Ilustres ordinários do Brasil
3 – Mulheres dos trópicos
Em 1807, o experiente navegador inglês James Tuckey, um homem culto, leitor atento da literatura de viagem e conhecedor da reputação que tinham os brasileiros de serem excessivamente ciumentos, depois de uma breve visita ao Rio de Janeiro, comentou: “Viajantes anteriores sempre lamentaram a dificuldade que encontravam para pôr os olhos sobre uma brasileira decente. Tal situação, no entanto, alterou-se muito. Hoje, a bem da verdade, as maneiras das mulheres do Rio de Janeiro, das solteiras especialmente, aproximam-se muito mais da informalidade das inglesas do que da pudica reserva que, dizem, caracteriza as portuguesas. E como melhoraram os costumes do povo em geral, o ciúme de outrora vem dando lugar a uma gentil atenção para com o sexo oposto. Os homens começam a depositar confiança nas mulheres, as quais, mais conscientes do seu próprio valor, rapidamente estão adquirindo aquele amor próprio que sustenta a virtude feminina”.
Muitos tinham sido realmente os viajantes anteriores que lastimaram a impossibilidade de contatar com as mulheres brasileiras, tamanho era o ciúme do sexo oposto, um ciúme que, segundo os mesmos visitantes, não raro ocasionava crimes de sangue. Entre os navegadores corria, inclusive, desde 1768, a história de que o capelão da embarcação que acompanhava o navio do renomado iluminista Louis Antoine Bougainville, ao passar pela cidade, metera-se numa querela amorosa e acabara morto com requintes de crueldade. O médico François Vivez, seu colega de embarcação, sem mencionar os motivos, descreve o triste fim do capelão com as seguintes palavras: “Em meio a esta tempestade, tivemos o azar de perder nosso capelão, que, depois de embarcar ao entardecer numa piroga, foi assassinado e lançado na água. Os seus algozes foram tão cruéis que chegaram a suspendê-lo pelos pés e afogá-lo na água a golpes de remo”.
Entre os europeus, esse e outros casos similares tomaram ares de verdade, ganharam grandes proporções e rapidamente consolidaram opiniões como a expressa pelo cirurgião inglês George Hamilton, que passou pelo Rio de Janeiro em 1790: “Aqui, os estiletes são muito utilizados, os assassinatos são frequentes, os homens são possuídos por um ciúme sanguinário e as mulheres, que nunca aparecem em público sem a proteção de um véu, são muito dadas à galanteria”.
A propósito do comentário do cirurgião Hamilton, se tomarmos ao pé da letra o que insinua o cirurgião inglês e dúzias de outros visitantes, os colonos tinham razão de sobra para desconfiar de suas parceiras, pois as mulheres dos trópicos, como então se dizia, não primavam pelo recato. Talvez o grande propagador na Europa dessa imagem ruim da mulher brasileira tenha sido o capitão James Cook. Depois de uma visita tumultuada ao Rio de Janeiro em 1768, o renomado capitão teceu uma série de considerações sobre as cariocas, considerações que acabaram por virar verdades entre os viajantes que o sucederam. Eis o que diz Cook: “Creio que todos estarão de acordo em admitir que as mulheres das colônias espanholas e portuguesas da América meridional concedem seus favores mais facilmente do que aquelas dos países civilizados. No que se refere ao Rio de Janeiro, algumas pessoas chegam a afirmar que na cidade não há uma única mulher honesta. Essa condenação é seguramente muito generalizante. O doutor Solander, todavia, durante sua permanência na cidade, não foi capaz de elogiar a castidade dessas senhoras. Disse-me ele que, ao cair da noite, elas apareciam nas janelas, só ou acompanhadas, e jogavam buquês de flores sobre os seus eleitos quando esses passavam pela rua. Ainda segundo o doutor, ele e mais dois ingleses que o acompanhavam receberam um número tal de distinções que, ao final de um curto passeio, os seus chapéus estavam cobertos de flores”.
Mas aqui é preciso ter cuidado para não cometermos uma injustiça com o célebre capitão, um dos navegadores mais respeitados do século XVIII. Cook não inaugurou a longa série de críticas à moralidade da mulher brasileira que encontramos nas narrativas de viagem europeias. A tradição é antiga e remonta a François Pyrard de Laval, um comerciante francês que visitou Salvador em 1610. Em uma conhecida narrativa de viagem, intitulada Viagem de Pyrard de Laval às Índias Orientais, o comerciante contou uma história, supostamente ocorrida na cidade, que teria grande circulação entre os europeus que se interessavam por relatos de viagem. Ouçamos o aventureiro: “Mas não quero passar em silêncio sobre o que me aconteceu nesta cidade. Passeava um dia sozinho […], quando encontrei uma jovem escrava negra de Angola que me disse, sem apresentações e sem cerimônia, que não me preocupasse e a seguisse, pois ela me levaria a um homem de bem que queria ter comigo. Diante disso, detive-me um pouco pensando o que deveria fazer, se deveria ou não acreditar na palavra da rapariga. Por fim, resolvi acompanhá-la para ver o que ocorreria. Ela fez-me dar mil voltas e rodeios por ruas estreitas, o que, a cada passo, me punha em grande sobressalto e me fazia hesitar em seguir adiante. A rapariga, porém, dava-me coragem e tanto fez que acabou por me levar a um aposento muito bonito, espaçoso, bem mobiliado e decorado, onde não vi mais ninguém senão uma jovem dama portuguesa, que me acolheu muito bem e logo mandou preparar-me uma boa refeição. Vendo que o meu chapéu não era grande coisa, ela, com sua própria mão, tirou-o da minha cabeça e deu-me um outro novo, de lã da Espanha, com uma bela presilha, fazendo-me prometer que voltaria a visitá-la e prometendo-me que me auxiliaria e me daria prazer em tudo o que pudesse. Prometi e, realmente, visitei-a regularmente enquanto estive na cidade, e ela fez-me uma infinidade de cortesias e favores. Travei, também, conhecimento com uma outra rapariga portuguesa, natural do Porto, em Portugal, chamada Maria Madalena, que era estalajadeira e tinha uma casa de pasto. Destarte, não me faltava bebida e comida, pois ela me dava o que queria às escondidas de seu marido e ainda passava-me dinheiro para pagar diante dele. A rapariga tratava-me por seu camarada […]. Em resumo, as mulheres na Baía são mais amigas dos estrangeiros do que os homens, que, por sinal, são muito ciumentos”.
Depois da história de Laval, rara foi a narrativa estrangeira que, ao referir-se à mulher brasileira dos tempos da colônia, não censurou a sua conduta demasiado livre e a sua moral pouco austera. Há um repertório razoável de passagens sobre o tema nas narrativas com menções ao país. Dellon, por exemplo, que desembarcou em Salvador em 1676, é categórico: “Desconheço se a libertinagem é, no Brasil, tão generalizada quanto na Baía de Todos os Santos. Por aqui, mesmo as mulheres que passam por ter alguma virtude não têm o menor escrúpulo de adornar suas escravas, para que possam vender mais caro os infames prazeres que oferecem. Pode-se dizer que o vício reina aí soberanamente. Os estrangeiros em geral, especialmente os franceses, chamam muita atenção. O ciúme que despertam torna-os vítimas de um enorme ódio, que geralmente tem consequências terríveis […]”.
La Barbinais, quatro décadas mais tarde, praticamente repete as considerações de seu conterrâneo: “Os costumes neste país são corrompidos e os homens não ruborizam por nada. As mulheres não são menos debochadas e, publicamente, vivem de maneira completamente desregrada. Os religiosos e os padres seculares, além de ignorantes ao extremo, mantêm relações públicas com as mulheres, ao ponto de muitos serem conhecidos não pelos seus sobrenomes, mas pelos de suas senhoras. Impudicos, quando escutam, nas igrejas, os pecados de uma mulher no confessionário, parecem antes incentivar a sua conduta do que inspirar nela sentimentos de constrição e piedade. […] Mesmo os conventos, casas supostamente consagradas a Deus, servem de abrigo para mulheres públicas”.
Entre o primeiro e o segundo, tocaram no tema, pintando-o basicamente com as mesmas cores, o francês François Froger e o espanhol Francisco Coreal – que repete a mesma história de Laval, ambientando-a na cidade de Santos, na costa paulista. Ainda antes que Cook propagasse aos sete ventos uma mulher brasileira leviana e fácil, imagens dela igualmente pouco edificantes saíram da pena de um oficial anônimo da Marinha francesa, em 1748, do renomado astrônomo Louis de La Caille, em 1751, e, em 1757, do militar francês M. de La Flotte. É ele, a propósito, que conta para os seus leitores uma curiosa historieta, na qual reúne o ciúme português e a moralidade frouxa das mulheres brasileiras. Flotte narra que participou de uma belíssima festa na cidade, oferecida pelo governador, na qual não encontrou uma única mulher, pois elas haviam sido proibidas pelos pais e maridos de comparecer a uma cerimônia em presença dos galantes franceses. “Imagine o leitor”, comenta o capitão, “o quão animado foi esse baile e o quão viva foi a dança. Três ou quatro homens vestidos de mulher se prestavam a dançar com aqueles que quisessem representar este ridículo papel. O governador, em vão, convidara as mulheres da cidade, mas os homens não permitiram que elas fossem. Sua Excelência desculpou-se e nos deu a entender o quanto lhe incomodava ter de conviver com semelhantes homens”.
Entretanto, segundo adianta o mesmo M. de La Flotte, apesar de tamanho ciúme, “não há no mundo cidade onde as mulheres sejam mais livres, o que conseguem servindo-se dos mesmos meios utilizados para impedi-las de o ser. Como todas se escondem atrás de um véu e se vestem de preto, é impossível ao olhar mais penetrante distingui-las umas das outras. Assim, uma mulher, sob pretexto de ir à igreja, pode tranquilamente dirigir-se para um encontro amoroso sem ser reconhecida. Além disso, elas têm por hábito transformar em confidentes as velhas que as acompanham, velhas que, segundo o desejo dos maridos, deveriam atuar como guardiãs da honra de suas esposas”.
A supracitada narrativa de James Cook, como se pode ver, está longe, muito longe, de ser a primeira quando o que está em causa é a reputação, a má reputação, das mulheres brasileiras. Certamente, a clássica narrativa atribuída ao navegador, narrativa reeditada e traduzida inúmeras vezes e muito prestigiada entre os viajantes em geral, deu um contributo enorme à propagação dessa má fama. O impacto, ao menos na Inglaterra, foi tanto que, cerca de duas décadas depois de editado o livro de Cook, em 1792, o também inglês John Barrow sentiu-se na obrigação de defender as damas cariocas perante o público europeu. Após descrever longamente os seus hábitos e reproduzir os famosos comentários do capitão Cook, o cirurgião pondera: “No tocante à mulher carioca, confesso que, apesar das fortes suspeitas que pesam sobre ela, nenhum traço de sua conduta levou-me a julgá-la mais galanteadora ou imoral que as mulheres de outros países”.
Ia já longe, porém, a consolidação da imagem ruim das brasileiras entre o público europeu. Nem mesmo a primeira mulher estrangeira a publicar uma descrição do Brasil, Jemima Kindersley, escapou à tradição. Das baianas, conhecidas por ela na primavera de 1774, dois anos depois da publicação da narrativa de Cook, a culta inglesa teve uma péssima impressão e colaborou para engrossar, no mesmo tom dos homens, sem nenhuma peculiaridade feminina, o coro dos críticos à mulher dos trópicos. Acompanhemos o que ela tem a dizer: “Depois do que afirmei sobre o caráter geral dos homens deste lugar, não espere ouvir nada de muito elogioso sobre as mulheres. Acostumadas à indolência e incultas, a sua vivacidade natural manifesta-se na astúcia. Os homens de suas relações não depositam lá muita confiança nas suas virtudes e elas, por sua vez, usam toda a sua esperteza para iludir a vigilância a que estão submetidas. A bem da verdade, elas são, para dizer o mínimo, bastante inclinadas às intrigas amorosas. Pudera eu contar-lhe o que a escuridão da noite oculta daquelas que, durante o dia, são vistas somente nas igrejas, as minhas missivas pareceriam um libelo sobre sexo”.
É certo que o leitor contemporâneo pode questionar o quanto de verdade contêm essas opiniões, opiniões de visitantes apressados, que tinham por hábito reproduzir o que liam em outras narrativas, que conheciam mal os lugares que visitavam e que, em geral, travavam pouquíssimo contato com dos habitantes locais. Isso, no entanto, importa pouco; verdadeiras ou não, o fato é que tais opiniões, repetidas e divulgadas durante séculos, se cristalizaram no senso comum do europeu e tiveram uma vida longa na cultura ocidental, influenciando, inclusive, a maneira como os próprios brasileiros passaram a conceber as mulheres do seu país.
Talvez por isso, ainda hoje, não nos cause qualquer espanto a reputação de sensuais e atiradas que as brasileiras gozam no exterior, ou que as propagandas interessadas em vender no exterior as belezas do país invista pesadamente em corpos femininos seminus, ou que o brasileiro, num misto de ingenuidade e orgulho patriótico, encha o peito e propague aos sete ventos o quão belas, sensuais e quentes são as mulheres habitantes destas plagas.