Jacinta Passos, coração militante
Textos jornalísticos
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Que eles continuem mais firmes e desassombrados, esses moços cujas atividades políticas revelam uma pureza despida de qualquer interesse individual, esses moços odiados somente pelos que têm compromissos com o fascismo, esses moços amados pelo povo, honra e orgulho do Brasil, que possui uma tão bela mocidade.
O espírito de Munich20
O mundo inteiro, com os olhos voltados para a Itália, está vivendo momentos de grande expectativa. Os acontecimentos se desenrolam numa rapidez vertiginosa e o fascismo desesperado tenta restabelecer uma aparência de equilíbrio. Badóglio, numa ginástica perigosa, começa fazendo concessões ao povo italiano que, em Milão, Gênova e nas outras cidades da Itália, reivindica velhos direitos. O povo grita e Badóglio vai consentindo na dissolução dos partidos fascistas, na libertação de prisioneiros políticos dos 20 anos do fascismo, na prisão dos chefes fascistas.
Mas Badóglio tr...21 à sombra da figura inútil do rei. Badóglio tenta conservar essa monarquia decrépita para conservar a si mesmo e aos fascistas no poder; mas até onde irá esse povo revoltado que grita nas ruas? As tropas alemãs, refeitas no primeiro choque, ocupam novas posições na Itália; Badóglio faz o seu jogo e, depois de confabulações diplomáticas, promete democracia para o após-guerra, proíbe todas as manifestações populares e resolve continuar a guerra ao lado da Alemanha. O povo italiano continua nas ruas, de armas na mão, pedindo paz, clamando pelos antigos líderes democráticos, declarando greves, pedindo a volta dos seus artistas, de Toscanini perseguido pelo fascismo, matando e morrendo para conduzir a Itália ao seu verdadeiro destino. É um dos mais belos espetáculos assistidos pelo mundo, desse povo injustamente chamado de covarde, e que agora luta corajosamente, pois sabe por que está lutando.
Esses acontecimentos da Itália concentram as atenções do mundo inteiro, repercutem intensamente na Europa escravizada e provocam novos atos de sabotagem e revolta na frente subterrânea. Telegramas anunciam que, na França, trens de tropas alemãs foram atacados e os soldados mortos, guerrilheiros da Iugoslávia marcham a caminho da Itália, greves irrompem em Portugal e distúrbios explodem em Hamburgo e na Grécia. Os povos sabem que é o seu próprio destino que se decide na Itália e em todas as frentes de guerra. Os povos prisioneiros esperam, de armas na mão, na face as marcas do fascismo e no coração o ódio ao fascismo, a hora da revanche em que, unidos aos povos aliados, conquistarão a sua liberdade. Os povos, despertados e conscientes, lutam unidos contra o fascismo e sabem por que lutam e até onde lutarão. Roosevelt e Churchill, os dois líderes aliados, acabam de declarar novamente: "rendição incondicional", matando as últimas esperanças muniquistas para a sobrevivência do fascismo sob novas formas.
Contra esse espírito muniquista de contemporizações com o fascismo, que lança sempre novos golpes, tentando conservar o fascismo e inutilizar toda a longa e dura luta dos povos, contra esse espírito muniquista presente através dos fascistas em todo o mundo, e cujo último grande golpe foi tentar uma paz de compromisso, acaba de ser tomada importante medida pela Inglaterra, Estados Unidos e Rússia. Os governos das três grandes nações líderes
enviaram aos 22 seus representantes nas capitais dos países neutros, Turquia, Suécia, Suíça, Espanha, Argentina, Vaticano, uma nota oficial "pedindo a todos os países que neguem asilo a Mussolini e todos os outros criminosos de guerra, e declarando que consideram qualquer forma de ajuda a essas pessoas como uma violação dos princípios por que lutam as nações unidas, princípios que estão resolvidos a levar até o fim, por todos os meios em seu poder." Essa atitude das Nações Unidas impede que os fascistas responsáveis pela organização do regime que durante anos explorou e escravizou o povo, provocou a guerra para conservar os países dependentes do seu imperialismo mundial, levou o sofrimento e a desolação, a orfandade, a viuvez, a fome, as mutilações e a morte a milhões e milhões de criaturas humanas, que esses fascistas fossem abrigados por um país qualquer e desfrutassem, comodamente, o resto dos seus dias. Nenhum país pode se transformar em refúgio dos criminosos de guerra porque os seus crimes foram contra toda a humanidade.
A "rendição incondicional" do fascismo com a livre sobrevivência dos fascistas responsáveis, refugiados em algum recanto do mundo para recomeçar a sua obra, seria a repetição de um erro doloroso do passado, seria a maior injustiça, a maior injúria atirada à face dos heróis que estão lutando e morrendo para que o fascismo desapareça da face da Terra.
Um ano de guerra 23
Há um ano, precisamente, o Brasil sofria o primeiro golpe vibrado pelo nazismo-fascismo. Navios brasileiros, carregados de homens, mulheres e crianças, desceram ao fundo do mar. A notícia correu rápido e, em todos os Estados do Brasil, multidões revoltadas gritaram nas ruas, pedindo guerra para vingar os mortos e defender o Brasil. Foi um grande momento aquele, momento de exaltação popular em que o povo brasileiro, através de todas as suas camadas sociais, se levantou, unido e forte, contra a agressão sofrida. Depois, veio a declaração oficial de guerra pelo governo brasileiro. E começou o processo de unificação interna, a repulsa aos elementos da quinta-coluna que ajudaram a matar os brasileiros. Começou um projeto de ação menos impetuosa e mais organizada. Organizações populares foram nascendo, espontaneamente, para colaborar no esforço de guerra.
Os verdadeiros patriotas, conscientes de que a união nacional era o único caminho para a vitória do Brasil contra os inimigos externos e internos, uniram-se em torno da política de guerra do Presidente Vargas, esquecendo interesses partidários e divisionistas. A industrialização do Brasil, a conquista das nossas forças e riquezas em potência, apareceu como uma necessidade imperiosa para ganhar a batalha do Brasil e das Nações Unidas pela independência das pátrias e liberdade dos povos. Volta Redonda e a batalha da borracha no vale amazônico são dois marcos dessa industrialização que conduzira o Brasil à sua libertação econômica.
Essa luta do povo brasileiro, iniciada há um ano, continua ainda, continua em ritmo crescente e vai vencendo todos os golpes da reação. A quinta-coluna, os integralistas e as forças reacionárias continuam a tentar golpes divisionistas e muniquistas, obedecendo à orientação do fascismo internacional. Navios brasileiros continuam sendo afundados. "Buarque", "Olinda", "Arabutan", "Cairu", "Cabedelo", "Parnaíba", "Gonçalves Dias", "Alegrete", "Pedrinhas", "Tamandaré", "Baipendi", "Aníbal Benévolo", "Araraquara", "Itajiba", "Arara", "Barbacena", "Piave", "Osório", "Lages", "Brasiloide", "Afonso Pena", "Bagé", todos esses navios jazem no fundo do mar, são riquezas brasileiras perdidas e sobretudo são vidas brasileiras perdidas. São centenas, já sobem a um milhar, são mil vidas humanas, mil elementos da comunidade brasileira que desapareceram tragicamente.
Diante desta agressão, diante do sofrimento e da morte dos nossos irmãos, diante da ameaça da escravidão fascista que pesa sobre o Brasil e o mundo inteiro, qual a resposta do povo brasileiro? Participação ativa do Brasil na guerra, eis a nossa resposta. Toda a nossa política de guerra, todos os nossos esforços militares e civis, oficiais e populares, têm convergido para esse fim: guerra ativa. E no momento do primeiro aniversário da declaração de guerra, a próxima partida do Corpo Expedicionário Brasileiro é a comemoração mais digna e mais justa. Lutando ao lado das Nações Unidas, para destruir o fascismo da face da Terra, estaremos não somente vingando os nossos brasileiros mortos, mas estaremos defendendo o que é nosso, defendendo a nossa independência presente e assegurando a nossa independência futura.
O Corpo Expedicionário Brasileiro é a concretização de todos os esforços desse ano de guerra. Para a sua formação, à sua partida e ao seu êxito devem ser dirigidas todas as energias daqueles que desejam um Brasil independente e livre a todos os brasileiros.
Franco24
"São as voltas que o mundo dá"... Essa frase, eu a ouvia muitas vezes da boca de um curioso tipo popular, numa cidade do interior. Venâncio era o seu nome, e em plena rua, bêbado, costumava dizer de cor poemas inteiros de Casimiro de Abreu e trechos de Rui na Conferência de Haia. Entre os discursos mais solenes, intercalava sempre a mesma frase, estribilho monótono e dolorido com o que procurava explicar o seu destino de bem-nascido e malfadado: "São
as voltas que o mundo dá".25
Os últimos telegramas sobre Franco, o caudilho espanhol, fizeram ressurgir aquela frase, esquecida no fundo da memória.
Realmente, Franco é uma das figuras mais antipáticas entre os tiranos atuais. Nascido no ambiente sangrento e agitado da Espanha, primeiro cenário da guerra atual, onde se deu o primeiro choque entre as forças progressistas e as forças reacionárias, Franco representa bem as forças reacionárias que possibilitaram o seu aparecimento. Franco é um tirano nascido do lodo de um mundo em decomposição. Franco representa as forças que dividiram e ensangüentaram a Espanha e deixaram uma das mais dolorosas lembranças de atrocidades e violência dos últimos tempos. Franco é um tirano marcado pelo ódio dos povos, e ele bem o sabe.
Após ser declarada a guerra entre as nações fascistas e as nações democráticas, Franco gritou ao mundo a sua neutralidade. Mas o mundo inteiro sabia que essa neutralidade era apenas uma farsa para melhor ajudar a Alemanha e a Itália, suas aliadas desde a guerra espanhola. Nesse tempo as nações, longamente trabalhadas pela quinta-coluna, estavam divididas internamente e divididas entre si. Veio depois a consciência do perigo, e começou a unificação interna de cada povo, e a união dos povos entre si. Essa união condicionou o preparo e a organização da luta antifascista. Essa união, que ainda continua em marcha, possibilitou as vitórias na África do Norte, na frente leste, no Pacífico, na China. Essa união possibilitou a vitória interna em cada nação contra a quinta-coluna. Essa união está possibilitando atualmente a magnífica ofensiva final na Rússia soviética e a abertura da segunda frente, que destruirá definitivamente o fascismo. A Conferência de Quebec está resolvendo os meios de realizar "uma mais íntima coordenação entre Moscou, Washington, Londres e as outras Nações Unidas, no sentido de serem utilizados todos os recursos dessas nações na campanha final contra a Alemanha."
Diante desses fatos, Franco compreendeu que o mundo de 1943 não é o mesmo mundo de anos atrás, que assistiu, confuso ou indiferente, à luta na Espanha. Franco compreendeu que não é somente a derrota da Alemanha que se aproxima, mas a sua própria derrota. E começa então uma ginástica perigosa e ridícula. As notícias mais desencontradas focalizam, de vez em quando, o nome de Franco: "Franco pede piedosamente para humanizar os bombardeios aliados"; "Franco sugere um acordo para a paz entre as nações"; "Franco será o possível intermediário para a paz na Itália"; "Franco pede armas aos Estados Unidos para evitar o caos"; "Franco conferencia em La Coruña, com Samuel Hoare, embaixador britânico".
Tentando salvar a si mesmo, Franco aceitará as condições que as Nações Unidas lhe impuserem, aceitará armas para evitar aquilo que ele chama enfaticamente de "o caos interno", e para se defender contra as suas antigas aliadas. Forçado pelas circunstâncias, Franco ajudará a segunda frente e a vitória das nações, e será este talvez, contra a sua própria vontade, o único ato justo em toda a sua vida. Mas, pobre Franco, a vitória das Nações Unidas, que ele será forçado a ajudar, será a sua própria derrota. Será mais que a sua derrota, será a sua morte e a morte de todos os tiranos na busca da vingança dos povos oprimidos. Essa figura sinistra está marcada pelo ódio dos povos. Pobre figura, ridícula como todos os tiranos, pobre fantasma de um mundo quase extinto que se colocou contra os povos em marcha. Foi inútil e ridícula a sua tentativa. Quis esmagar os povos e será esmagado por eles.
Sobre Franco, "as voltas que o mundo dá".
Lamentações do Führer 26
O último discurso do Führer, ex-futuro dono do mundo, é um reflexo do atual panorama da guerra. Em tom lamuriento, como quem ia enterrando suas últimas esperanças moribundas, o Führer falou. Nenhuma ameaça. Nenhuma promessa. Nenhuma explicação. Lamentações apenas, fúnebres lamentações.
Quando se referiu às lutas aliadas e especialmente aos acontecimentos na Itália, a sua voz tomou um fundo tom de amargura. Realmente, deve ser uma coisa terrível para o Führer ver na Itália uma antecipação do seu próprio destino. "Mussolini é o maior homem da Itália e o povo italiano o traiu", afirmou Hitler. E deve estar pensando, sem afirmá-lo: "Eu sou o maior homem do mundo, e os povos estão me traindo".
Hitler chama de traição a magnífica luta libertária do povo italiano em busca do seu próprio destino. Essa luta que derrubou Mussolini e conduziu Badóglio ao armistício com as Nações Unidas, abriu um dos golpes mais fundos no fascismo e tornou mais próxima a vitória aliada.
As palavras amarguradas de Hitler refletem bem o que significa o caso da Itália para a derrota do fascismo. E a luta do povo italiano, ligando-se intimamente à luta dos povos aliados, não vai parar até a vitória definitiva contra o fascismo. Os acontecimentos italianos tornam cada vez mais vivos e mais presentes os versos de Luis Oscar na Tieto, escritos meses atrás, num poema que é uma poderosa invocação a Garibaldi:
Afasta para o lado, as pedras de Laprera,
o sono não curvou teu ânimo forte.
Grita teu nome, Itália verdadeira,
de Sicília a Milão, a morte espera.
Vem e desperta os cânticos distantes,
e à Roma Eterna voltarão de novo
olhos, braços e pulsos italianos
vivificados pelo antigo fogo.
Assim falou Hitler sobre a Itália e sobre a luta das forças aliadas no Ocidente.
E que disse Hitler sobre a frente leste?
Preferiu silenciar. Preferiu nada dizer diante do arranco do exército russo, que vai diariamente, à custa do sacrifício de milhões de vidas, reconquistando a pátria invadida. "Morte aos invasores nazistas. Glória eterna aos defensores da pátria". Cada ordem do dia do Marechal Stalin, anunciando novas vitórias, deve soar aos ouvidos do Führer como uma sentença de morte. O Führer preferiu silenciar. Depois de Stalingrado, ele sabe que somente derrotas o esperam. Stalingrado foi o começo da queda. Stalingrado foi o primeiro sinal da vitória dos povos. Stalingrado foi a primeira vitória contra o fascismo, quando o mundo ainda acreditava ser impossível vencer o fascismo. Stalingrado foi o primeiro despertar dos povos. Pablo Neruda, grande poeta americano, canta essa luta e essa vitória em poema magnífico, voz profética e profunda que parece vir de dentro dos acontecimentos atuais:
Já não estais só, Stalingrado.
Agora, americanos combatentes
matam a serpente do deserto.
Já não estais só, Stalingrado.
A França volta às velhas barricadas
e os grandes leões da Inglaterra
voando sobre o mar tempestuoso,
cravam as garras na fera parda.
Já não estais só, Stalingrado.
A mensagem das mulheres brasileiras 27
A mensagem que as mulheres brasileiras enviaram às mulheres das Nações Unidas por intermédio da Presidente da Legião Brasileira de Assistência, D. Darci Vargas, revela o alto sentido patriótico e humano que está orientando o trabalho das mulheres no presente momento histórico.
A sra. Darci Vargas, agradecendo a homenagem que a Federação Internacional das Mulheres, em Londres, prestou às mulheres do Brasil, respondeu: "a alma feminina do Brasil acompanha, ansiosa e emocionada, o sacrifício e a dedicação das mulheres da Grã-Bretanha e demais Nações Unidas, colaborando com os seus soldados para defender a pátria agredida, para salvaguardar o mundo ameaçado. As mulheres brasileiras vos enviam, por meu intermédio, a sua comovida saudação, a vós e a todas as mulheres das Nações Unidas, cujo heroísmo e bondade constituem uma das maiores reservas de energias morais com que se há de construir a Vitória."
Esse trecho da mensagem diz bem da exata compreensão que as mulheres brasileiras têm do papel que lhes cabe desempenhar ao lado das mulheres das Nações Unidas.
E por que lutam as mulheres das Nações Unidas?
Lutam porque esta guerra lhes interessa profundamente. Dos acontecimentos da guerra, da destruição do fascismo, de uma paz com a vitória dos povos ou de uma paz com a vitória do muniquismo, de tudo isso depende o mundo de amanhã e o lugar destinado à mulher, nesse mundo.
Os soldados das Nações Unidas defendem os povos contra o fascismo e o muniquismo, que é a tentativa para fazer sobreviver o fascismo sob novas formas. Os soldados das Nações Unidas defendem, para todos os povos, as liberdades garantidas pela Carta do Atlântico. A Carta do Atlântico assegura para cada homem e cada mulher o direito de pensar, o direito de crer, o direito de não morrer de fome e o direito de agir, sem temer a polícia política. Portanto, os soldados das Nações Unidas, defendendo as liberdades democráticas para todos os povos, defendem também para as mulheres a possibilidade de uma vida melhor e mais livre. É por essa razão que a guerra interessa virtualmente a todas as mulheres, e por isso que lutam mulheres de todos os povos livres e de todas as classes sociais. Lutam nas frentes de guerra e nas retaguardas, nas frentes subterrâneas dos novos escravizados, lutam como guerrilheiras, como enfermeiras, como forças auxiliares do Exército, da Marinha e da Aviação, e em todas as campanhas civis de esforço de guerra.
Não faz muito tempo que o mundo inteiro assistiu, com profunda admiração, se levantar no Senado americano uma voz feminina vinda do Oriente longínquo, pedindo armas e auxílio para sua pátria continuar resistindo ao invasor. Madame Chiang-Kai-Chek, essa figura admirável de mulher, ficará na história como um dos mais altos valores femininos pela sua ação nacional e internacional em prol do povo chinês. Na China, ela organizou os movimentos femininos da "Nova Vida" e "Mobilização Espiritual", movimentos visando à unificação do povo chinês, atuou nas lutas ao lado do marido e resolveu muitas vezes, com seu fino tato diplomático, difíceis questões de divisão interna. Madame Kai-Chek, filha de uma nação onde imperou, por muitos séculos, um regime de escravização total da mulher, é bem um símbolo da mulher dos nossos tempos que conquista, pelo trabalho e pela luta, o seu lugar no mundo de amanhã.
As mulheres brasileiras, através da mensagem de D. Darci Vargas, presidente da Legião Brasileira de Assistência, também estão ao lado dessas mulheres que combatem. Na Legião Brasileira de Assistência, na Cruz Vermelha, na Liga de Defesa Nacional e em todas as outras organizações patrióticas, elas estão lutando para garantir a todos os brasileiros, homens e mulheres, os direitos assegurados pela Carta do Atlântico. Estão lutando pela autodeterminação do povo brasileiro, pela sua independência de povo livre.
Todas essas vitórias do povo brasileiro serão conquistadas nos campos de luta pelo Corpo Expedicionário. É por isso que as mulheres brasileiras estão ao lado do Corpo Expedicionário. Mais de 140 enfermeiras voluntárias já se apresentaram no Rio e, nos outros Estados, também já começou a apresentação voluntária.
Em torno do Corpo Expedicionário deve guiar-se28 todo o trabalho das mulheres brasileiras – colaborando nas frentes de guerra, acompanhando os soldados ou nas tarefas da retaguarda, ajudando os soldados e as famílias dos soldados, participando de todas as campanhas que visem ajudar o esforço de guerra do Brasil. O Corpo
Expedicionário é a concretização maior desse esforço de guerra.29
Jornal O Momento, 1945-1946
O povo não pode mais ser enganado30
A escritora Jacinta Passos Amado pronunciou, no grande comício
"A Bahia a Prestes e Yeddo Fiúza", o seguinte discurso:31
"O povo pode agora localizar, cada vez com mais exatidão, onde estão os seus verdadeiros amigos e onde estão os aventureiros, os demagogos e seus inimigos.
A guerra contra o fascismo abriu os olhos do povo, e depois da vitória das Nações Unidas, da Carta de São Francisco, da FEB, da anistia, da Constituinte, da candidatura de Yeddo Fiúza, não é mais possível enganar o povo.
E o que é o povo?
Não é uma palavra vazia que os demagogos gritam mas nela não acreditam. É alguma coisa que existe de verdade, como existe esta rua, esta cidade, com suas condições próprias de vida. O povo é feito de vós que estais aqui, que viestes da Penha, da Barroquinha, do Chame-Chame, da Estrada da Liberdade, das fábricas, das oficinas, das casas, lojas, repartições e escritórios. É Joaquim
Monteiro, é Manoel estivador 32 que mora no Pau-Miúdo, que tem 7 filhos para criar, e cuja filha mais velha vai todo dia a pé, muitas vezes em jejum, do Pau-Miúdo até a Escola Normal, porque não mora longe, como milhões de irmãos nossos, que a distância isolou,
sem dinheiro para pagar o bonde. O povo é Negro Benedito, 33 que como estrangeiro, em plena solidão, perdido no meio do mato, morando numa casa de terra batida, comendo carne-seca com farinha, de pé no chão, trabalhando sem descanso, sem saúde, sem médico, sem instrução, sem alegria, porque não tem dinheiro, porque não tem terra para plantar, e não tem terra para plantar porque o patrão é dono de léguas e léguas de terras abandonadas.
O povo é feito de vós, dessa gente que forma a maioria, a grande massa da nação brasileira. E como podeis defender os vossos interesses? É com golpes armados, com tiros na rua, é cada qual sozinho gritando contra o patrão, maldizendo o governo e os poderosos? Não, isso é o que os vossos inimigos desejam, para, em seguida, gritar contra vós: "Prendam esses desordeiros!" Já sabeis como lutar. Já ouvistes desde maio a palavra: "Organizai-vos", "Organizai-vos", "Organizai-vos", de Luiz Carlos Prestes. Isto quer dizer que o meio de cada um lutar é se unir aos outros que têm os mesmos problemas e os mesmos interesses a defender. É entrar para as organizações de classe, para os sindicatos, comitês, associações populares, até que possamos dizer em breve: temos o direito de exigir pacificamente o que necessitamos porque somos a maioria do povo brasileiro. O povo vai falar, e vai falar pelo voto secreto. O voto é a vossa palavra, a vossa arma, vossa bandeira, vosso caminho.
E por que deve o povo votar nos candidatos do Partido Comunista? Porque eles defenderão um programa que não contém promessas bonitas e irrealizáveis. Esse programa cuida, antes de tudo, daquilo de que o povo mais necessita: melhorar suas condições de vida. Esse programa não agita questões que às vezes são problemas reais, mas secundários no momento, como a questão do divórcio, porque o operário sabe que em sua casa o que provoca a tristeza e a discórdia, o que faz falta não é o divórcio, mas o pão de cada dia. Apresentar programas com uma infinidade de questões secundárias para o Brasil, no momento, faz lembrar certo fato acontecido: um homem ia viajando de noite pela estrada, quando foi atacado por uma quadrilha de ladrões, que lhe roubaram a mala, dinheiro, tudo, até a roupa do corpo. O homem tentou reagir, mas apanhou e ficou semi-morto na estrada. Algumas horas depois, conseguiu chegar à vila próxima e lembrou-se de que a única pessoa que conhecia era o senhor dono de um circo que ali se encontrava. Escreveu ao amigo pedindo uma roupa e algum dinheiro para comer e viajar. Algum tempo depois volta o portador, puxando um animal pesado e enorme, e o recado: "O moço mandou dizer que desculpe, que não pode ajudar muito, e mandou este elefante para o senhor." Diante de certos programas suntuosos, o povo brasileiro poderia dizer, como o homem da história: "Há anos que sou roubado por essa quadrilha de ladrões, e agora, de que me adianta esse elefante, se o que preciso é de roupa para viver e comida para comer?"
Vou ler alguns dos pontos que os candidatos do Partido Comunista defenderão na Constituinte: "Luta pela ajuda decidida do governo, através de medidas práticas, contra a inflação." "Luta pela ajuda decidida do governo à organização sindical do proletariado." "As grandes propriedades abandonadas ou mal utilizadas junto aos grandes centros de consumo e as vias de comunicação já existentes deverão passar ao poder do Estado, para que sejam gratuitamente distribuídas aos camponeses pobres." Esses são realmente problemas de primeira necessidade. E são problemas que não interessam somente aos membros do Partido Comunista: interessam a homens e mulheres, ao povo em geral. Interessam também ao grande número de brasileiros honestos, não comunistas que ainda não se decidiram a apoiar o programa de união nacional do Partido Comunista.
Mas, perguntarão alguns, desconfiados, que garantia temos que os candidatos do Partido Comunista defenderão realmente o problema apresentado? A resposta é que os candidatos do Partido Comunista são homens do povo, são operários, são camponeses, são profissionais pobres, antes de tudo brasileiros que, defendendo o programa do Partido, estão defendendo seus próprios interesses.
Para esses brasileiros honestos, mas que ainda olham o Partido Comunista de longe, desconfiados, quero contar a definição dada por um camponês do interior de São Paulo. É uma história já muita divulgada, mas que vale ser repetida. No meio duma conversa, o camponês falou assim: "Seu moço, esse negócio de comunismo é o mesmo que assombração. A gente vai pela estrada, de noite, e vê o velho longe. O que é? O que não é? Quer voltar, correr, fugir. Mas de repente toma coragem e avança. O companheiro diz: "Não vá, homem, é alma penada, é lobisomem, é assombração. Mas a gente vai mesmo, e quando chega perto, não é assombração nem nada, é o pai da gente." Para esses que ainda não se convenceram de que o Partido Comunista é o "pai da gente", ainda é tempo para uma aproximação leal, para um conhecimento de perto. Se é que não basta a garantia de 23 anos de luta por cavernas e catacumbas, perseguido mas lutando, caluniado mas lutando, maltratado mas lutando pelos direitos do povo. Se é que não basta o nome e a vida e a palavra de Luiz Carlos Prestes. Se é que não basta a candidatura para presidente de república de um homem que não é membro do Partido Comunista, mas cujo nome foi levantado pelo Partido Comunista porque é um brasileiro honesto, progressista, trabalhador, corajoso, capaz de resolver os problemas do povo: YEDDO FIÚZA.
Comunistas e não comunistas, homens e mulheres, brasileiros, povo, lembrai-vos de que o vosso voto é secreto, e o voto é nossa palavra, nossa arma, nossa bandeira, nosso caminho, vós que desejais o progresso de vossa pátria e o bem-estar de vosso povo."
Só unidas as mulheres resolverão seus problemas34
O Partido Comunista é o caminho para as trabalhadoras – Fala-nos
a escritora Jacinta Passos35
As chapas do Partido Comunista do Brasil em todo o país apresentaram nomes de intelectuais, escritores e poetas, juntamente com operários, à Câmara Federal e ao Senado. Foi isto uma demonstração da confiança que o partido do proletariado deposita nos intelectuais honestos, nos sinceros e decididos defensores dos apelos do povo, como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Aydano do Couto Ferraz e José Geraldo Vieira, romancista de profundas tendências religiosas.
Entre estes candidatos pela Bahia está Jacinta Passos Amado, poetisa de imensa sensibilidade que soube dizer tão bem, no memorável comício "A Bahia a Prestes e Yeddo Fiúza", aquelas palavras francas, de duro realismo, que soaram bem no fundo da grande massa de marmiteiros presentes na Sé, porque foram palavras dirigidas à miséria do pobre homem da rua, ao homem da marmita estranho aos oradores profissionais. Agora – três e meia da tarde – nossa reportagem encontra-se perante esta mulher de rara coragem. Jacinta Passos Amado fala pouco e é sempre clara e objetiva em todas as suas respostas. Há um instante em que a conversa recai sobre as últimas eleições, e daí tiramos nossa primeira pergunta para esta entrevista, que é sobre a posição da mulher na política. Nossa entrevistada fala devagar, dando tempo a que o repórter escreva a sua resposta com toda a calma, palavra por palavra:
- As mulheres estão demonstrando um interesse cada vez maior pelos acontecimentos políticos. Um fato que pude observar não somente aqui, mas em São Paulo, em Curitiba, em Porto Alegre, no Rio. É grande o número de mulheres que compareceram às últimas eleições. Elas participaram ativamente na campanha eleitoral, estiveram presentes nos trabalhos de organização dos partidos, nos comícios, nos jornais, nas chapas dos candidatos. Esse fato demonstra que as mulheres, no Brasil, estão adquirindo uma maior consciência política. É o resultado de um ressurgimento democrático que permitiu uma mobilização efetiva de todos os setores progressistas e revolucionários do povo. A mulher, e sobretudo a mulher operária, vai tomando consciência de sua condição, e vai compreendendo que não adianta lutar sozinha para resolver seus problemas fundamentais. Está compreendendo que seus problemas são os mesmos de milhões de outras mulheres e de outros homens. E que a solução desses problemas não depende apenas de cada um, mas está ligada ao processo de democratização do país, a um maior progresso econômico e político, que permita uma vida melhor para cada indivíduo.
A mulher operária
É por isso – continua Jacinta Passos – que as mulheres estão se interessando pelos acontecimentos políticos, pelas eleições, pelos fatos que vão influir tão diretamente em suas vidas. A mulher operária sente ainda mais diariamente esses problemas, porque a sua condição é a mais difícil; além de trabalhar em péssimas condições nas fábricas, para receber um salário que sustente ou ajude a sustentar sua casa e seus filhos, ela tem de resolver os problemas da casa, comprar os gêneros, cozinhar, zelar pela casa e criar os filhos. Ela não encontra nem creches em número e condições suficientes, nem restaurantes populares, nem lavanderias e passadeiras elétricas, pois isso só um alto desenvolvimento industrial poderá trazer para facilitar sua tarefa doméstica, de mãe de família e de dona de casa. A mulher operária trabalha nas fábricas e nas casas, nas mais duras condições, sentindo falta do mais necessário para seu conforto. E nas fábricas quase sempre recebe um salário inferior aos dos operários.
É por isso que a mulher operária encontra, sem dificuldade, onde está a saída verdadeira para a sua situação. A sua entrada para a luta organizada no partido do proletariado é um caminho não apenas lógico, mas instintivo, para defender seus interesses. É grande o número de mulheres comunistas participando da luta ao lado dos companheiros, em defesa de melhores dias para seus filhos. A candidata do Partido Comunista por S. Paulo, Carlota Vizoto, é uma operária que perdeu o marido, morto na prisão, e tomou seu lugar de militante do partido.
A mulher burguesa
Há uma pausa. Várias pessoas estão presentes nesta sala de estar da casa do senhor Manoel Caetano, que é onde conversamos com
a escritora Jacinta Passos Amado. 36 O repórter indaga da escritora qual a posição da mulher da classe média, da mulher pequeno-burguesa. A resposta é longa:
- Há um grande número de mulheres não operárias, sobretudo de pequena burguesia, que conseguiram uma independência econômica através do seu próprio trabalho, e que sentem os problemas femininos com mais agudeza. Algumas deles conseguem, através do trabalho prático, uma identificação maior com a classe revolucionária e também com o seu instrumento de luta, o Partido Comunista. Outras vão até determinado ponto: chegam a compreender a necessidade da luta organizada, da sua participação na vida política do país. Compreendem que do processo econômico e político do país depende uma melhoria de vida para todos, inclusive para as mulheres. Um exemplo dessas mulheres, que podemos designar de progressistas, é a outra candidata do Partido Comunista de São Paulo, D. Luiza Camargo Branco, uma antiga professora que não é comunista, mas participou de vários movimentos populares. Concluindo, quero dizer que há um número de reivindicações femininas comuns a todas as mulheres e que, em torno dessas reivindicações é possível um trabalho unitário e organizado das mulheres. Mas é preciso levar em consideração um fato: a mulher brasileira não tem ainda uma tradição de luta política; tem uma experiência pobre de organização, porque apenas começa a sair de um passado de opressão feudal.
As candidatas do PCB
Em seguida indagamos a razão por que o Partido Comunista apresentou tantos nomes femininos à Assembleia Constituinte, que será a voz máxima do povo brasileiro e a suprema concretização dos anseios democráticos das massas operárias e camponesas de todo o território nacional. Respondeu a nossa entrevistada:
- O Partido Comunista foi o partido que indicou maior número de nomes femininos para a futura Assembleia Constituinte. É um fato lógico, porque o Partido Comunista é o partido da classe em ascensão no mundo atual. A presença dessas mulheres na Assembleia Constituinte garantirá uma lei justa em relação à proteção à maternidade e à infância, e a todas as reivindicações femininas.
Arte e política
Quando saímos da redação, levamos em mente uma pergunta séria
a respeito dos artistas, da arte social e da relação37 existente entre essa arte e a política. Guardamos essa resposta para o fim. Os presentes a escutaram atentos e a artista do povo, a lírica e revolucionária Jacinta Passos Amado, como artista política, respondeu:
- Todo artista verdadeiro, isto é, todo artista que sente realmente a sua obra e procura realizá-la honestamente, faz arte social. Assim o grande poeta reacionário Mário Quintana faz arte social, porque sua obra reflete todo o desespero e o fim de vida duma classe sem solução. Assim os romancistas revolucionários de 30 fizeram arte social, porque refletiram no romance as aspirações de uma parte da população brasileira, que começava a pesar na vida social: os explorados do campo, famintos da terra. Nos regimes democráticos, existe arte reacionária e arte revolucionária. No fascismo, não há arte. Foi o que se viu na Itália, na Alemanha e no período de fascistização do Brasil.
Com o processo atual de redemocratização do país, estão sendo criadas novas condições para o artista produzir. A maioria dos nossos intelectuais são homens da classe média, não identificados com a sua classe, e que por isso não podem criar, dentro dela, uma arte que seria reacionária. Esses artistas revolucionários são homens que, para criar a obra de arte, necessitaram de um contato com o povo. Ora, com a polarização atual de forças que se está processando no Brasil, se abre por esses artistas a oportunidade de um contato maior com o povo, através de setores mais revolucionários, organizados no Partido Comunista. O partido está hoje ligado, realmente, à massa, e representa as suas aspirações. Por esse motivo é que a maioria dos grandes artistas atuais está ingressando no Partido Comunista. É claro que não é apenas pelo trabalho partidário, mas pelas possibilidades que este trabalho dá ao artista de sentir como o povo vive, e como luta em defesa duma vida sem as restrições impostas pela sua condição de explorado.
A autonomia municipal38
A escritora Jacinta Passos Amado pronunciou a seguinte palestra, no dia 23 último, no Centro Operário, em Alagoinhas:
"Cada município tem seus problemas próprios, suas necessidades, suas condições de vida e sua gente. Assim como cada Estado do
Brasil 39 é diferente de todos os outros, cada município também é diferente. Por isso é que governar S. Paulo não é a mesma coisa
que governar a Bahia, 40 e governar Cachoeira ou Barra ou Ilhéus não é o mesmo que governar Alagoinhas. Por isso também é que cada município deve ser governado pelo próprio povo, pela gente que mora nele, que conhece suas ruas, suas casas, sua feira, seu comércio, seu mercado, suas plantações e criações, seus transportes, suas escolas, suas vilas e roças, suas fontes de água e de iluminação.
E como pode o povo governar seu município, sua cidade?
O povo pode governar se estiver organizado. O povo deve se reunir, dentro da ordem, para lutar por aquelas coisas de que sente mais necessidade. O progresso do município trará uma vida melhor para cada um e, portanto, o progresso do município interessa a todos. Todos se devem reunir para lutar pelo progresso do município, que
deve estar e está acima das diferenças de riqueza, 41 de cor, de sexo, de religião, de partido político, e acima das brigas pessoais. O progresso do município interessa tanto ao comerciante como ao trabalhador da roça que vem, nos dias de feira, vender o que planta, comprar o que precisa. Interessa tanto ao preto como ao branco.
Interessa tanto aos homens como às mulheres,42 que dentro de casa sofrem a carestia da vida, a carestia do leite, do pão, da carne, da farinha, do feijão, das frutas, das verduras com que têm de preparar a comida para seus maridos e seus filhos. Interessa ao vigário católico, porque o povo bem alimentado, bem vestido, com escolas e médico e meios de viajar, aumentará a frequência para os ofícios religiosos. Interessa também às outras religiões, aos protestantes, aos espíritas. Interessa aos médicos, aos professores,
aos empregados da prefeitura, aos empregados de lojas 43 e armazéns, às empregadas domésticas, aos músicos das filarmônicas, aos trabalhadores, aos pedreiros, ferreiros,
marceneiros, aos 44 chauffeurs , aos operários de fábricas, de oficinas da estrada de ferro. O progresso de município interessa tanto aos que são do Partido Social Democrático como aos da U.DN., do Partido Trabalhista ou do Partido Comunista. O que todos desejam e o que cada um deseja é melhorar de vida, e ter uma vida menos difícil, e ter mais dinheiro – para criar e educar melhor seus filhos. Para conseguir isso, não adianta lutar sozinho, é preciso que todos se unam para discutir, dentro da ordem, quais são suas necessidades mais urgentes e como poderão resolvê-las. Qualquer divisão ou briga pessoal deve ser posta de lado, em benefício de todos.
Autonomia municipal
O povo deve organizar uma comissão em que entrem todos, em que ajudem todos, representantes de todos os partidos, todos os antigos prefeitos que já governaram e já têm uma experiência das dificuldades encontradas. Esse povo reunido não vai esperar que o governo do Brasil, ou do Estado da Bahia, ou os chefes de seus partidos, que vivem longe, venham resolver os problemas do município. Não, só o povo do município é capaz de governar a si mesmo, porque conhece suas necessidades. Isso é o que se chama autonomia municipal. O povo deve organizar a Comissão Pró-Autonomia Municipal de Alagoinhas e lutar por essa autonomia, enviando telegramas e abaixo-assinados ao Governo Federal e Estadual, pedindo para que faça parte da Constituição, isto é, da lei que vai governar o Brasil, que vai governar o presidente da República, o governador da Bahia, os prefeitos, e o povo pedindo que faça parte dessa lei a autonomia municipal.
Muitos municípios já tiveram bons prefeitos, uns honestos e trabalhadores que procuram trabalhar em benefício da cidade. Mas
esses prefeitos encontraram três dificuldades principais: Primeiro,45 eram prefeitos nomeados pelos interventores e não eleitos pelo povo do município, por isso não contavam com a confiança e a ajuda de grande parte da população; segundo, eram prefeitos nomeados pelos interventores e que podiam ser substituídos por eles, a qualquer momento, o que os impedia de iniciar qualquer obra de maior alcance e os obrigava a uma atitude muitas vezes servil, em prejuízo dos interesses da população do município; terceiro, eram prefeitos que governavam sob um regime de centralização administrativa, isto é, um regime em que a população do município sente o peso dos impostos sobre o comércio local, sobre as indústrias, sobre os produtos plantados, sobre os ânimos criados, sobre o solo ocupado nos mercados e feiras livres, sobre os carros de boi, sobre tudo, e têm de enviar para o Estado grande parte da
renda municipal, quando 46 seria de justiça aplicá-la no progresso do próprio município.
Comissão Pró-Autonomia Municipal
O primeiro ponto do programa da Comissão é, portanto, lutar pela autonomia municipal. É interessar toda a população nessa campanha, é explicar o que significa autonomia municipal e como interessa a todos. A autonomia municipal será tanto mais facilmente conseguida quanto maior número de pessoas participar do movimento, assinar os abaixo-assinados e telegramas para o Governo Estadual e Federal. Esse primeiro movimento deve ser acompanhado de intensa propaganda, sessões públicas para explicar a campanha do povo, inscrições nos muros, nas ruas, notícia através do rádio, distribuição de boletins etc.
O segundo ponto do programa da Comissão deve ser a discussão, dentro da ordem, dos problemas de maior necessidade do município. Todos os interessados devem se manifestar, e a comissão então organizará um programa mínimo para o município, um programa concreto, imediato, procurando melhorar não somente a população que vive no centro da cidade como nas vilas, distritos, roças e fazendas. Depois de combinado este programa, a comissão deve estudar o nome de um homem residente no município que reúna as qualidades de homem honesto, capaz e trabalhador, que possa contar com o apoio da grande maioria da população, para ser indicado como candidato do povo para seu prefeito. Numa democracia, o povo pode não somente votar em quem quiser, mas indicar quem quiser como seu candidato. E é claro que o povo indicará alguém que possa, apoiado por ele, cumprir um programa que interessa ao povo. Esse candidato, apoiado por elementos de todas as condições e de todos os partidos políticos, será certamente o eleito nas próximas eleições para prefeito municipal. E se todos os municípios do Brasil lutarem por sua autonomia, pelo direito de se governarem, então veremos o Brasil progredir como nação. O esqueleto do Brasil é formado pela rede de municípios. Não adianta querer que o corpo do Brasil cresça, se desenvolva, progrida, se não se cuida de alimentar e desenvolver a estrutura óssea dos municípios.
Autonomia e o Partido Comunista
O Partido Comunista foi quem primeiro levantou a bandeira da autonomia municipal. Isso não quer dizer que a autonomia municipal seja uma campanha somente do Partido Comunista. Não, é uma campanha de todo o povo, que interessa a todos. Os comunistas estão prontos a colaborar, dentro da ordem, da tranquilidade e do progresso para essa campanha. Eles foram os primeiros a levantar a bandeira da autonomia municipal porque o Partido Comunista quer o que o povo também quer. Os homens e mulheres do Partido Comunista são homens e mulheres nós, nós vos daremos autonomia. Não. O Partido Comunista diz: organizai-vos, fazei vossa união, povo do município, vossos problemas têm de ser resolvidos por vós mesmos, vosso prefeito deve ser indicado por vós mesmos. O Partido Comunista não promete ao povo o que ele não pode cumprir. Não promete nada. Apenas ensina ao povo como lutar e conseguir o que necessita. É assim que age o Partido Comunista, que já existe há 23 anos lutando pelos direitos do povo. Muitos ainda hoje não se livraram inteiramente do receio que têm do Partido Comunista. É que durante anos e anos o que ouviam, o que lhes contavam, o que liam eram somente calúnias contra o Partido Comunista. Mas hoje eles veem os comunistas lutando às claras dentro da ordem, na frente do povo, para resolver os problemas mais urgentes do povo. Veem à frente do Partido um homem que procura antes de tudo os interesses do povo: Luiz Carlos Prestes. Veem que os comunistas não lutam contra a religião porque isto não interessa ao povo. O que interessa ao povo é ter as melhores condições de vida. Veem que os comunistas não querem destruir a família; eles lutam contra a miséria e a pobreza, para criar e educar melhor seus filhos. Portanto, os brasileiros progressistas e que desejam a prosperidade de seus municípios não temem lutar ao lado dos comunistas. O Partido Comunista na Bahia apresentou um programa mínimo estadual. Um programa que pode ser aplicado mesmo por aqueles que não são comunistas. Passo a ler alguns pontos desse programa.
Na Constituinte, os deputados comunistas defenderão o seguinte: todas as terras abandonadas devem passar ao poder do Estado, para que sejam distribuídas aos camponeses pobres que queiram trabalhar nelas. Isso interessa não só aos camponeses, também a nós que vivemos nas cidades. Por quê? Pelo seguinte: para haver prosperidade no Brasil é preciso haver fábricas no Brasil que produzam roupa, calçados, alimentos, tudo o que o nosso povo necessita. Enquanto recebermos tudo do estrangeiro, os preços só podem ser elevados. Mas as fábricas e indústrias só podem se manter se encontrarem mercado interno suficiente. É preciso aumentar o mercado interno, isto é, aumentar o número de pessoas que podem comprar os produtos das fábricas. Nós sabemos que os camponeses que vivem no campo são milhões de brasileiros que vivem isolados do resto do povo. Os camponeses vivem nas fazendas trabalhando sem descanso, e nunca têm dinheiro para comprar, nas grandes cidades, os produtos expostos no comércio. O seu dinheiro mal chega para o mais necessário, para a carne, a farinha e a bulgariana ou chita para vestir a mulher e os filhos. Ao mesmo tempo, encontramos grandes pedaços de terra abandonados pelos donos que não plantam. É justo que essas terras passem ao poder do Estado e sejam distribuídas aos camponeses pobres que queiram plantar. Assim a vida desses camponeses vai melhorar. Com o dinheiro das plantações que ele vender, poderá comprar coisas para sua casa, sua mulher e seus filhos. E as fábricas do Brasil terão milhões de compradores novos para seus produtos e poderão fabricar por um preço menor. Isso será um benefício para todos nós, mesmo os que vivemos nas