Ilustres ordinários do Brasil
6 – Nuances do humanismo nacional
6 – Nuances do humanismo
nacional
É de um escravo humilde sepultura, Foi-lhe a vida o velar de um sono atroz;
Deixa-o dormir no leito de verdura, Que o senhor dentre as selvas lhe compôs.
Ensinam-nos, desde a mais tenra idade, que versos como os citados – de autoria do poeta Castro Alves – colaboraram para construir entre os brasileiros do século XIX um sentimento de repúdio pela escravidão forte o suficiente para, em pouco tempo, liquidar definitivamente com o secular cativeiro de negros que maculava, diante de Deus e diante dos homens, a história do Brasil. É inegável que poetas como José Bonifácio de Andrada (o Moço), Trajano Galvão, Francisco Leite Bittencourt Sampaio, Luís Gonzaga Pinto da Gama, Castro Alves, Fagundes Varela e tantos outros que colocaram os seus versos a serviço da causa abolicionista, pintando em cores vivas o martírio dos cativos, desempenharam lá o seu papel na onda antiescravista que tomou conta do país a partir da segunda metade do Oitocentos. Todavia, acostumamo-nos a dar demasiada importância ao impacto de tais ímpetos humanistas e, comodamente, a esquecer que o carro da abolição foi movido também por um outro combustível tão ou mais potente do que essa cristã indignação. Refiro-me ao medo, não ao medo de uma rebelião ou de um levante, mas ao medo dos males físicos e morais que o escravo, segundo se dizia na época, cotidianamente levava para o interior da casa do branco.
Expressão modelar desse menos digno mas igualmente poderoso sentimento que tomou conta de uma parcela significativa da população brasileira do período é o pouco conhecido romance As vítimas-algozes, do médico e escritor Joaquim Manuel de Macedo. O singelo autor de O moço loiro, é bom lembrar, foi um dos romancistas mais empenhados em fazer cumprir a missão civilizatória que então se atribuía à prosa de ficção, especialmente no que diz respeito ao seu potencial moralizador. Desde A moreninha (1843), o fecundo escritor carioca procurou, no dizer de um crítico da época, compor uma obra de suma moralidade, que funcionasse como “um poderoso antídoto contra o veneno corrosivo da sociedade em que vivemos”. Foi imbuído desse afã moralizador que, no final da década de 1860, o já conhecido e respeitado romancista resolveu debruçar-se sobre um dos mais agudos e delicados problemas que assolavam a sociedade do seu tempo: a escravidão. O resultado é o mencionado As vítimas-algozes (1869), romance hoje pouco conhecido, mas extremamente importante para o entendimento do pensamento oitocentista acerca da escravidão e de suas implicações.
Vítimas… é, ao seu modo, um romance abolicionista. Não daquele abolicionismo que encontramos nas obras dos poetas anteriormente relacionados. Como explica Macedo, na nota “Aos Nossos Leitores”, não lhe interessou, nas educativas e moralizantes histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar “o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo”, mas, sim, o “quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor”. Dito de maneira mais direta, o romance antiescravista de Macedo quer convencer os seus leitores de que é preciso libertar os escravos não por razões humanitárias, mas porque os cativos, sempre imiscuídos nas casas-grandes e nos sobrados, introduzem a corrupção física e moral no seio das famílias brancas.
Macedo nem foi o primeiro e nem seria o último a defender essa que nos parece hoje uma tese bizarra. Nos romances e nas peças oitocentistas, são incontáveis as vezes em que o escravo é pintado como o agente corruptor de uma sociedade que se quer moral e fisicamente higienizada. Lembremo-nos, a título de exemplo, do moleque Tobias, da peça O demônio familiar (1856), de José de Alencar; da mucama Bráulia, do drama História de uma moça rica (1861), de Pinheiro Guimarães; do mulato Lourenço, da peça O escravocrata (1882), de Arthur Azevedo e Urbano Duarte; do feiticeiro Joaquim Cambinda, do romance A carne (1888), de Júlio Ribeiro; ou, ainda, da mulata Noca, do romance A falência (1901), de Júlia Lopes de Almeida. De diferentes maneiras, todas essas figuras negras, ao levarem o desassossego e o barbarismo para o interior da casa do branco, vinham lembrar-lhe que o flagelo da escravidão era um mal também para os senhores.
Mas, se o autor de Os dois amores não primou pela originalidade, primou pela clareza com que explicita as suas posições e pela capacidade de tipificação. As vítimas-algozes põe em cena uma das mais amplas galerias de tipos negros da literatura oitocentista, constituindo uma bela amostragem da imagem que certa parcela da sociedade brasileira – a parcela branca, letrada e detentora de escravos – tinha do africano e de seus descendentes. Desfilam pelas páginas das três histórias que compõem o livro: o negro feiticeiro, o moleque traiçoeiro, a escrava assassina, as negras que se amasiam com seus patrões, a mucama lasciva, os negros desocupados dos botequins, os mulatos espertalhões, enfim, um sem-número de tipos que demonstram ao leitor o quão comprometedor da estabilidade social era a presença do escravo na intimidade doméstica.
Se tais tipos deram um contributo mais relevante para a formação de uma mentalidade abolicionista do que os negros martirizados da poesia abolicionista, é algo que dificilmente poderemos determinar com precisão. Uma coisa, porém, é certa: ao término da escravidão, as vítimas do cativeiro que habitavam os versos indignados dos poetas abolicionistas, se não caíram no esquecimento, tornaram-se gradativamente uma lembrança distante daquele momento triste mas especial da história pátria, momento em que as almas sensíveis do país perceberam que havia algo de ofensivo, a Deus e aos homens, no cativeiro de seres humanos.
Ironicamente, no entanto, malgrado essa janela da consciência que costumamos abrir quando atentamos para o quão tardia foi a abolição da escravatura no Império dos trópicos, vida mais longa e ativa do que os cativos sofredores da poesia abolicionista tiveram aqueles tipos nascidos daquela literatura que buscou ressaltar os tais perigos que a natureza bárbara do escravo, a sua animalidade, como então se dizia, representava para a sociedade civilizada. É desconfortável admitir, mas personagens como a mulata lasciva que corrompe o lar do branco, o negro alcoólatra e violento que leva o desassossego aos cidadãos de bem, o preto velho feiticeiro que infesta a sociedade de crendices e impede o avanço das luzes, o negro servil e traiçoeiro, o mulato indolente e tantas outras figuras menos virtuosas que povoaram as páginas dos dramas e romances oitocentistas ganharam uma espécie de vida própria, encontrando boa acolhida no repertório intelectual do brasileiro e, não obstante as mudanças por que passou a cultura nacional, determinando em muito os lugares que a sociedade local disponibilizou para negros e mestiços – muito mais, sem dúvida, do que os tocantes mas apagados negros injustiçados da poesia condoreira. De certo modo, acabamos por fazer a mesma opção de Macedo que, na introdução do seu libelo antiescravista, escreveu: “Esquecemos o Bug-Jargal, o Toussaint Louverture e o Pai-Simão; o escravo que vamos expor a vossos olhos é o escravo de nossas casas e de nossas fazendas, o homem que nasceu homem, e que a escravidão tornou peste ou fera”.