Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 11 de 26

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Ilustres ordinários do Brasil

10 – Incompetência ou vileza?

Há um episódio curioso da história do Brasil, lamentavelmente pouco ensinado nas escolas, que diz muitíssimo sobre o modo como os administradores deste país zelam pela vida das populações que estão debaixo de sua responsabilidade. O caso é mais ou menos o seguinte. Em 1711, a então próspera cidade do Rio de Janeiro, escoadouro das riquezas que começavam a vir das Minas Gerais, viu-se, numa enevoada manhã de setembro, invadida por corsários franceses, sob o comando do renomado almirante René Duguay-Trouin. Reza a história que, aproveitando-se de um intenso nevoeiro, os corsários passaram pela embocadura da Baía de Guanabara, tomaram a Ilha das Cobras e em poucos dias tornaram-se senhores da cidade. Os custos para a população de tão inoportuna visita foram significativos. Além de terem de arcar com um polpudo resgate – condição imposta pelo pirata para não reduzir a cidade a cinzas –, os cariocas viram as suas casas serem saqueadas e destroçadas, suas igrejas vandalizadas e roubadas, seus poucos monumentos destruídos e, sobretudo, alguns vizinhos serem mortos.

À primeira vista, tudo leva a crer que as autoridades e a população foram pegas de calças curtas e não tiveram nem tempo, nem meios para deter o avanço dos invasores. Uma fatalidade, em suma. A história, porém, é um pouco mais complexa e, por que não dizer, sórdida. Poucos meses antes do ocorrido, em agosto de 1710, a cidade tinha sido atacada por um outro grupo de corsários franceses, liderados por Jean François Duclerc. Nessa ocasião, uma série de erros estratégicos cometidos pelos invasores livrara a urbe do pior. Duclerc acabou, inclusive, prisioneiro dos cariocas e foi assassinado na cidade – não se sabe ao certo se por razões de Estado, vingança vil ou querela amorosa. Tinha-se, pois, tanto em Portugal quanto no Brasil, ciência de que os franceses alimentavam grande interesse pela cidade e, mais ainda, sabiam da fragorosa derrota de Duclerc. Mas não só. Poucas dias antes de pôr-se a caminho do Rio de Janeiro, a frota de Duguay-Trouin – composta por 17 embarcações e 1.500 homens – havia sido descoberta pelos ingleses, que tentaram deter a sua partida do porto de Breste, obrigando o corsário a reagrupar e partir do porto de La Rochelle.

Trocando em miúdos, as administrações metropolitana e colonial estavam cansadas de saber que os franceses tinham organizado uma nova frota corsária e que estavam a caminho do Rio de Janeiro. Apesar disso, todos relaxaram e não tomaram qualquer providência. O alemão Jonas Finck, cujo navio – uma embarcação inglesa a caminho da Índia – estava reabastecendo na cidade quando da invasão, dá-nos uma medida do tamanho da despreocupação e do improviso: “no dia 24 de agosto, o governador do Rio de Janeiro foi informado de que uma frota de 15 navios tinha sido vista perto da costa do Brasil. Uns não acreditaram na notícia, outros mostraram-se preocupados, pois temiam que fossem navios franceses, que vinham vingar a derrota sofrida há um ano pelos seus compatriotas. […] Os portugueses, diante das notícias, começaram a preparar-se para a defesa […]”.

Ora, pelo que se vê, as autoridades não foram vítimas do cruel destino, mas da sua secular imprevidência, do desleixo português. Mas o problema não acaba aí. Os cinco testemunhos da invasão de que dispomos – três franceses, um alemão e um inglês – são unânimes em asseverar que o governador e seus generais perderam diversas batalhas ganhas, ora por covardia, ora por incompetência, ora pelos dois. Ouçamos, a esse respeito, o que deixou registrado uma dessas testemunhas do ocorrido, o capitão inglês Joseph Collet. Aos seus superiores na Inglaterra, o capitão, um espectador neutro do episódio, relatou o seguinte: “14 dias depois da nossa chegada, o senhor Duguay-Trouin, à frente de 15 navios de guerra franceses, algumas fragatas e duas bombardas, entrou no porto e, em menos de uma hora, dele assenhorou-se. E isso malgrado a oposição dos fortes portugueses e de quatro dos seus navios de guerra. Em três dias, os franceses se apossaram da cidade e de todos os fortes, os quais eram bastante poderosos. As forças terrestre e naval francesas perfaziam cerca de 3.500 homens. Os portugueses, por seu turno, contavam com mil soldados das tropas de linha, 200 marinheiros, quatro mil cidadãos armados e entre sete e oito mil negros. Todos, depois de uma pequena canhonada e sem que houvesse um único ferido, deixaram a cidade durante a noite, mandando à frente suas mulheres e riquezas. E assim procederam não por falta de armas ou munição, que foi deixada para trás em grandes quantidades”.

Até mesmo os invasores, que tinham interesse em valorizar a vitória, deixaram escapar reiteradas vezes nos seus testemunhos que as tropas francesas estavam mal preparadas e cometeram inúmeros erros, os quais foram compensados pela inépcia portuguesa. A incompetência foi tanta que o interventor nomeado pela coroa – um homem decidido, do gênero faça ou vá embora –, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, escreveu ao governador-geral do Brasil que, quando chegou ao Rio de Janeiro, a população estava revoltada e queria matar o governador Francisco de Castro Morais, o Vaca – note-se bem, não vaiá-lo, mas matá-lo –, a quem acusavam de covardia, incompetência e, em última instância, de ter vendido e entregue a terra.

De fato, Francisco de Castro Morais, depois de uma devassa – a CPI de então –, foi julgado culpado pela perda da cidade e condenado ao degredo, com prisão perpétua, numa fortaleza da Índia. O Vaca, como era conhecido, foi perdoado em 1730 e retornou para Lisboa – com direito a ter seus vencimentos restituídos. Prova de inocência? Nem tanto. Hoje sabemos, por meio da correspondência mantida entre o Vaca e Duguay-Trouin, que o governador do Rio de Janeiro comportou-se de maneira covarde e subserviente em relação ao inimigo; sabemos, igualmente, que o mediador do acordo de rendição, o jesuíta Antônio Cordeiro, nutria enormes simpatias pelo senhor Duguay-Trouin e que sua ordem recebeu muitos elogios nas Memórias legadas pelo corsário; sabemos, ainda, o que é pior, que o sobrinho e ajudante do Vaca, um tal Francisco Xavier de Castro Morais, de maneira cínica, obscena e acintosa, trocou, ainda durante a invasão, afetuosa correspondência com um dos invasores, o capitão-general e intérprete Louis Chancel de Lagrange. Em missiva datada de 13 de outubro de 1711, Xavier escreve ao amigo Lagrange: “Meu senhor. Suponho vive vossa mercê do sentimento do muito que o amo, assim não ignorará o muito que vivo saudoso da sua vista. Razões que me obrigam a pedir a vossa mercê que me dê alívio de novas suas, enquanto o tempo me dilata o de lhe dar muitos abraços, beijar-lhe a mão, e pedir-lhe ocasiões de seu serviço que, suposto os sucessos e termos a que chegamos, me não deem muito ânimo a ir a essa cidade, vivo tão afeiçoado às prendas e à generosidade de vossa mercê que, ainda que seja mais ao tarde, hei de procurar-me dar de satisfação este gosto, que vossa mercê apeteço”. Venhamos e convenhamos, ainda que levemos em conta as normas de polimento de então, o tom é de cúmplices, não de inimigos em confronto.

Ao que tudo indica, pois, além de imprevidentes e de incompetentes, as autoridades foram corruptas. A dar ouvidos aos lamentos populares coetâneos e às evidências posteriormente descobertas, Castro Morais e os seus apadrinhados realmente venderam a cidade do Rio de Janeiro para os franceses – sabe Deus a que preço. Resta, porém, nesse caso todo, ao menos um consolo: à época, não se imputou a culpa pelo desaire a nenhum soldado raso morto em combate, ainda que o Vaca, quando interrogado por que não se preparara devidamente para o ataque e não cuidara para que seus subordinados não agissem de maneira tão covarde durante a batalha, muito provavelmente tenha respondido: eu não sabia de nada!