Húmus
Papeis do Gabiru
A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbavel, e ao lado este sêr que só tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com um gato bordado a retroz, interessa-me muito mais que a noite negra, a noite funda, a noite cahotica com esta vida e outra vida. A noite é inutil.
PAPEIS DO GABIRU
10
Ella foi uma flôr que se aspira e se deita fóra—quasi sem reparar—scismando na imortalidade da alma.
Se eu pudesse cinematographar a vida e a morte d'uma flôr, cinematographava a sua vida.
Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa, é o que ella disse á grande nodoa de humidade da parede.
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguem a ouviu, ninguem deu por ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dôr aprendeu a contel-a. Habituou-se a queixar-se á grande nodoa de humidade da parede.
Entre mim e ella interpoz-se o sonho.
A ternura tambem cansa. Deixem-me! deixem-me sonhar!
O principal para mim foi a queixa que ninguem ouviu no mundo; foi o que os seus olhos verdes d'espanto decifraram n'aquelle arabesco da parede. Podes por ventura conceber isto? Uma dôr que não deixa vestigio, um sonho ignorado que não deixa vestigio, que passa no mundo e não deixa vestigios—a dôr despercebida, as lagrimas contidas que se não chegam a chorar?
Não valia nada o que vale um passaro, e em questões afectivas, em ternura, tinha a profundidade do mundo— a do silencio—a do sonho.
Tanto se queixou baixinho que morreu de frio!
Deito-me debalde aos encontrões á noite. Nem um grito. Os remorsos são inuteis. Um passo na vida é sempre irremediavel: não há forças humanas que o possam apagar.
11 .
A vida tem dois periodos: o do entontecimento, o da saudade. Não sei qual é melhor. Talvez aquelle em que se ouvem os passos da morte, mais perto! mais perto! O frio da morte dá á vida um encanto superior e um prestigio maior.
Deixem-me! deixem-me! Deixem-me só com isto, deixem-me viver para isto. Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridiculo, que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cóva agarrado a este nada immenso, que me doirou as mãos e me deixou atonito. Só no fundo da cóva é que estou bem, sós a sós, fechado com elle para sempre.
Se o sentimento de belleza é a unica coisa humana que não nos engana—se só a isto ficamos reduzidos— como não prever outra belleza maior?
De sobresalto em sobresalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em vulgaridade e de contradição em contradição, assim vim até ao fim. Não consigo desprender-me de um, nem libertar-me do outro.
Atraz d'este assombro há outro assombro—e depois outro assombro ainda.
Qual é a minha experiencia da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extraes da vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silencio, mais doirada e phrenetica que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E
entretanto ao nosso lado passa o tropel magico, desesperado e cahotico. Alli fóra desabam os seculos e a torrente misteriosa que leva comsigo estrellas em vez de calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito, levando comsigo a alma, o universo, o logico e o ilogico, o absurdo e Deus.
Uma vida resume-se em duas linhas, synthetisa-se em dois ou tres factos. Se a vida fosse só isso não valia a pena vivel-a. A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos contentamos com a superficie, não há nada mais estupido—se nos quedamos a contemplal-a faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco lettras, mas o mais bello, o mais tremendo, o mais profundo dos misterios. Prepara-te.
O problema capital da vida é o problema da morte. Elle resolve tudo. Não há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossivel dar um passo a que não succeda outro passo. A vida gera a morte—a morte gera a vida. Mas que vida?
Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e comtigo, ó espanto, mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio d'aqui esfarrapado, despedaçado—mas teimo e hei-de vencer-te. Não quero morrer de vez. Não quero perder a consciencia do universo nem a sensibilidade do universo. Eu sou o nada, tu és o infinito—hei-de por força vencer-te!