Ilustres ordinários do Brasil
14 – O louco período joanino
Em junho de 1811, lá pelo dia 15, entrou no porto do Rio de Janeiro uma fragata portuguesa de nome Princesa Carlota. A ancoragem não mereceu nem mesmo uma nota da Gazeta do Rio de Janeiro, periódico que comumente dava notícias das embarcações mais notáveis que procuravam o movimentado porto carioca. A fragata, que saíra de Lisboa em meados de março e passara por maus momentos durante a viagem – ventos contrários, calmarias prolongadas e tempestades –, estava caindo aos pedaços, e tanto a tripulação quanto os passageiros vinham esfomeados ou doentes, o que certamente colaborou para a sua discreta arribada.
Em meio aos desafortunados passageiros que desembarcaram no Rio de Janeiro em meados de junho – certamente todos muito mal-humorados –, encontrava-se um homem de 30 anos, chamado Luiz dos Santos Marrocos. O português, como muitos de sua geração, vinha de Lisboa com um emprego garantido na burocracia estatal, o de bibliotecário da Biblioteca Real, e, também como muitos de seus contemporâneos, vinha com o declarado e firme propósito de melhorar de condição e retornar para junto da sua amada família na terrinha. A vida, porém, pregou uma peça nesse rabugento bibliotecário. Uma vez estabelecido no Rio de Janeiro, os ventos correram-lhe de feição, a terra pareceu-lhe cada dia menos hostil e ele acabou por deixar-se ficar na cidade, contrariando o que escrevera ao pai poucos meses depois do seu desembarque: “creia […] se Sua Alteza Real me enchesse de benefícios tais que me visse elevado a um grau sublime de representação e abundância, nada me faria desvanecer da minha ideia o constrangimento com que vivo e o sumo desejo de me retirar de tão mau país. Deus permita não terminar meus dias debaixo deste horizonte […]”.
Esse imigrante português saudoso e impertinente era filho de Francisco José dos Santos Marrocos, um professor de filosofia que também exercia, na Biblioteca Real da Ajuda, em Lisboa, o cargo de bibliotecário. Nascido na capital portuguesa, em 1781, há já algum tempo Luiz Marrocos pertencia, como o pai, aos quadros do funcionalismo público, ocupando a função de ajudante das Reais Bibliotecas. Depois de transferir-se para o Brasil, em 1811, a sua carreira progrediu muito e rapidamente. “Eu aqui principiei a adotar o sistema de Maria vai com as outras”, escreveu o bibliotecário em 1812. O sistema parece ter dado excelentes resultados, pois, ao morrer em 1838, com apenas 47 anos, Marrocos exercia a importante função de oficial-maior da Secretaria de Estado dos Negócios do Império, um cargo nada desprezível para quem, há 20 e poucos anos, desembarcara na cidade como simples ajudante da recém-inaugurada Biblioteca Real.
Além de tamanho progresso profissional, o país que a princípio lhe parecera tão desagradável proporcionou-lhe pelo menos uma outra grata surpresa: uma esposa. Em 22 de setembro de 1814, Marrocos, cansado de estar “só e doente em terra estranha”, como comentou com o pai, casou-se com Dona Ana Maria de Santiago Sousa, uma carioca de 22 anos de idade, filha de pai português e mãe brasileira, “gente muito limpa, honesta e abastada”, como explicou aos seus familiares, sem deixar de referir que o pai da moça, José de Sousa Mursa, era homem “conhecido e respeitado de grandes personagens da cidade”.
Marrocos não se mostrou insensível a tamanhos benefícios que o Brasil lhe trouxera e, com o correr dos anos, mudou substantivamente a sua visão do país. Prova disso, são as diferentes reações que teve quando, em duas ocasiões, se viu diante da possibilidade de trazer os parentes lisboetas para o Rio de Janeiro. Em 1812, respondendo a uma indagação do pai, que queria, ao que tudo indica, vir com o resto da família para a cidade, o contrariado bibliotecário, depois de explicar os horrores que passariam durante a viagem, arrematou com a seguinte advertência: “reflita na qualidade da terra; porque há nela sempre uma contínua epidemia de moléstias, pelos vapores crassos e corruptos do terreno e humores pestilentos da negraria e escravatura, que aqui chega da costa leste; […] além disso, a cidade é de pouca extensão e muito semelhante ao sítio de Alfama ou, fazendo-lhe muito favor, ao bairro Alto nos seus distritos mais porcos e imundos. Ora, quem vem de Lisboa aqui desmaia e esmorece […]”.
Isso disse Marrocos em 1811, poucos meses após desembarcar. Mais tarde, porém, em meados de 1819, depois de ter se casado, se adaptado à terra e progredido bastante profissionalmente, é o próprio bibliotecário quem retorna à ideia e, determinado a convencer os seus familiares a virem para o Brasil, escreve uma longa carta aos seus, enumerando as vantagens de imigrar. Antes de exaltar as virtudes da terra, lembra ao pai que a família levava uma vida miserável em Lisboa e que o patriotismo era “um frívolo pretexto de gente caduca”, ainda mais se a pátria em questão era uma terra ingrata como Portugal. Em seguida, exalta as qualidades da vida que passara a levar depois que viera para o Brasil, vida cômoda e aprazível: morava em uma casa grande e bem localizada, tinha diversos escravos para servi-lo, comia do bom e do melhor, vestia-se com dignidade, enfim, estava numa situação muito confortável e poderia – garante ao pai – proporcionar o mesmo a ele, à mãe, irmã e tia.
Logo adiante, na mesma carta, para arrematar o seu insistente convite, Marrocos destaca as qualidades do lugar onde morava e não esconde o quanto mudara a sua visão do Rio de Janeiro. Ouçamos o bibliotecário: “o sítio […] é magnífico, e talvez o melhor da cidade, não só por ser lavado de bons ares, mas em uma rua muito larga e asseada, tendo no princípio um formoso chafariz, e no fim o Passeio Público […]; temos próximas três igrejas e duas capelas, uma praça de hortaliça e o matadouro com açougue, além de mil outras comodidades […]; sendo de não menos vantagem a proximidade do mar para limpeza e despejo da casa […]”.
Tudo isso que sabemos sobre esse tal Marrocos, um imigrante que, como se vê, progrediu muito em solo carioca, quem nos conta é ele próprio, pois, ao longo da primeira das quase três décadas em que viveu no Brasil (1811-1838), o português escreveu periodicamente à sua família, sobretudo ao pai. Foram 186 cartas que chegaram até nós, redigidas entre junho de 1811 e março de 1821. A primeira, cujo conteúdo já mencionamos, descreve a miserável viagem a bordo da fragata Princesa Carlota, e a última, remetida meses antes de D. João VI deixar o Brasil, dá conta de seu rompimento com a família, que parece não ter aceitado muito bem nem o seu casamento, nem o seu gradativo abrasileiramento.
Ainda que uma boa parte dessas quase duas centenas de cartas trate de suas atribuições na Biblioteca Real – tema que muito interessava ao pai, bibliotecário como ele –, do seu progresso profissional, da falta que sentia de notícias da família e das mazelas dos políticos e funcionários que cercavam D. João VI – quase todos pintados como corruptos, ignorantes, levianos e, sobretudo, incapazes de pensar no bem comum –, Marrocos encontrou tempo e disposição para tecer comentários um pouco sobre tudo, da saúde dos membros da casa real ao enervante espírito patriótico que tomava conta dos brasileiros.
O bibliotecário não é um cronista e tampouco tem preocupações históricas. As suas cartas são redigidas em estilo simples e corrido, sempre repletas de mexericos sobre a vida na corte e pouca atentas aos hábitos e costumes dos cariocas. Quando deixava de lado tais mexericos e o mundo dos livros, Marrocos tinha uma meia dúzia de temas aos quais, volta e meia, retornava. Um dos seus preferidos era as doenças. O pobre bibliotecário tinha a saúde debilitada – lembremos que morreu com somente 47 anos – e constantemente reclamava com os parentes de tosses, febres, dores pelo corpo, vertigens súbitas e, sobretudo, das hemorroidas – mal que trouxe de Lisboa e que parece ter piorado muito com o calor dos trópicos.
Frágil, preocupado e um tanto hipocondríaco, Luiz estava constantemente atento ao estado da saúde pública do Rio de Janeiro, que tinha na conta de um verdadeiro matadouro de portugueses. A cidade, que crescera desmedida e rapidamente, era imunda, rodeada de águas podres e com um clima que o bibliotecário reputava pavoroso: “mais pestífero do que Cacheu, Caconda, Moçambique, e todos os mais da costa de Leste; […] aqui anda sempre o são Viático por casa dos enfermos, de dia e de noite; e há pouco soube que só na igreja da Misericórdia desta cidade se enterraram no ano de 1811 para cima de 300 pessoas naturais de Lisboa!”.
O pânico em relação às condições de higiene e saúde do Rio de Janeiro não diminuiu com os anos. Ao contrário, de tempos em tempos, Marrocos reportava ao pai e à irmã que a cidade estava sendo assolada por uma epidemia e que a sua saúde não ia bem. Há cartas suas que são verdadeiros obituários, com nomes e nomes de portugueses mortos em alguma epidemia. Em 1816, por exemplo, comunica à família que padecera com as hemorroidas – “neste país são mais ativas que em Portugal” –, que perdera dois negros para as bexigas e que todos em casa tinham sofrido “nesta estação de epidemias que têm grassado por toda a cidade, causando grande mortandade”. Em 1817, Marrocos volta ao tema, dessa vez para contar ao pai que havia contraído um mal gravíssimo que quase o levara para a sepultura. Em 1818, em carta dirigida a toda a família afirma que o clima avesso e fatal e as condições de salubridade do Rio de Janeiro levavam-no a contrair pelo menos duas moléstias graves a cada ano.
Outro tema igualmente presente nas missivas de Marrocos diz respeito ao crescimento da violência no Rio de Janeiro. A cidade e os seus subúrbios, narra o bibliotecário, estavam infestados de ladrões, que roubavam sem qualquer constrangimento logo ao princípio da noite. Em 1813, Marrocos conta ao pai que tinham sido registrados 22 assassinatos na cidade em apenas cinco dias, muitos deles executados de forma bárbara. A situação era tal que o chefe de polícia tinha sido não somente roubado, mas ainda esbofeteado, pois trazia consigo pouco dinheiro. As mulheres também viviam dias de insegurança, segundo o apavorado bibliotecário, pois não eram incomuns os casos de senhoras que, depois de sofrerem outros insultos, tinham sido degoladas. O quadro tornava-se ainda mais dramático em razão da ineficiência da polícia, incapaz de manter a segurança das ruas com o pequeno efetivo de que dispunha.
Mas nem só de doenças e crimes vivia o Rio de Janeiro que Marrocos descreveu em suas cartas. Em meio à centena de intrigas palacianas, doenças e reclamações, de vez em quando lhe escapava um comentário sobre uma ou outra amenidade do cotidiano carioca. Em 1812, por exemplo, contou ao pai que havia comprado uma loteria para colaborar com a construção do Teatro São João, iniciativa do empenhado intendente de polícia da corte, Paulo Fernandes Viana. Meses mais tarde, comunicou-lhe que o teatro, “feito à imitação e grandeza do Teatro de São Carlos”, em Lisboa, estava pronto para a inauguração, mas havia custado uma pequena fortuna, parte da qual, dizia-se, tinha ido parar no bolso de particulares.
O bibliotecário gastou também alguma tinta contando à família sobre as dezenas de comemorações que o intendente Paulo Fernandes vinha organizando para homenagear a Família Real e “trazer o povo entretido”. Pelo que narra o devotado Marrocos, sempre com uma palavra simpática quando se referia à realeza, comemorava-se de tudo na cidade, de casamentos ao restabelecimento de um príncipe ou princesa doente, e sempre com muita pompa e circunstância.
O Rio de Janeiro pintado por Marrocos, no entanto, não obstante as “festas cívicas e religiosas”, é uma cidade extremamente carente de divertimentos, uma cidade na qual quem tinha “um par de patacas” promovia em sua casa “partidas noturnas, por não haverem outros entretenimentos”. Aqueles que tinham mais de “um par de patacas”, a “gente graúda”, como dizia o bibliotecário, estavam, inclusive, erguendo palacetes adaptados ao gosto mais europeu e preparando-se para melhor receber as visitas. A duquesa de Cadaval, por exemplo, informa Marrocos em 1818, estava construindo nas vizinhanças de sua casa, no bairro das Laranjeiras, um grande palácio, cujo projeto e obra estavam a cargo de um arquiteto e de um mestre de obras franceses.
Malgrado, no entanto, essa carência de divertimentos, de vida social, em carta à sua querida mana, Marrocos comenta que o Brasil é denominado “com razão de terra dos vícios e da perdição” e que muitas moças vindas de Lisboa, vária delas conhecidas da irmã, quando se mudavam para o Rio de Janeiro, adotavam um mau procedimento e passavam a levar uma vida viciosa. Muitos cariocas, lamenta o bibliotecário, olhavam com desconfiança as moças vindas de Lisboa, que já desfrutavam no Rio de Janeiro da mesma reputação que as brasileiras desfrutavam em Portugal.
Dizer mal dos portugueses, a propósito, tornava-se um hábito cada vez mais comum entre os brasileiros – uma “gente indigníssima, soberba, vaidosa e libertina” – que, de dia para dia, estavam mais impertinentes no seu nacionalismo, observa Marrocos. Em 1815, quando o Brasil foi promovido a Reino unido de Portugal e Algarves, tal impertinência, segundo o bibliotecário, tornou-se excessiva, insuportável. Ouçamos o que o irritado e despeitado Luiz disse ao pai: “Pelas gazetas que ultimamente remeti a vossa mercê, lhe será constante o brado que aqui se ouviu pela elevação destes Estados a Reino […]. O Senado, que em tudo se quer distinguir, em tudo dá a conhecer que é Senado do Brasil e por isso fez a função mais porca, que eu não esperava ver. Em despique à mesquinhez do Senado, o Corpo do Comércio, todo bazófia, reserva para depois da Páscoa a sua função alusiva ao mesmo objeto, e em que prometem o maior aparato e grandeza, à imitação das Festas Reais de Lisboa […]. Quanto a mim, o extremo também é vício”.
O lusitanismo militante de Marrocos aquiesceu-se com o passar do tempo, ao ponto de permitir-lhe engajar-se no processo de Independência e, pelo que se deduz da sua rápida ascensão nos quadros burocráticos do Brasil de D. Pedro I, abraçar de corpo e alma a nova pátria. O seu mau humor em relação a certos aspectos do modo de vida do carioca, no entanto, mau humor indigesto para os nacionalistas mais ardentes, permaneceu e deu o tom de suas instrutivas e por vezes divertidas perspectivas do movimentado Rio de Janeiro dos tempos d’El Rei.