Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 5 de 26

Páginas do PDF

Ilustres ordinários do Brasil

4 – A metrópole e o interior

A “Paris de Alexandre Dumas ou de Paul de Kock, uma Paris de estudantes e costureiras, na qual podia ele à vontade correr a suas aventuras, sem fazer escândalo como no diabo da província”. Era desse modo que o herói do romance Casa de pensão, o provinciano Amâncio, rapaz rico e de caráter moldável como a cera, imaginava a renomada sede da monarquia brasileira, o Rio de Janeiro. Do mesmo modo que o jovem maranhense, dezenas de outros interioranos que habitavam o mundo dos romances oitocentistas viam a corte, mais tarde Capital Federal, como um lugar de múltiplas possibilidades, possibilidades amorosas, na perspectiva do deslumbrado Amâncio e de muitos outros, mas também possibilidades econômicas, intelectuais, políticas e, a despeito dos limites filosóficos estreitos do romance oitocentista local, existenciais.

É certo que, como em tantos outros pontos, os romancista e dramaturgos brasileiros não destoaram de seus congêneres europeus, os quais, ao longo do século XIX, promoveram um verdadeiro culto às metrópoles em suas obras, de Londres a Moscou, passando naturalmente por Paris. Por aqui, como anuncia o interiorano Amâncio, o Rio de Janeiro, a Paris dos trópicos, como gostavam os cariocas de outrora, ocupou tal lugar e, ao longo de todo o século XIX, praticamente não teve concorrentes. Incontáveis são os romances urbanos brasileiros do Oitocentos que têm a cidade e sua agitada vida social como cenário, um cenário ativo, que determina as possibilidades da trama e os contornos de suas personagens.

Os estudantes de medicina de Macedo, por exemplo, aqueles que dão vida à ingênua e popular trama de A moreninha, sem dúvida não poderiam viver num monótono e ermo lugarejo próximo, digamos, à fazenda da bela Inocência, do romance homônimo de Taunay. Repúblicas de estudantes universitários no Brasil ficcional oitocentista, a propósito, somente em quatro cidades: Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Todas, excetuando talvez São Paulo, já com ares de cidade agitada.

É também pouco provável que o encontro casual, ocorrido no anônimo entra e sai de um bonde, entre Romualdo – das Histórias brejeiras, de Artur Azevedo – e uma bela mulatinha que põe fim à sua vida de marido fiel pudesse ocorrer nas ruas pouco movimentadas da Barbacena de Rubião – do romance Quincas Borba, de Machado de Assis. E, certamente, se residisse nesse pacato lugarejo, o narrador de Cinco minutos, de José de Alencar, não conheceria a sua futura esposa, a quem teve a felicidade de encontrar num bem urbano bonde para o Andaraí.

A metrópole dos romances, todavia, não era pródiga somente em possibilidades amorosas. Em qual outro lugar, senão na sociedade carioca, sociedade dinâmica e variada em demasia para que uns soubessem da proveniência dos outros, a filha de uma costureira, Aurélia Camargo – a heroína do romance Senhora, de Alencar –, poderia, depois de receber uma gorda herança do avô, estrear nos salões como uma verdadeira rainha? E é, sem dúvida, graças ao mesmo anonimato propiciado pela intensa circulação de gentes e coisas que Lúcia – do romance Casa de pensão, de Aluísio Azevedo –, com o auxílio de sua escrava, pode realizar um aborto com relativa tranquilidade e muita discrição.

Nada que cause grande surpresa, afinal, o mundo urbano, com sua constante lufa-lufa, com suas ruas movimentadas, com seus inúmeros valhacoutos e cortiços, com suas pensões obscuras surgindo do nada, com seus teatros e casas noturnas, restaurantes e bailes, grêmios recreativos e reuniões sociais, era propício ao aparecimento e à sobrevivência daqueles seres de impulsos quase patológicos, daquelas meninas precocemente apresentadas à vida mundana, daqueles solitários e celibatários de comportamento suspeito, daquelas histéricas que não resistiam aos estímulos da vida moderna, daquelas educadoras estrangeiras de passado e moral duvidosos, daquelas prostitutas com trágicas histórias de vida, daqueles conquistadores e aventureiros que desencaminhavam moças casadouras, em suma, era propício ao aparecimento de estropiados e pervertidos de toda sorte. Mas o que seria das tramas ficcionais sem tais tipos? Que condições haveria para moralizar – um dos propósitos centrais de boa parte dos romances brasileiros oitocentistas – num ambiente sempre igual a si próprio, num ambiente, ao contrário da corte, desprovido de uma gama variada de desvios e desviantes a descrever e a condenar?

É verdade que a singela prosa de ficção brasileira viveu menos dos estropiados do que dos ajustados. Todavia, mesmo estes – médicos e advogados bem-sucedidos ou remediados, estudantes descobrindo a vida adulta, comerciantes ascendentes, homens de Estado, escritores, artistas e uma longa série de outros tipos urbanos —, onde poderiam ser encontrados, melhor, ambientados com verossimilhança a não ser no espaço plural da corte? Em larga medida, no mundo ficcional brasileiro do Oitocentos, vinha-se do interior e, por vezes, para lá se retornava para curar-se de uma doença, recuperar-se de um trauma ou para amargar um fracasso. Viver, porém, isso se fazia na metrópole; aí, sim, as potencialidades de uma existência poderiam ser plenamente exploradas.

É na metrópole que, com mais ou menos agruras, Isaías Caminha adentra no jornalismo, que Rubião, mesmo sem entender muito bem as regras do jogo, descobre o admirável mundo novo dos salões e que o rapazote Sérgio, interno num colégio, o Ateneu, inicia-se na vida adulta. É aí, também, que advogados de modestas posses podem ascender socialmente e arrumar um bom casamento, ou que um funcionário público de escalão médio e viúvo, como Luís Garcia, pai de Iaiá Garcia – do romance homônimo de Machado de Assis –, pode oferecer à filha uma educação liberal e encaminhá-la na vida, ou, ainda, que um imigrante pobre e rústico, como João Romão – do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo –, consegue, depois de ser sócio de uma escrava, acumular um bom pé de meia e posar de respeitável comerciante. É na grande cidade, em suma, que aqueles talentos que provavelmente definhariam no diabo da província são plenamente desenvolvidos e, com um pouco de sorte e jeito, reconhecidos.

De certo modo, é isso que, há mais ou menos dois séculos – o cenário pode ser o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, São Paulo, Porto Alegre ou qualquer outra grande cidade –, uma larga parcela dos romancistas brasileiros diz aos seus leitores. Ora, mas a metrópole ficcional é também o espaço da violência, da solidão, da desagregação psicológica e da miséria degradante? Por certo que sim, todavia o lado obscuro da grande cidade é uma espécie de preço a pagar por tantas possibilidades de vida, pelos inúmeros e intensos acontecimentos que a variedade e o anonimato permitem ao indivíduo experimentar. Pois então! Conta-se isso ao leitor durante mais de um século e depois se lamenta que o interior não avance culturalmente, que aqueles desejosos de vencer na vida se encaminhem desordenadamente para os grandes centros e que aos sonhadores acomodados no seu pequeno torrão natal reste somente carregar o estigma de perdedores, ou, ainda, que os soberbos habitantes das metrópoles olhem para os interioranos como se estes experimentassem somente metade da vida, talvez até menos.