Ilustres ordinários do Brasil
12 – O discreto gosto pelo cânhamo
12 – O discreto gosto pelo
cânhamo
O antropólogo pernambucano Gilberto Freyre, em um livro publicado em 1937 e há pouco reeditado no país, Nordeste, dizia que, no Brasil de outrora, a cultura da cana-de-açúcar, cultura sazonal, que ocupava o colono por no máximo duas estações, deixava um imenso tempo livre para um outro cultivo, o do ócio. Curiosamente, pondera Freyre, não passou pela cabeça da maior parte dos empenhados colonos que o tempo não consumido com a cana poderia ser utilizado de uma maneira produtiva, plantando arroz e feijão, por exemplo. Ao contrário, em paralelo ao plantio da cana, o colono resolveu dedicar-se a produções voltadas para o devaneio, para o escape: a indústria da aguardente, produto do agrado de todos; a cultura do tabaco, artigo indispensável para preencher as infindáveis tardes de calor e enfado dos senhores; e a cultura do cânhamo, da maconha, erva apreciada pelos pretos e pela gente pobre, gente que precisava, digamos, relaxar, pois, afinal, eram os pés e as mãos do senhor de engenho.
Da tradicional cachaça e do apreciado tabaco, o passado colonial legou-nos muitas informações, não somente sobre o preparo, interesse e valor comercial de tais produtos, mas também sobre os usos que os colonos faziam deles. Do tabaco ou petume (betum, petema, peti, petigma, petima, petume, pitima, pituma, potumpetum) há notícias constantes, que remontam ao início da colonização. Andre Thevet, Jean de Léry e Nicolas Barré, por exemplo, todos participantes da conhecida tentativa francesa de instalar uma colônia na região da Baía de Guanabara, a França Antártica (1555-1567), referem-se ao peti, amplamente utilizado pelos índios, em razão de suas virtudes medicinais. É de Léry a seguinte passagem: “colhem-na e a preparam em pequenas porções que secam em casa. Tomam depois quatro ou cinco folhas que enrolam em uma palma como se fosse um cartucho de especiaria; chegam ao fogo a ponta mais fina, acendem e põem a outra na boca para tirar a fumaça que, apesar de solta de novo pelas ventas e pela boca, os sustenta a ponto de passarem três ou quatro dias sem se alimentar”.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII, quando a vida nas cidades do litoral ganhou corpo, raro foi o visitante estrangeiro que, de passagem por um dos grandes portos brasileiros (Rio de Janeiro, Salvador, Recife ou Santos), não teceu algum comentário sobre o tabaco local, um tabaco de boa qualidade, fácil de ser encontrado nas casas comerciais, barato e, sobretudo, muitíssimo consumido pelos habitantes, que o apreciavam, como salientou o inglês James Tuckey, em 1803, na forma de charutos e de rapé. Antes dele, um século antes, em 1711, André João Antonil, no seu Cultura e opulência no Brasil, abria os seus comentários sobre a cultura do tabaco no país com uma nota reveladora da importância que tinha então o produto pelo mundo afora: “se o açúcar do Brasil o tem dado a conhecer a todos os reinos e províncias da Europa, o tabaco o tem feito muito afamado em todas as 4 partes do mundo, em as quais hoje tanto se deseja e com tantas diligências, e por qualquer via se procura”.
Da aguardente de cana – que conta com centenas de designações na língua portuguesa –, o passado colonial legou-nos ainda mais notícias. Há descrições de seu preparo, de seu consumo pelas tripulações dos navios, da facilidade com que era encontrada no comércio local, dos lucros que propiciava e, sobretudo, dos excessos a que eram levados os seus apreciadores mais extremados, que não eram poucos. Há notícias de tais excessos por todos os lados: dos célebres pileques do poeta Gregório de Matos à história mais picante – contada pelo padre Cepeda, em 1764 – de um jesuíta teólogo do colégio da Bahia que, todas as noites, vestido de marinheiro, saía para beber cachaça, armar confusão e se encontrar com mulheres perdidas.
Não por acaso, muitos daqueles visitantes que notaram o quão apreciado era o tabaco no país notaram também que os brasileiros consumiam copiosamente “uma aguardente forte e nociva para a saúde que, em razão de seu preço, estava ao alcance dos indivíduos de fortunas modestas” – como explicou, em 1799, um visitante inglês de nome George Semple Lisle. Notaram, ainda, que era comum a briga de embriagados nas cidades brasileiras, cidades onde todos andavam armados de adaga e espada. Apesar de tais problemas, contudo, o sucesso que a pinga alcançou na colônia foi tanto que, nas primeiras décadas do século XIX, décadas de intenso nacionalismo, o viajante francês Saint-Hilaire registrou que a bebida já havia se tornado uma espécie de patrimônio nacional e que os patriotas a tinham como um símbolo do espírito de independência que arrebatava o país.
A maconha (abango, abangue, aliamba, bagulho, bango, bangue, bengue, birra, bongo, cangonha, chá, diamba, dirígio, dirijo, erva, fumo, fumo de angola, jererê, liamba, marijuana, massa, nadiamba, pango, rafi, riamba, seruma, soruma, suruma, tabanagira, umbaru), ao contrário de seus dois primos importantes, talvez por ter sido sempre relacionada aos escravos – comumente se atribui ao negro africano a introdução das primeiras sementes do fumo de angola no país –, jamais gozou de muito prestígio entre nós e menos ainda de divulgação. O que está longe de significar que esteve ausente do cotidiano dos colonos.
Para se ter uma ideia de como a cultura do cânhamo era presente, vale recordar uma passagem do instrutivo relato sobre o Rio de Janeiro, deixado pelo médico John Barrow. Em visita à cidade em 1793, Barrow, inglês culto e curioso, descreveu longamente as pinturas que enobreciam os pavilhões do Passeio Púbico da cidade, pinturas, segundo o inglês, “descritivas de oito fontes de riqueza do Brasil”. Uma delas, para espanto do leitor contemporâneo, representava “uma vista de uma plantação de cânhamo e da manufatura de cordas”. Barrow explicava que a planta era “cultivada sobretudo nos distritos meridionais, perto de Santa Catarina”, mas que carecia, naquele momento, de maiores incentivos para que se pudesse ampliar o seu cultivo na colônia. Um pouco mais tarde, Luiz dos Santos Vilhena, no seu Recopilação de notícias soteropolitanas e brasílicas (1798-1802), oferece-nos uma informação complementar; diz o cronista: “na ilha de Santa Catarina, e continente a ela adjacente, capitania do Rio Grande de São Pedro do Sul, e parte da de São Paulo produz admiravelmente o linho cânhamo […]”.
Obviamente que nem Vilhena nem o respeitável médico Barrow pensavam nos usos recreativos que alguns colonos faziam da planta, os tempos ainda não eram para tal. Barrow, a propósito, um experiente homem do mar, pensava, sim, na imensa utilidade que o cânhamo tinha para as navegações, onde era usado prodigamente na calafetagem das embarcações e na feitura de velas e cordas. Utilidades, inclusive, que tinham sido mencionadas por um outro navegador que passara pelo Rio de Janeiro antes dele, em 1767, o navegador John Byron, avô do célebre poeta inglês Lord Byron.
Malgrado, no entanto, essa presença no meio dos colonos e o conhecimento por parte destes de suas propriedades entorpecentes, pouquíssimos testemunhos restaram dos usos recreativos ou medicinais que se faziam da planta. Há somente referências esporádicas, quase sempre relacionadas a delitos morais e religiosos. Em 1749, por exemplo, um tal Antônio do Carmo, natural da Ilha Terceira, no arquipélago português dos Açores, compareceu diante do comissário do Santo Ofício da comarca da atual cidade de Mariana, em Minas Gerais – lugar em que se plantava muito cânhamo –, para explicar-se sobre um caso comprometedor em que o acusaram de estar metido. Eis a acusação que pesava sobre o músico português: “estava chumbado de aguardente e de pitar e se deitou na cama com vários rapazes músicos, por muitas vezes, e com eles estava com brincos desonestos, fazendo pulsões com as mãos e outras vezes entre as pernas dos ditos rapazes, e foi no pecado de sodomia agente e paciente com o pardo Valentim Pereira […]”. Em 1777, o mesmo Santo Ofício, dessa vez em Lisboa, recebeu uma denúncia proveniente de Itapecerica da Serra, lugarejo próximo à cidade de São Paulo, acerca de uma parda, de nome Brígida Maria, que, em companhia de seu amante, natural de Angola, andava pelas imediações da cidade promovendo umas festanças, durante as quais dava uma erva para os participantes aspirarem – o cânhamo em forma de rapé, muito provavelmente – que os deixava absortos e fora de si.
Uma nota mais contundente e direta – mas não menos negativa – sobre o uso recreativo do cânhamo pela população local, ao menos pela sua parcela mais pobre, vamos encontrar somente no relato legado pelo renomado orientalista, escritor e diplomata britânico Richard Burton. No seu Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1769), há duas passagens curiosas sobre o uso do cânhamo, ambas em Minas Gerais e ambas envolvendo cativos. Ao descrever uma revista dos escravos que assistiu em Morro Velho, o inglês comenta: “depois disso, os diligentes vão cuidar das casas e das hortas, dos porcos e das galinhas; vão lavar roupa e costurar, ou carregar água, lenha ou capim para vender. Os preguiçosos e dissolutos vão gozar a santidade do dia à moda africana, deitados ao sol e, se puderem, bebendo e fumando haxixe, como os semisselvagens de Serra Leoa”. Mais adiante na sua narrativa, dissertando sobre os cuidados que se deveria ter com a escravaria e sobre o quanto esta apreciava uma aguardente – gosto que tantos transtornos trazia aos senhores –, Burton salienta: “o negro também se mostra muito amigo do pango, aqui chamado ariri, o conhecido bhag, cannabis sativa da Índia e da costa ocidental e oriental da África. Mostra-se prontamente disposto a pagar até mil réis por um punhado desse veneno”.
Burton, contudo, é uma referência tardia, da metade do século XIX. Antes dele, ao que parece, o cânhamo não deixou de marcar presença no país – ao ponto de merecer uma pintura no terraço do requintado Passeio Público da capital da colônia, do Rio de Janeiro –, mas o seu uso recreativo, religioso e medicinal não mereceu a atenção nem dos letrados, nem dos religiosos católicos, nem dos viajantes, em suma, de ninguém que tivesse meios para registrar tais usos. Aos olhos desses homens, o pito de cânhamo era um mau hábito de gente preta ou de gente que se africanizara, de estropiados da sociedade colonial, um mau hábito que não suscitava quaisquer preocupações ou reflexões do ponto de vista da lei – a não ser quando associado a um excesso moral ou religioso – e que não tinha importância social suficiente para que se gastasse tinta com a sua descrição.
O gosto pelo cânhamo, no entanto, nunca desapareceu ou chegou a perder a sua força entre os brasileiros, e isso antes mesmo da moda hippie ou dos milionários negócios do tráfico. O mesmo Freyre, para ficarmos num único exemplo, não se cansa de destacar o quanto a erva era, então, na década de 1930, popular no Nordeste – e é claro que essa não era uma peculiaridade nordestina. É verdade que não procedemos aqui como nos Estados Unidos, onde, no início do século passado, os plantadores de madeira para celulose, interessados em eliminar os concorrentes que produziam papel de cânhamo, patrocinaram, com o precioso auxílio do FBI, uma verdadeira campanha nacional, associando maconha, negros e criminalidade. Houve, sem dúvida, no Brasil, uma crescente e empenhada criminalização do uso do cânhamo e um esforço em associá-lo às camadas mais pobres da população. Afinal, tratava-se, como dizia o antropólogo e educador Arthur Ramos, em 1934, de uma droga de uso ainda restrito, que saíra das macumbas e dos catimbós e se alastrara somente pelos quartéis, pelas prisões e nos grupos de malavita brasileiros.
Por aqui, pois, ninguém julgou necessário levar adiante algo tão sistemático como na América. Optamos por uma solução menos drástica e com mais cor local. Adotamos uma quase tolerância do ponto de vista prático – bem ao gosto do secular desleixo que herdamos dos lusos –, mas tivemos o cuidado de condenar moralmente o uso da diamba e de praticamente banir a erva da história pátria, como se a pobre não tivesse ocupado um espaço considerável tanto na economia quanto nas mentes dos brasileiros – e, certamente, não apenas nas mentes dos brasileiros negros e pobres.