Leishmanioses do continente americano
11. Vetores na Leishmaniose Tegumentar Americana
11. Vetores na Leishmaniose
Tegumentar Americana
Reginaldo Peçanha Brazil, Beatriz Gomes Brazil
Os flebotomíneos (Diptera: Psychodidae: Phlebotominae) são hospedeiros naturais de vários microrganismos, entre os quais alguns agentes etiológicos de doenças de importância médica e veterinária como vírus, bactérias e protozoários. Três gêneros de protozoários tripanossomatídeos são encontrados parasitando esses dípteros: Endotrypanum, Trypanosoma e Leishmania. Apenas neste último gênero encontram-se flagelados patogênicos para o homem que têm como vetores os flebotomíneos, fato que confere a esses insetos grande importância pela transmissão das leishmanioses nas mais diversas regiões do mundo (Lainson & Shaw, 1987).
Os flebotomíneos constituem um grupo de insetos relativamente primitivo, havendo hipóteses de que provavelmente tenha aparecido no Cretáceo Inferior (Lewis, 1982; Andrade & Brazil, 2003). Esse grupo, bem definido dentro da ordem Diptera, tem provavelmente origem monofilética (Aransay et al., 2000). Embora ele seja encontrado em regiões temperadas, a maioria das espécies apresenta distribuição tropical e subtropical.
Os adultos, machos e fêmeas, são reconhecidos pelo seu tamanho diminuto, pelo corpo bastante piloso, pelas asas mantidas eretas sobre o corpo – quando pousados – e pelo voo saltitante. As fêmeas são hematófagas e, em geral, costumam picar durante a noite ou nos crepúsculos, mas podem picar também durante o dia (Brazil & Brazil, 2003).
Atualmente, existem dois sistemas de classificação sendo utilizados na identificação das espécies de flebotomíneos americanos (Young & Duncan, 1994). Por ser a mais atual, de maior amplitude metodológica e maior abrangência do número de espécies classificadas, a classificação de Galati (Galati, 2003) é a utilizada neste capítulo.
Desenvolvimento de Leishmania spp.
no vetor
Hoje, existem cerca de novecentas espécies de flebotomíneos descritas no mundo, dentre as quais mais de quatrocentas são encontradas nas Américas. Dentre estas, pouco mais de vinte espécies são consideradas vetores comprovados das leishmanioses no Novo Mundo. Esse número relativamente pequeno de vetores se dá em razão de uma série de fatores fisiológicos e bioquímicos inerentes tanto aos insetos quanto aos parasitos. Tais fatores influenciam a sobrevivência dos parasitos no tubo digestório do inseto, sua multiplicação e transformações que resultarão no aparecimento de formas infectantes, influenciando ainda a transmissão para o hospedeiro vertebrado (Pimenta et al., 1992; Bates & Rogers, 2004).
O desenvolvimento das diferentes espécies de Leishmania nas espécies suscetíveis de flebotomíneos apresenta variações quanto à localização da infecção no tubo digestório do inseto, o que permite dividi-las em três diferentes grupos (Lainson & Shaw, 1987). Essa característica fisiológica das leishmânias serviu como base para a atual classificação do gênero Leishmania em dois subgêneros: Leishmania e Viannia, separando-se o gênero Sauroleishmania, o que foi posteriormente confirmado por meio de estudos bioquímicos e moleculares. O último gênero inclui espécies parasitos de lacertídeos e não são patogênicas para o homem, mas tem também os flebotomíneos como vetores (Killick-Kendrick et al., 1984; Shaw, 1963).
A pesquisa da infecção natural de flebotomíneos por Leishmania é feita pela dissecção das fêmeas e a observação das formas flageladas no trato digestório do inseto. Embora laboriosa, essa técnica permite estabelecer o índice de infecção, observar a atividade, o desenvolvimento e a localização dos flagelados no inseto, o que auxilia a identificação do parasito ao nível subgênero, além de permitir o isolamento do flagelado para posterior confirmação e comparação com isolados humanos (Ward, Lainson & Shaw, 1973; Killick-Kendrick, 1990).
Nos últimos anos, as técnicas moleculares baseadas em PCR têm sido aplicadas na detecção de DNA de Leishmania em flebotomíneos em variados estudos de transmissão em diferentes regiões. Em razão da sua alta sensibilidade tem-se encontrado um alto número de flebotomíneos com ‘infecções naturais’, mas que na realidade, na maioria dos casos, não atendem aos critérios básicos para sua incriminação como vetor, uma vez que a presença de DNA apenas indica que o inseto se alimentou em fonte infectada com aquele DNA, sem, no entanto, caracterizar se houve multiplicação ou adesão da espécie de Leishmania ao tubo digestório do inseto.
Biologia dos flebotomíneos e
transmissão da LT
A ampla distribuição geográfica da leishmaniose tegumentar nas Américas está associada à presença das fêmeas de diferentes espécies de flebotomíneos com fortes tendências antropofílicas, e em densidade suficiente para manter a infecção circulando em diferentes ecótopos. Soma-se a isso uma série de características biológicas inerentes ao próprio vetor, as quais influenciam sua capacidade vetorial e, consequentemente, a disseminação da doença.
Desse modo, fatores que têm importância na transmissão: a distribuição do inseto; a abundância da espécie em uma determinada área; os hábitos alimentares (zoofilia, antropofilia ou ecletismo); a concordância gonotrófica (necessidade de múltiplos repastos para a reprodução); a suscetibilidade à infecção pela espécie de Leishmania na área de ocorrência dos casos, além da capacidade de algumas espécies de adentrar os ambientes antrópicos (sinantropia) (Brazil & Brazil, 2003; Forattini, 1973).
A incriminação de um flebotomíneo como vetor de uma determinada espécie de Leishmania, para o homem, leva em consideração características da biologia do inseto e de sua relação com os hospedeiros das leishmânias. Sabe-se que, para que ocorra a transmissão, há a necessidade de uma fonte infectada, da espécie de flebotomíneos suscetível à infecção pela espécie do protozoário e potenciais novos hospedeiros.
Embora em sua maioria sejam oportunistas, algumas espécies picam preferencialmente o homem, sendo a característica da antropofilia um dos principais fatores na sua incriminação. Outro fator diz respeito ao repetido encontro de infecção natural na espécie antropofílica por formas flageladas da mesma espécie de Leishmania, isolada e caracterizada dos casos de leishmanioses em uma mesma área. Por fim, a comprovação pela infecção experimental do flebotomíneo e a transmissão pela picada, embora geralmente negligenciados pelos pesquisadores, são considerados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como fatores determinantes na incriminação do vetor.
Vetores nas américas
Como já salientado em outros capítulos, a leishmaniose tegumentar americana (LTA) é doença infecciosa autóctone, crônica, causada por diferentes espécies de Leishmania (Ross, 1903). Sob o ponto de vista epidemiológico, trata-se de uma zoonose na qual animais silvestres e domésticos apresentam papéis fundamentais na manutenção do ciclo. Embora a transmissão clássica de todas as formas da LTA se dê a partir da penetração do homem em área enzoótica, a variedade de espécies de Leishmania e flebotomíneos envolvidas determina algumas particularidades epidemiológicas, incluindo a adaptação para um aspecto mais periurbano na
transmissão (Figura 1).
Figura 1 – Ciclo de transmissão das leishmanioses no Brasil
Sabemos, até o momento, que pelo menos 12 espécies de Leishmania são responsáveis pela leishmaniose cutânea nas Américas (Deane & Grimaldi, 1985; Lainson, 2010), das quais somente três pertencem ao subgênero Leishmania e nove ao subgênero Viannia. Em virtude da grande variedade de espécies envolvidas e da ampla distribuição geográfica onde estes parasitos circulam, encontramos também um variável número de vetores
(Quadro 1).
Quadro 1 – Vetores de Leishmania spp. causadora de
leishmaniose cutânea no homem nas Américas
Espécie de Distribuição Forma Vetor(es) Leishmania geográfica clínica
L.(V.) Américas do LC/LMUC Ny. intermedia, braziliensis Sul e Ny. neivai, Ny.
América whitmani, Mi. Central migonei, Psy.
wellcomei, Psy. complexus
L. (V.) Norte do LC/LMUC Ny. umbratilis guyanensis Brasil,
Guiana
Francesa e
Suriname
L. (V.) Norte da LC Ny. trapidoi, Ny. panamensis América do ylephiletor, Lu.
Sul e gomezi, Psy. América panamensis Central
L. (V.) Peru LC Lu. peruensis, peruviana Lu. verrucarum
L. (V.) lainsoni Norte do LC Tr. ubiquitalis,
Brasil, Lu. nuneztovari
Bolívia e anglesi, Tr. Peru velascoi
L. (V.) naiffi Norte do LC Psy. ayrozai
Brasil e
Guiana
Francesa
L. (V.) shawi Norte do LC Ny. whitmani s.l
Brasil
L (V.) Colômbia e LC Lu. hartmanni, colombiensis Panamá Lu. gomezi,
Psy.
panamensis
L. (V.) Brasil (Pará) LC Nyssomyia lindenbergi antunesi
L. (L.) América do LC/LAD Bi. amazonensis Sul e flaviscutellata,
América Pi. nuneztovari Central
L. (L.) Sul dos LC/LAD Bi. olmeca mexicana Estados olmeca
Unidos,
México e
América
Central
L. (L.) Venezuela LC Bi. olmeca venezuelensis bicolor
Abreviações: LC – Leishmaniose cutânea; LMUC – Leishmaniose
mucocutânea; LAD – Leishmaniose anérgica difusa.
Em alguns casos, uma mesma Leishmania pode ter mais de um vetor comprovado, dependendo da região (Rangel & Lainson, 2009).
Leishmania (L.) mexicana Biagi, 1953
Também conhecida como úlcera de los chicleros, apresenta uma distribuição limitada do sul dos Estados Unidos, México e países da América Central, onde Bichromomyia olmeca olmeca (Vargas & Díaz-Nájera, 1959) é um vetor comprovado. Esse vetor, embora seja antropofílico, apresenta alguma preferência por animais silvestres. Daí as características enzooóticas desta Leishmania. Outro flebotomíneo de importância é a Lutzomyia (Tricholateralis) cruciata (Coquillett, 1907), que pode ter importância epidemiológica em razão de seu comportamento antropofílico nas regiões endêmicas de LT, mas seu papel como vetor ainda requer comprovação.
Leishmania (L.) amazonensis Lainson & Shaw, 1972
Este parasito apresenta uma ampla distribuição em vários países da América do Sul e América Central; seu ciclo vital é tipicamente o de uma zoonose entre animais silvestres. Até 1975, os casos humanos de leishmaniose cutânea associada a essa espécie apresentavam distribuição restrita à bacia Amazônica, onde o vetor Bichromomyia flaviscutellata (Mangabeira, 1942), de hábitos zoofílicos, restringia-se ao ambiente florestal. Assim, na Região Norte a transmissão só ocorre quando o homem penetra na floresta, levando a infecção humana a ser pouco frequente. Além dos estados na Região Norte, esse flebotomíneo já foi encontrado no Maranhão, Ceará, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Embora pouco comum nas capturas com armadilhas luminosas, nas diversas regiões brasileiras, seu papel como vetor da Leishmania amazonensis é incontestável no Brasil e em outros países da América do Sul.
Um provável segundo vetor é a Pintomyia (Pifanomyia) nuneztovari (Ortiz, 1954), que, além da sua antropofilia, já foi encontrado naturalmente infectado por L. amazonensis na região subandina da Bolívia. Tais características a colocam como suspeita de transmitir a LT nessa região da Bolívia (Martinez et al., 1999).
Leishmania (Leishmania) venezuelensis Bonfante-Garrido, 1980
Até o presente momento, este parasito só foi identificado em isolados de poucos casos de leishmaniose cutânea em humanos e animais domésticos na Venezuela, sendo o possível vetor ainda desconhecido. Existem fortes indicações de que a Bichromomyia olmeca bicolor (Fairchild & Theodor, 1971) seja o vetor na Venezuela. Esta espécie, que tem uma distribuição bastante ampla no norte da América do Sul, incluído o Brasil, o Panamá e a Costa Rica, apresenta uma acentuada atração por roedores, mas ocasionalmente pica o homem.
Leishmania (Viannia) braziliensis Vianna, 1911
A exata distribuição geográfica da L. braziliensis lato sensu ainda é incerta, embora o parasito já tenha sido identificado desde a América Central até a Argentina. Ele é responsável pela forma cutânea, que pode evoluir para a forma mucocutânea. No Brasil o parasito tem sido identificado em praticamente todos os estados, o que faz com que várias espécies de flebotomíneos possam estar envolvidas na transmissão.
Os dois maiores vetores são Nyssomyia intermedia (Lutz & Neiva, 1912) e Ny. whitmani (Antunes & Coutinho, 1939), com distribuição ampla nas áreas periurbanas e urbanas das Regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Em algumas áreas de Minas Gerais, São Paulo e Sul do Brasil, Ny. intermedia é simpátrica com a espécie irmã Ny. neivai (Pinto, 1926). Esta é a mais comum em algumas regiões do Sul do Brasil, e o recente encontro de espécimes naturalmente infectados em Santa Catarina e Rio Grande do Sul reforça seu papel como vetor de L. braziliensis nessa específica região do país e, possivelmente, na Argentina (Marcondes et al., 2009; Pita-Pereira et al., 2009). No que diz respeito a Ny. whitmani, é possível que se trate de um complexo de espécies. Sua importância como vetor de Leishmania spp. tem que ser reavaliada nas diversas regiões do Brasil. São fortes as indicações de que tal espécie seja silvestre onde as matas primárias seriam seu ecótopo natural. Entretanto, observações no Nordeste, Sudeste e Sul do território nacional indicam sua profunda tendência em habitar as matas já alteradas pelo homem, com igualmente grande tendência a se adaptar ao peridomicílio (Rangel & Lainson, 2009). Tem sido observado o grande ecletismo da espécie quanto a seus hábitos alimentares, com grande avidez para picar o homem. Sua importância como vetor de Leishmania braziliensis no Nordeste e no Sudeste, e possivelmente em outras regiões do Brasil, é inegável. É provável que tenha significância como vetor da LT também na Argentina e no Paraguai.
Migonemyia (Migonemyia) migonei (França, 1920) é um flebotomíneo com distribuição bastante ampla em quase toda a América do Sul. Em razão da sua antropofilia e de sua adaptação ao ambiente modificado pelo homem, tem sido sempre considerada um vetor suspeito tanto no Brasil como na Venezuela, onde foi encontrado diversas vezes com infecção natural por Leishmania (Pita-Pereira et al., 2005). É uma espécie que ataca, além do homem, aves, cães e equinos com bastante avidez no peridomicílio, tendo sido recentemente incriminada de transmitir a L. braziliensis no Rio de Janeiro e em Pernambuco.
Na Região Norte o Psychodopygus wellcomei Fraiha, Shaw & Lainson, 1971 é considerado um importante vetor de L. braziliensis. Este flebotomíneo, primariamente silvestre e altamente antropofílico, pica o homem tanto durante o dia quanto à noite. No Maranhão, Ceará e Pernambuco tem sido encontrado em áreas de floresta, pouco sabendose sobre seu envolvimento na transmissão da Leishmania nesses estados. Psychodopygus complexus (Mangabeira, 1941) é também considerado vetor de L. braziliensis na Serra dos Carajás, no estado do Pará, onde esta espécie, altamente antropofìlica, foi encontrada naturalmente infectada. Psy. complexus tem sido encontrada na Zona da Mata em Pernambuco, área endêmica para leishmaniose cutânea, mas ainda sem comprovação do seu envolvimento na transmissão. As fêmeas de Psy. wellcomei e de Psy. complexus são morfologicamente semelhantes, sendo por isso necessária a identificação do macho para separar as espécies em áreas em que ocorrem em simpatria (Galati, 2003).
Leishmania (Viannia) guyanensis Floch, 1954
É bastante comum esta Leishmania ser encontrada infectando o homem na Região Norte do Brasil, sobretudo ao norte do rio Amazonas. É igualmente comum na Guiana Francesa e no Suriname. O vetor principal desta espécie é a Nyssomyia umbratilis (Ward & Fraiha, 1977), que pica o homem com certa avidez. Nos casos humanos de LT causados por tal espécie, é habitual a multiciplicidade das lesões cutâneas em razão do grande número de flebotomíneos que picam o homem quando perturbados pela penetração deste na floresta. O ataque das fêmeas de Ny. umbratilis pode ocorrer durante o dia, na ‘penumbra’ da floresta, daí tendo se originado o nome da espécie. A presença de promastigotas no trato digestório de Ny. umbratilis é mais corriqueiro do que geralmente em outras espécies de flebotomíneos, já que esta espécie também é vetor de parasitos do gênero Endotrypanum, o que muitas vezes dificulta o diagnóstico de Leishmania. Ny. umbratilis já foi encontrada em matas primárias do Ceará e de Pernambuco, mas ainda é desconhecida sua importância epidemiológica na transmissão de Leishmania nesses estados.
Leishmania (Viannia) peruviana Velez, 1913
Este parasito é responsável pela ‘uta’, forma de leishmaniose cutânea com lesão geralmente única e de cura espontânea. Tem sido isolado de casos humanos e de cães, especialmente na encosta ocidental dos Andes peruanos a 1.300 metros acima do nível do mar. Nessa área, de vegetação xerófila, a Lutzomyia (Helcocyrtomyia) peruensis (Shannon, 1929) e a Lutzomyia verrucarum (Townsend, 1913) são os vetores suspeitos na região. Ambas as espécies podem ser encontradas tanto no intradomicílio como no peridomicílio, mas sobretudo nos abrigos de animais; entretanto, Lu. peruensis, embora possa picar o homem, não é tão antropofílica quanto a Lu. verrucarum.
Leishmania (Viannia) panamensis Lainson & Shaw, 1972
Este parasito é responsável pela LT no norte da América do Sul e América Central, apresentando distribuição geográfica relativamente ampla, tendo sido isolado na América do Sul (Equador, Venezuela e Colômbia) e América Central (Panamá, Costa Rica e Nicarágua). Sua transmissão ocorre, em geral, nas matas primárias e secundárias desses países, onde os vetores suspeitos são: Nyssomyia trapidoi (Fairchild & Hertig, 1952) na Colômbia, Panamá e Costa Rica; Nyssomyia ylephiletor (Fairchild & Hertig, 1952) na Costa Rica e Panamá; Lutzomyia (Tricholateralis) gomezi (Nitzulescu, 1931) no Panamá; e Psy. panamensis (Shannon, 1926) no Panamá.
Leishmania (Viannia) lainsoni Silveira et al., 1987
Até pouco tempo esta espécie só tinha sido isolada no estado do Pará, onde a paca (Agouti paca) seria o reservatório silvestre e onde haveria infecção ocasional do homem. No momento, o parasito já foi registrado no Peru e na Bolívia. Também no estado do Pará e provavelmente em outra área da região amazônica. Trichophoromyia ubiquitalis (Mangabeira, 1942) é o vetor principal, mas sua pouca antropofilia certamente determina os poucos casos humanos existentes. Duas outras espécies podem ser responsáveis pela transmissão da L. lainsoni na região subandina da Bolívia: Lu. nuneztovari anglesi Le Pont & Desjeux, 1984 e Trichophoromyia velascoi (Le Pont & Desjeux, 1992). Estudos mais aprofundados fazem-se necessários para determinar realmente o principal vetor nessa região.
Leishmania (Viannia) naiffi Lainson & Shaw, 1989
Raros casos de leishmaniose cutânea por este parasito já foram registrados na região amazônica (Pará e Amazonas) e também na Guiana Francesa, mas é provável que sua distribuição seja mais ampla. É uma espécie que infecta o tatu (Dasypus novemcintus), sendo seu provável vetor o Psychodopygus ayrozai (Barretto & Coutinho, 1940), que nessa região é pouco antropofílica, decorrendo disso os poucos casos humanos conhecidos. É possível que outras duas espécies – Psy. squamiventris (Lutz & Neiva, 1912) e Pys. Paraenses (Costa Lima, 1941) –, bastante antropofílicas, possam estar envolvidas na transmissão do parasito na região amazônica.
Leishmania (Viannia) shawi Lainson et al., 1989
Este parasito ocorre na região amazônica, onde é responsável pela infecção cutânea no homem e em uma variedade de animais silvestres. O único flebotomíneo incriminado até o momento é a Nyssomyia whitmani s.l., que nas florestas primárias da região é bastante zoofílico e que raramente pica o homem.
Leishmania (Viannia) colombiensis Kreutzer et al., 1991
Esta Leishmania, embora pouco comum, já foi isolada de casos humanos na Colômbia e no Panamá. Os vetores são Lutzomyia (Helcocyrtomyia) hartmanni (Fairchild & Hertig, 1957) na Colômbia, e Lutzomyia (Tricholateralis) gomezi e Psychodopygus panamensis, no Panamá.
Leishmania (Viannia) lindenbergi Silveira et al., 2002
Esta Leishmania foi isolada e descrita após um surto de leishmaniose cutânea entre soldados em treinamento em mata secundária nos arredores de Belém, Pará. Embora não se tenha certeza quanto ao seu real vetor, a Nyssomyia antunesi (Coutinho, 1939) é a principal suspeita de transmitir o parasito entre os soldados. Esta espécie é bastante antropofílica e com ampla distribuição na região amazônica.
Conclusões
Apesar do grande número de pesquisadores dedicados ao estudo do complexo problema da LT nas Américas, muito ainda há que ser estudado em relação a esta protozoose, particularmente no tocante às espécies vetoras. Há um grande número de espécies de flebotomíneos suspeitas e com fortes indícios de serem os vetores das diferentes espécies de Leishmania causadoras das distintas formas clínicas da LT. Ainda faltam estudos relacionados à biologia da grande maioria dessas espécies, além de conhecimentos laboratoriais que possibilitem comprovar seu status vetorial.
Por sua vez, medidas profiláticas satisfatórias em uma doença transmissível por vetores envolvem o controle vetorial, ou ainda, outras estratégias que contribuam para diminuir o contato do parasito com o homem e seus animais domésticos, impedindo assim a transmissão.
A falta de recursos de imunização da população e de seus animais domésticos na prevenção da leishmaniose tegumentar confere ainda mais importância ao estudo das espécies incriminadas como vetoras. Estudo este que possa viabilizar o estabelecimento de paradigmas no controle da doença. Desse modo, além dos estudos de ecologia das espécies, a observação da biologia em colônias laboratoriais poderá trazer subsídios que permitam clarificar o papel vetorial das diferentes espécies. Além disso, há que se propiciar a realização de estudos de infecção e transmissão experimentais, os quais poderão comprovar o papel vetorial de várias espécies que hoje são conhecidas como prováveis vetores, mas que permanecem sem evidência. Tais estudos poderão possibilitar ainda a comparação entre espécies suspeitas de serem vetoras em uma mesma área, definindo assim, juntamente com estudos de sazonalidade e longevidade, qual o vetor principal e o secundário, o que poderá auxiliar no controle vetorial das espécies envolvidas.
Além da necessidade de se ampliar os estudos de biologia, há que se buscar novos modos de captura e coleta dos flebotomíneos, uma vez que há espécies que apesar de saber-se estarem presentes e com potencial de serem transmissoras de Leishmania em uma determinada área, ainda assim são capturados em pequeno número pelas armadilhas luminosas tradicionais. Isso torna necessário o uso daquelas de mais difícil manuseio, exigindo iscas animais ou prolongado trabalho de captura manual. Ainda nesse caso, a tentativa de colonização das espécies poderia contribuir para os estudos de comportamento e de resposta a diferentes estímulos, que serviriam como base para o desenvolvimento de armadilhas mais eficazes.
Com relação à pesquisa de infecção natural, apesar de laboriosa a dissecção dos espécimes, é ainda o único meio de se detectar uma infecção ativa e de propiciar a observação do desenvolvimento do parasito no inseto, além de permitir o isolamento da cepa para comparações e estudos posteriores.
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