Húmus

Raul Brandão · Capítulo 13 de 23

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Húmus

O Dever

 

 

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D. Leocadia o dever é um contrato. Um contrato com um ente superior ou um contrato com os outros. Há deveres para com Deus e deveres para com os homens. O contrato com Deus falhou, porque Deus não existe; o contrato com os homens não o cumpro, porque, se me sujeito a respeitar-lhe as clausulas sósinho, expoliam-me. Restam os deveres para comtigo, os deveres perante a tua propria consciencia. Oh D. Leocadia, eis o fundamento da questão!... Tu tens passado a vida com uma personagem importante, que te julga, te aplaude ou te condemna, e para ella, e só para ella, deste as tuas melhores representações. Para a enganares, enganaste-te, mentiste para lhe mentires. E reduzida a trapo, só desespero e orgulho, atiraste-te aos pés d'essa avantesma que não existe, D. Leocadia—que afinal não existe! Como se consegue edificar uma vida sobre um broche com um sujeito de suissas e uma redoma de vidro com a imagem d'um santo, e intercalar-lhe um drama baseado na ideia do devêr, até ao ponto de se apoderar de ti até ao amago, é que eu não comprehendo e admiro, ó sordida antrópopiteca com uma cuia de retroz! O devêr era frio e amargo e tu cumpriste-o; o devêr era coçado e hirto e tu cumpriste-o. Foi a razão da tua vida. Azedou-te e sustentou-te. Quando te vencias, vencias-te com orgulho. Deu realidade á tua existencia ephemera. Fôste ao mesmo tempo actor, tablado e publico. Sem esse dialogo entre ti e ti, entre uma D. Leocadia de cuia de retroz e outra D. Leocadia de cuia de retroz, desesperado e pertinaz, articulado ou mudo, que te fez de fél e vinagre, a tua vida não tinha tido directriz. Nas noites solitarias, em que não conseguias aquecer os pés com dois pares de coturnos, aqueceu-te. Deante do frio da pobreza teimaste:—Cumpri sempre o meu devêr. —Deante da sordida velhice, avançaste com autoridade:—Cumpri o meu devêr.—E até deante da imagem pavorosa da morte, exclamaste sem receio:— Cumpri sempre o meu devêr!—E só tu sabes o que é cumprir o devêr dos devêres, o que é tiral-o á bocca para o meter na bocca que se detesta, entre quatro paredes d'um terceiro andar (29-3.º-D), desde o principio da vida até ao isolamento da cóva. Cumprir o devêr minucioso e exigir o devêr minucioso. Com elle dominaste-te e dominaste-a, gastaste-te e gastaste-a, esqueceste a vida e a ti propria te esqueceste. Com uma palavra e mais nada. Arreganha os dentes se queres ao teu proprio phantasma... Com uma palavra e mais nada. Subordinaste a tua vida ao devêr, e o devêr não existe: é um mundo d'orgulho e de escrupulos. Custa a entrar na cachimonia que a côdea que tiraste á bocca para a mantêres, o vestido que cortaste ao teu proprio vestido para a vestires, as noites de discussão interminavel, tu e o devêr—tudo fôsse irrisorio e inutil. Mas foi. O devêr não existe, o mundo construido com alicerces por omnia seculo seculorumnão existe D. Leocadia. Perdeste a vida e transtornaste a vida atraz d'uma sombra. Restam-te mil annos e um dia, para cumprires, se queres, o teu devêr inutil, o teu devêr

atroz, para obedeceres a um phantasma absurdo, a quem dás o ultimo leite d'um peito exhausto. Repara bem, atende bem... Chegou o momento em que vaes aparecer deante do universo com as tuas ideias fundamentaes e sem o teu vestido de lemistre, e, se te obstinas, mesmo no fundo da cóva e com a bocca cheia de pó, hás-de gritar de desespero, quando te compenetrares de que o devêr postiço, o estupido devêr, fede que tresanda. Queiras ou não queiras chegou a ocasião de me rir de mim e de ti com dôr e lagrimas, e de te expôr tal qual és, nua e reles, nua e grotesca... Despe-te D. Leocadia!

Mas a figura verde não cede: traça o chale como quem se fecha com os sete sêlos do Apocalipse e exclama do alto do seu pedestal:—Eu sou de muito bôa familia!

 

(O peor foi d'ella, o peor foi d'esta figura secca e coçada, desagradavel e sêcca, que eu conheço desde que me conheço, sempre a prégar contrariada o seu devêr, sem um dia de descanço e na eterna duvida:— Cumpriria eu afinal o meu devêr?—Vai para a cóva farta de cumprir o seu devêr e ignorando se na realidade cumpriu o seu dever nem para que serve cumpril-o. Ninguem a pode aturar. Odeia o devêr que cumpre, e cumpre-o sem desviar um passo como quem cumpre um destino. Até te digo mais: o que lhe custa a abandonar na hora extrema não é a tua, mas a sua companhia. Olha-o com desvanecimento. Faz-lhe falta. Mais falta do que Deus, essa avantesma de cuia de retroz com quem passou os melhores dias d'uma existencia incerta. É talvez o seu verdadeiro Christo, que continua, mesmo sem existencia real, a reclamar que cumpra as clausulas d'um contrato já rôto. Tem de cumprir o seu devêr não acreditando no seu devêr. A D. Leocadia é uma figura secca e coçada, enorme e secca, vêrde e grotesca, que desvia o olhar da vida, para cumprir, seja como fôr, o devêr estupido, o devêr atroz. Tenho vontade de chorar)...

Foi buscal-a ao asylo e trouxe-a para casa, com o cabelo cortado como um recruta. Deitou-lhe a mão e fechou-se com ella por dentro. As paredes tomadas de frio salitroso, transiram de frio sepulchral. Quando se atreveu a rir, cortou-lhe logo o riso cerce—para não se tornar a rir, ao primeiro assômo de vontade, cortou-lhe logo a vontade rente—para não tornar a ter vontade; e, quando cahiu de cama, postou-se dia e noite á sua cabeceira, hirta e solemne como o devêr. Um pobre não tem vontade, um pobre não tem orgulho. Nem pode tel-o; veio ao mundo para cumprir o seu devêr. Veio ao mundo para sêr obediente. Pobres educam-se como pobres e ricos educam-se como ricos.

Só tu D. Leocadia te deste ao goso superior de têres uma alma á tua descripção. E isto sem gritos, com um ou outro soluço logo represado, noite e dia, dia e noite, e um olhar d'espanto, uma luz que se extingue até á impassibilidade, n'um terceiro andar de rua da Bitesga. Levou tempo a morrer essa ternura dorida, que teimou em vir á superficie, até que a D. Leocadia a conseguiu esmagar sob o calcanhar de ferro—para sempre, para todo o sempre. Por fim uma curvou a cabeça submissa, e a outra ergueu a cabeça triumphante.—Para a livrar da fome, para a subtrahir á desgraça. Se não fosse eu ia parar a uma viella. Cumpri o meu devêr.—Sim, e para a crear, para que não fosse parar a uma viella, o vestido que lhe durava uma eternidade, teve de lhe durar outra eternidade ainda; a côdea, que mal chegava para lhe matar a fome, repartiu-a com a orphã, guardando para si o bocado mais pequeno. Cumpriu o seu devêr de ferro, o devêr que pesa toneladas, e cumpriu-o sem desviar uma polegada da linha do devêr. Obrigou-a a levantar-se de noite, mas levantou-se primeiro do que ella. Pobres querem-se como pobres, sempre na regra e no devêr e sem levantarem a cabeça. Quando a orphã a olhou transida de dôr e a D. Leocadia lhe bradou:—Cumpre sempre o teu devêr!—já ella tinha cumprido o seu devêr até final. Passaram-se annos ou seculos, morreram as aranhas de velhice no fundo dos saguões deshabitados; nas paredes mestras de granito a camada de frio salitroso juntou-se camada de frio sepulchral, e a camada do frio sepulchral sobrepoz-se camada de frio deshumano. E sempre tu cumpriste o teu devêr e ella cumpriu o seu devêr d'hora a hora como um pendulo. Incutiste-lh-o tão fundo que ahi a tens na tua frente, palida e inerte, com um filho do teu filho na barriga...

 

Não te queixes D. Leocadia, porque afinal foste buscal-a ao asylo para te sentires maior no teu orgulho. A desgraça dos outros não comove, a desgraça alheia consola. Mas tinhas de cumprir o teu devêr: ao magestoso edificio que architectavas, faltava-lhe ainda o remate. A côdea que tiraste á bocca manteve-te melhor que se a comesses, e o vestido que lhe deste, agasalhou-te melhor que se o vestisses. Engrandeceste. Amargaste e doiraste. É verdade que tambem resequiste. Espera, espera... Resequiste, mas como o mundo é extraordinario, como a vida é prodiga e teimosa e irrompe até das pedras, extrahiste não sei que ternura azêda do mais duro de todos os peitos—ó contraditoria D. Leocadia, 29-3.º-D., que eu não chego a decifrar. Não podes com isto, não explicas isto, não aturas isto! Não comprehendes. Nem eu.—Tambem eu D. Leocadia! Lé com cré. Tambem eu, se me liberto d'isto que não tem significação, não encontro nada que tenha significação. Chegamos ambos ao ponto e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma palavra apenas... Olha bem para ti! olha bem para dentro de ti! Moras na rua da Bitesga, entre duas ou tres curiosidades seculares. Usas um vestido de lemistre, luvas d'algodão no fio e um broche pendurado ao pescoço. Não sei por que bamburrio se te encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do devêr, e de que o infinito tem de dar importancia ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um retrato de suissas não tira de mim os olhos de peixe... Não mastigues. Bem sei que só nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre, é que somos capazes de contrahir noções, talvez erroneas mas profundas, do bem e do mal. Os outros bichos teem mais que fazer. Mas é por isso mesmo D. Leocadia que te cahiram os dentes postiços e que começas, n'esta nova situação, a comprehender que o bem e o mal é tudo a mesma coisa. Talvez a gente não possa fazer o bem senão a si mesmo...—Mas então—e crispa a mão sobre o broche —talvez o bem seja uma monstruosidade, talvez todos tenhamos de destruir. O mal é que eu sinto. Para o mal é que eu fui creada!—E sua d'aflição toda a tinta que lá tem dentro, quando outra D. Leocadia irrompe da carcassa da D. Leocadia:—Pergunto-te se o que tu não consegues é prolongar o mal. Pergunto-te se esse orgulho humano, se esse orgulho sobrehumano, não é um mal maior, e essa piedade que sentes não é por ti que a sentes.—E eu, e eu pergunto-te se a minha verdade falsa não me serviu melhor que a tua verdade amarga.—Pergunto-te a ti—e sacode-a—se não é isto que eu sinto cá de dentro, do fundo dos fundos. Pergunto-te de que te serve a mentira com que cohabitavas. Nunca conseguiste bem nenhum, nunca cumpriste o teu devêr. Logo que te puz a ti e a ella na mesma situação de egualdade já não pudeste cumprir o teu devêr.

 

D. Leocadia, quem recebe o bem fica sempre humilhado. O bem constrange. O que tu chamas a piedade, e o bem põe quem o recebe na situação de te morder as mãos. E continuar a fazer o bem é elevar-te pelo bem que fazes e rebaixar-me pelo bem que recebo. Acabas por gastar o que em mim há de melhor. Oh D. Leocadia, se eu podesse—eu é que te fazia o bem, para tu veres o que é o bem recebido, o bem agradecido e o bem amargurado. Antes tu me fizesses mal, D. Leocadia, porque o mal põe-me ao teu nivel, e o bem acostuma o desgraçado a ser mais desgraçado ainda. Degrada-o. Põe-no na tua dependencia e na

dependencia da desgraça. Cria uma superioridade, a tua, e um azedume, o meu. Classifica para todo o sempre. Estou perdido se não reajo em odio.—Mas então...—e a D. Leocadia atira-se com desespero á outra D. Leocadia, e interrompe-a, primeiro com mudez, depois com gritos:—Ia parar a uma viella!—Avança e repete mais alto:—Ir parar a uma viella é o que há de peor no mundo!—E a outra torna com escarneo e diz-lhe ao ouvido não sei que segredo temeroso—e a D. Leocadia torce-se com pavor mas sustenta:—É o que há de peor no mundo! é o que há de peor no mundo!— E com dôr, com angustia, com desespero, pergunta a si propria (a outra teima e não a larga):—É o que há de peor no mundo!?—Eu não sei se é o que há de peor no mundo, não sei se reduzir uma creatura, a trapo é o que há de peor no mundo. A tua piedade amesquinha-me. O que eu reclamo é o meu logar na vida e o meu quinhão de desgraça. Não m'o tires! Mas ella é d'aço. Não transige e protesta:

—Matei-lhe a fome.

—Mataste-lhe a fome mas não podeste amal-a.

—Nem posso! nem posso! nem posso!

E encara-se mais atonita e mais verde, mais resoluta e mais verde, sem desviar o olhar.