Ilustres ordinários do Brasil
20 – Os intelectuais e o tal povo brasileiro
20 – Os intelectuais e o tal povo
brasileiro
Bernardo de Vasconcelos, aquele político e intelectual do Império que era liberal e virou conservador, dizia, lá pelos idos da década de 1830, que de nada valeria os homens de Estado terem grandes planos para o país se o povo brasileiro, analfabeto como era, nem sequer conseguia entendê-los, o que dirá colaborar para a sua implantação. Décadas mais tarde, já no limiar do século XIX, Machado de Assis, em uma de suas crônicas, recomendava aos políticos locais que jamais falassem em nome do povo brasileiro, mas, no máximo, em nome daquela pequeníssima parcela alfabetizada da população, parcela que supostamente conseguia entender o que era dito pelos ilustres representantes do povo.
Ainda que nos soem um tanto politicamente incorretos, tais comentários, por certo, receberiam o aval da esmagadora maioria dos letrados brasileiros do século XIX. Todos, com mais ou menos paixão, comungaram da ideia de que havia um país a construir, sem dúvida, mas sobretudo, e especialmente, de que havia um povo a civilizar, um povo rústico e iletrado, ansioso por ser banhado pelas luzes da cultura ocidental-europeia. A crença era antiga e, de certo modo, saíra, como tantas outras ideias caras aos homens de letras do Brasil oitocentista, das narrativas de viagem. O visitante europeu, desde muito cedo, pintou a população local como bárbara ou, no mínimo, como semibárbara, de qualquer modo, muito necessitada da cultura e das regras de civilidade europeias.
Há uma passagem sobremodo ilustrativa de tal crença no conhecido Viagem pelo Brasil, dos alemães Spix e Martius. Logo que desembarcaram no Rio de Janeiro, em 1817, os naturalistas trataram de registrar, certamente para a surpresa de muitos dos seus leitores europeus, o seguinte: “quem desembarca convencido de encontrar esta parte do mundo, descoberta só desde três séculos, com a natureza inteiramente rude, violenta e invicta, poder-se-ia julgar, ao menos aqui na capital do Brasil, fora dela, tanto fez a influência da civilização e cultura da velha e educada Europa para remover deste ponto da colônia as características da selvageria americana, e dar-lhe cunho de civilização avançada. Língua, costumes, arquitetura e afluxo de produtos de todas as partes do mundo dão à praça do Rio de Janeiro aspecto europeu”.
No que tange à selvageria americana, os simpáticos sábios prussianos não são, nem de longe, os primeiros a tecer tal gênero de comentário. Ao contrário, trata-se de um lugar comum das narrativas de viagem sobre o Brasil, um tópico cuja origem remonta ao século XVII, quando começam a aparecer as primeiras descrições estrangeiras das cidades costeiras espalhadas pelo litoral brasileiro. O que é novo na observação desses visitantes das décadas iniciais do século XIX é a esperança de que o contato mais intenso com a cultura europeia, propiciado pela abertura do país às gentes e coisas de outras nações, cedo apagaria nos brasileiros os vestígios dessa tal selvageria.
Felizmente ou infelizmente, e isso pouco importa a essa altura, a dita intelligentsia local, ao menos aquela do século XIX, herdou, quase como um filho primogênito, a perspectiva desses visitantes; um pouco acerca de si própria, sem dúvida, daí o seu comportamento sempre acanhado e submisso diante daquele ou daquilo que vinha do estrangeiro, mas sobretudo acerca daquela entidade que ganhou formas e cores ao longo do século XIX, o denominado povo brasileiro. É raro encontrar um letrado coetâneo que não tenha olhado para essa ralé de todas as cores, como dizia o regente Feijó, como uma espécie de malta desordeira e ignara na qual era preciso, a todo preço – por meios propositivos, mas também à custa da força, se necessário fosse –, incutir princípios de civilidade.
Daí o caráter quase missionário de que se revestiu a atividade do intelectual brasileiro do Oitocentos, de Monte Alverne a Machado de Assis, passando por Gonçalves Magalhães, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e tantos outros. O primeiro, o sermonista Monte Alverne, homem que gozou de grande popularidade e prestígio no seu tempo, deixou registrado no “Discurso preliminar”, contido em suas Obras oratórias, que pregava não para encantar os amantes das belas-letras, mas para doutrinar o povo, incutir-lhe ideias úteis ao desenvolvimento da moral, da civilização e do sentimento patriótico.
José de Alencar, tempos depois, numa defesa que faz de sua peça Asas de um anjo, acusada na época de imoral, comenta: “não há aí uma só personagem que não represente uma ideia social, que não tenha uma missão moralizadora”. Ainda mais contundente nesse aspecto é o político e literato Quintino Bocaiúva que, em 1863, respondendo a uma carta do jovem Machado de Assis, procura incentivar o escritor novato com as palavras seguintes: “És moço, e foste dotado pela Providência com um belo talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A ideia é uma força. Inoculá-la no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral […]. Repito, pois, nessa obra de cultivo literário há uma obra de edificação moral”.
Edificação moral, ação civilizadora, doutrinação do povo, as designações são muitas, mas a missão é sempre a mesma: por meio da ilustração, educar e moralizar um povo que, àquela altura, estava, aos olhos desses homens, há milhas de distância do ideal de cidadão que se queria para o jovem país.
De lá para cá, é verdade, muita coisa mudou. Os homens de letras, melhor, os intelectuais, passaram a ter perspectivas muito variadas da gente do país, do tal povo brasileiro. Todavia, se repararmos com mais vagar, é notável o quanto da partição bárbaro/civilizado, ainda que por vezes com sinais trocados – valoriza-se a tal porção bárbara, mas se reafirma a partição –, está presente no Brasil mestiço, popular e um pouco debochado, à la Gilberto Freyre e Jorge Amado, ou naquele Brasil de gente feliz e antropofágica, de alguns modernistas, ou, ainda, mais recentemente, no “Brasil de povo anárquico e colorido, construído pela tropicália. Isto para não mencionarmos o povo bom, mas carente de conscientização”, que por décadas alimentou os sonhos e os escritos de muitos pensadores e militantes da esquerda local. Tal concepção, ao menos, verdade seja dita, mostrou-se, ao fim e ao cabo, mais pragmática, sobretudo depois de se descobrir que, em um país com carências elementares, a conscientização do povo dispensa a elitista solução do Oitocentos de civilizá-lo, de “derramar a educação sobre todas as classes” – como dizia o conservador Bernardo de Vasconcelos. Em país de gente simples, basta uma bolsa-família.