Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 14 de 26

Páginas do PDF

Ilustres ordinários do Brasil

13 – O iluminismo possível de um rei carola

13 – O iluminismo possível de

um rei carola

Em 1833, num discurso dirigido ao Instituto Histórico da França, um membro novato da instituição, o brasileiro Francisco de Sales Torres Homem, ao iniciar um pequeno esboço sobre a história das ciências no Brasil, justificou do seguinte modo a pobreza do quadro que iria pintar diante dos seus colegas franceses: “Imaginai uma nação obrigada a permanecer imóvel nos seus elementos de humanidade e se absorver profundamente na unidade de um despotismo sistematicamente opressor, e compreendereis qual tenha sido o estado das ciências no Brasil durante três séculos. Nenhuma academia, nenhuma instituição literária, no meio desse mutismo da inteligência popular no seio desse torpor com que o despotismo da metrópole gravava todos os espíritos […]”.

O preâmbulo do jovem estudante brasileiro, ainda que fortemente marcado pelo sentimento patriótico característico da sua geração – a autointitulada geração romântica –, dá uma ideia razoável do que eram a educação e a cultura no país durante o obscuro período colonial, como então se dizia. Mesmo no Rio de Janeiro, cidade mais próspera da colônia, a situação era desoladora. A sede do vice-reino praticamente desconhecia a atividade intelectual: os livros eram raros, as escolas contavam-se nos dedos de uma mão, os mestres-escolas eram poucos e ignorantes, as escassas bibliotecas religiosas quase não viam público, os jornais não podiam ser impressos e as academias tinham vida curta e atividade minguada. Houve, é certo, a partir de meados do século XVIII, um pouco por todo o lado, alguns esforços isolados e descompassados no sentido de dar alguma vida ao setor, mas nada que arrancasse a cidade e o país da ignorância em que viviam.

Ter-se-ia tratado, como sugere o jovem romântico, de uma política articulada da metrópole, interessada em evitar que o refinamento cultural fomentasse o espírito de revolta entre os oprimidos colonos? Ora, não convém sermos tão melodramáticos: nem os colonos viviam num calabouço, nem a dita metrópole era tão precavida e vigilante. Portugal foi, ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, um país pouquíssimo letrado e, o que é pior, com uma população que sempre demonstrou um interesse muito pequeno pela cultura e pela educação formal. Diante de tal quadro, o que se poderia esperar na distante colônia dos trópicos?

O fato é que, somente com a chegada de D. João VI, em 1808, começou a surgir no país um ambiente minimamente favorável para a produção de cultura e para a educação formal. Data desse período o desencadeamento de um processo que, sem nenhum exagero, poderia ser denominado cruzada civilizatória, uma cruzada em que o que estava em jogo era, de um lado, a constituição de um povo razoavelmente patriota, ordeiro e trabalhador, um povo apto a se engajar na nova sociedade que nascia; de outro lado, a construção de uma cultura que pudesse ser denominada brasileira, que expressasse o espírito do povo, como diziam os românticos. Os tímidos passos iniciais de tal cruzada, que se estendeu pelo século XIX e contou com agentes diversos (médicos, pedagogos, juristas, jornalistas, beletristas etc.), sem dúvida remontam aos tempos joaninos.

É verdade que D. João VI, pessoalmente, não tinha qualquer pretensão ou disposição civilizatória. Os seus anseios, por certo, não eram tornar os habitantes locais mais letrados, cultos e patriotas, mas tão somente tornar o país administrável e a vida da Família Real e da nobreza cortesã mais aprazível, mais próxima daquela vida que haviam deixado para trás quando saíram apressadamente de Lisboa. É verdade, também, que, mais importante do que as medidas tomadas pela sua administração em prol da cultura e da educação, foi o clima que se gerou no país decorrente da maior circulação de gentes e ideias, clima propiciado especialmente pela abertura do Brasil aos estrangeiros. Todavia, é inegável que o desembarque desencadeou uma espécie de iluminismo à brasileira, um iluminismo, gostemos ou não, conduzido, no seu alvorecer, por um rei de cultura limitada, um rei cujos interesses intelectuais não iam muito além dos sermões pregados pelos sermonistas régios e da música sacra que soava na capela real.

As continuidades históricas são sempre temerárias e é extremamente desagradável lembrar-se de mazelas da história pátria, mas, com um monarca desses à frente do país justamente quando as letras nacionais davam os primeiros passos, é de se admirar que a cultura e a educação gozem, até hoje, como demonstram as pesquisas recentes, de um prestígio tão pequeno entre as famílias brasileiras?