Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 16 de 26

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Ilustres ordinários do Brasil

15 – O mais próximo do paraíso

O navegador florentino Américo Vespúcio, na sua renomada carta Mundus Novus, de 1503, depois de explicar ao seu destinatário, Lorenzo di Médici, a natureza da estranha gente que encontrara na sua passagem pelas terras que viriam a ser o Brasil, comentou: “A terra daquelas regiões é muito fértil e amena, com muitas colinas, montes, infinitos vales, abundante em grandíssimos rios, banhada de saudáveis fontes, com selvas amplíssimas e densas, pouco penetráveis, copiosa e cheia de todo o gênero de feras. Ali principalmente as árvores crescem sem cultivador, muitas das quais dão frutos deleitáveis no sabor e úteis aos corpos humanos […]. Se quisesse lembrar de cada coisa que ali existe e escrever sobre os numerosos gêneros de animais e a multidão deles, a coisa se tornaria totalmente prolixa e imensa […]. Ali todas as árvores são odoríferas e cada uma emite de si goma, óleo ou algum líquido cujas propriedades, se fossem por nós conhecidas, não duvido de que seriam saudáveis aos corpos humanos. Certamente, se o paraíso terrestre estiver em alguma parte da terra, creio não estar longe daquelas regiões, cuja localização […] é para o meridiano, em tão temperado ar que ali nunca há invernos gelados nem verões férvidos”.

Fertilidade da terra, variedade da fauna, exuberância da flora e clima temperado e salubre, livre dos rigores do inverno europeu, eis os pilares da descrição de Vespúcio, pilares que se perpetuarão nas narrativas de viagem sobre o Brasil, quando o tema abordado for a natureza dos trópicos. O clima ameno, por exemplo. O piloto francês Nicolas Barré, que desembarcou em companhia do cavaleiro Villegaignon na Baía de Guanabara em 1576, diz ter se surpreendido com a temperatura que encontrou na então denominada zona tórrida, onde esperava deparar com um calor capaz de fulminar um europeu: “ao contrário do que diziam os antigos, pareceu-nos bastante temperada, de tal modo que os homens que estavam vestidos não precisaram de se despir e os que estavam despidos não careceram de se cobrir”.

Um século mais tarde, a ideia do clima temperado persiste e, embora a Europa conheça nessa altura um pouco mais sobre a vida e a natureza dos trópicos, ainda é alvo de poucas contestações. Gabriel Dellon, um cirurgião francês preso pela Inquisição em Goa, que aportou na Baía de Todos os Santos em 1676, no segundo de seus dois livros com menções à passagem pelo Brasil, comenta: “Em todo o Brasil o clima é temperado e agradável, o ar é são, a terra fértil e, ao longo de sua costa, há inúmeros bons portos, onde os navios podem ancorar em segurança”.

Entre Barré e Dellon, no entanto, houve, no decorrer do século XVII, quem francamente suspeitasse do clima temperado. Em 1649, o aventureiro Richard Flecknoe, um inglês que se gabava de ter sido o primeiro turista a pisar em terras brasileiras, comenta: o clima do “país é quente e, devido às chuvas abundantes e contínuas, úmido”. Pouco depois dele, em 1666, um capuchinho italiano, Dionigi Carli, de passagem por Recife, a caminho do Congo, explicou: “Há somente duas estações neste país: uma primavera bastante temperada, mas muito chuvosa, durante a qual as árvores não perdem as suas folhas; e um verão muito quente e muito seco, de tal modo que, se não fosse o orvalho, a terra seria toda queimada e ressecada”.

Gradativa percepção da realidade, isto é, de que o clima do país era tropical e de que nada tinha de ameno? Longe disso. Ao longo do século XVIII, independentemente das regiões visitadas ou das estações em que cada visita se deu, as opiniões continuam a oscilar. É tal oscilação que permite ao inglês James Forbes, amante da história natural, ao passar pelo Brasil em pleno verão de 1765, asseverar: “a fertilidade dos vales, a suavidade do clima e a beleza da vida animal e vegetal conferem especial interesse a esta parte da América do Sul”.

Todavia, ao longo do século XVIII, malgrado a persistência da ideia de clima temperado, o calor dos trópicos passa, num crescendo, a sensibilizar os visitantes estrangeiros e, sobretudo, a parecer-lhes bastante inóspito e insalubre. O sábio francês Frézier, por exemplo, depois de uma breve estada em Salvador, registrou: “aproveitei ao máximo o tempo livre para visitar a cidade e seus arredores, malgrado a chuva constante, intercalada com um calor insuportável”. Acerca do Rio de Janeiro, cujo clima havia sido considerado ameno por Barré no século XVI, um visitante espanhol, Juan Francisco de Aguirre, que visitou a cidade em 1763, ponderou: “a cidade é dominada por montanhas, que formam, na parte ocidental, uma espécie de paredão. Essa configuração impede a circulação do ar e não permite que o vento refresque a região, de ordinário muito quente”.

Por sorte, no entanto, o quase paraíso de Vespúcio não era composto somente pelo clima, que, de ameno e salubre no século XVI, terminou o século XVIII com a reputação de excessivamente quente e, o que é pior, insalubre. O florentino também mencionara a exuberância da flora local, tema que cedo passou a marcar presença constante nos relatos sobre o Brasil e, ao contrário do clima, não sofreu qualquer variação ao longo de três séculos. As narrativas provenientes da França Antártica, mais uma vez, tiveram um papel importante na consolidação dessa ideia. Recorramos novamente a Nicolas Barré. Depois de descrever para os seus leitores um sem-número de produtos que havia encontrado na nova terra, empolgado, o piloto comenta: “A terra produz, ainda, favas grandes e pequenas, ambas muito boas para comer, e uma quantidade pouco significativa de cana-de-açúcar. Também em pequena quantidade são os limões e as laranjas aqui encontrados, pois os habitantes locais são extremamente negligentes no seu cultivo. Quanto às plantas medicinais, encontrei somente a beldroega, o mirto e o manjerico. Todo o resto é tão selvagem e grande que, se mestre Jean, o herbanário, aqui estivesse, ficaria, sem dúvida, bem embaraçado”.

Cerca de meio século mais tarde, em 1613, na outra França, a Equinocial, Louis Pezieu, em coro com seus companheiros capuchinhos instalados no Maranhão – Claude D’Abbeville, Arsène de Paris, Yves D’Evreux –, conta aos colegas capuchinhos de Paris que, onde se encontrava – no atual Maranhão –, se vivia uma primavera eterna. Tamanha exuberância não passou igualmente despercebida ao oficial da Marinha inglesa John Byron, o avô do poeta Lord Byron. O britânico, que visitou o Rio de Janeiro em 1764, em meio a muitos comentários elogiosos acerca da fertilidade da região, observou: “O local onde [a cidade] foi construída é muito agradável, especialmente devido ao grande número de árvores que o rodeiam, árvores que conservam o seu verdor durante todo o ano”.

Tão impressionante para os visitantes quanto a exuberância da vegetação local – cuja variedade e singularidade levaram o aventureiro Flecknoe a afirmar que “nem uma só árvore ou planta […] apresentava semelhança com as da Europa” – era a diversidade da fauna, o terceiro dos quatro lugares comuns vistos e revistos desde a carta de Vespúcio. A variedade dos pássaros, por exemplo. Raro o visitante que deixou de se referir, com mais ou menos detalhes, às vistosas e coloridas aves do Brasil. O mencionado turista Flecknoe, por exemplo, legou-nos a esse respeito uma impressão lapidar. Depois de alguns passeios pelos arredores do Rio de Janeiro, o inglês sentenciou: “As aves são tão belas que poderíamos afirmar que a natureza aprendeu aqui os seus matizes antes de pintar as nossas. Conquanto os pássaros da Arábia sejam chamados aves do Paraíso, merece o Brasil o nome de Paraíso das aves”.

As verdes e impenetráveis florestas brasileiras, construídas nas páginas das narrativas de viagem, não eram, contudo, habitadas somente por uma variedade infinita de pássaros. O imaginativo André Thevet, por exemplo, além de um capítulo dedicado às aves, “Das aves mais comuns da América”, não deixou de dedicar umas poucas páginas de seu relato de 1578 aos animais que supostamente eram caçados e consumidos pelos nativos da Baía de Guanabara, todos diferentes daqueles da Europa, como destaca Thevet. O aventureiro Hans Staden também havia dedicado umas tantas páginas de sua narrativa de 1557 aos animais da nova terra, aos que viu e aos que supôs existirem em matas tão amplas e densas: veados, porcos-do-mato, tatus, tigres, leões, capivaras e uns tantos outros.

Meio século mais tarde, em 1601, William Davies, um inglês que veio parar, na qualidade de escravo de um navio italiano, na embocadura do Rio Amazonas, também não deixou de comentar, na sua brevíssima narrativa, o quão variada era a fauna local: “Permaneci dez semanas no Amazonas e pude observar o modo de ser do povo e as características do lugar. A região é inteiramente coberta por florestas e povoada por todo tipo de animais selvagens, tais como leões, ursos, lobos, leopardos, babuínos, saguis, javalis esquisitos, macacos, andorinhões e muitos outros bichos estranhos. Os bosques estão cheios de pássaros selvagens dos mais variados, e é possível encontrar mais papagaios por aqui do que pombos na Inglaterra – a propósito dos papagaios, cheguei a comer vários deles e devo dizer que são muito saborosos”. Um século e meio depois, em 1745, um visitante que passou pelo Sul do Brasil, nomeadamente pela ilha de Santa Catarina, o abade René Courte de La Blanchardière, repete praticamente o mesmo: “As terras ao redor são bastante elevadas e de tal modo cobertas pela vegetação que se tornam incultiváveis; há, contudo, algumas faixas de terra nas quais os índios têm trabalhado. As matas estão repletas de tigres, macacos, javalis, papagaios e diversos outros animais”.

Nada, todavia, em se tratando da natureza dos trópicos, mereceu mais atenção do visitante do que a prodigalidade da terra, o quarto dos componentes centrais da modelar descrição de Vespúcio. É raro encontrar um relato acerca do Brasil colonial em que não haja ao menos uma pequena referência ao quão fértil era o solo local. Recorramos mais uma vez ao inglês Flecknoe: “A terra é quase toda coberta de matas e, com o solo virgem desde a criação do mundo, produz, sem nenhuma cultura, árvores frondosas e enormes, algumas das quais com sete ou oito braças de diâmetro e mais de 70 ou 80 de altura”.

Antes dele, de Vespúcio aos holandeses instalados no Nordeste, passando pelos franceses das Franças Antártica e Equinocial, por Hans Staden, Anthony Knivet, Pierre Laval e tantos outros, todos invariavelmente abraçaram a ideia do em se plantando tudo dá, e dá até mesmo sem plantar, sem nenhum esforço, sem nenhuma cultura, como se costumava dizer. O renomado pirata e escritor William Dampier, que passou por Salvador em 1699, chegou a sugerir que o solo, em geral, era de tão boa qualidade que quase dispensava, ou melhor, diminuía em muito o trabalho do agricultor. Foi, no entanto, Jemima Kindersley, uma inglesa que visitou Salvador em 1764, que deu tons de certeza às sugestões do pirata. Ouçamos a primeira mulher a publicar as suas impressões de uma viagem ao Brasil: “Há, espalhadas pela região, umas poucas propriedades rurais, com jardins providos com toda variedade de frutas, como bananas, melões, tamarindos, limas, cidras, limões, limões doces, romãs, melancias, e com árvores enormes cujos galhos vergavam com o peso das laranjas – fruta que aqui é extremamente comum e muitíssimo saborosa. […] O trabalho do agricultor é pouquíssimo requisitado por aqui, na medida em que, com um clima e um solo como estes, os mais variados frutos da terra crescem quase espontaneamente”.

Eis, em linhas muito gerais, o cenário natural do Brasil construído pelos visitantes estrangeiros nos relatos de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII. Vespúcio, sem dúvida, deu o tom ao atribuir à terra características de um quase paraíso, isto é, ao atribuir à terra características extraídas de uma certa ideia de paraíso presente na cultura ocidental, características tais como: a agradabilidade do clima – nem quente nem frio –, o verde eterno e a exuberância das matas, a variedade da fauna – dos pássaros, sobretudo – e a desmedida fertilidade da terra, que quase dispensava o labor humano para prodigalizar seus frutos. Uma visão do paraíso? Nem tanto, na verdade, melhor seria falar numa terra rica e aprazível, uma terra com bom clima, bons rios, bons portos etc., cuja fertilidade anunciava muitas riquezas aos seus colonizadores. O uso da metáfora do paraíso, ao contrário do que por vezes se apregoa, não ganhou muitos adeptos e cedo perdeu a sua força e a sua presença nas narrativas de viagem com menções ao Brasil. Para mais, a partir da segunda metade do século XVI, os portugueses já tinham se estabelecido na terra com mais vigor e as descrições das paisagens naturais começaram a dividir espaço nos relatos de viagem com as descrições do mundo urbano, do mundo que o colonizador estava criando nos trópicos. E esse mundo, com a sua gente de pouca moral, estava bem longe de qualquer terra prometida.