Ilustres ordinários do Brasil

Jean Marcel Carvalho França · Capítulo 20 de 26

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Ilustres ordinários do Brasil

19 – O desprezo pela cultura

É, sem dúvida, mais do que lamentável que os homens e as mulheres públicos de um país de poucas letras como o Brasil, volta e meia, saiam por aí dizendo em alto e bom som que se orgulham da diminuta educação formal que receberam e que não nutrem lá muitas simpatias pelo saber livresco – alguns não sabem nem mesmo que livro estão supostamente lendo. Tal comportamento, no entanto, não nos deveria causar grandes surpresas, já que, talvez mesmo sem o saber, essa gente vem dar continuidade a uma antiga e consolidada tradição local, tradição que remonta ao período colonial.

Desde os tempos dos vice-reis, e mesmo antes, os habitantes da América portuguesa nunca demonstraram muito interesse pelas letras e, menos ainda, grande admiração pelo letrado. É disso que se lamenta o vice-rei marquês de Lavradio que, em uma missiva escrita em 1772, ao comentar as poucas atividades desenvolvidas pela Academia Científica do Rio de Janeiro (1772-1779), academia por ele fundada, desabafou: “continua a trabalhar-se nela, porém, vai isto muito devagar, porque como estas gentes não têm o interesse que as anime, esmorecem com grande facilidade”. É claro que, nos idos tempos da colônia, os habitantes tinham razões de sobra para não morrerem de amores pelas letras. Para além da constante e árdua luta pela sobrevivência – que pouco tempo deixava para as divagações do espírito – e da relativa intolerância das autoridades metropolitanas com as atividades intelectuais, os colonos deparavam com enormes dificuldades para obter quaisquer artigos relacionados à educação e à cultura.

É sabido, por exemplo, que o número de particulares que possuía livros na América portuguesa era mínimo e que os poucos detentores dessas raridades importadas – o país, excetuando o rápido empreendimento do editor Isidoro da Fonseca, em 1747, conhecerá uma tipografia somente em 1808, com D. João VI – não as tinham em grande quantidade. Restavam, naturalmente, as bibliotecas das casas religiosas – casas que eram os depositários da cultura no Brasil da época. Borba Morais, no seu Livros e bibliotecas, assevera que, na cidade do Rio de Janeiro, os colégios da Companhia de Jesus e de São Bento, sobre os quais restaram uns poucos dados, tinham bibliotecas com acervos razoavelmente ricos, variados e atualizados.

Acerca de tais bibliotecas, alguns viajantes estrangeiros que passaram pela cidade ao longo do século XVIII deixaram-nos umas informações esparsas, que somente em termos corroboram as otimistas hipóteses de Morais. Em 1748, por exemplo, o abade francês Courte de la Blanchardière teceu o seguinte comentário sobre o acervo do colégio da Companhia de Jesus: “A biblioteca dos jesuítas é pequena e desprovida de bons livros. A localização do edifício, porém, é privilegiada”. O espanhol Francisco de Aguirre, quase 40 anos mais tarde, em 1781, informava que a “biblioteca do Convento de São Bento era a maior do Rio de Janeiro” e que seu acervo era “composto de três mil volumes”.

Tais bibliotecas, contudo, boas ou ruins, não eram, segundo os mesmos testemunhos, frequentadas nem mesmo pelos religiosos das casas que as abrigavam, tamanha a ignorância em que vivia mergulhada a população local. Ignorância que, certamente, não era de se estranhar, na medida em que a colônia praticamente não contava com instituições de ensino. Umas poucas aulas régias, um número modesto de mestres-escolas, alguns professores particulares e uns poucos colégios religiosos, era tudo o que havia à disposição da população. Acerca dos alunos de um desses estabelecimentos, o Colégio São José, no Rio de Janeiro, o comerciante inglês John Luccock, que desembarcou na cidade no tardio 1808, emitiu o seguinte parecer: “Não apresentavam nenhuma elasticidade de espírito, nenhuma curiosidade sagaz, nenhuma urbanidade de maneiras e pouquíssimo asseio pessoal […]. Ao sairmos dali estávamos todos prontos a dizer: nem um raio de ciência jamais penetrou aqui”.

Caso não pudesse recorrer a essas instituições de duvidosa competência, o rapaz ansioso por obter alguma formação só contava com mais duas alternativas: se abastado, ele poderia educar-se no interior de sua própria casa, tomando aulas com os poucos e despreparados professores particulares existentes; se menos abastado, poderia frequentar uma classe de algum mestre-escola. Essa última opção tinha lá seus inconvenientes, como observa o mesmo Luccock: “O mobiliário de que dispunham [esses mestres] era reduzido e seus processos de ensino imperfeitos; apesar do que os resultados obtidos, valiosos. As crianças ficavam atrancadas em cubículos reduzidos e abafados, onde todas liam alto ao mesmo tempo, com grande aborrecimento de cada qual”.

Se os jovens rapazes contavam com tão poucas opções, as mulheres ainda estavam em pior situação. A educação das brasileiras praticamente se restringia à memorização de algumas preces religiosas e à prática do cálculo elementar, sem o correlativo aprendizado da escrita e das operações. Para se ter uma ideia do ponto a que havia chegado a ignorância feminina na América portuguesa, vale a pena evocar um curioso hábito da época: o famoso correio das flores. Debret, já no período joanino, conta que inúmeras donzelas dessa época se correspondiam com seus amados por meio de flores, cada tipo ou cor significando uma mensagem específica: “rosa, amor; violeta tricolor, amor-perfeito; espora, tristezas em geral, em razão de sua forma que apresenta na extremidade inferior uma espécie de ponta recurvada que pode ser comparada a um espinho; a escabiosa exprime a saudade; a alfazema fresca, a ternura, e a alfazema seca, o ódio; certa fruta cujo nome é cajá, pela reunião das duas sílabas cá (aqui) e já (imediatamente), quer dizer venha imediatamente etc.”. Esse verdadeiro código de flores e frutos tinha, segundo alguns, a função de evitar correspondências escritas, demasiado perigosas numa sociedade de moralidade supostamente austera e punições exemplares. Outros observadores, porém, apontam uma razão bem menos nobre para o uso desse código: o analfabetismo comum às jovens brasileiras – opinião que parece bem mais verossímil quando levamos em conta a mencionada pobreza do ensino local.

E não devemos esquecer que, além de nenhum ou quase nenhum acesso a livrarias, bibliotecas, tipografias ou mesmo escolas, os brasileiros desses tempos, homens e mulheres, viviam em uma sociedade alijada de um público interessado pelas ciências ou pelas belas-letras. Os poucos consumidores desses artigos, se é que se pode assim chamá-los, eram os mesmos que os produziam, o que, consequentemente, reduzia a circulação de ideias a um limitadíssimo grupo de indivíduos. Diante de empecilhos tamanhos, é mais do que compreensível que os homens de então vissem a cultura como algo distante e, de certo modo, inútil – uma espécie de capricho dos ricos. É compreensível, igualmente, que olhassem com um misto de deslumbre e hostilidade para os raros detentores daquele “ornamento indispensável ao homem de sociedade” – como mais tarde, no século XIX, se tornaria moda dizer. É compreensível, ainda, que essa visão pouco edificante das letras e dos letrados, num país onde o dito saber culto vem sendo, ao longo da história, muitíssimo mal partilhado, tenha alcançado um lugar cativo no repertório intelectual do brasileiro.

É, no entanto, incompreensível que homens públicos, que supostamente pensam um país mais justo, ponham-se a divulgá-la sem qualquer reflexão. O desprezo que tanto gostam de evidenciar é ambíguo e, como todos os tópicos da nossa cultura, fortemente marcado por uma pesada herança escravista e elitista. Ao orgulhosamente enunciá-lo, não se vinga propriamente aqueles que foram privados do saber formal, ao contrário, acaba-se por simplesmente reforçar o caráter excludente que o saber adquiriu no país e escamotear que, numa sociedade denominada sociedade da informação, a população tem, cada vez mais, enorme necessidade de uma educação formal de qualidade – aquela que não tem sido adequadamente transmitida nas salas de aula das escolas e das universidades do país.