Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 17 de 26

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Ilustres ordinários do Brasil

16 – O martírio do homem de letras

16 – O martírio do homem de

letras

Em 1893, Sacramento Blake, na introdução do segundo volume do seu renomado e utilíssimo Dicionário bibliográfico brasileiro, reclamava: “neste país quem não for dotado de muita força de vontade reunida à vocação irresistível para as letras, cairá desanimado quando pretender levar a efeito a publicação de qualquer trabalho de longo fôlego […]”. O lamento de Blake, no ocaso do Oitocentos, não constituía propriamente uma novidade. Desde o alvorecer do século, século que viu nascer aquilo que passamos com o tempo a denominar cultura brasileira, as reclamações relativas às dificuldades inerentes ao culto das letras eram a tônica dos discursos dos intelectuais desta parte do Novo Mundo.

A coisa começou cedo, antes mesmo do iluminismo possível desencadeado aqui pelo pouco ilustrado D. João VI em 1808. O árcade Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, já no século XVIII, lamentava quão dura e solitária era a vida de um poeta nas rudes terras da América. Costa, no entanto, é comedido no seu lamento se comparado aos gritos ruidosos do pai do romantismo brasileiro, Gonçalves Magalhães, ou à choradeira do seu amigo pessoal e colega de letras Torres Homem. O primeiro, em um artigo que praticamente inaugura a história da literatura brasileira no país, publicado na pioneira revista Niterói, em 1836, disparou: “O Brasil, descoberto em 1500, jazeu três séculos esmagado debaixo da cadeira de ferro, em que se recostava um Governador colonial com todo o peso de sua insuficiência, e de sua imbecilidade. Mesquinhas intenções políticas, por não avançar outra coisa, leis absurdas e iníquas ditavam, que o progresso da civilização, e da indústria entorpeciam. Os melhores gênios em flor morriam […]”.

O último levou a lamentação para além-mar e, num emocionado pronunciamento no Instituto Histórico de França, em 1833, não hesitou em explicar a pobreza da nascente cultura brasileira nos seguintes termos: “Imaginai uma nação obrigada a permanecer imóvel nos seus elementos de humanidade e se absorver profundamente na unidade de um despotismo sistematicamente opressor, e compreendereis qual tenha sido o estado das ciências no Brasil durante três séculos. Nenhuma academia, nenhuma instituição literária”.

A lamúria não parou aí, ao contrário, seguiu adiante e consolidou-se como um verdadeiro tópico da cultura nacional. Nada é mais ilustrativo de tal procedimento do que as conhecidas biografias de brasileiros ilustres que preencheram páginas e páginas das revistas culturais do século XIX. Os escritores do período colonial quase sempre são pintados aí como gênios oprimidos pela mão pesada da metrópole, homens que seriam verdadeiros Miltons, verdadeiros Cervantes, não fosse a implacável perseguição dos invejosos e ignorantes senhores de Lisboa. O pouco que escreveram esses enormes talentos deveria ser louvado e exaltado, pois custara muito esforço, muito sangue e muita lágrima. Januário da Cunha Barbosa, por exemplo, ao pintar o perfil intelectual de Basílio da Gama, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1839, vai ao ponto de ocultar o oportunismo no poeta – que, de discípulo dos jesuítas, passou a ostentar um discurso fortemente antijesuítico para agradar ao Marquês de Pombal – e de pintá-lo como um menino pobre e patriota que, de tão talentoso e esforçado, acabou por superar mil obstáculos e impressionar o próprio nobre.

Os intelectuais nascidos depois de 1808 ou depois da Independência não eram menos heroicos. É certo que não havia mais a opressão metropolitana a esmagar-lhes o ânimo, a tolher-lhes a iniciativa. Todavia, mesmo sem a opressão e com o talento natural para as letras tão característico do povo brasileiro – como diziam os românticos –, como tornar-se um Balzac, um Dickens diante do enorme desprezo dos concidadãos, da incúria das autoridades, da ausência de meios materiais, em suma, do pouco caso de um público inculto e sem interesse pelas coisas do saber? Nessa batalha inglória, somente os gênios, os sumamente empenhados, os heróis sobreviviam e se destacavam. O que produziam, é verdade, era pouco exuberante. Mas como não valorizar o talento de homens imbuídos de um empenho titânico, de um excepcional amor à pátria e à cultura? O crítico Sílvio Romero, um dos arautos do heroísmo dos homens de letras do país, na sua História da literatura brasileira, traduziu magistralmente tal sentimento quando asseverou: “o trabalho intelectual é no Brasil um martírio; por isso pouco produzimos; cedo nos cansamos, envelhecemos e morremos”.

À primeira vista, tamanha indignação e tamanha vontade de superar obstáculos e produzir cultura indicariam um anseio sempre frustrado de derramar a educação sobre todas as classes, de forjar um país onde a cultura letrada significasse um pouco mais do que simplesmente um artigo de luxo consumido pela gente bem-nascida. Todavia, isso não é bem assim. As reclamações dos homens de letras daqui, que ninguém se engane, sempre foram mais uma cantilena voltada para a exaltação dos poucos letrados existentes, para o realce do seu caráter heroico, nobre e abnegado, do que propriamente um desejo efetivo de apresentar soluções práticas e de criar condições efetivas para que um número mais amplo de indivíduos tivesse acesso ao conhecimento.

Ao que tudo indica, até hoje, a dita intelligentsia brasileira, não obstante as constantes reclamações de viver entre incultos, acredita piamente que ter cultura é um dom divino – este é o país dos talentos natos e individuais –, uma benção da natureza, impossível de ser gerada por meio de uma sociedade mais equânime, mais atenta à educação de todos os seus membros. Ou é isso ou, infelizmente, ao contrário do que pensavam os românticos, somos muito limitados, inaptos para o saber, pois há séculos lamentamos e patinamos no mesmo lugar: a cultura, tal como no Oitocentos, ainda goza de prestígio diminuto, a educação local persiste em ocupar as piores posições entre os países da América Latina, os índices de leitura dão vergonha a quem se proponha a comparar com os de outros povos e, o que é pior, dia após dia, continuamos elegendo homens e mulheres ignorantes e despreparados para conduzir os destinos do país, cidadãos que cotidianamente evidenciam o seu solene desprezo pela cultura.