Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 26 de 26

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Ilustres ordinários do Brasil

25 – Mundo violento

 

Os portugueses, quando olham para si próprios, enxergam-se como um povo de brandos costumes, embora ninguém saiba lá muito bem o que isso quer dizer. Do lado de cá do Atlântico, contrariando um discreto espírito antilusitano que cultivamos, copiamos, nesse ponto, o colonizador e, estranhamente, gostamos de pensarmos em nós próprios como um povo pacífico. E isso malgrado termos presidiários que picam os colegas de cárcere, índios que exterminam garimpeiros e verdadeiras faixas de Gaza nas periferias das grandes cidades, para ficarmos em uns poucos exemplos. Curioso é que tal incongruência vem de longa data, pois nem é nova a ideia de um povo pacífico e, menos ainda, a violência cotidiana do país. A bem da verdade, o mundo que, sob a tutela dos colonos brancos, negros, índios e mestiços criaram nos trópicos nasceu violento e nunca deixou de sê-lo, ainda que cultivemos um gosto meio esquizoide em dizer o contrário.

O tal encontro entre brancos e índios, mito fundador da nossa cultura desde o romantismo, teve, como é sabido, um custo humano altíssimo. Temos um dileto gosto por Caminha e pelos seus reiterados e simpáticos elogios aos índios – “porque certo esta gente é boa e de boa simplicidade” –, mas os sentimentos, digamos, predominantes em relação ao gentio, sentimentos que condicionaram a ação dos impávidos colonizadores europeus, são mais bem traduzidos pela pena de Gandavo que, em 1576, na sua História da província de Santa Cruz, asseverou: “são desagradecidos em grão maneira e mui desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo. Vivem todos mui descansados, sem terem outros pensamentos senão de comer, beber e matar gente […]”.

Ora, tal perspectiva não parece remeter para uma relação muito harmônica entre colonizador e autóctone, parece, sim, indicar ânimos exaltados, desconfiança, violência. Uma violência, vale destacar, totalmente naturalizada, incorporada ao cotidiano das gentes dos trópicos. A redução do bárbaro, como então se dizia, era mesmo motivo de grande celebração pública, de regozijo para a população. Recordemos, entre tantos exemplos possíveis, a enorme festa preparada pelo governador Afonso Furtado, em 1673, para receber os bandeirantes que contratara com o intuito de exterminar os gentios bárbaros que atemorizavam a população da Bahia. Acerca da entrada dos prisioneiros de guerra na cidade de Salvador, diz um coetâneo: “Era isto nos últimos dias do mês de agosto, dia alegre e festivo para todo o povo, pois chegavam a ver debaixo do seu jugo aqueles cuja causa tanto padeciam”. O mesmo observador, mais adiante, depois de descrever a longa procissão dos desgraçados, conclui: “marchava esta gente, casa pessoa, homem ou mulher, uma após da outra, tocando, a trechos, seus instrumentos, se para nós (ainda que bárbaros) alegres, para eles, tristes”.

O que esperar, porém, de homens na sua maioria brutos e iletrados, homens que se dispunham a habitar lugares em que, como conta, em 1769, o sargento-mor Teotônio José Juzarte, no seu Diário da navegação, durante a noite era preciso andar com um pano no rosto para evitar que uma das milhares de baratas que voavam na mais completa escuridão entrasse pela boca adentro? O que esperar de homens que estabeleciam entre si – brancos livres – relações também elas permeadas pela violência e pelo mando? Não por acaso, mais de um estrangeiro que visitou as cidades coloniais brasileiras notou que as autoridades tratavam a população com uma severidade pouco comum. O renomado capitão James Cook, por exemplo, chegou a registrar, em 1768, que os habitantes se comportavam em relação às tropas regulares “de uma maneira muito humilde e submissa”. Ainda segundo o capitão, a coisa ganhava tais proporções em matéria de arbitrariedade e violência que, se uma pessoa não tirasse o seu chapéu quando passasse por um oficial, corria o risco de ser espancada. Cook concluiu que “esse excesso de arrogância e de dureza” tornava o povo “extremamente submisso em relação a todo e qualquer desconhecido que tenha um ar acima do comum”.

Mas o que esperar, sobretudo, de homens que, desde muito cedo, se acostumaram a manter com o enorme contingente de negros e mulatos da população uma relação sustentada em grande parte na brutalidade e no mando? Admitamos até que Gilberto Freyre tenha razão, que realmente as relações entre senhores e escravos no Brasil mostraram-se mais amenas do que em outras partes da América – afinal, somos um povo pacífico, colonizado por um povo de brandos costumes. Isso em pouco ou nada diminuiu o caráter intrinsecamente violento de uma sociedade em que uns eram tratados como brutos e outros adorados e temidos como deuses, como dizia Vieira. E não se trata somente daqueles casos, digamos, pontuais, daqueles casos em que a violência é extrema, como na cena descrita pelo holandês Dierick Ruiters em 1618: “Vi, certa feita, um negro faminto que, para encher a barriga, furtara dois pães de açúcar. Seu senhor, ao saber do ocorrido, mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Seu corpo ficou, da cabeça aos pés, uma chaga aberta, e os lugares poupados pelo chicote foram lacerados à faca. Terminado o castigo, um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. O infeliz, sempre amarrado, contorcia-se de dor. Tive, por mais que me chocasse, de presenciar a transformação de um homem em carne de boi salgada e, como se isso não bastasse, de ver derramarem sobre suas feridas piche derretido. O negro gritava de tocar o coração. Deixaram-no toda uma noite, de joelhos, preso pelo pescoço a um bloco, como um mísero animal, sem cuidarem de suas feridas”.

A violência da escravidão nem sempre é tão espetacular, se o fosse certamente não seria suportável e não teria vida tão longa. A sociedade colonial destilou-a nos pequenos gestos, nos ditos ambíguos, no tratamento ríspido e autoritário dispensado aos hierarquicamente inferiores, nos sutis mas agressivos delitos faciais que criou, no desprezo catolicamente consternado pela miséria, em suma, destilou-a nos hábitos comezinhos, naturalizando-a e tornando-a parte constitutiva do modus vivendi que gradativamente os habitantes locais passaram a denominar brasileiro.

Já Joaquim Nabuco, no seu libelo A escravidão, publicado em 1868, alertava, a seu modo, para essa violência cotidiana e de longa duração que a escravidão inoculara na sociedade brasileira. As gerações vindouras, destacava o escritor, herdarão um enorme passivo deixado pela sociedade escravista, um passivo composto em larga medida pelos vícios e pelas perversões de um mundo de homens acostumados ao exercício do poder sem limites, de um mundo violento. Ouçamos o próprio Nabuco: “Vivendo a escravidão com a sociedade intimamente, adaptou-se a ela, comunicou-lhe os seus vícios, carregou de opróbrio seu passado e de sombras o seu futuro; eis como o punhal, com que durante cerca de quatro séculos a raça branca feriu a raça negra, levanta-se hoje sobre o seu coração envenenado nas chagas da vítima”.

E nunca é demais lembrar que o flagelo do cativeiro de negros, como gostam os oitocentistas, acabou há menos de um século e meio. Muito tempo? Nem tanto para uma prática que durou mais de três séculos entre nós e foi, queiramos ou não, constitutiva daquilo que entendemos por sociedade e povo brasileiros. É difícil crer que, alicerçada em tais bases, essa mesma sociedade, tradicionalmente muito lenta em corrigir distorções e reticente em discutir e alterar padrões, pudesse ou possa produzir um povo pacífico, um povo de bom coração, como se costuma dizer.

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