Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 1 de 26

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Ilustres ordinários do Brasil

Apresentação – Uma perspectiva acinzentada

Apresentação – Uma

perspectiva acinzentada

As nossas feições não passam de gestos que o hábito tornou definitivos. A natureza, como a catástrofe de Pompeia, como uma metamorfose de ninfa, nos imobilizou no movimento costumeiro. E, assim, nossa entonação de voz contém a nossa filosofia de vida, aquilo que a pessoa pensa das coisas a cada instante. […] O indivíduo está mergulhado em algo mais geral do que ele.

Marcel Proust

As duas dezenas de ensaios que compõem este livro, a maioria deles escrita ao longo dos útimos quinze anos, giram em torno de uma única e mesma obsessão: traçar uma história do Brasil – história fragmentada e avessa a qualquer pretensão sistêmica ou teleológica – a partir da descrição de uma galeria de tipos sociais e de tiques comportamentais que, por caminhos variados, a sociedade brasileira construiu e, pacientemente, consolidou para si ao longo do tempo. É, dito em outras palavras, um livro sobre pequenas permanências, sobre pequenos traços do país e do seu povo que, de tanto serem repetidos, lembrados, discutidos, por vezes cantados em verso e prosa, ganharam ares de verdade e produziram impactos sociocomportamentais mensuráveis; como diria o pensador alemão Nietzsche, traços que, de tanto serem enfatizados poética e retoricamente, parecem a um povo sólidos, canônicos e obrigatórios.

A leitura que proponho de tais permanências, de tais tópicas, não é, porém, adianto ao leitor desavisado, uma exaltação das supostas singularidades nacionais e, menos ainda, uma celebração das origens do ser brasileiro. Trata-se, antes, da genealogia de um punhado das muitas mazelas nacionais e dos modos que inventamos para as contornar, não para as resolver – contornar, a propósito, é um traço que coletivamente cultivamos há séculos e para o qual inventamos no século XX um nome, jeitinho brasileiro.

Tal leitura não é, tampouco, um mapeamento das nuances de uma suposta essência do brasileiro; ao contrário, os tipos que serão descritos ao longo dos ensaios têm a indelével marca do tempo e da instabilidade: têm um começo, uma duração (mais ou menos longa), um ocaso e, o que é mais importante, não indicam a priori que direção irão tomar no futuro. Nada seria mais frustrante do que o eventual leitor fechar este livro com a ideia de que o Brasil e o brasileiro são isto ou aquilo, e que isto ou aquilo está inscrito na natureza do país e do seu povo. Todo o empenho dos vinte e poucos ensaios aqui reunidos vai em direção oposta: mostrar que fomos e somos muitas coisas e que todas elas, ainda que umas resistam mais que outras, estão em movimento no tempo. As possibilidades, em suma, estão abertas, e o jogo, embora não tenha tantas opções como por vezes os mais voluntaristas querem fazer crer – há variados e poderosos condicionamentos que escapam àquele que age –, continua sendo jogado, ou seja, muitos brasis e muitos brasileiros ainda poderão ser experimentados.