vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afan para o mesmo fim. Já a materia se adelgaçava... O mundo ideal é o mundo da dôr, do sonho, e o universo reconstruido, é o maior dos dramas—com a vida oculta ao lado—e cada dia tem o peso d'um seculo.

 

As creanças e os passaros emudeceram, o que produz na terra um silencio atroz. Os olhos encheram-se-lhes d'uma tristeza irreflectida, inocencia e extracto de vida, sentimentos que se não coadunam. Tenho vontade de fugir para onde não ouça o silencio... Avança direita a mim a floresta apodrecida. Mais perto! mais perto!

Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina como lady Machebeth as peores ruinas. Esta vida é feita de todos os nossos esforços e dos esforços do fundo. Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu queres falar com a tua voz, é que as ordens são mais cathegoricas e o conflicto monstruoso. Terceira noite de luar, branco, estranho, inefavel. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, tres horas, e canta ainda apaixonado e phrenetico... Debalde quero libertar-me dos phantasmas, debalde quero viver da minha propria vida!...

 

É que a vida não és tu nem eu, a vida é uma massa confusa e heterogenea, um pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma tempestade electrica, com boccas abertas para risos e boccas abertas para gritos. Não é um detalhe—é um panorama. É um immenso farrapo dorido. Anda aqui a alma de Joanna e a seccura das velhas mesquinhas. É tão necessaria a este fluido a dôr muda do cavador como o sonho desconexo do Gabiru. Anda aqui a primavéra, as lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a arvore, a tua inocencia e a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma não vive sem a tua alma, este grotesco sem o teu genio, esta vida sem a tua morte. Andam aqui os mortos e os vivos, a arvore que há-de ser arvore e o tronco que se desfez em luz. É um sêr immenso a que não vejo senão partes. Anda aqui a luz e a sombra, e a luz não se distingue da sombra nem a vida da morte. A vida está tão feita adeante de nós como atraz de nós. Está tão feita no passado como no futuro. Se o futuro ainda não existe, o passado já não existe. E tudo isto se congrega. A vida absorve-me e ponho-a em acção. Impregna-me e faço-a caminhar. Pertence-me e pertenço-lhe. É o passado e o futuro— Jesus Christo vivo, Jesus Christo morto, e Jesus Christo resuscitado.

 

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Estamos á superficie d'esse oceano embravecido, e o impulso vem das camadas mais profundas, das camadas informes. São todos. São até os que nunca tiveram olhos para vêr, os sêres esboçados, com mãos rudimentares, aparencias d'arvores e de figuras mutiladas. É a terra viva.

 

É só sonho, é sonho estreme e dôr estreme. Cada um assiste á projecção da sua propria figura monstruosa no passado e no futuro, cada figura tem emfim as dimensões de dôr, que as palavras, as regras e os habitos lhe não deixavam ter. Cada alma é desmedida e tragica e vem desde os confins da vida até ao infinito da vida. Cada um na floresta entontecida representa o maximo de sonho e o maximo de ternura. Cada sêr é emfim um sêr completo e doirado, atinge a belleza e Deus.

As florestas já mortas, a luz das estrellas desaparecidas no cahos—tudo aqui está presente. O esforço dos mortos, o sonho dos mortos, o desespero dos mortos sobre mortos, o reflexo de ternura, a mão que amparou, a bocca que sorriu, levadas pelo vento que soprou há dez mil annos, aqui estão vivos. Aqui está vivo o sonho que sonhamos todos, o primitivo sonho humilde e o sonho repercutido de seculo em seculo, assim como a tua voz compadecida. O sonho sepultado nas profundidades da terra, o primeiro resquicido, o nada e o sonho phrenetico, tudo aqui está na floresta embravecida. E, com ou sem bocca, com ou sem consciencia, nunca mais deixarei de andar n'isto, disperso, amalgamado, confundido, de fazer parte d'este drama, queira ou não queira, proteste ou não proteste. Tudo é inutil, todo o esforço inutil, todas as palavras inuteis. Reconheço-o. Mas não me canso de prégar, não posso deixar de prégar, até cahir vencido e exhausto dominado e deslumbrado. Na floresta embravecida, em que todos participam do mesmo sêr, até a mulher da esfrega encontra emfim Jesus:

—Será vocemecê o José do Telhado que o tira aos pobres para o dar aos ricos?

—Sou um pobre de pedir.

—Será vocemecê Nosso Senhor Jesus Christo que veio ao mundo para nos salvar?

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Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que me atemorisa o som da minha propria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os outros? São elles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os mortos! eu sou os mortos! Eu sou uma serie de phantasmas, que se açulam entre mim e mim. Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares d'annos, e perdido, consumido, consegue hoje realisar-se, o grito que a morte calou n'uma bocca ignorada, faz écho no mundo. Todos os sonhos são realidades, os mais altos, os mais humildes, os mais bellos e os mais grotescos. Só os sonhos são realidade n'esta noite quieta e caiada, com uma mancha vermelha de polo a polo.

 

Aqui está agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte, passiva, com a lua espargindo luz sobre o doirado. Aqui está a arvore, e era a isto que se chamava a arvore! Aqui está a pedra e era a isto que se chamava a pedra! Aqui está o céo e era a isto que se chamava o céo! Reconheço-vos.

 

A morte encontra-se só—cortaram a arvore pelo meio. Anda pelo céo como um cometa que desatasse aos tombos e aos gritos—de desvario em desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia, muda de côr, abre a cauda de oiro, de trambulhão em trambulhão...

 

A morte faz estremecer o mundo até á raiz. A morte já não tem a mesma significação. A morte é agora inutil e anda á solta no infinito, desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O drama que se passa em cima é maior que o que se passa em baixo. É peor este tumulto de inferno, este clamor de que me não chegam as vozes, esta força incoherente de pé—todas as forças de pé—posta a caminho para o desconhecido. É peor. E a cada grito em baixo corresponde um grito em cima.

 

Reconheço o grito que sae da noite. São os vivos e os mortos... Mas então que significação tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no meio d'esta balburdia, d'esta escuridão cerrada, d'este doirado feroz, d'este redemoinho sem nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para que é que eu grito e tu gritas? Isto não és tu! isto não sou eu! Isto é a vida temerosa, de que não representas senão uma insignificante particula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate é incessante entre os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao mesmo tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplendido.—Oh eu quero crêr!—Porque é que gritas? —Fecha os olhos! fecha os olhos!—Agora sou eu quem falo! Agora são elles que falam!...

Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de baixezas e capaz de sacrificios. Tão pequena! tão tranzida! Não vales nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste arcar com o universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a ilusão, a tinta do céo, o sonho erratico das vastas florestas. Eras tu! eras tu!... Tem-me custado a

dar comtigo, tão mesquinha e capaz de povoares o céo de estrellas e o mundo de sonho. Atreveste-te a tudo. Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre anciosa, nunca satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me aos encontrões contra a massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas n'esta procella de sonho. Fôste a melhor e a peor parte do meu sêr.

 

Eras tu! E pude com esta enxurrada de côres, de tintas, de impulsos, a instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dôr! Fiz parte da dôr. A desgraça viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com a vida! Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia duzia de palavras. Que importa ser ridiculo? Que importa ser a D. Idalina ou a D. Ingracia? Suportei a vida—suportei tudo. Que importa a tua mentira, se atravessaste a labareda e ainda conservas o chale tisnado?

 

Para onde vamos aos gritos? para onde vamos aos gritos?

 

E cada grito em baixo corresponde um grito em cima, a cada grito um estremeção no mundo, que se repercute de universo em universo. Um grito que acorda mais sonho e gera novo desespero.

 

Outro grito, outro mundo doirado, outra forma dorida que se deita a caminho.

 

O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam ao mesmo tempo de pé para essa coisa immensa e doirada, n'um deslumbramento. Os mortos que nos pareciam mortos, camada sobre camada, estão aqui de pé ao nosso lado.

E o pezo é cada vez maior. Até agora viviamos com elles, respiravamos com elles, mas não sentiamos o pezo d'essa poeira viva que é a sombra e a luz. Agora não podemos com elles...

 

E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos: o uivo penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um grito em cima.

 

E as mulheres das viellas põem-se a chorar, os ladrões das estradas desatam a chorar...

 

O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Nós proprios? O homem que range por não poder suportar a vida? O grito domina tudo, trespassa o globo e echôa no mundo.

 

E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se entranhou de salto na vida, outro turbilhão arrasta os homens. Modificaram-se as estrellas com os sentimentos. A outra coisa no infinito reflecte-se na vida dos astros que mudam de côr, na dôr que tomba desgrenhada de quéda em quéda. Todo o mundo se transforma a nossos olhos. Cada sêr augmenta como se encerrasse em si a vida até aos confins dos seculos. O passado não existe, o futuro redobra de proporções. Perdeu-se a noção da desgraça e a noção do tempo, e a nodoa de sangue da Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade do mundo, alastra entre os astros, de lez a lez, na profundidade do céo.