Húmus

Raul Brandão · Capítulo 16 de 23

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Húmus

Primavera Eterna

Temos de fabricar novas leis. Façamos leis para as classes superiores, e leis para as classes inferiores— leis para os pobres e leis para os ricos. As leis modificam-se com as consciencias, e as consciencias modificaram-se.

 

 

Formemos classes—as de cima e as de baixo. O problema da educação é um problema capital.

 

O amor é um unico minuto. Um minuto esplendido. O resto é habito, palavras, hesitações, trampolinice, livros de capa amarella...

 

E o peor é que isto não são phrases, o peor é que isto existiu sempre e impôz-se-me sempre. O peor é que quando eu te falava e sorria, e tu me sorrias extenuada e palida, o meu pensamento era sempre o mesmo, e só a custo continha o tumulto dos mortos. O peor é que eu sei que desde que este phantasma se pôz a caminho, não o posso deter. O peor é que eu li hoje nos teus olhos ternura e espanto. O peor é o que os teus olhos exprimem—e eu não o posso deter...

 

PRIMAVERA ETERNA

 

5

Segunda noite de luar, segunda noite de espanto. As arvores são phantasmas—os homens são phantasmas. Á noite a velha cerejeira é uma aparição. A mesma febre devora no quintal friorento as macieiras anãs. O respeitavel Elias de Mello recusa reconhecer-se: assiste com uivos ao desmoronar da propria respeitabilidade. Chegou a primavéra. Deita flôr a D. Leocadia, a D. Herminia e a D. Penaricia. Todas as arvores do monte se consomem de sonho.

 

Primavéra entontecida de gritos e rancôres, É a villa feita sonho; são aspirações ridiculas, restos trôpegos que procuram adaptar-se. Para resistir forjaram a mentira, forjaram a mania, forjaram a abjecção, e essas pequenas coisas sem existencia chegaram a ter um logar mais importante que muitas outras a que chamamos reaes.

 

Phisionomias de dôr, phisionomias concentradas, phisionomias de desespero e paixão, vão aparecendo sob cada phisionomia, e todos deparam com sentimentos e palavras que nunca tinham encontrado. —Dez annos, vinte annos de galeras, deixa-me, vae-te, some-te!—O homem roe dentro do homem: criam-se olhos que veem na obscuridade. Começam a distinguir na massa confusa, no cahos, nas duvidas, e descem a profundidades que não lhe estavam destinadas. Não é só o homem d'um momento, é uma série de figuras ainda por crear: é o homem do futuro.

 

Mais braços na monstruosa arvore de sonho, mais braços que atingem o céo, mais tinta forjada de desespero. A propria noite escorre pus doirado...

Na pequena villa já havia, como em todas as almas, um Robespierre, um cadafalso, um Shylock interior, odios, ganancia e uma serigaita a cantar. O quinhão é igual para todos—o que pode é estar sepultado. A questão era de proporções: os valores já não estão na mesma escala. Desapareceu o ridiculo. Pensem n'isto: desapareceu o ridiculo. Num minuto acordou toda a peste, sobresaltou-se toda a peste, todo o ferro velho, toda a mania resignada á força, comprimida á força, levada á força para a velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram, impelidas pela mesma mola. Todo o scenario era scenario, toda a regra regra, todas as cerimonias que nos ensinam, se conservavam ainda de pé, quando o mesmo furacão revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de si. Tudo se varreu no mesmo instante, todos largamos a scena no mesmo instante. Todos, com velha baba a escorrer, com velhos tumores abertos, com velhas dentaduras postiças, o mistiforio e a obscuridade, o pó inutil que largaste pelo caminho até chegar á velhice, a vida consciente e a velha Eulalia, cuja existencia é um subterraneo e que mal sabe falar, todos ficámos estonteados...

 

 

A villa entrou em plena primavéra. Eis a D. Procopia, eis a mulher da esfrega. Aqui estão alimentadas a mentira, tendo passado a vida no testamento, na cortezia e na colica; aqui está o topete, a filha para casar e as faltas de dinheiro—aqui estão todas enrodilhadas de pavor, mas cheias de decisão deante do céo e do inferno. Já abrem aquellas ventas. Aquillo cheira-lhes a coisas prohibidas, que passaram a vida a desejar e a temer. Aquillo cheira-lhe ao suspeito e ao reles. Aquillo cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se no sonho. Até as pennas velhas se encrespam, até nos restos de chales sem pello, o pello se põe de pé.

 

Todos nós somos arvores. Há que tempos que deitamos flôr pelo lado de dentro. Fomos sempre construcções vivas, arvores estranhas que bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fóra. Foi por dentro que crescemos, e só por dentro nos era licito crescer, cada vêz mais alto até a morte intervir.

 

Até as arvores estranhas, até as arvores só tronco, que metiam os ramos e a tinta para o interior, bracejam á custa de gritos ramos e tinta, ramos desmedidos e tinta para o lado de fóra.

 

Este é nosso sonho, esta é nossa vida oculta, nossa vida de desespero, nosso sonho desgrenhado e immenso, doirado e immenso, amargo e immenso. Bem sei que isto doe. Bem sei que isto me custa a encontrar e a reconhecer n'esta noite de luar e espanto. Bem sei que isto de sêr homem é d'uma grande responsabilidade. Tem prós e contras terriveis. Tambem sei que o que nos separa dos bichos não é a inteligencia: a inteligencia é o menos. O que nos separa dos bichos é o esforço dos vivos e dos mortos, o compromisso de aceitarmos a mentira como se fôsse verdade. O que nos mantem n'este inferno é a architectura artificial, é o facto de não nos vermos tal qual somos, baseados n'uma convenção que julgamos indestructivel. De não nos vermos a nós e de não os vermos a elles. Porque o homem por dentro é desconforme. É elle e todos os mortos. É uma sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos phantasmas, somos afinal só phantasmas, e o que construimos não cabe entre as quatro paredes de materia.

 

Ouvel-os? ouvel-os? Passaram seculos e seculos no fundo da terra. Levaram seculos a comprehender que foram iludidos. Redobraram seculos de desespero no interior das cóvas, até se compenetrarem de que todo o sacrificio foi inutil, de que toda a dôr foi inutil. Ouvel-os com dôr e desespero?...

 

Queira ou não queira tenho de dar o passo, tenho de me desentranhar em amargura e sonho. Bem vês, a insignificancia vae durar mil annos, a vulgaridade e a ternura teem seculos deante de si, de forma que tanto me peza uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil annos, tenho de durar dois mil annos, com estas coisas deante de mim, hoje, amanhã, sempre. É escusado luctar. Emquanto era a razão que me guiava, andava ás

apalpadelas: agora é o inconsciente e cessaram de

todo as duvidas. Tudo se ilumina a outra claridade. Tudo me é permitido. Respiro d'outra maneira, olho d'outra maneira o que me atravanca o caminho. Toda a pergunta obtem logo resposta imediata. Todos os sonhos estão de pé para mil annos e um dia.—Ouvel-os? ouves o grito dos mortos?...—A outra coisa não nos dá treguas. Vira-nos e revira-nos. Mete-se como piolho em costura. Põe-nos a contas com a questão das questões, com a questão insoluvel. Tudo que estava n'um plano secundario passou para um plano principal. O meu interesse, o teu interesse, ó D. Penaricia, é matal-a sem que se venha a saber. Escusas de arreganhar os dentes descarnados pela gengivite expulsiva, esse passo tens de o dar contra o que se chama a tua consciencia. Ergue a cabeça D. Lambisgoia e recorda-te que já foste féra. Podêmos suprimil-a sem remorsos. Matar é uma palavra e mais nada. Por causa d'uma palavra nos arriscamos, é certo, a ir para a cóva inuteis e grotescos, com sonhos remoidos durante noites e noites gelatinosas como velhas mestras de piano que tocam sempre as mesmas escalas. Mas hoje tudo se reduz a metêl-a n'um jazigo selado e chumbado, com a chave entregue ao juiz de direito. Põe em mim teus olhos turvos, ó D. Desideria e reconhece-te e reconhece-me. O que estava por baixo está agora por cima. Á roda da meza do jogo nunca pensamos senão em anulal-a. O remorso não existe, o crime não existe, a formula não existe. O passo nem tu o deste nem eu o dei presos a algumas palavras convencionaes. Agora estamos fartos. Sim, sim, podes matal-a á tua vontade. És um producto fetido do acaso. Não duvides. Se Elle existe, nem suspeita sequer que existimos. Com que direito a esta luz que nos ilumina de chapa, queres que eu me subordine e submeta? Ou não existindo ainda exiges que proceda como se existisses?... Não duvides. Nada. Só algumas palavras formaram a tua consciencia. Duas palavras e o habito, duas palavras e a regra. Posso tudo o que quero. Pezo tudo, calculo tudo sobre esta base: o que me convem e o que não me convem. Eu sou eu. O egoismo é a suprema lei da vida. A honra não é essencial. Ao contrario o meu interesse é mentir, o meu interesse é trahir-te. É indiscutivel que tenho devêres para comigo, mas não é indiscutivel que tenha devêres para comtigo. Primeiro eu, depois eu. Todos os crimes me são permitidos com tanto que se não venham a saber. Serves-me ou não me serves? És meu escravo ou meu senhor? Serás tu meu inimigo?...

 

Que riso que nunca vi (é a cóva que se ri)! que bocca que nunca vi e que me cheira a defunto! Um passo ainda, outro passo, velhas lambisgoias, D. Insolencia e D. Ninharia. Chegou a primavéra. Vamos entrar n'outra vida sem Deus e sem regras, n'outro mistiforio que o instincto nos impõe, ó D. Telles das Reles de Meireles, e talvez seja essa a tranquibernia suprema porque suspiramos sempre. Vamos vêr que proporções atinge a langonha e a D. Herminia, o fél e a D. Penaricia. Acabaram os escrupulos e a lucta constante que nos deixava esfarrapados. Tenho-vos aqui na minha frente com as boccas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero; tenho-vos aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludivel, nus uns ao lado dos outros, nus e reles, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais sôfrego deante de nós. Estamos promptos. Estamos fartos. O que resta é o sonho de pé, só sonho e doirado, fétido e doirado, cahotico e doirado. Está rôto o contracto.

 

A primavéra atingiu o auge nos vivos e nos mortos. Tinta sobre tinta, dôr sobre dôr. Resuscitam todas as primavéras, as primavéras successivas, as primeiras primavéras em que a ternura se confunde com a fealdade e a fealdade é já ternura, outras primavéras, e outras oiro e verde, em que a tinta escorre do negrume. O que custou á arvore a transformar-se em sonho, á arvore dorida com a flôr recalcada, até se desentranhar em emoção!... Mais outras primavéras phreneticas, mais outras timidas e delicadas, mais outras que não chegaram a abrir cobrem os vivos e os mortos...

 

Mais braços na monstruosa arvore do sonho, mais braços que atingem o céo. E ahi estão todas as flôres e todos os gritos, a tentativa ridicula da flôr e a flôr esbraseada das noites sobre noites de concentração.

Todos anciamos por este dia. Nós e os outros do fundo da sepultura contamos sempre com a primavéra eterna —nós e a cohorte muda cujo esforço senti sempre, muda e desesperada, cega e desesperada. Gritos que vem de longe, expressões mutiladas que tentam impor-se. Este sonho não era só meu. Arredei-o e pegou-me fuligem. Trouxe-o n'um cantinho do meu sêr como uma coisa prohibida. Nunca me atrevi a olhal-o frente a frente, até que surgiu das profundas, cahotico e doirado, de dôr e de restos, coçado e doirado. Pertence-me e pertence-te. Vem do céo e do inferno. É nosso e dos mortos. É o patrimonio da vida, e do tumulo.

 

E os mortos estão arrependidos! os mortos estão arrependidos!

 

20

 

As velhas encarniçadas são outras, são velhas em sonho vivo.—Mata! mata! mata!—Aqui de rastros, anno atraz d'anno, para ser comida!—Aqui a levar pontapés n'este sitio, aqui a crear rugas e fél!—Pois eu não fui eu, e agora estou deante d'isto, d'este assombro e d'este desespero!—Gritam porque se não podem vêr. Gritam porque a realidade e o sonho tomaram proporções que lhes não cabem nas almas. Gritam porque não lhe entrevêem o fundo. A D. Penaricia tirou a cuia postiça, e atirou com a cuia ao chão. Depois fitou os olhos na cuia enrodilhada, e absorveu-se na cuia de retroz, como se tivesse alli em frente o symbolo do universo:—Não posso desfazer-me d'isto! não posso desfazer-me d'isto! Toma! Eu não sou isto, e hei-de estar aqui sufocada a aturar-te para não morrer á fome. Hei-de ver-me e ver-te e hei-de dizer:—Jógo!—Hei-de fazer-te as vontades e ver-me tal qual sou, tal qual era e tal qual hei-de ser?—Á espera de quê, se nem da morte podemos esperar?—Então este esforço para ter uma alma não se conta? Este esforço para não andar de rastros como a cobra? Para viver com isto e com isto? Com esta amargura, o fél, o que é mesquinho e com Deus? Eu não posso com o que não comprehendo, com o que está por traz de mim, com o que está a meu lado e com o que tenho de fazer todos os dias...—Falo!—Falo eu agora!—A tragedia é que eu iludia-me, mentia a mim mesmo e agora não posso mentir. Não há gritos que te valham e a ninharia desapareceu do universo. A insignificancia acabou.—O peor drama—exclama outra—é que eu vejo o que fiz de mim propria.

—A inveja que eu te tenho! a inveja que eu te tive sempre! E tenho que sorrir para ti, de dizer a tudo que sim!

—Jogue!

—Então eu passei a minha vida a ter paciencia, á espera, passei-a a mentir e obedecer, e tu a mandares, e agora hei-de continuar a ser abjecta quinhentos annos, seiscentos annos?

—E eu! o pão que me deste amarguei-o sempre. Cada dia que passava mais me sabia a zinavre. Não te matei porque não pude!

—Corte!

—Tu não és mais do que eu!

—Ai! Tambem eu, tambem eu tenho a dizer uma coisa. É que eu sabia bem tudo isto, há que tempos que o sabia!... Mas não sei que era que me obrigava a fingir. Corto!

 

Avante! avante! Um cordão de velhas, como um cordão de sentinelas, não desampara o quarto onde a magestosa Theodora agonisa. Chove. Entre estas

paredes forradas de papel doirado já não se moem as palavras de uso. Alumia-as o candieiro a escorrer petroleo, e a luz fixa as arestas das figuras de cerimonia, todas vestidas de preto, a calva d'um homem gordo, a quem só se veem as mãos esponjosas, os bicos das velhas retesas, cujas boccas remoem no escuro, a Adelia mais safada e mais sofrega, e o padre no meio da sala dominando-os a todos. Onde vae o ridiculo da D. Penaricia, as mesuras da D. Andreza, o riso idiota da D. Idalina, a langonha da D. Herminia? Parecem forjadas de novo. Até as prégas dos vestidos cahem como prégas de estatuas. Cada velha resolve que a colica da Theodora seja a sua ultima colica; em cada velha cresce, augmenta, trasborda, n'um tumulto, o inferno. Ao saque! ao saque! —É para mim. Eu é que sou a prima mais chegada.— Eu é que lhe tenho aturado tudo, é a mim que ella deixa os trezentos contos, os quatrocentos contos, ninguem sabe o que ella tem.—Nenhuma admite que a magestosa Theodora escape. Veem de muito longe estas figuras—veem das profundas... Nos olhos da D. Penaricia há claridades do inferno. Ganharam todas em fixidez e audacia. O sarcasmo não me chega á bocca, passou-me a vontade de rir.

Desapareceram seculos de paciencia e astucia, surgiram figuras novas. Para as comprehender pergunto a mim mesmo o que é isto embrulhado n'um chale, e não me atrevo a contemplal-o. Ridiculo e ferocidade? Uma coisa sem nome, producto do acaso, ou uma coisa abjecta? Uma alma ou um resultado de formulas? Está aqui a D. Penaricia e a D. Eulalia ou Deus e o Diabo? Um mundo novo e um mundo atroz? Estão aqui perguntas vivas e respostas vivas:—Abra lá essa porta para traz!—Essa porta deita para a parte prohibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja a melhor parte da vida.—Abram lá essa porta para traz!— Não lhes parece que esperam há annos, parece-lhes que esperam há seculos, e tem alli deante de si estateladas, as cortezias que fizeram á velha,—o pois sim que disseram á velha—os sorrisos com que sorriram á velha—as vontades que fizeram á velha. São tragedias. Veem de muito longe, d'uma vida sem limites. Em cada uma se representa um drama atroz, o drama do interesse e do calculo, o drama da vida. Nuas, as velhas que estão na minha frente, são infinitas de grotesco e dôr. Duram há seculos. Há seculos que teem paciencia para viver e para sofrer. A D. Penaricia mente desde os confins do mundo: representa gritos, mais gritos represados. É um poço donde só saem ais e mais ais. O dificil é a gente habituar-se a viver esta vida e a outra vida: carregar com este pezo desde o infinito e lidar e falar e viver.—Oh morte que tão bem cheiras!... —Bem sei, os seculos imprimiram-lhes dedadas, os seculos deformaram-nas... Mas agora estão aqui desesperos em frente de desesperos, e desatam a berrar umas ás outras:

—Tem paciencia, tem sempre paciencia. Doe-te? tem paciencia; amargas? tem paciencia...

—Todos os dias da vida, todos os dias da minha vida á espera da morte. Estou farta! estou farta de despejar bacios, de dizer que sim, de dizer a tudo que sim, de ser a sombra de mim mesma. Agora está aqui a vida. Esta vida e todas as vidas. É preciso que ella morra, e se não morre é preciso matal-a. Ouve senhor padre Ananias, senhor padre unguento, senhor padre e as suas comidelas, senhor padre e o seu inferno?... Mentira! mentira! Eu propria era uma mentira. E só me aterra a ideia de acordar tarde, de acordar na morte, com a certeza de que era tudo mentira e só mentira...

Abrem as boccas desmedidas, fecham logo as boccas desmedidas.

—Bem vê que não posso mais. Eu que mentia não posso mais mentir. Como hei-de viver?

—Tem paciencia, tem mais paciencia, tem paciencia por todos os seculos a vir...

Estão alli dispostas a morrer e a matar. Está alli um cordão de velhas como um cordão de sentinelas á porta do quarto da magestosa Theodora. Duas, ambas de quico, ambas de mitenes, ambas impenetraveis, trazem na algibeira o lenço com que hão-de amarrar-lhe os queixos. Todas esperam que ella se decida a expedir. Nenhuma abre o bico, mas apalpam os vestidos como se trouxessem um punhal escondido. D'um lado as gulas exasperadas, a hora extrema—chamem o tabelião! chamem o tabelião!—o testamento, a sorte grande—emfim! emfim!—os chapeus de plumas, o oiro mexido e remexido, as gavetas arrombadas, as salas do tapete, o vicio e o goso—do outro a vida nova, o todas as abjecções inutilizadas.

Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa cheira bem! como cheira bem aqui dentro!—Ó morte que tão bem cheiras, tu dilues o travor de fél e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo, realisas tudo, os mais ignobeis pensamentos, as mais secretas aspirações, que nem a Deus se confiam, ó morte que tão bem cheiras!—E calcando a alma que se atreve, dizem compungidas, por habito secular:— Coitadinha já tem panella!...

Agora aguenta-te, magestosa Theodora! N'alguns minutos esse craneo obtuso com uma cuia em cima, tem de luctar com o crêr ou não crêr, com a vida antiga e a vida que antevê; tem de desfazer a unhadas um edificio mais vasto que o Colyseu e de deitar abaixo pedra a pedra todas as pedras que cimentou durante a existencia; tem de se entregar ao sonho sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima, de esquecer as inscripções e as decimas. Para escapar com vida, arrosta com a vida passada e com a vida futura. Tudo n'ella era imperativo. Decidia por uma vez: um passo, e é o inferno pela eternidade, o inferno com o sitio imovel, com o tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar á morte é fugir á lei de Deus.—E d'um dado puxa por ella a vida, do outro puxa por ella o inferno—e as velhas lá fóra esperam e desesperam. Sente as labaredas do sitio imovel por a eternidade das eternidades; envolve-a, toca-a, engrandece-a tambem o sonho, e o inferno não cessa de reclamal-a, o inferno que foi o unico deus que temeu n'este valle de lagrimas. E esse debate esplendido n'uma alma estupida, deixa vestigios profundos: aquellas raizes não se arrancam sem produzirem buracos. E as velhas lá fóra esperam, emquanto a magestosa Theodora desata aos gritos, balouçada—e com a cuia a desfazer-se-lhe—entre a realidade e o sonho, entre o inferno e a vida nova que começa. Mas como a estupida vida de caldo e pão que levou antes de enriquecer, lhe deu fibra e caracter e não sei que de solido e amargo, a velha póde salvar-se, com um resto de chale e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao abrir a porta exclama para o cordão das outras estupefactas:

—Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!

 

25

 

E o doirado não cessa. Doira o luar e a inepcia, doira a tragedia e o ridiculo... Teçamos, teçamos todos a nossa teia... A minha prendo-a ás arvores, ao céo e ás coisas eternas. Todos os sonhos se põem a caminho. É uma coisa equivoca. É uma coisa desgrenhada e fétida. É o sonho lastimoso das velhas, o sonho que não chega a ser sonho, onde boiam mortos informes, com laivos verdes, com tentaculos esbranquiçados que se prolongam no escuro. Toda a gente fala só. E o luar intoleravel, o luar indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a cathedral, sobre os santos imoveis nos seus nichos. Dão horas, mas as horas acabaram. Coisa singular: esta gente só fala comsigo mesma, em monologos roucos, desesperados, infindaveis. Os olhos da D. Fufia ganham em fixidez e concentração; a D. Herminia começa uma tragedia, que dura uma noite inteira com a mesma palavra obscena.

A alma sordida, o fluido que envolvia a villa, a atmosphera parda, feita de pequenos odios, de pequenos interesses e d'habitos concentrados, encrespa-se e cresce em vagalhões magneticos. Modifica todos os sêres e abala as paredes mestras. Embebe-se no salitre e roe os santos nos seus nichos: até na imobilidade entranha desespero. Quedam-se

estonteados e transidos, como se a vida fosse uma mera creação do luar e da loucura... A alma da villa é

sacudida por uma tempestade de espanto. A botica está deserta, com o bocal, o passaro empalhado, as moscas mortas.

Um momento angustioso não se ouve rumor, depois um tumulto, um clamor, um ah! A villa toda grita:—Eil-o! aqui está o meu sonho, aqui está como o trouxe toda a vida, escondido, dorido, fruste, immenso ou humilde; aqui está a minha verdadeira figura—a figura do Melias e a figura do Melambes; a velha n'um debate perpetuo, a velha e as suas manias, o desespero e a Ursula, o grotesco e o pó doirado que não sei d'onde se me pegou; aquillo de que te rias e eu me ria, e que todos nós escondiamos, cada vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somiticos... Lá vae a Adelia, com o chapeu ás tres pancadas, lá vae um logista que parece Napoleão Bonaparte, e as Souzas armadas de ponto em branco—lá vae o inferno de luxuria e de egoismo. O muro não existe—derrubaram o muro.

 

Nesse momento pezado de angustia todas as mãos se agitam no ar diante da outra coisa que no silencio e na noite estende os farrapos das azas cada vez mais disformes. Está sofrega. Cresce, grita, avança direita para nós. O que se pôz em marcha não vem de fóra, mas de dentro de ti mesmo, da mais cerrada das noites. Há muitas camadas de mortos. Há-as a legoas de profundidade e até de lá sobem os gritos. O homem é o mais profundo, o mais vasto de todos os sepulchros.

 

Põe este homem vestido em frente d'este homem nu, a fama o credito, a praça, ao pé desta coisa desordenada que se encarniça e não nos larga, ó Elias, ó Melias, ó Melambes! A consideração não existe! a praça não existe! aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as lettras e os que teem as lettras protestadas, nós e nós, nós e os ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e tragicos—nós e o universo monstruoso! Nós correctos e nós disformes, nós e o céo profundo na sua temerosa realidade. Salta laré, perirone, perirote! Mas salta com desespero, salta com as tuas eternas explicações, o subterfugio e o grotesco. Agora não nos servem de nada os relatorios, nem as razões dispostas como formulas algebricas— agora estamos aqui nós e o problema desalinhado e feroz, que nos impõe uma solução imediata. Salta laré, perirone, perirote! Se ella vive mais quinhentos annos lá se vae o dinheiro por agua abaixo. Peor: se ella remoça lá se vae o nosso credito na praça. Mas—pergunto— posso porventura deixal-a morrer quando está nas minhas mãos salval-a? Não sou eu por acaso um homem de bem? Tu és um homem de bem, eu sou um

homem de bem, nós somos todos homens de bem— depende das circunstancias. Os paes são paes, mas deixam de ser paes se nos dão cabo de tudo—e da firma. Por outro lado há a contar com o credito. Pensem n'isto, no credito. O credito pode perder-se de um dia para o outro, e sem credito um homem não vale nada na praça. Meditem e atendam. Acima de tudo está o credito. Está talvez acima de Deus, ainda que a minha consciencia seja religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem credito não dou um passo na vida.

—Além da firma que nos resta na vida? Fóra da praça não existimos. Pense que logo, amanhã, hoje mesmo, a nossa mãe remoçada deixa de sêr a nossa mãe. Que quer o mano fazer? que pode o mano fazer? Destruir por suas proprias mãos o nosso credito na praça?

Um defronte do outro abanam as respeitaveis cabeças, com calva e risca, com risca e calva, aquella distinção de porte e de vinco, aquella ponderação de estilo, aquella correcção de maneiras, aquella seriedade das seriedades, que a praça honra, que as firmas honram, que a Egreja honra, e de que até o proprio Deus do céo já está á espera com o palio meio aberto. A firma Elias & Melias tão correcta, com livros, ripolin nos caixilhos e nas almas, vê-se descascada até á medula e treme nos seus fundamentos. Está encalacrada. E o peor é que não são só elles que estão encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa não é o que tu me dizes: é o que eu digo a mim mesmo... Ó Rinhe como tu rinhes com dôr, com desespero, n'uma forma pastosa, a que se misturam já palavras vivas, em logar das phrases dos relatorios e dos bancos! Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por traz não te dá tregoas o impulso. Neste conflicto delicado só tu vinhas a tempo, ó morte que tão bem cheiras, e, cumpridas as formalidades do estilo, entregavas-me, com o testamento, a chave do cofre. Agora esta coisa encarniçada e feroz, sofrega e imunda, leva-nos a mim e a ti, com desespero e gritos, com as formulas e o vinco, com a praça e o credito!...

Agora não, D. Bibliotheca das Bibliothecas, já preparada com todos os requesitos e unguentos para o horror do nada! Agora não! Já tentaram desligar-te da vida com as palavras unctuosas do ritho e promessas de outra vida melhor. Que te resta? A vida eterna. Pôço p'ra a vida eterna! O que tu queres é esta vida, esta insignificancia e estes restos—e está aqui a morte inexhoravel. Tanta saudade! tanto apêgo! Tudo te doe e do fundo d'essa miseria e d'essa pelle engelhada vem um gemido baixinho diante da figura tremenda que não sae de ao pé de ti... Ó carne putrefacta, como tu te apegas a um resquicio d'esperança, a um só que seja! O que te custa a largar o brazão na fralda da camisa, o postiço de toda a tua existencia inutil, o alto da lista de subscriptores—tres tostões, seis tostões, um quartinho! ó carne fedorenta, ó carne já preparada para o mausoléo, com a gaveta aberta, latim e agua benta, dois involucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro á espera!

E ahi os tens sem piedade, inexhoraveis como o destino. Agora não Elias & Melias, agora não D. Bibliotheca das Bibliothecas, estaes frente a frente com a realidade e a morte. Salta laré, perirone, perirote!

—Não quero morrer! não me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem toda a gente. Não me deixem morrer!

Todos os apetites, todas as sensações que pareciam extinctas, assobiam como viboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher está tão intacta por dentro como aos vinte annos. Ninguem a pode conter. Quer saltar pela cama fóra.

—Chamem os meus filhos! chamem os meus filhos!

—Chamem o procurador!

Mas o que ella exprime por palavras, pelo olhar, pelos gestos, é a ancia de viver.

— Não, não. Tirem-me para lá esse homem. O que eu quero é viver.

Vê no ultimo desespero a face estupida do procurador dizer-lhe coisas grotescas:

—Ó minha senhora cheguemo-nos á razão. Seja razoavel.

—Quero viver.

—Temos em primeiro logar a Egreja. Apelo para os seus sentimentos religiosos, que os teve sempre, e deante dos quaes me curvo respeitosamente. Apelo...

—Dêm-me o remedio! Quero viver!

—Segundo lembro a V. Ex. que tem sido até agora mãe extremosa dos seus filhos. Se volta aos vinte annos, pergunto respeitosamente a V. Ex. a ma , Ex. senhora, que é que V. Ex.a é aos seus filhos?

—Quero viver!

—Perdão minha senhora! Esta fortuna tão bem administrada pelo casal de que tenho sido bastante procurador a que mãos irá emfim parar? Peço-lhe que reflicta. Peço-lhe que se submeta. Lembro-lhe que estão alli fóra seus respeitaveis filhos subjugados pela dôr, lembro-lhe a sociedade, e atrevo-me a lembrar-lhe que não tarda ahi o D. Prior.

Um fio, falta só um fio, e ainda aquella figura grotesca se debruça para lhe dezer:—V. Ex. a...

—Fechem as portas! fechem as janelas! fechem tudo!— exclama o honrado Elias de Mello, com a calva arripiada.

—Não quero morrer!

Tem forças para saltar da cama, para se arrastar até á porta, e toda a noite no casarão echoam gritos.

Não quero morrer! Um minuto e mais nada. Um minuto e, contido n'esse minuto, o universo desabalado, a morte, o desespero e o procurador com o sêlo da lei e a saliva da lei. Tu d'um lado decrepita—e do outro a sofreguidão cahotica para mastigares com o unico dente que te resta na bocca. Um minuto e contido n'esse minuto os vivos e os mortos, o teu phantasma e todos os phantasmas, a realidade e o sonho,—tu ungida e tingida, nós e nós—nós correctos e grotescos —nós Melias e doirado, nós Melambes e phrenetico!

30

 

Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que, apezar da dôr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a visão nitida da montanha de pó acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a romper.

Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de mão onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; só ella pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas. Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que não via há annos. Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada e mais gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.—Pois sim, pois sim...—Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que sonhaste com fél, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi está patente, á luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste á custa da tua propria alma—ó Restituta da Piedade Sardinha!

...—Sejamos logicos mãe—diz elle—na vida é preciso ser logico. A mãe creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe. Não hei-de agora que vou casar apresental-a:—«Aqui está a minha mãe que me creou de esmolas, que me creou escondido».

—Tens razão, filho.

—O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe, que tem sido logica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo. Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.

—Desapareço.

Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que teve sempre por as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente de chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos a creal-o escondido, e revê-se embevecida nos cartões em que elle assigna Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De resto não lhe custa nada desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir. Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda, á D. Theodora, á D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração, como obedeceu á vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e desespero. É o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada ao céo e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais obscuro da sua alma.—Vi-o! vi-o! vi-o! Que é isto? que é isto que se me péga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que é isto que não comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguidão e pois sim, doirado e pois sim! Eu não posso com isto amargo e doirado! Eu só posso mentir, só posso obedecer, só posso com restos, com os restos dos restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fél e pois sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim, e agora sou Pois Sim e desespero!

Desespero, e n'este desespero uma primavéra de restos, uma primavéra abortada, que só chega a deitar uma flôr miudinha como a flôr do escalheiro.—Mente! mente! mentir não custa nada!—Mas a D. Restituta já não pode mentir ainda que queira. Quer dizer que não, e com ella todos os mortos, todos os mortos que não se atreveram a sonhar, que não abranjeram o sonho, dizem á uma que sim, dizem com desespero que sim. Sonho e pois sim não cabem no mesmo sacco. Não cabem no mesmo sacco primavéra e pois sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o! viste-o!...

Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se, sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida, reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fél.—Mete o diabo no sacco!—Tão cansada e tão gasta que nem as feições lhe reconheço; tão amarga e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada a dizer que sim, sempre que sim—a dizer a tudo que sim.

—Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fél da submissão. Mete a tua alma e a

minha alma, gastas de dizerem a tudo que sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado, sofreguidão e pois sim!

 

Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim—para que o filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Balouça ao vento n'um sexto andar—esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com brazão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o fardamento da Escola Academica, como um guarda-portão em miniatura. A sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico não cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.

 

6

 

Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda, a mais doirada de todas as primavéras—a primavéra eterna. Revolveu a terra e cobriu os sêres e as coisas de flôres, por camadas ininterruptas e successivas, com todas as côres e todos os entontecimentos, todas as infamias e todas as tintas—com todos os desesperos. Está aqui tambem presente a floresta apodrecida... As arvores não se veem, mas estão tambem aqui... Está aqui a floresta apodrecida, e com ella as fórmas de sonho e as fórmas de dôr mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os contactos viscosos, as mãos geladas ainda em esboço, os sêres cegos e com gritos, porque não sabem ainda viver, as fórmas hesitantes do pezadelo...

É aqui que corre e escorre o verde, o roxo e o lilaz—os tons violentos e os tons apagados. Até as arvores são sonhos. Atravessaram o inverno com sonho contido, com o sonho humilde com que carregam há seculos. E até esses sonhos se transformaram em realidade. Realisou-se emfim o milagre: as arvores chegam ao céo.