Ilustres ordinários do Brasil
7 – Aventureiras no Brasil de antanho
7 – Aventureiras no Brasil de
antanho
Foi com um certo alívio que, em agosto de 1764, a inglesa Jemima Kindersley pôs os olhos sobre o litoral da Bahia, olhos cansados de dias de travessia marítima desde as Ilhas Canárias. Mal sabia a senhora Kindersley que se tornaria a primeira e, por quase meio século, a única mulher viajante a escrever sobre a imensa colônia portuguesa dos trópicos. A bem da verdade, em meio ao relativamente exíguo grupo de visitantes estrangeiros que, entre os séculos XVI e início do XIX, passou pelo Brasil e escreveu sobre o que viu – uns 200, pouco mais, pouco menos –, há notícia de somente três mulheres, a referida Jemima (1764), Elizabeth Macquarie (1809) e Rose Freycinet (1817). As três pioneiras permaneceram poucos dias no país (no máximo 60) e conheceram, muito ligeiramente, duas cidades brasileiras: Salvador e Rio de Janeiro.
Em linhas gerais, o que essas três europeias deixaram registrado sobre o Brasil, malgrado a distância temporal e outras particularidades que as separam – condições de viagem, período em que visitaram o país, meio em que circularam por aqui etc. –, não diverge muito entre si e, mais ainda, não diverge em nada dos padrões – temas e tratamento dos temas – encontrados nos relatos de viagem sobre o país escritos por visitantes do sexo masculino. Em outras palavras, não há, ao contrário do que procuramos olhando daqui, do século XXI, uma singularidade feminina nesses discursos. Predomina aí uma série de tópicos sobre o Brasil, que há tempos frequentavam as narrativas de viagem europeias.
As três, como era extremamente habitual entre os viajantes escritores, abrem a sua descrição do país oferecendo ao leitor uma perspectiva da exuberante natureza dos trópicos. Jemima, ao avistar Salvador, encanta-se com as casas brancas, contrastando com o azul do mar e o verde dos canaviais. Rose, a princípio pouco receptiva aos detalhes da paisagem, extasia-se com a Floresta da Tijuca, um dos mais bonitos e férteis recantos que vira na vida. A mais arrebatada das três, E. Macquarie, é categórica: “nenhuma descrição consegue dar, à pessoa que nunca pôs os olhos neste porto, uma boa ideia da sua admirável beleza e grandiosidade. A entrada é a mais bonita que há no mundo”.
Cedo, porém, as três senhoras, sempre fiéis aos padrões da literatura do gênero, ao menos daqueles referentes ao Brasil, passam ao contraponto de tamanha exuberância e riqueza naturais: a pouco civilizada e moralmente corrompida sociedade que o português estava construindo nos trópicos. A senhora Kindersley, por exemplo, desagradou-se de quase tudo que viu em Salvador. A cidade que pinta é imunda, desordenada, obscurecida pelas gelosias e, sobretudo, povoada por uma gente rude, demasiado papista e de moralidade mais do que deteriorada.
A senhora Macquarie, que encontrou a cidade do Rio de Janeiro repleta dos seus conterrâneos ingleses e mal saiu desse restrito círculo, descreveu-a com tons menos cinza, mas não deixou de registrar, de certo modo dialogando com a longa tradição de narrativas sobre a América portuguesa, que havia se surpreendido positivamente com a urbe, sobretudo tendo em conta a reputação de preguiçosos dos portugueses. Acerca dos habitantes, a esposa do futuro governador da Austrália não se habilitou a redigir uma única linha.
Madame Freycinet, por sua vez, foi extremamente discreta em relação à cidade, mas revela na sua narrativa que propositalmente evitou os cariocas – a francesa, segundo conta, pressentiu que os seus hábitos não lhe agradariam e resolveu frequentar somente gente de sua terra –, que a casa dos fidalgos era imunda e, recuperando uma sentença encontrada em pelo menos duas dezenas das narrativas de estrangeiros sobre o Brasil, disparou em tom de desabafo: “pena que um país tão belo não seja colonizado por uma nação ativa e inteligente”.
As três visitantes não se distanciaram dos padrões nem mesmo quando descreveram as suas congêneres dos trópicos. Duas delas, inclusive, engrossaram o enorme coro daqueles visitantes que viam com péssimos olhos a aparência, a educação e a conduta das mulheres da América portuguesa (índias, mestiças e brancas). Uma delas, Rose Freycinet, que diz ser incapaz de emitir qualquer opinião sobre a intimidade das cariocas, não deixou de comentar que eram ignorantes, sujas e envelhecidas antes do tempo. Jemima Kindersley foi ainda menos contida ao se referir às baianas que, aos seus olhos, eram incultíssimas, porém dotadas de uma enorme astúcia quando o que estava em causa eram aventuras amorosas. Jemima vai ao extremo de asseverar: “Pudera eu contar-lhe o que a escuridão da noite oculta daquelas que, durante o dia, são vistas somente nas igrejas, e as minhas missivas pareceriam um libelo sobre o sexo”.
A sentença de Jemima, porém, não era nova. O conhecido astrônomo abade La Caille, duas décadas antes, havia dito coisa parecida sobre as cariocas, as quais, uma década depois, seriam, em tom mais romanesco, repetidas por James Cook. Ambos, no entanto, tiveram antecessores, como o francês Pyrard de Laval que, em 1611, lançou sérias máculas sobre a conduta das baianas. Em suma, não somente as mulheres fáceis, mas também a natureza exuberante, as cidades confusas e barulhentamente mouriscas, as populações semiocidentalizadas, o cristianismo exagerado são tópicos, lugares-comuns, presentes na maior parte das relações de viagem sobre o Brasil produzidas pelos europeus entre os séculos XVI e XVIII. Tópicos de vida longa e larga penetração no repertório intelectual do Velho Mundo, o mesmo repertório, é sempre bom lembrar, que a intelligentsia brasileira oitocentista utilizou em larga medida para construir a sua ideia de Brasil e de brasileiros.