Ilustres ordinários do Brasil
2 – A Bahia colonial dos estrangeiros
2 – A Bahia colonial dos
estrangeiros
Ao longo do denominado período colonial (1500-1808), poucos foram os estrangeiros que visitaram a Bahia e que relataram a sua experiência num livro de viagem. Menos popular entre os navegadores do que o porto carioca, um porto muitíssimo procurado pelas embarcações que se dirigiam tanto para o cabo da Boa Esperança quanto para o estreito de Magalhães, o de Salvador, pelo que se tem notícia, recebeu, entre 1549, ano de sua fundação, e 1808, quando D. João VI desembarcou no Brasil e abriu o país à visitação de estrangeiros, pouco mais de uma dezena desses visitantes-escritores, um número modesto quando levamos em consideração que são quase três séculos de existência da cidade.
Ainda que em número reduzido, foram as narrativas de 14 aventureiros-escritores que puseram à disposição dos habitantes da Europa as poucas informações que por lá circulavam sobre as gentes e coisas da Baía de Todos os Santos, uma colônia remota e desconhecida do Novo Mundo, acerca da qual nem os próprios portugueses davam muita notícia. Mas o que contaram esses viajantes para os seus conterrâneos? Afinal, quem eram e de que modo viviam os baianos e as baianas que habitavam a Salvador descrita nas narrativas de viagem dos séculos XVII, XVIII e início do XIX?
Os primeiros registros estrangeiros sobre a vida soteropolitana dos tempos coloniais saíram da pena de um tal François Pyrard de Laval, um marinheiro francês que retornava da Índia para a França e passou por Salvador entre agosto e outubro de 1610. Laval encantou-se com a natureza local, gostou do tamanho e da disposição do porto e reputou a cidade grande, construída com gosto e dotada de alguns prédios – igrejas e conventos, sobretudo – dignos de atenção. Da vida dos baianos e das baianas, o aventureiro não falou quase nada e, do pouco que disse, não foi nada simpático. Há, é verdade, alguns elogios ao governador, porém, das três ou quatro historietas que conta, ocorridas durante sua estada na cidade, os baianos aparecem sempre como desonestos e entregues à libertinagem, sobretudo as mulheres baianas, que Laval insinua serem todas umas devassas, sempre dispostas a conceder os seus favores aos estrangeiros.
Ainda no século XVII, desembarcaram na cidade mais seis visitantes-escritores: o militar Johannes Gregorius Aldenburgk (1623-1626), o padre capuchinho Antonio Zucchelli da Gradisca (1666), o médico prisioneiro da Inquisição de Goa Gabriel Dellon (1676), o aventureiro espanhol Francisco Coreal (1685), o engenheiro François Froger (1696) e o renomado bucaneiro e escritor Willian Dampier (1699). Já o século XVIII e o início do XIX trouxeram a Salvador um traficante de escravos francês (1703), o engenheiro Amédeé François Frézier (1714), o comerciante Le Gentil La Barbinais (1717), a única mulher a deixar registradas as suas impressões do Brasil colonial, a inglesa Jemima Kindersley (1764), e os comerciantes, também ingleses, John Turnbull (1800), Thomas Lindley (1802-1803) e George Mouat Keith (1805).
Ao contrário do que se poderia imaginar, as descrições que esses homens de nacionalidades, proveniências e tempos tão variados deixaram de Salvador, dos seus arredores e de seus habitantes não primam nem pela variedade, nem pela originalidade – um aspecto, inclusive, pouquíssimo valorizado pelos amantes de narrativas de viagem da época. Os visitantes são unânimes em destacar, por exemplo, o quão rica, bela e generosa era a natureza dos trópicos. Coreal e Dampier, extasiados com tanta exuberância, chegam mesmo a dedicar uma parte substantiva das suas descrições às plantas, árvores e frutas do Brasil. Os demais não vão tão longe, mas a maioria não deixa de ressaltar, com mais ou menos detalhes, mais ou menos paixão, o verde exuberante e eterno da vegetação, a variedade das plantas, das frutas e dos animais, o colorido e a variedade dos pássaros, a fartura das águas, a piscosidade do mar e, sobretudo, a prodigalidade do solo; prodigalidade que suscitou da senhora Kindersley o seguinte comentário: “o trabalho do agricultor é pouquíssimo requisitado por aqui, na medida em que, com um clima e um solo como estes, os mais variados frutos da terra crescem quase espontaneamente”.
A unanimidade persiste no que diz respeito à excelência do porto soteropolitano: “um dos maiores e dos mais cômodos do oceano”, segundo Dellon. Froger é ainda mais enfático: “é uma das maiores, mais belas e mais cômodas baías do mundo, podendo abrigar um número superior a dois mil navios”. Muito próximas, também, são as considerações que esse heterogêneo grupo de visitantes teceu sobre a cidade: grande, populosa, mas construída com um certo desleixo, contando até mesmo com um ou outro prédio mais nobre. Turnbull, comerciante inglês que a visitou em 1800, descreve-a com as seguintes cores: “A cidade, que a natureza dividiu numa parte baixa e outra alta, é grande e populosa. A parte alta localiza-se no topo de uma elevação. Tem-se do lugar uma ampla vista da baía e do porto de Todos os Santos, vista arrematada, ao longe, pelo mar e pelas nuvens. Aí se localiza a residência do governador, dos oficiais civis e religiosos e dos principais comerciantes, enquanto a cidade baixa abriga, na sua maioria, a morada dos habitantes de ordem inferior, dos retalhistas, dos aventureiros e das pessoas que se dedicam aos ofícios mecânicos”.
Há, é certo, reclamações sobre o calor excessivo, sobre a terrível praga dos insetos que atormentam os moradores, sobre as péssimas condições de higiene e de conservação da cidade, sobre a excessiva presença de igrejas e conventos nos seus limites ou mesmo sobre a sua cansativa disposição geográfica – dividida entre cidade alta e cidade baixa. Em geral, no entanto, a opinião sobre Salvador e suas circunvizinhanças é positiva, ainda que suas qualidades se devam muito mais às dádivas da natureza do que ao engenho e à arte dos colonos.
Mas e os habitantes dessa cidade, que imagem constroem deles os visitantes-escritores referidos? De modo geral, para tais visitantes, o traço mais saliente da população de Salvador era, sem dúvida nenhuma, o enorme contingente de negros que a compunha. Dampier, em 1699, aturdido com o que viu nas ruas, comentou: “O número de escravos negros na cidade é tão elevado que já são maioria entre os habitantes. Todas as casas têm escravos de ambos os sexos”. Frézier ainda é mais preciso e, depois de caminhar pelas ruas de Salvador em 1714, escreveu: “Dezenove entre 20 pessoas do lugar são negros ou negras seminus – que trazem cobertas somente as partes que o pudor obriga –, de modo que a cidade parece uma nova Guiné. Pelas ruas só se veem as figuras hediondas dos negros e das negras, escravos que a languidez e a avareza, muito mais do que a necessidade, transplantaram da costa da África para servir a magnificência dos ricos e contribuir para a ociosidade dos pobres”. Tamanho contingente de escravos, além de ser um indício pouco cristão num povo que, segundo a unanimidade das descrições, ostentava ao extremo a sua devoção – uma devoção artificial, festiva e sem qualquer consequência moral, segundo os mesmos visitantes –, trazia um enorme desassossego à sociedade local e uma aparência pouco civilizada à cidade.
A propósito da civilidade, os baianos, ainda que descritos como polidos e afáveis – os homens, pois as mulheres decentes não eram acessíveis aos estrangeiros –, não suscitam mais elogios do que os negros. Ao contrário, engolfados numa vida de vícios, os colonos, aos olhos do europeu, eram moralmente tão ou mais corrompidos do que seus escravos. Frézier é enfático nesse sentido: “Os costumes neste país são corrompidos e os homens não ruborizam por nada. As mulheres não são menos debochadas e, publicamente, vivem de maneira completamente desregrada. Os religiosos e os padres seculares, além de ignorantes ao extremo, mantêm relações públicas com as mulheres, ao ponto de muitos serem conhecidos não pelos seus sobrenomes, mas pelos de suas senhoras”.
Pouco antes dele, porém, em 1684, o aventureiro François Coreal, sintetizando a opinião dos seus antecessores e antecipando a dos seus sucessores, já explicava aos seus muitos leitores: “Os habitantes da cidade não valem nada: são voluptuosos, vaidosos, orgulhosos e metidos a valentões, indolentes, ignorantes e excessivamente beatos. Embora pareçam corteses e polidos nas suas maneiras, são tão melindrosos de suas opiniões, tão ciumentos em relação às suas mulheres e tão convencidos de seu valor, que se torna difícil, para não dizer impossível, tomá-los como amigos. As mulheres, em razão do enorme ciúme dos seus maridos, são menos visíveis que no México, mas não menos libertinas […]”.
Eis uma descrição sucinta mas recorrente dos soteropolitanos construídos nas páginas da literatura de viagens dos séculos XVII, XVIII e início do XIX. Em linhas gerais, o que temos aí – e infelizmente não estamos muito distantes das imagens do Brasil que ainda hoje circulam pelo imaginário europeu – é uma cidade abençoada pela mãe natureza, todavia construída com um certo desleixo e habitada por homens e mulheres corrompidos. É, pois, compreensível que, em 1800, o inglês John Turnbull, depois de uma breve visita à urbe, lamente que o Brasil tenha sido ocupado por gente tão inapta e cogite o quão grandioso e lucrativo o país seria se tivesse sido colonizado por um povo obreiro como o inglês.