Ilustres ordinários do Brasil
18 – O paraíso das mulatas
Em Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas (1711), André João Antonil – que o incansável Capistrano de Abreu descobriu ser o pseudônimo do jesuíta toscano João Antônio Andreoni –, numa descrição curiosa da situação do negro na sociedade brasileira, registrou: “o Brasil é o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos e mulatas”. Das mulatas sobretudo, acrescentou o mordaz jesuíta, pois, segundo ele, saltava aos olhos o quanto tais criaturas se serviam da sua sensualidade para ascender socialmente e amenizar as agruras da sua condição servil, saltava aos olhos o quanto viviam, e por vezes muito bem, do comércio explícito ou encoberto do sexo.
Antonil, é certo, não era o primeiro e não seria o último a registrar esse traço singular da pitoresca sociedade dos trópicos. Antes dele, o poeta Gregório de Matos, que muitos apologistas da suposta sensualidade tropical tomam como o mais brasileiro dos escritores da América portuguesa, destacara enfaticamente o quão ativas eram as mulatas na vida sexual da Bahia seiscentista. A mesma atividade que, para o mineiro Cláudio Manuel da Costa, no seu Cartas chilenas, demonstravam na próspera Vila Rica do Setecentos.
É, todavia, bem depois de tais impressões, mais precisamente na quinta década do Oitocentos, que a mulata, ou melhor, que uma certa construção da mulata – construção que associa sensualidade exacerbada e utilização do sexo como modo de subir na vida – passa a marcar uma presença mais constante na literatura produzida no país e, aos poucos, a ocupar um enorme espaço na cultura brasileira, condicionando poderosamente os lugares que a sociedade local reservaria para as mulatas de carne e osso.
A mulata literária, a tal que contribuiu para consolidar um tipo social com existência muito concreta, estreia no romance nacional em 1853, pelas mãos do escritor Manuel Antônio de Almeida. Deparamos, no seu Memórias de um sargento de milícias, com Vidinha, mulata afetadamente sensual e amante das pândegas, que rapidamente procura envolver o herói Leonardo com seus encantos. A partir daí a carreira da mulata na literatura nacional vai num crescendo, quase sempre encarnando tipos dotados de grande sensualidade, volúveis ao extremo e carentes de princípios morais sólidos, tipos, em suma, que são a síntese dos perigos representados pela maciça presença dos negros e de seus descendentes no cotidiano do branco – constantes ameaças à paz doméstica, à estabilidade das famílias de bem, como então se dizia.
O perfil mais acabado desse elemento perigoso que habitou o mundo ficcional brasileiro do Oitocentos – e que, de certo modo, ainda habita o senso comum nacional – é o de Rita Baiana, a mulata sensual do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo. A conduta da personagem, seus hábitos e especialmente sua relação amorosa com um português de nome Jerônimo são exemplares dos traços com os quais a literatura oitocentista procurou montar o construto mulata, construto que se instalou no pensamento nacional e acabou até por se transformar, com um retoque aqui e ali, num produto de exportação do país.
Rita era conhecida pelas lavadeiras suas colegas de profissão como Rita Vadia, dado o seu pouco apreço pelo trabalho. “Para Rita todos os dias são santos, a questão é aparecer quem puxe por ela”, diziam suas companheiras. A mulata era, também, muito dada a festas – geralmente em companhia do seu amante, um capoeira de nome Firmo – e, como não podia deixar de ser, dotada de uma sensualidade à flor da pele e de um comportamento para lá de libidinoso, para utilizarmos uma expressão ao gosto da época.
Encantado por tais dotes, Jerônimo, um português pacato, ordeiro, trabalhador e, até aquele momento, bem casado, deixou-se enamorar e passou a manter com a sedutora mulata um ardente caso de amor. As influências da amante sobre o caráter do austero lusitano logo se fizeram sentir, influências, nem é preciso dizer, profundamente negativas. Jerônimo tornou-se preguiçoso, sensual, caprichoso, amante do álcool e das pândegas, em suma, perdeu por completo as virtudes de europeu metódico e trabalhador. Recorramos às palavras do próprio narrador: “o português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela, e mais ninguém”.
A relação da mestiça Rita com o branco Jerônimo e a consequente decadência deste, mais do que um drama amoroso, constituem, como mencionamos, um exemplo lapidar do papel que os escritores oitocentistas reservaram para a sensual mulata no cotidiano da sociedade que construíram em seus romances, lapidar na medida em que dá a conhecer com excepcional clareza de que maneira a índole frouxa, os hábitos desregrados, a moralidade fluida e, sobretudo, a sensualidade exuberante das mulatas – as expressões são da época – podiam corromper o lar das famílias decentes e, consequentemente, minar a sociedade civilizada que se tencionava construir no Novo Mundo. Figura ambígua, a mulata, de que Rita é apenas uma das muitas encarnações, carrega em si duas facetas inseparáveis: de um lado, é uma espécie de símbolo da beleza da terra e da sensualidade de seu povo – povo ainda não totalmente civilizado; de outro, é a encarnação dos traços de barbárie característicos de certas capas atrasadas da sociedade brasileira – para utilizarmos uma expressão cara a Arthur Ramos –, traços poderosos o suficiente para comprometer os alicerces da sociedade como um todo.
É verdade que, a partir de meados da terceira década do século XX, com a crescente valorização cultural da miscigenação, promovida entre outros por Gilberto Freyre, houve uma mudança de perspectiva em relação à mulata, a qual subitamente viu abrandar a sua peja de corruptora dos lares brancos e crescer a sua reputação de representante da graça e da sensualidade dos trópicos. Ocorre, porém, que tal inversão, como evidencia uma rápida olhadela pela literatura brasileira da segunda metade do século XX, é, via de regra, aparente. Recordemos, a título de exemplo, que as Tietas e Gabrielas, do cultuado Jorge Amado –construtos muitíssimo apreciados pela dramaturgia televisiva nacional e pelo público em geral –, embora tenham conquistado o cobiçado lugar de heroínas, não deixaram de trazer consigo as marcas de um passado literário e cultural contemporâneo da escravidão, marcas como a sensualidade extremada, a moralidade frouxa e o uso do sexo como o grande trunfo para ascender socialmente.
E continuam heroínas não obstante tais traços, heroínas de um povo que se acredita dotado pela natureza de uma sensualidade mais acesa do que a de outros povos e que se acostumou a ver no comércio do sexo, explícito ou não, um meio legítimo de ascensão social, principalmente para as mulatas. Heroínas, também, para os estrangeiros, que desde muito cedo pintaram o caráter dos habitantes dos trópicos como libidinoso e viram nas mulatas sensuais o respaldo para as suas prenoções. Vale uma vez mais ressaltar, no entanto, que as linhas mestras constitutivas de tais construtos literários, construtos com tanto sucesso aqui e em além-mar – e há quem se gabe disso –, foram elaboradas por homens que viveram e escreveram numa sociedade escravocrata e que tais elaborações, como não poderia deixar de ser, trazem consigo as marcas dessa mesma sociedade. Destarte, é no mínimo preocupante que tais construtos ainda se mantenham em circulação no nosso universo referencial e que isso quase não nos cause nenhum desconforto.