Húmus

Raul Brandão · Capítulo 17 de 23

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Húmus

Deus

 

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O que eu sinto é o desespero de não haver dôr eterna. A dôr pela eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrêr sempre, com a consciencia do sofrimento, é viver sempre. Antes o inferno! antes o inferno! o inferno em logar do nada.

 

O inferno era ainda o céo.

 

Alguma coisa nos conduz e nos leva até á morte. Rodeia-nos. Impele-nos. Não a vêmos e está ao nosso lado. Só ella existe no mundo. Estou nas suas mãos com desespero. Extasia-nos. Aturde-nos. Escarnece-nos.

Tu não existes! tu não existes! E não há mãos mais crueis que as tuas. És abjecta. És cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos. E queira ou não queira estou nas tuas mãos. Só tu existes no mundo.

Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem Deus. A unica realidade és tu—fétida e immensa, sofrega e horrivel. Gritas? hás-de gritar pela eternidade das eternidades. Fazes parte para todo o sempre d'esta força que vem do principio da vida e se projecta nos confins da vida, com bocca ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda a belleza—para nada! para nada!... Na minha alma reflecte-se o dialogo do universo como a claridade na agua para me entontecer.

 

Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho as janellas, fecho tudo. Outra vêz a primavéra! outra vêz o escarneo! O que tu queres é iludir-me. A um dia de nevoa sucede um dia doirado. E extasias-me. Se abro a porta, a noite está cheia de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando a agua tem um som mais lindo, a neblina dá encanto á minha vida e aos grandes montes compactos. Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido até á morte. Atraz de ti só há dôr e o desconhecido. Mascaras-te para me iludires. Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arôma; mais uma vez os pinheiros sacodem no ar o seu polen sulfuroso... Não quero vêr! não posso vêr! Não te posso vêr! A vida é amarga, a primavéra é secca e inutil. Fecho tudo para não te vêr. Fecho tudo para não vêr a primavéra e sinto-a atravez dos muros.

 

Oh o grande oceano, a torrente impetuosa—sempre! sempre—o mar de mãos fluidas que me envolvem—o mar do silencio, o grande mar inexgotavel que deslisa no silencio—como tudo isto me mete medo!

 

Reconheço-te força, mas não me importas nada. Este deus faz o que elle quer e não o que eu quero. Este deus desordenado e imenso, não é feito á minha imagem e semilhança. Não me ouve nem me atende. Não o posso desviar da sua marcha á custa de suplicas e de gritos. Não se apieda. Não sei se tem o sentimento da justiça. Talvez tenha outro sentimento de justiça— outro maior—outro que não abranjo. Este deus não me é nada. Para elle é vão tudo o que se grita no mundo, tudo o que se sofre no mundo é vão. Todos os santos são grotescos. Todos, os que te chamaram e suplicaram, todos os que te ofereceram a renuncia e a dôr, o fizeram no vacuo. Pai, tu não existias! E não existindo impeles-me, entonteces-me e esmagas-me. Estou nas tuas mãos e não as vejo. Crias-me e não existes.

Eu sei, eu sinto que estás ahi desconforme, vivo, e obstinado—mas não és o meu deus. Tanto faz esfacelar-me contra este muro compacto, como conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu estás ahi patente, vivo como a vida, mas não me conheces nem eu te conheço a ti. Não nos chegamos a entender. Não tens nome. E estou nas tuas mãos.

 

Estou nas tuas mãos e não me interessas. O que me interessava eras tu. Tu, que não existes, entranhaste-te-me na carne e no osso, de tal forma que não me livro de ti. Não existes e dominas-me. Não existes e torturas-me. Não existes e só tu és a razão da minha vida, dos meus actos, e do meu sêr. Não existes e só tu existes. Tenho mil annos e um dia para prégar deante do vacuo que não existes. Para te chamar sabendo que não ouves. Disponho de mil annos e um dia de desespero, de mil annos e um dia deante da mudez, a clamar, a prégar, a mentir.

O resto são phrases e mais nada. Só a vida futura, só a vida presente sob o teu olhar tinha finalidade e razão de sêr. O resto são phrases com que me procuras iludir e com que te procuro iludir. Porque se um dia, sós a sós com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras—a vida eterna e a morte eterna, não como palavras mas como realidades, nunca mais podeste desviar o olhar.

 

O que me interessava eras tu porque para, que tu existas é preciso que eu exista tambem. Eu não posso passar sem ti, mas tu não podes passar sem mim.

 

Se tu não existes, estou nas mãos da força obstinada e cega. O que me interessava era o espectaculo da minha propria alma, o dialogo dos dias e das noites entre mim e ti, a immensidade temerosa mas viva, de que eu fazia parte.

 

E agora, reconheço-o, toda a dôr resulta de eu criar um universo que não existe. De tu me creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do universo ignora a vida e a morte. Toda a dôr resulta d'este esforço para a mentira. De eu não não me submeter á força desabalada e cega. De eu têr inventado um Mundo maior que o teu e diferente do teu, para o sobrepor ao mundo cahotico, ao mundo atroz. De mentirmos com obstinação até á cova, ao céo e ás estrellas. D'estas duas creações antagonicas resulta a maior dôr humana. Se eu não tivesse criado outra vida imaginaria, tu passavas e calcavas-me, tu passavas e esmagavas-me, mas não me cabia em lote a morte e a consciencia da morte, a vida e a consciencia da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior do que tu.

Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê se tudo acaba alli, se não ha outra vida consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus actos? E mesmo diante do escantilhão sofrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho de obedecer é ao instincto e mais nada. Se não estás ahi para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer exactamente o contrario? Só uma coisa resta: iludir os desgraçados, leval-os para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto—trata-se de mentir, de mentir sempre—de mentir cada vez mais.

 

Estou nas tuas mãos... Esta noite limpida como um diamante polido não existe. O que existe é atroz... Nem a primavéra existe, e tudo se entreabre em entontecimento azul. Nem esta harmonia dos mundos, que eu criei, existe. O que existe é atroz. Nem este sonho em que ando envolvido e iludido. Só tu existes no mundo e me trazes estonteado no mundo. Fecho-me para te não vêr e estou nas tuas mãos. Se eu pudesse ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram no mundo, se eu pudesse encarar-te em toda a tua plenitude—via o negrume monstruoso e cahotico avançando para mim, o repelão doirado levando tudo diante de si, no desespero, na vida e na morte, esmagando sempre e renovando sempre, para crear mais dôr. Não te fartas. Isto é desconhecido, é absurdo, é eterno—mas a belleza tragica da vida ephemera consiste em te resistir, todo o nosso afan em crear uma mentira para opor a tua verdade—de que resulte dôr. Tu podes tudo como verdade. Estou nas tuas mãos. Eu posso tudo como mentira, e só assim saio das tuas mãos. A verdade é a dissolução e a morte, és tu; a mentira é a vida. Resisto-te para poder viver; para poder viver crio a mentira tragica. Se cedo ao teu impulso, se escuto as tuas vozes, levas-me para uma vida inferior; se te oponho a mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeço-me. Estou nas tuas mãos—e nego-te. E o homem é tanto maior quanto mais alto afirma que existes. Crispa-se-lhe a bocca, dilacera-se até ás ultimas fibras, lucta, grita e sae em farrapos das tuas mãos.