Leishmanioses do continente americano

Fátima Conceição-Silva · Capítulo 16 de 28

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Leishmanioses do continente americano

14. Hospedeiros e Reservatórios de Leishmania sp. e sua Importância na Manutenção dos Ciclos de Transmissão nos Ambientes Silvestre e Sinantrópico

14. Hospedeiros e reservatórios

de Leishmania sp. e sua

importância na manutenção

dos ciclos de transmissão nos

ambientes silvestre e

sinantrópico

André Luiz Rodrigues Roque, Ana Maria Jansen

Ocontato do homem com o ambiente silvestre e sua fauna e, portanto, com os ciclos de transmissão das diversas espécies de seus parasitos, sempre ocorreu e continua ocorrendo. Atualmente, a expansão de fronteiras agrícolas e sua consequente destruição de hábitats naturais, o aquecimento global e a popularização do ecoturismo são apenas alguns exemplos de fatores que têm levado o homem a um contato maior com esses ciclos de transmissão, permitindo o intercâmbio de parasitos entre animais silvestres, domésticos e o homem (Daszak et al., 2007; Jones et al., 2008; Swan, Coetzer & Terblanche, 2009).

Vários fatores associados às alterações ambientais, naturais ou não, corroboram para acelerar esse processo, promovendo a dispersão dos parasitos para novas áreas e proporcionando o contato destes com novos hospedeiros, os quais poderão atuar como reservatórios amplificando, desse modo, a área de ocorrência da espécie do parasito em questão (Aguirre & Tabor, 2008; Rhyan & Spraker, 2010; Slenning, 2010).

Tais fenômenos são especialmente importantes quando ocorrem com parasitos multi-hospedeiros, isto é, capazes de infectar uma ampla gama de espécies. Esse é o caso de algumas espécies inseridas no gênero Leishmania, dentre as quais aquelas de maior importância em saúde pública no continente americano: L. infantum (=L. chagasi), L. braziliensis e L. amazonensis. Esses tripanossomatídeos se caracterizam por apresentar uma grande heterogeneidade genética e ecletismo biológico no que se refere às diferentes ordens de mamíferos que são capazes de infectar. Tal ecletismo resulta em que esses protozoários sejam encontrados em ciclos de transmissão com características e particularidades regionalizadas, o que converte-se em uma epidemiologia complexa e peculiar nas áreas de sua ocorrência (Ashord, 1996; Rotureau, 2006). A complexidade da ecoepidemiologia das leishmanioses tem como consequência o desconhecimento de muitos aspectos do seu ciclo enzoótico. Entretanto, a magnitude do problema sanitário que as leishmanioses representam impõe a necessidade de esclarecer os elos da cadeia epidemiológica em todos os níveis, como pré-requisito de definir efetivas estratégias de controle que se fazem necessárias (Rotureau, 2006; Tesh, 1995; Shaw, 2007).

Apesar do conceito e dos métodos envolvidos no estudo de reservatórios de parasitos terem se modificado significativamente ao longo do tempo (Ashford, 1997; Haydon et al., 2002; Chaves et al., 2007), ainda hoje, o conceito do que é um reservatório é permeado por uma visão antropocêntrica, uma vez que reservatório é frequentemente referido como “a espécie animal que é fonte de infecção de um determinado parasito para o homem”. Além de antropocêntrico, esse conceito é fixista por não considerar o caráter dinâmico e, portanto, mutável das associações parasito-hospedeiro. Tomando como base principalmente os trabalhos de Ashford (1997) e de Haydon e colaboradores (2002), consideramos como ‘reservatório’ não apenas uma única espécie de mamífero infectado por uma espécie de parasito que potencialmente infecta o homem e animais domésticos em determinada localidade, mas como um sistema que pode incluir uma ou mais espécies de animais responsáveis pela manutenção de uma dada espécie de parasito na natureza. Em cada sistema reservatório, as espécies desempenham diferentes papéis na manutenção da parasitose, o que significa que o papel de cada componente deve ser sempre considerado único dentro de uma determinada escala espaço-temporal (Roque & Jansen, 2010). A complexidade da interação hospedeiro/reservatório-parasito se dá sobretudo em razão do caráter dinâmico e imprevisível dessa unidade biológica em constante mudança, em virtude das alterações do meio ambiente e do processo coevolutivo dos componentes dessa interação (Roque, 2009). É nesse contexto que apresentamos e discutimos a conceituação de reservatórios para Leishmania spp., sua importância na manutenção dos ciclos de transmissão desses parasitos na natureza e seu papel na epidemiologia dessa zoonose no continente americano.

 

Desenvolvimento

 

Reservatórios: conceituação

O encontro de um animal infectado não é suficiente para o considerarmos como um reservatório. Um animal infectado é um hospedeiro do parasito, mas sua importância na manutenção do ciclo de transmissão numa dada área dependerá das peculiaridades da interação parasito-hospedeiro; é esta que vai determinar a competência da espécie animal em questão na manutenção e/ou transmissão do parasito e que, portanto, definirá seu papel (ou não) como reservatório. Cada interação parasito-hospedeiro apresenta particularidades determinadas por fatores relacionados ao hospedeiro (sexo, idade, padrão comportamental, competência imunológica, coinfecções), ao parasito (tempo de geração, potencial reprodutivo, estratégias de transmissão), ao vetor (hábitos, comportamento, dispersão) e ao ambiente onde ocorre. Isso mostra que as espécies não desempenham o mesmo papel no ciclo de transmissão de um parasito nos diferentes recortes tempo-espaciais. As diferentes características epidemiológicas e padrões de infecção se modificam de uma região para outra em consequência de padrões ecológicos das áreas de ocorrência, incluindo variações na vegetação, clima, diversidade e abundância relativa das espécies de animais silvestres; fatores demográficos como migração de pessoas e animais domésticos; alteração do hábitat original por causas naturais (fenômenos como o El Niño, atividades vulcânicas ou combustão espontânea de turfas) ou por ação antrópica (crescimento das cidades e expansão das atividades agrícolas); alteração nos hábitos alimentares dos vetores; condição socioeconômica e cultural da população; diferentes subpopulações de parasitos e espécies de vetores; e presença ou ausência de hospedeiros e reservatórios, domésticos e/ou silvestres (Guerin et al., 2002; Desjeux et al., 2004; Cerbino, Weneck & Costa, 2009).

Para definir uma determinada espécie animal como reservatório de um dado parasito, faz-se necessário a determinação dos seguintes parâmetros:

Distribuição geográfica do hospedeiro: define a área máxima de ocorrência da parasitose (Mills & Childs, 1998). Assim, é importante definir a composição faunística e a representatividade de cada espécie dentro da comunidade de potenciais reservatórios (abundância relativa), bem como sua distribuição pelos estratos florestais. Nesse caso, vale lembrar que a maioria das espécies não está restrita apenas ao estrato florestal onde são mais comumente encontradas, e seu deslocamento de um a outro estrato implica na possibilidade de dispersão de seus parasitos, contribuindo para o estabelecimento de novos focos de transmissão (Jansen et al., 1999). Além disso, em alguns cenários, uma espécie infectada que apresente alta abundância relativa pode ter maior competência como reservatório em um determinado local do que em outro, no qual seu número e biomassa sejam pouco expressivos (Jansen & Cortez, 2007).

Identificação taxonômica dos hospedeiros: a correta identificação dos hospedeiros é fundamental, uma vez que mesmo espécies crípticas podem apresentar padrões de infecção distintos e, portanto, ter diferentes papéis na manutenção e dispersão de um parasito na natureza (Roque et al., 2005). Interpretações epidemiológicas equivocadas podem surgir tomando-se por base dados taxonômicos imprecisos dos hospedeiros (Mills & Childs, 1998).

Prevalência e distribuição da parasitose nas diferentes populações de hospedeiros: a prevalência da infecção numa mesma espécie de hospedeiro pode ser muito alta em algumas localidades e muito baixa em outras áreas, que podem até mesmo estar bem próximas. Fica assim evidente que em diferentes localidades uma mesma espécie de mamífero pode desempenhar distintos papéis na manutenção do parasito na natureza (Herrera et al., 2005). É possível, e até provável, que parasitos sejam extintos periodicamente em uma determinada população de hospedeiros e sejam reintroduzidos algum tempo mais tarde (Mills & Childs, 1998).

Análise regional do parasito e reservatórios em distintos ecossistemas dentro de um mesmo bioma: essa informação permite avaliar onde está acontecendo a transmissão, onde há maior risco de spillover da parasitose. Observa-se com frequência que a transmissão de parasitos é focal, ou seja, às vezes restritos a hot spots (zonas ‘quentes’), em que a transmissão do parasito é extremamente bem-sucedida, ao lado de outras onde a transmissão não acontece (Jones et al., 2008; Weiss & McMichael, 2004). Adicionalmente, há que se lembrar de uma importante lei em ecologia que comprovadamente cabe no universo de estudo da parasitologia, este também um fenômeno ecológico: “as espécies não se distribuem homogeneamente num dado ambiente” (Bush et al., 2001: 322). O mesmo se aplica a seus parasitos, sendo fundamental que estudos de reservatórios sejam realizados de modo abrangente e sob uma perspectiva multidisciplinar.

Estimativa da prevalência da infecção entre distintas categorias demográficas das subpopulações de hospedeiros, a saber – machos e fêmeas, adultos e jovens: de posse de tal informação é possível determinar se a transmissão ainda está acontecendo (caso a prevalência da parasitose seja elevada na população de animais jovens) ou há possibilidade de dispersão do parasito. Tomando como exemplo: gambás são descritos como animais nômades, no entanto, os machos têm comportamento nômade muito mais acentuado que as fêmeas e são, assim, melhores dispersores de parasitos; primatas vivem em grupos, têm

comportamento territorialista e, assim, são mais suscetíveis a parasitoses transmitidas de forma direta quando um dos componentes do grupo está infectado. Diferenças demográficas apontam para a dinâmica das subpopulações de hospedeiros no tempo e espaço e podem nos ajudam a prever oscilações na transmissão baseada nas flutuações sazonais populacionais dos principais hospedeiros (Noireau, Diosque & Jansen, 2009). Dinâmica das populações de hospedeiros no tempo: as redes de transmissão de parasitos variam no tempo e espaço. Os ambientes estão em constantes mudanças e estas se refletem, necessariamente, nas possibilidades de encontro entre parasitos e hospedeiros. Assim, alterações ambientais tanto podem favorecer o encontro do parasito com novas espécies animais suscetíveis – o que pode levar a uma expansão dos focos de transmissão – quanto podem resultar, em especial, na extrema destruição de hábitats e na perda da diversidade de ambos – parasitos e hospedeiros. Isso significa que um sistema reservatório onde um dado parasito é mantido caracterizase por ser um cenário dinâmico sempre sujeito à participação de novos atores (hospedeiros) (Haydon et al., 2002; Noireau, Diosque & Jansen, 2009). Zoonoses ocorrem frequentemente em focos descontínuos tanto no tempo quanto no espaço, o que torna essencial que programas de vigilância epidemiológica sejam, além de constantes, regionais (muitas vezes até microrregionais).

Um ponto controverso quando se discute reservatórios silvestres é que a sempre citada ausência de sintomatologia nesses animais seria uma condição essencial para a caracterização de reservatórios e indicaria antiguidade na relação parasitária (Lainson & Shaw, 1979; WHO, 1990). Sabe-se, entretanto, que uma antiga relação parasitohospedeiro não necessariamente evolui para uma interação harmônica (sem danos ao hospedeiro), mas sim para uma que favoreça a maior transmissibilidade do parasito, sendo esta dependente de sua estratégia reprodutiva (Giorgio, 1995; Woolhouse, Taylor & Haydon, 2001). Além disso, detectar sintomas clínicos em animais silvestres ainda é tarefa para alguns poucos especialistas. Outro aspecto importante é que uma vez definida uma determinada espécie como reservatório, há que se considerar que um táxon não é um conjunto homogêneo de animais. Ao contrário, muitas espécies apresentam uma expressiva variedade de morfotipos, raças, e/ou subpopulações. Essa variedade intraespecífica reflete-se também em peculiaridades na interação parasito-hospedeiro, como observado, por exemplo, nos diferentes padrões de resposta imune e da consequente resistência ou suscetibilidade das diferentes linhagens de camundongos ante a infecção experimental por Leishmania sp. (Sakthianandeswaren, Foote & Handman, 2009). Também no homem a infecção por Leishmania spp. pode resultar em um espectro de manifestações que variam de processos benignos, auto-resolutivos, até formas graves – disseminadas, anérgicas ou hiperérgicas.

Além do componente genético, infecções parasitárias concomitantes, gestação e outros fatores são responsáveis por tornar um animal mais ou menos suscetível ou resistente. Uma das grandes dificuldades no estudo de mamíferos silvestres e sinantrópicos é exatamente distinguir os suscetíveis (os que apresentam alta infectividade ao vetor e, portanto, estão relacionados com a dispersão do parasito) dos resistentes, que apresentam baixa infectividade/ transmissibilidade. O fato é que o curso de uma infecção é o resultado de variáveis inerentes não só ao parasito, mas também ao hospedeiro, às particularidades de sua exposição ao parasito (via de infecção, tamanho do inóculo e reinfecções), ao ambiente e ao vetor. Assim, a importância de uma espécie animal como reservatório depende: de sua estratégia de vida e ciclo reprodutivo; do hábitat e clima locais; da presença, hábitos e capacidade vetorial do hospedeiro invertebrado; e das peculiaridades da interação parasito-hospedeiro, todos interligados num mesmo intervalo de tempo (Ashford, 1996; Roque et al., 2005; Herrera et al., 2005).

 

Perfil da Infecção e Abordagem Metodológica em

Mamíferos Não Humanos

Causador no homem de diferentes manifestações clínicas de leishmanioses, o gênero Leishmania é composto de mais de vinte espécies de flagelados digenéticos cujos hospedeiros vertebrados incluem mamíferos de pelo menos sete diferentes ordens (Lainson & Shaw, 1979) e cujos hospedeiros invertebrados nas Américas são flebotomíneos (Diptera: Psychodidae) do gênero Lutzomyia (WHO, 2010). As espécies de Leishmania mais comumente associadas à doença humana no continente americano são zoonoses e podem infectar um amplo espectro de espécies de mamíferos silvestres. Apesar disso, ainda são restritos os estudos sobre o papel desempenhado pelas diferentes espécies de mamíferos nos ciclos de transmissão de Leishmania spp., sendo as descrições de reservatório, muitas vezes, restritas apenas a achados pontuais da infecção (Ashford, 1996; WHO, 1990).

Em humanos, as diferentes formas clínicas que as leishmanioses podem assumir foram compartimentalizadas, para melhor compreensão, em tegumentar (cutânea, cutâneo-mucosa e cutâneo-difusa) e visceral. Essa mesma categorização, no entanto, não pode ser extrapolada à infecção em outros mamíferos domésticos, silvestres ou sinantrópicos. Cães infectados com L. infantum, espécie relacionada à forma visceral da doença humana, podem apresentar ulcerações de pele em que é possível o isolamento de parasitos (Madeira, 2009). Por sua vez, visceralização de espécies de Leishmania relacionadas a formas tegumentares da doença humana é observada em roedores desde a década de 1950 (Nery Guimarães, 1951a, 1951b). Várias espécies de mamíferos silvestres já foram encontradas infectadas pelas diferentes espécies de Leishmania que circulam nas Américas. Ainda assim, estudos da dinâmica da infecção desses parasitos nos hospedeiros silvestres ainda são escassos ou inexistentes (Travi et al., 2002; Raymond et al., 2003; Roque et al., 2010). A maioria dos trabalhos ainda se restringe a apontar os reservatórios baseando-se em prevalência de achados pontuais de infecção, muitas vezes diagnosticados apenas por meio de ferramentas moleculares (PCR, do inglês Polymerase Chain Reaction) de alta sensibilidade, mas que não definem a real importância epidemiológica daquele achado e nem a participação desse hospedeiro no ciclo de transmissão do parasito (Roque, 2009). Nesse sentido, entender o papel que as espécies de hospedeiros/reservatórios mamíferos desempenham na manutenção e expansão dos ciclos de transmissão de Leishmania spp. na natureza demanda estudos de campo, os quais são essenciais na definição de medidas efetivas de controle dessa parasitose. Adicionalmente, estudos experimentais com espécies consideradas possíveis reservatórios silvestres devem ser realizados como forma de auxiliar a interpretação dos dados obtidos nessas investigações (Roque et al., 2010).

Tanto em humanos quanto em outros mamíferos, o exame direto e/ou cultura de sangue são muito pouco efetivos para, respectivamente, diagnóstico e isolamento de Leishmania spp. Nesse caso, as culturas de punções ou fragmentos de tecidos hematopoiéticos constituem o padrão-ouro da abordagem metodológica, mas não necessariamente refletem transmissibilidade do parasito. Esta será indicada pela origem do material cultivado de onde se isolou o parasito. Assim, culturas de pele ou sangue e/ou xenodiagnóstico positivo indicam potencial de infectividade do mamífero ao vetor, ou seja, apontam para a transmissibilidade do parasito. A visualização direta do parasito em fragmentos de pele tem menor sensibilidade; mas, associada à confirmação do agente etiológico neste tecido, também atestam sua transmissibilidade. Já a cultura positiva obtida apenas de órgãos internos (baço, fígado, medula óssea, linfonodos e outros) demonstra a presença de parasitos vivos e viáveis, mas não atestam sua infectividade ao vetor (Roque, 2009).

Testes sorológicos, dentre os quais os mais utilizados são a Reação de Imunofluorescência Indireta (Rifi) e o Ensaio Imunoenzimático (Elisa), apontam para a exposição daquele mamífero ao agente etiológico. O animal foi exposto ao parasito em algum momento da sua vida, mas isso não significa que ele represente uma importante fonte de infecção para o vetor ou mesmo que continue mantendo esse parasito. Um animal positivo apenas em testes sorológicos demonstra ter sido exposto ao ciclo de transmissão, é um hospedeiro do parasito, mas seu potencial de transmissibilidade ao vetor é baixo. Diagnóstico molecular por PCR qualitativos são amplamente utilizados e considerados exames parasitológicos diretos enriquecidos, uma vez que detectam partes constitutivas, no caso fragmentos de DNA, dos parasitos. Apesar de demonstrarem a presença do parasito, a alta sensibilidade desses testes não nos permite atestar a sua viabilidade nem definir se a carga parasitária detectada seria suficiente para garantir a transmissibilidade daquele tripanossomatídeo. O potencial de transmissibilidade do hospedeiro não pode ser definido nem pelas reações quantitativas por PCR em tempo real, que, apesar de efetivas para calcular a carga parasitária, não são capazes de avaliar a viabilidade daquele parasito (Silva, Gontijo & Melo, 2005; Britto, 2009). Vale mencionar que, mesmo sendo extremamente sensível, a utilização da PCR como padrão-ouro para diagnóstico ou controle de cura da infecção do homem ainda se constitui em assunto em pleno debate (Salam et al., 2010; Mendonça et al., 2004). Já em relação à infecção nos animais silvestres e sinantrópicos, o diagnóstico por PCR ainda é um desafio, carecendo de padronização de técnicas e alvos moleculares espécie-específicos, tanto em relação ao parasito quanto ao hospedeiro.

 

Reservatórios Mantenedores e Amplificadores

Consideramos como reservatórios mantenedores aqueles mamíferos capazes de se infectar e manter infecções estáveis por uma determinada espécie de parasito. Reservatórios amplificadores são aqueles que, além de manter, apresentam um perfil de infecção que garante a transmissibilidade desse parasito (Roque et al., 2010). Essa conceituação deve ser considerada para cada espécie investigada, em cada localidade e num dado recorte de tempo. Para exemplificar, tomemos os gambás (Didelphis spp.), frequentemente citados como principal reservatório de outro tripanossomatídeo – T. cruzi. Como veremos adiante, os escassos estudos em reservatórios de Leishmania sp. não nos possibilitam utilizar um exemplo para tais parasitos. Gambás podem ser excelentes reservatórios amplificadores do T. cruzi em algumas áreas (Roque et al., 2008), mas esta peculiaridade não se repete em todos os ecossistemas. No Pantanal sul mato-grossense, estudos evidenciam a importância dos quatis (Nasua nasua) como reservatórios (Herrera et al., 2008), enquanto em alguns fragmentos de Mata Atlântica essa função é desempenhada por primatas Calitriquídeos (Lisboa et al., 2006). Outro importante aspecto é que reservatórios mantenedores podem se transformar em amplificadores em situações especiais, como quando sofrem doenças outras debilitantes, por exemplo, que podem alterar o perfil da infecção e favorecer o aumento da população parasitária no organismo. Com isso, aumentam também as chances de transmissão, ou seja, a transmissibilidade do parasito.

 

Hospedeiros Mamíferos Apontados como

Reservatórios: considerações

De modo geral, o estudo da interação de mamíferos silvestres e sinantrópicos com parasitos, e especialmente com Leishmania spp., é dificultado por condições entre as quais destacamos a dificuldade em obter colônias de espécies de mamíferos silvestres em cativeiro e a complexidade de realizar trabalhos de campo de longo curso e dentro de um enfoque ecológico. Como será visto ao longo deste capítulo, os termos ‘hospedeiro’ e ‘reservatório’ muitas vezes são apresentados como sinônimos nos artigos citados. Nosso intuito, aqui, foi o de realizar uma revisão reinterpretando os dados existentes na literatura sob o enfoque ecológico proposto pelos mais recentes estudos em reservatório e modelagem ambiental, relacionando-os, sempre que possível, ao potencial de transmissibilidade do vetor. Nem sempre tal abordagem foi possível, tendo em vista que em alguns dos estudos citados não conseguimos ter acesso completo ao texto ou a informações complementares. Outro problema encontrado foi na identificação do agente etiológico envolvido. Além das periódicas revisões taxonômicas propostas para Leishmania spp., a nomenclatura de muitas espécies foram modificadas ao longo do tempo e as diversas metodologias de identificação do agente envolvido impossibilitava-nos, muitas vezes, de definir o agente etiológico com base na atual taxonomia do gênero Leishmania.

Nesse contexto, discutimos algumas espécies de mamíferos silvestres e sinantrópicos já encontrados infectados por Leishmania spp. como ‘hospedeiros do parasito’ ou ‘potenciais reservatórios’, quando demonstrada a manutenção e/ou potencial de transmissão do parasito ao vetor. Como já dito, a condição de reservatório irá variar nos diferentes ambientes e apenas um estudo local da enzootia poderá definir se um desses ‘potenciais reservatórios’ está ou não atuando como reservatório num determinado ambiente e num dado momento, uma vez que essa condição também pode se modificar no decorrer do tempo.

Ordem Marsupialia

Representante da nossa fauna autóctone, a ordem Marsupialia apresenta sua maior diversidade de espécies no continente australiano, enquanto apenas uma família é reconhecida nas

Américas, a Didelmorphidae. O gênero Didelphis (Figura 1) é aquele com maior dispersão no continente, ocorrendo do sudeste do Canadá ao sul da Argentina, sendo, provavelmente por seu caráter sinantrópico, um dos mamíferos mais investigados no que diz respeito à infecção por Leishmania sp., ainda que sejam escassos os estudos de acompanhamento de infecções naturais e/ou experimentais (Travi et al., 1994; Schallig et al., 2007; Quinnell & Courtenay, 2009).

Figura 1 – Gambá Didelphis albiventris proveniente de São Borja,

Rio Grande do Sul

 

Foto: Ana Maria Jansen

A ampla distribuição dos didelfídeos se deve principalmente a sua impressionante adaptabilidade a diferentes nichos ecológicos, principalmente a ambientes com elevado grau de ação antrópica. Esses animais podem colonizar forros das casas e outros abrigos do domicílio e peridomicílio, e sobrevivem nutrindo-se de restos alimentares do homem. Tais características fizeram com que os Didelphis sp. sejam atualmente indicadores de degradação ambiental por influência humana (Olifiers, Gentile & Fiszon, 2005). Didelphis sp. são nômades, solitários (principalmente os machos), excelentes escaladores e seu refúgio principal são buracos e folhagens de árvores (Austad, 1988).

Didelphis marsupialis, espécie encontrada desde o México até a região amazônica, já foi descoberta naturalmente infectada por pelo menos cinco diferentes espécies de Leishmania sp. Sua importância como potencial reservatório de L. infantum foi demonstrada em uma comunidade rural na Colômbia, onde esses animais apresentavam a maior abundância relativa na área (68,5% dos animais capturados), elevada prevalência de culturas positivas (32,4%) e altas cargas parasitárias nos imprints, ambos em material de baço (Corredor, 1989). Estudos posteriores ainda confirmariam a infecção desse didelfídeo em outras regiões na Colômbia e Venezuela (Travi et al., 1994; Quinnell & Courtenay, 2009). Outras espécies de Leishmania já isoladas de D. marsupialis são L. braziliensis (Lainson & Shaw, 1998; Grimaldi Jr. & Tesh, 1993), L. amazonensis (Arias et al., 1981; Grimaldi Jr. et al., 1991), L. guyanensis (Arias et al., 1981; Grimaldi Jr. et al., 1991; Dedet, Gay & Chatenay, 1989) e L. panamensis (Ashford, 1996).

Didelphis albiventris tem sua maior distribuição na parte central da América do Sul, da Colômbia ao norte da Argentina, sendo bastante abundante nas Regiões Nordeste, Central e Sul do Brasil. O isolamento de L. infantum nesta espécie de marsupial foi primeiramente realizado no estado da Bahia, em 1984 (Sherlock et al., 1984), sendo posteriormente diagnosticado por PCR em Pernambuco (Brandão-Filho et al., 2003) e Rio Grande do Sul (Roque ALR e colaboradores, dados não publicados). A infectividade ao vetor foi ainda demonstrada por xenodiagnóstico, o que confirma que essa espécie pode desempenhar o papel de reservatório (Sherlock, 1996). Outras espécies de Leishmania já diagnosticadas em D. albiventris são L. peruviana e L. amazonensis (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993).

Recentemente, no município de Bauru, interior do estado de São Paulo, uma investigação por PCR de aspirado de medula óssea em 112 gambás, sendo 102 D. albiventris e 10 D. aurita, demonstrou uma elevada prevalência de infecção por Leishmania spp. (91,6%), embora nesse estudo não se tenha conseguido caracterizar as espécies do parasito envolvidas (Santiago et al., 2007). O estudo não incluiu imprint ou isolamento de parasitos em pele, ou seja, comprova a competência desse táxon em manter o gênero Leishmania, mas não sua competência em infectar o vetor.

Marmosa sp. já foram encontradas naturalmente infectadas por L. amazonensis (Arias et al., 1981) e por L. braziliensis (Brandão-Filho et al., 2003). Metachirus nuticaudatus, marsupial terrestre de médio-porte e ampla distribuição na América do Sul, já foi encontrado infectado por L. braziliensis (Lainson & Shaw, 1998), L. amazonensis e L. panamensis (Ashford, 1996). Já a cuíca-de-quatro-olhos Philander opossum, marsupial noturno encontrado forrageando tanto no solo quanto em árvores, já foi identificado infectado por L. braziliensis (Lainson & Shaw, 1998) e por L. amazonensis (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993).

Até o momento, apenas um trabalho de infecção experimental de marsupiais por Leishmania sp. foi publicado (Travi et al., 1998a). Nesse trabalho, dos cinco D. marsupialis utilizados, apenas uma fêmea jovem apresentou sintomatologia que, apesar de inespecífica, os autores descrevem como sugestiva de leishmaniose visceral (apatia, prostração, desidratação e descamação de pele) dois meses após a infecção experimental por L. infantum. Na necropsia foram observadas inúmeras formas amastigotas do parasito no baço, fígado e linfonodos. Análises histológicas demonstraram histiócitos parasitados, necrose esplênica e esteatose hepática. Os demais gambás, mesmo sem clínica aparente, também apresentaram alterações histológicas – discretos infiltrados inflamatórios no fígado, linfonodos e baço. A infectividade ao vetor foi ainda confirmada por xenodiagnóstico, embora a taxa de infecção dos vetores tenha sido considerada pelos autores como bastante baixa em relação a relatos em outros mamíferos (Travi et al., 1998a). Vale mencionar que esse é um ensaio laboratorial, com flebotomíneos de colônia de laboratório e, portanto, em um sistema distante das condições na natureza. O fato importante é que o trabalho demonstrou inequivocamente a possibilidade de gambás infectados com L. infantum atuarem como fonte de infecção para Lu. longipalpis (Travi et al., 1998a).

Superordem Xenarthra

Mamíferos da superordem Xenarthra foram previamente classificados em uma ordem denominada Edentata, recentemente descrita como polifilética, que incluía também os pangolins (Manis spp.) africanos e asiáticos. Com a nova classificação dos pangolins na ordem Pholidota, os mamíferos das ordens Cingulata (tatus) e Pilosa (tamanduás e preguiças) foram juntamente classificados na superordem Xenarthra (Moller-Krull et al., 2007; De Esteban-Trivigno, Mendoza & Renzi, 2008). Mamíferos dessa superordem apresentam peculiaridades biológicas fascinantes como ossos pélvicos fundidos, ossos de reforço na coluna e uma estrutura peculiar de circulação sanguínea que os permite poupar energia, com uma taxa metabólica extremamente baixa (Bugge, 1979; Gaudin & Biewener, 1992). Essas adaptações, no entanto, não impediram a massiva extinção de um grande número de representantes desse táxon, sendo os gêneros atuais existentes apenas uma pequena representação da fauna existente no período Terciário (Moller-Krull et al., 2007). Ainda hoje, a destruição de seus nichos específicos, resultante sobretudo da ação humana, certamente contribui expressivamente para a acentuada redução das populações desses mamíferos na natureza.

Tatus, preguiças e tamanduás, atualmente os principais representantes dessa superordem, têm uma longa história coevolutiva com tripanossomatídeos e representam um grupo de mamíferos em que já foi encontrada grande diversidade de espécies de Leishmania sp. Outros tripanossomatídeos também descritos nesses mamíferos incluem várias espécies do gênero Trypanosoma, além do ainda pouco estudado gênero Endotrypanum (Ashford, 1996; Rotureau, 2006). Importante notar que, apesar dessa diversidade de espécies de tripanossomatídeos, não há descrição da infecção desse grupo de mamíferos por L. infantum e L. braziliensis, espécies de grande importância em saúde pública no Brasil. Ainda assim, há duas descrições de isolamento de Leishmania sp. de preguiças no Panamá e na Costa Rica, os quais foram caracterizados como Leishmania braziliensis s.l. Nesse caso, trata-se de espécies do complexo L. braziliensis, cuja taxonomia à época não incluía as ferramentas atuais e, portanto, difere bastante daquela atualmente aceita. Analisando os trabalhos mais recentes da mesma região, podemos sugerir que provavelmente se tratava de outras espécies do subgênero Viannia (Dedet, Gay & Chatenay, 1989).

Os tatus representam um dos mais antigos grupos de mamíferos e o mais primitivo de Xenarthra. São caracterizados por terem o corpo coberto por placas ósseas articuladas e flexíveis, que correspondem a 16% do seu peso vivo e lhes confere proteção. Os membros desta família – Dasypodidae – são encontrados desde o Sul dos Estados Unidos até o estreito de Magalhães (Miranda & Costa, 2006). Até o momento, o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) foi o único hospedeiro não humano encontrado infectado por L. (V.) naiffi, obtendo-se o isolamento do parasito de amostras de sangue e órgãos internos (fígado e baço) desses animais (Lainson & Shaw, 1989; Naiff et al., 1991). Também neste caso são necessários estudos complementares que avaliem o potencial de infectividade desse táxon para o vetor. Vale ressaltar que a distribuição geográfica de L. naiffi parece ser bem maior que se supunha anteriormente, sendo possível encontrar esse parasito no Peru, Equador e Martinica, além de no Brasil (Pratlong et al., 2002). Apesar de haver relatos de infecção patogênica em humanos por L. naiffi (Naiff et al., 1991), atualmente esta espécie não parece ser um importante agente etiológico de leishmaniose humana (Van der Snoek et al., 2009). L. (V.) guyanensis é a outra espécie de Leishmania já diagnosticada em tatus, e também em D. novemcinctus no estado brasileiro do Pará (Rotureau, 2006; Lainson et al., 1979).

Os tamanduás constituem uma só família (Myrmecophagidae) com características anatômicas, fisiológicas e comportamentais similares, apesar da grande discrepância de peso que pode ocorrer entre diferentes espécies, variando desde 200 g até 50 kg. Têm conformação compacta, destacando-se um focinho longo e cônico e uma língua extensa e viscosa, adaptada especialmente ao seu hábito alimentar composto de térmitas e formigas. São dotados de membros superiores fortes e providos de poderosas garras que eles utilizam para defesa própria e como ferramenta alimentar (Miranda & Costa, 2006). Em apenas uma espécie de tamanduá, o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), foi possível obter o isolamento de Leishmania sp., sendo duas diferentes espécies – L. (V.) guyanensis e L. (L.) amazonensis, no Brasil e Equador, respectivamente (Rotureau, 2006; Lainson, Shaw & Povoa, 1981; Mimori et al., 1989).

As preguiças são habitantes arborícolas das regiões de clima tropical e subtropical das Américas Central e do Sul e são representadas por dois gêneros: Bradypus (família Bradypodidae) e Choloepus (família Magalonichidae). As preguiças têm corpo com reduzida massa muscular, membros anteriores curtos e posteriores longos, ambos providos de garras imprescindíveis à sua locomoção, defesa e acesso aos alimentos. Movimentam-se lentamente, passando de uma a outra árvore diretamente pelo extrato arbóreo e descendo ao solo apenas uma vez por semana para defecar (Miranda & Costa, 2006). Diferentes espécies de Leishmania já foram diagnosticadas em preguiças. A preguiça-dedois-dedos (Choloepus didactylus) pode ser considerada um potencial reservatório de L. guyanensis, como apontam os estudos que demonstraram elevada prevalência de infecção por isolamento em pele íntegra e órgãos do sistema linfático, os quais variam de 35% a 47% na Guiana Francesa (Dedet, Gay & Chatenay, 1989; Gentile et al., 1981) e de até 46% no Brasil (Lainson, Shaw & Povoa, 1981).

L. shawi já foi diagnosticada em duas espécies de preguiças, a preguiça-de-dois-dedos e a preguiça-de-bentinho (Bradypus tridactylus), ambas no Brasil (Lainson et al., 1989). No Panamá, L. colombiensis foi encontrada em vísceras de preguiça-real (Choloepus hoffmanni) (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993; Kreutzer et al., 1991), enquanto L. equatorensis foi descrita infectando esta mesma espécie no Equador (Grimaldi Jr. et al., 1992). Por fim, L. (V.) panamensis, espécie fortemente relacionada a L. guyanensis, já foi descrita em Choloepus hoffmanni e Bradypus variegatus no Panamá (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993; Ashford, 2000).

A interação do homem com Xenarthra merece ser enfatizada: em áreas rurais, é comum observar tatus invadindo galinheiros à procura de ovos e/ou animais, aproximando-se dessa forma do ambiente peridomiciliar, onde podem servir de fonte de infecção aos flebotomíneos que ali se encontrem. A importância epidemiológica dos mamíferos da superordem Xenarthra é ainda maior se considerarmos que preguiças, tamanduás e tatus são caçados e consumidos em algumas áreas do Brasil, como na região amazônica. Não é raro observar pessoas criando filhotes desses mamíferos no quintal de casa, após terem matado as mães durante uma caçada. Esses filhotes são mantidos até se tornarem adultos, e nesse período podem se infectar e servir de fonte de infecção a flebotomíneos que frequentam o ambiente peridomiciliar.

Ordem Rodentia

Os roedores talvez representem o grupo de mamífero mais diversificado e com ampla dispersão no mundo todo, e sua característica comum é o crescimento contínuo de seu único par de dentes incisivos. A diversidade morfológica neste táxon é exemplificada pelo contraste existente entre um pequeno rato pigmeu (Oligoryzomys sp.) de 10 g e a imensa capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), que pode chegar a 70 kg (Lange & Schmidt, 2007). A grande diversidade de espécies de roedores faz com que ainda existam vários grupos cuja posição taxonômica ainda é discutível, e cujos indivíduos só podem ser separados por cariotipagem (Bonvicino et al., 1996; Bonvicino, Otazu & D’Andrea, 2002). Estratégias e sazonalidade de reprodução, tempo de gestação e número de filhotes são outras características que diferem significativamente entre os gêneros dessa ordem (Wilson & Reeder, 2005).

Roedores não são autóctones das Américas e os primeiros representantes desse táxon (Hystricognathi – caviomorfos) chegaram juntamente com os primeiros primatas oriundos da África há cerca de 45 milhões de anos. A segunda onda de migração de roedores para o nosso continente (Sciurognathi – cricetídeos) é bem mais recente. Parece estar relacionada à diversificação dos roedores murídeos e cricetídeos na África e à chegada por uma rota de migração que incluía um estabelecimento inicial na América do Norte (Flynn & Wyss, 1998). Desde sua chegada, os roedores adaptaram-se bem, diversificaram-se em um grande número de espécies e passaram a colonizar os mais diversos tipos de hábitat, das florestas tropicais aos desertos, dos planaltos de elevadas altitudes às planícies alagadas, do ambiente silvestre ao ambiente urbano. Os roedores são ainda encontrados nos mais diversos estratos naturais, sendo reconhecidas desde espécies fossoriais, capazes de cavar longos e interligados túneis sob a terra, até espécies de hábitos semiaquáticos e arborícolas (Wilson & Reeder, 2005).

Esse táxon de mamíferos é provavelmente o mais estudado no que se refere à infecção por Leishmania spp., em condições tanto naturais quanto experimentais. Dentro deste, a espécie Mus musculus é exaustivamente estudada em todo o mundo, com diversos objetivos que incluem desde estudos de subpopulações celulares envolvidas na resposta imune e nas lesões, até avaliações como modelo da doença humana. A maioria de tais estudos foi e é realizado em linhagens de Mus musculus de laboratório, e não de animais de vida livre. Para este capítulo, no entanto, iremos nos ater àquelas espécies silvestres e sinantrópicas, potenciais reservatórios desses parasitos, os quais já foram estudados em condições experimentais.

A diversidade desse grupo de mamíferos, com representantes ocupando diversos e distintos nichos ecológicos, reflete-se também na grande diversidade de espécies de Leishmania já diagnosticadas nesse táxon. Embora seja indiscutível a importância dos roedores na manutenção de diversas espécies de Leishmania, há numerosas lacunas que necessitam ser preenchidas no conhecimento do papel que as espécies desempenham na dispersão desses parasitos. Roedores da subordem Caviomorpha provavelmente desempenham um importante papel no ciclo de transmissão das leishmanioses desde sua entrada nas Américas. A entrada desse grupo de roedores, há 37 milhões de anos, está relacionada à entrada de novas espécies do subgênero Leishmania no continente, provavelmente introduzidas por roedores infectados que, ao colonizar com sucesso as Américas, estabeleceram novos ciclos de transmissão (Thomaz-Soccol et al., 1993).

Um dos gêneros mais estudados em relação à infecção por Leishmania são os roedores caviomorfos do gênero Proechimys, já encontrados infectados por diferentes espécies do parasito. Esses roedores se caracterizam por sua longevidade (mais de três anos em cativeiro) e elevada abundância na maioria das localidades onde são encontrados, em florestas tropicais das Américas Central e do Sul (Ashford, 1996). Diferentes espécies de Proechimys já foram apontadas como potenciais reservatórios de L. amazonensis no Brasil e Guiana Francesa (Arias et al., 1981; Dedet, Gay & Chatenay, 1989), com base em frequente parasitismo de pele, confirmado por cultura de tecido. Outras espécies de Leishmania já diagnosticadas neste gênero de roedor são L. infantum na Colômbia (Travi et al., 1998b), L. guyanensis na Guiana Francesa e Brasil (Rotureau, 2006; Dedet, Gay & Chatenay, 1989), L. braziliensis (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993) e L. panamensis (Ashford, 1996).

Outro gênero de roedor caviomorfo encontrado naturalmente infectado é o Thrichomys, cuja infecção por Leishmania sp. dos complexos L. mexicana e L. donovani foi demonstrado por PCR numa área endêmica de leishmaniose cutânea e visceral em Minas Gerais, Brasil (Oliveira et al., 2005). Esse gênero de roedor compreende ao menos cinco espécies crípticas distribuídas no Pantanal, Cerrado e Caatinga brasileiros (Bonvicino, Otazu & D’Andrea, 2002; Borodin et al., 2006). A competência desse caviomorfo na manutenção e seu potencial como reservatório de L. infantum e L. braziliensis foi ainda confirmada através da infecção experimental de T. laurentius (Roque et al., 2010).

Além de Proechimys canicollis na Colômbia, e Thrichomys apereoides no Brasil, L. infantum já foi diagnosticada em Nectomys squamipes no Brasil e Rattus rattus no Brasil e Venezuela (Quinnell & Courtenay, 2009; Dantas-Torres & Brandão-Filho, 2006). Em cativeiro, a infecção já foi parasitologicamente confirmada também em fígado e baço de Coendu prehensilis, utilizados como sentinelas na Bolívia (Le Pount, Mouchet & Desjeux, 1989).

Com relação à L. braziliensis, infecções naturais já foram reportadas em roedores dos gêneros Akodon, Bolomys, Dasyprocta, Hollochilus, Neacomys, Nectomys, Oryzomys, Proechimys, Rattus, Rhipidomys e Sigmodon (Rotureau, 2006; Grimaldi Jr. & Tesh, 1993). A grande maioria dessas descrições, no entanto, reflete diagnósticos pontuais, baseados em técnicas com alta sensibilidade (PCR), muitas vezes apenas de vísceras, que são insuficientes para definir uma dada espécie como reservatório e esclarecer o potencial de transmissibilidade desses roedores. Destes, apenas nos roedores dos gêneros Rattus e Sigmodon na Venezuela, e Nectomys, Bolomys e Rattus no Brasil é que foi possível o isolamento e a caracterização bioquímica dos parasitos (Brandão-Filho et al., 2003; Vasconcelos et al., 1994; Lima et al., 2002).

Roedores também são frequentemente apontados como os principais reservatórios das espécies do complexo L. mexicana – L. mexicana e L. amazonensis. De fato, vários trabalhos já diagnosticaram a infecção por L. amazonensis em diferentes espécies de roedores, dentre as quais, espécies dos gêneros Akodon, Dasyprocta, Oligoryzomys, Oryzomys, Proechimys e Sciurus (Ashford, 1996; Rotureau, 2006; Dedet, Gay & Chatenay, 1989; Kerr et al., 2006). Na Guiana Francesa, por exemplo, a infecção por L. amazonensis já foi observada em duas espécies simpátricas de Proechimys – P. cuvieri e P. guyanensis (Rotureau, 2006). No entanto, a manutenção do parasito por longo tempo e/ou seu potencial de transmissibilidade ao vetor não foi demonstrado em nenhum desses estudos.

Em relação à infecção pela L. mexicana, só no estado americano do Texas, esse parasito já foi isolado de Neotoma micropus, N. albigula e N. floridana, sendo este último capturado com extensa lesão na orelha causada pelo parasito (Kerr, McHugh & Dronen, 1995). Esse é um achado bastante informativo e indica essa espécie como sendo muito possivelmente infectiva para o vetor e, portanto, importante na dispersão da L. mexicana. Ototylomys phyllotis e Heteromys desmarestianus também já foram encontrados infectados em Belize (Ashford, 1996). Outras espécies de roedores já encontradas infectadas por L. mexicana foram Heteromys gaumeri, Nyctomys sumichrasti, Oryzomys melanotis, Peromyscus yucatanis, Rattus rattus, Reithrodontomys gracilis e Sigmodon hispidus (Ashford, 1996; Lima et al., 2002; Van et al., 2009). A persistência da infecção por L. mexicana em roedores foi demonstrada em duas oportunidades: no Texas, em um trabalho de marcação-recaptura de Neotoma micropus, uma espécie de cricetídeo endêmica da América do Norte que mostrou por PCR a persistência da infecção por até um ano (Raymond et al., 2003); e no México, mantendo-se em cativeiro 29 exemplares de quatro espécies de roedor (Sigmodon hispidus, Oryzomys melanotis, Ototylomys phillotis e Peromyscus yucatanis) naturalmente infectados por até dois anos, sendo a persistência de tais infecções demonstrada parasitologicamente (Van Wynsberghe et al., 2000). Vale ressaltar que nesse último trabalho, úlceras semelhantes às apresentadas em humanos infectados por essa mesma espécie de Leishmania foram ainda observadas em um Sigmodon hispidus, e que Oryzomys melanotis também é descrito como apresentando sinais clínicos de leishmaniose (Van Wynsberghe et al., 2000).

A paca (Agouti paca), um dos maiores roedores americanos, cujo peso corpóreo pode ultrapassar 10 kg, foi a única espécie silvestre até o momento encontrada infectada por Leishmania (V.) lainsoni, no estado brasileiro do Pará (Silveira et al., 1991). L. panamensis já foi diagnosticada em roedores dos gêneros Heteromys, Akodon, Rattus e Coendu (Ashford, 1996), enquanto esquilos (Scirus granatensis) já foram encontrados naturalmente infectados por L. equatorensis (Grimaldi Jr. et al., 1992). Já a infecção por L. deanei e L. enrietti, espécies taxonomicamente mais próximas de Endotrypanum do que de Leishmania, são descritas, respectivamente, no ouriço Coendu sp. e no porquinho da Índia Cavia porcellus (Rotureau, 2006; Machado et al., 1994).

Em relação às infecções experimentais em diferentes espécies de roedores silvestres criados em cativeiro, até o momento, foram poucos os estudos e alguns sequer conseguiram obter a infecção, como Henry Disney, utilizando Ototylomys phyllotis e L. mexicana, em Honduras (Ashford, 1996), e Lainson e colaboradores utilizando Proechimys guyanensis e L. infantum, no Brasil (Lainson, Ishikawa & Silveira, 2002). Esse insucesso pode ser devido a numerosas variáveis relacionadas tanto ao parasito quanto ao hospedeiro, como por exemplo, a heterogeneidade intraespecífica de ambos os taxa e o tamanho do inóculo e via de inoculação. Dessa forma, baseado apenas nesses estudos, não há ainda como excluir a hipótese de tais roedores estarem envolvidos na manutenção e/ou dispersão de espécies de Leishmania na natureza. Os poucos estudos experimentais realizados incluíram Proechimys semispinosus (Travi et al., 2002), Galea spixii (Barbosa et al., 2008) e Thrichomys laurentius (Roque et al., 2010). Destes, apenas em Galea spixii experimentalmente infectado por L. infantum não foi possível o reisolamento dos parasitos (Barbosa et al., 2008).

Proechimys semispinosus, provenientes da Colômbia e experimentalmente infectados por L. panamensis, desenvolveram lesões não ulceradas que desapareceram após sete semanas, tornando-os mais resistentes a novas infecções. Na fase inicial da infecção, esses animais mostraram-se infectivos ao vetor durante xenodiagnóstico e foi possível o reisolamento de parasitos no local do inóculo (Travi et al., 2002). Roedores dessa mesma espécie experimentalmente infectados por L. infantum desenvolveram infecção apenas subclínica, não sendo possível demonstrar a infectividade ao vetor, apesar de os autores terem conseguido reisolar o parasito no baço de alguns roedores durante a necropsia (Travi et al., 2002).

Thrichomys laurentius (Figura 2), experimentalmente infectados por L. infantum e por L. braziliensis, foram capazes de manter a infecção por longo tempo, sendo possível a recuperação de parasitos até 12 meses após a infecção. DNA dos parasitos foi detectado em todos os grupos experimentais e em todos os tecidos amostrados, independentemente da espécie de Leishmania inoculada. Amostras positivas de baço também foram diagnosticadas em outra espécie do mesmo gênero, T. pachyurus. Vale ressaltar que L. braziliensis, espécie descrita como dermotrópica e associada apenas a formas cutâneas da doença humana, foi capaz de visceralizar e se multiplicar em órgãos internos nessa espécie de roedor (Roque et al., 2010). A eficácia de testes sorológicos (Rifi e Elisa) foi demonstrada até mesmo para os roedores infectados por L. braziliensis, um parasito geralmente não associado a uma importante resposta humoral. Tais dados enfatizam a importância de se considerar todas as possibilidades de perfis de infecção e a necessidade de incluir uma vasta gama de métodos diagnósticos, independentemente do que atualmente se sabe sobre a infecção em outros hospedeiros durante a investigação de reservatórios de Leishmania sp. (Roque et al., 2010).

Figura 2 – Ratos punaré Thrichomys laurentius nascidos em

cativeiro no biotério de roedores silvestres do Laboratório de

Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios,

IOC/Fiocruz

 

Foto: Cibele Bonvicino

É provável que dentro desse táxon de mamíferos tão heterogêneos haja um espectro de competência na manutenção e amplificação de espécies do gênero Leishmania que inclua desde espécies tolerantes com alta infectividade para o vetor, até espécies que controlam e resolvem rapidamente a infecção. Estudos experimentais como os mencionados são essenciais para o melhor entendimento dos mecanismos de manutenção dessa parasitose em seus hospedeiros naturais, e enfatizam a necessidade de estudos mais aprofundados dos ciclos silvestres de transmissão. Nos trabalhos de campo, é essencial investir em estudos que não se limitem apenas a descrever os hospedeiros infectados, mas que sejam realizados sob um enfoque ecológico para entender o papel de cada espécie na manutenção e amplificação das populações parasitárias de Leishmania spp. e, assim, auxiliar na predição de fatores que possam resultar na reemergência de casos humanos.

Ordem Carnívora

Os mamíferos desta ordem também compreendem um grupo muito heterogêneo que inclui desde carnívoros quase estritos, como a jaguatirica (Leopardus pardalis) e a irara (Eira barbara), até outras espécies que complementam sua dieta alimentar com insetos e frutos, como os quatis (Nasua nasua) e os lobos-guará (Chrysocyon brachyurus). A característica comum desse grupo é a presença de um quinto dedo nas patas traseiras e a presença de garras e dentes adaptados para rasgar as presas. Muitos desses mamíferos apresentam uma importante biomassa corporal e grande área de deslocamento, aspectos importantes para a dispersão de parasitos. Além disso, algumas espécies como quatis e iraras são encontrados tanto no solo quanto em copa de árvores, o que favorece a dispersão de parasitos entre diferentes estratos arbóreos. Por sua vez, carnívoros são altamente dependentes de uma grande área de vida e muito caçados em razão de seu potencial de predação a animais de criação, como galinhas e gado, fazendo com que muitas espécies de carnívoros, especialmente as de grande porte, estejam sob risco de extinção (Silva & Adania, 2007).

Dentre os mamíferos dessa ordem, dois estão intimamente ligados ao homem – o cão e o gato. A domesticação de cães e gatos data de dez e cinco mil anos, respectivamente, e a utilização destes, principalmente para fins de companhia, estende-se por todas as partes do globo (Sá, 2002). A infecção do cão doméstico por L. infantum é bastante descrita e, de fato, esses animais podem atuar como importantes reservatórios do parasito e exercer papel fundamental na transmissão em áreas endêmicas (Dantas-Torres, 2007). A própria entrada de cães infectados durante os primeiros anos de colonização das Américas é apontada como a responsável pela entrada dessa espécie de Leishmania nas Américas (Killick-Kendrick et al., 1980; Mauricio, Stothard & Miles, 2000). Apesar dos relatos serem mais escassos, a participação dos gatos nos ciclos de transmissão de L. infantum também já foi sugerida (Savani et al., 2004; Silva et al., 2008). Além de L. infantum, os cães também são hospedeiros de outras espécies, como L. braziliensis, L. amazonensis, L. peruviana, L. panamensis, L. mexicana, L. pifanoi e L. colombiensis (Dantas-Torres, 2009). A importância dos carnívoros domésticos e seu papel na epidemiologia das leishmanioses serão discutidos no capítulo 15.

Em relação aos carnívoros silvestres hospedeiros de L. infantum,

foi no cachorro-do-mato Cerdocyon thous (Figura 3) a primeira descrição da infecção, embora à época os autores tenham erroneamente reportado o hospedeiro como Lycalopex vetulus (Deane & Deane, 1955; Courtenay et al., 1996). Desde então, diversos trabalhos confirmaram parasitologicamente, sorologicamente e/ou por PCR tais infecções, sendo esses animais encontrados, algumas vezes, apresentando sintomatologia avançada da doença (Quinnell & Courtenay, 2009; Lainson et al., 1990; Silva et al., 2000). Este canídeo pode apresentar prevalências de infecção de até 42% por isolamento e de até 78% por sorologia (Lainson et al., 1990; Courtenay et al., 2002). A infectividade ao vetor já foi comprovada por xenodiagnóstico, embora a taxa de infecção dos vetores seja reportada como bem menor quando comparada à taxa obtida em cães domésticos (Quinnell & Courtenay, 2009; Courtenay et al., 2002; Gomes et al., 2007).

Figura 3 – Cachorro-do-mato Cerdocyon thous proveniente do

Parque Nacional da Serra da Canastra, Minas Gerais

 

Foto: Fabiana Lopes Rocha

Além de C. thous, outro carnívoro silvestre que pode ser considerado um potencial reservatório de L. infantum é o cachorro-vinagre Speothos venaticus. Um exemplar dessa espécie mantido em um zoológico no Rio de Janeiro, Brasil, é o único carnívoro silvestre, à exceção do C. thous, cujo isolamento de L. infantum já foi obtido (Figueiredo et al., 2008). A infecção em cachorro-vinagre foi também confirmada por visualização direta, PCR e sorologia em duas fêmeas mantidas em Ilha Solteira/SP, que apresentaram sinais clínicos de leishmaniose visceral (Lima et al., 2009). Outros canídeos diagnosticados apenas por PCR e/ou sorologia foram a raposinha Pseudalopex vetulus e o lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Curi, Miranda & Talamoni, 2006).

A partir de muitos desses relatos, ao menos dois estudos investigaram a prevalência e o perfil de infecção em canídeos e felinos silvestres mantidos em cativeiro (Luppi et al., 2008; Dahroug et al., 2010). Cinco de 15 canídeos pertencentes às quatro espécies citadas antes foram positivos tanto por sorologia quanto por PCR, sendo que destes, um cachorro-vinagre e uma raposinha apresentaram sinais clínicos semelhantes aos encontrados na leishmaniose visceral canina em Minas Gerais, Brasil. Esses sintomas incluíam, dentre outros, hiperplasia de linfonodos, baço e fígado, anemia, prostração e, em P. vetulus, lesões ulceradas na pele (Luppi et al., 2008).

Há ainda muito que estudar em relação ao papel das diferentes espécies de canídeos silvestres na manutenção e dispersão das leishmanioses. Certamente, assim como acontece em outras ordens de mamíferos, o padrão de infecção desses taxa apresentam peculiaridades regionais e mesmo individuais. Se for considerado que em algumas áreas (Pantanal, Pampa Gaúcho e Região Nordeste do país) esses canídeos são abundantes e representam elevada biomassa, qualquer estudo terá que incluir uma avaliação do tamanho e estrutura populacional da espécie-alvo, de modo a incluir amostras realmente representativas. O estudo de canídeos silvestres, principalmente em áreas onde a abundância relativa desses animais é expressiva, é fundamental, mesmo que bastante difícil de ser realizado, e com certeza trará importantes informações para o estudo da ecologia das leishmanioses.

Em relação aos felinos silvestres, cinco onças-pardas, ou suçuaranas (Puma concolor), e uma onça-pintada (Panthera onca) em Mato Grosso do Sul, Brasil, foram positivas por PCR em material de punção de linfonodo, sendo confirmada a infecção por L. infantum através da digestão dos produtos amplificados por enzimas de restrição (Dahroug et al., 2010).

Além de L. infantum, outras quatro espécies do parasito já foram descritas em carnívoros silvestres: L. shawi em quatis Nasua nasua (Lainson et al., 1989); L. guyanensis no jupará Potos flavus (Pajot et al., 1982); L. amazonensis no cachorro-do-mato e em juparás (Rotureau, 2006; Kreutzer et al., 1991); e L. panamensis em quatis, juparás e no olingo Bassaricyon gabii (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993).

Ordem Primata

Os primatas não humanos podem ser divididos em dois grupos: os catarrinos (infraordem Catarrhini), provenientes dos continentes africano, europeu e asiático (primatas do Velho Mundo), e os platirrinos (infraordem Platyrrhini), proveniente das Américas (primatas do Novo Mundo). A diferença básica entre os dois grupos é que os catarrinos têm as narinas voltadas para baixo em um focinho longo, enquanto os platirrinos têm as narinas voltadas para os lados, num focinho mais curto (Verona & Pissinatti, 2007). As diferentes espécies de primatas neotropicais estão incluídas nas famílias Cebidae (micos) e Callitrichidae (saguis), embora classificações mais modernas reconheçam ainda três outras famílias: Aotidae, Pithecidae e Atelidae. Nas Américas, esses primatas ocupam distintos estratos arbóreos e apresentam hábitos alimentares variados, incluindo espécies que se alimentam de frutos, invertebrados e até de pequenos mamíferos (Verona & Pissinatti, 2007).

Até o momento, poucos trabalhos diagnosticaram a infecção natural de Leishmania sp. em primatas do Novo Mundo. A infecção por L. shawi foi descrita nos cebídeos Cebus apella e Chiropotes satanas (Lainson et al., 1989), enquanto a infecção por L. amazonensis foi diagnosticada em Aotus trivirgatus e em Saguinus geoffroyi (Grimaldi Jr. & Tesh, 1993). Recentemente, um Callicebus nigrifrons, mantido no zoológico de Belo Horizonte/MG, apresentou uma doença fatal compatível com a leishmaniose visceral (LV). Exames histológicos, imuno-histoquímicos, e a positividade na reação de PCR específica para Leishmania do complexo donovani, confirmaram a infecção por L. infantum (Malta et al., 2010). Outras espécies de primatas positivas no mesmo estudo apenas em reação de PCR de sangue e sem sinais clínicos de LV foram Alouatta guariba, Cebus xanthosternos, Leonthopitecus crysomelas, Aotus nigriceps, Pithecia irrorata e Saguinus imperator (Malta et al., 2010).

Outras espécies de Leishmania que circulam nas Américas já demonstraram ser capazes de infectar outros primatas do Novo Mundo, mas apenas em condições experimentais. Na grande maioria de tais estudos, o foco principal era a avaliação da resposta desses primatas a diferentes tratamentos ou a avaliação de sua resposta imunológica visando ao desenvolvimento de vacinas. Uma vez que o foco deste capítulo são os potenciais reservatórios nas Américas, iremos nos ater apenas aos estudos experimentais que utilizaram platirrinos e espécies de Leishmania que circulam nas Américas.

Micos-estrela Callithrix penicillata foram, durante muitos anos, utilizados em estudos experimentais com L. braziliensis e L. amazonensis (Cuba et al., 1990; Cuba-Cuba & Marsden, 1993). Macacos-de-cheiro Saimiri sciureus experimentalmente infectados desenvolveram lesões cutâneas não ulceradas, no qual foi possível o reisolamento de parasitos (L. braziliensis e/ou L. panamensis) (Pung, Hulsebos & Kuhn, 1988).

Observou-se o mesmo perfil em Cebus apella experimentalmente infectados por L. lainsoni, os quais apresentaram amastigotas na pele e desenvolvimento de lesões cutâneas nos locais de inoculação (Silveira et al., 1990). Essa mesma espécie também desenvolveu lesões cutâneas após a infecção experimental por L. amazonensis, L. braziliensis, L. mexicana e L. guyanensis (Silveira et al., 1990; Garcez et al., 2002; Grimaldi Jr., 2008). Já Cebus nigrivittatus apresentaram um quadro de leishmaniose visceral fatal após inoculação experimental por L. infantum (Vouldoukis et al., 1986).

Também inoculados com Leishmania responsáveis por formas tegumentares da doença no homem, macacos-coruja Aotus trivirgatus desenvolveram lesões cutâneas locais após inoculação experimental de L. braziliensis, L. mexicana e L. panamensis (Christensen & Vasquez, 1981; Lujan et al., 1986).

Vale ressaltar que todas as espécies de platirrinos estão incluídas na lista da Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (Cites), o que significa que, apesar de nem todas as espécies estarem ameaçadas de extinção, todas têm algum grau de vulnerabilidade (Verona & Pissinatti, 2007). Por esse motivo, muitas espécies, como o mico-leão-dourado Leonthopitecus rosalia, são submetidos a programas de conservação. Tais programas frequentemente incluem intercâmbio, translocação e reintrodução de animais, sem que se considere a prevalência e perfil de infecção por parasitos, como Leishmania spp. e outros tripanossomatídeos. Dado o caráter focal de transmissão do parasito, programas como esse podem desencadear, na introdução de mamíferos infectados, e promover o estabelecimento de novos ciclos de transmissão (Lisboa et al., 2006).

Ordem Chiroptera

Os morcegos são os únicos mamíferos capazes de voar e, à exceção dos pássaros, os únicos animais que realizam migração sazonal, uma característica que se sugere ter evoluído várias vezes e de forma independente nas distintas linhagens de morcegos. Essas espécies de mamíferos noturnos executam um verdadeiro voo alado, característica que provavelmente foi herdada de antepassados que apenas deslizavam no ar, e que aparentemente também evoluiu várias vezes e de forma independente dentro desse táxon. Excetuando-se os morcegos frugívoros do Velho Mundo, os quirópteros apresentam um sofisticado sistema de ecolocalização que lhes permite identificar o meio ambiente. Ambos, o voo e esse sistema de orientação sensível, resultaram em sua elevada capacidade de dispersão por diferentes ambientes. Apesar de sua alta diversidade, atualmente os morcegos são considerados como um grupo monofilético (Jones & Teeling, 2006; Bishop, 2008; Bisson, Safi & Holland, 2009).

Os morcegos são comumente encontrados infectados por diversos tripanossomatídeos, principalmente do gênero Trypanosoma: T. cruzi, T. verspertilionis, T. (Megatrypanum) sp., entre outros. Em relação à infecção por Leishmania, há apenas um relato de isolamento de parasitos, no caso L. infantum, em sangue de morcegos frugívoros Carollia perspicillata na Venezuela (Lima et al., 2008). Antes disso, Lampo e colaboradores já haviam mostrado que morcegos constituem fonte alimentar de Lutzomyia longipalpis em cavernas da Venezuela (Lampo et al., 2000). Recentemente, um estudo em São Paulo/SP conseguiu diagnosticar, utilizando PCR em macerado de baço e fígado, e posterior sequenciamento dos produtos amplificados, a infecção por L. infantum em Molossus molossus e Glossophaga soricina, e por L. amazonensis nestas mesmas duas espécies e em Molossus rufus, Nyctinomops laticaudatus, Eumops glaucinus, E. auripendulus, Artibeus lituratus, Sturnira lilium e Myotis nigricans (Savani et al., 2010). Antes disso, apenas evidências inconclusivas baseadas em reações sorológicas, e mesmo assim, apenas no Velho Mundo, haviam sido reportadas (Morsy, Salama & Abdel Hamid, 1987). De fato, mais importante do que considerar morcegos como potenciais reservatórios de Leishmania sp. com base apenas em dois estudos é não excluir tal possibilidade, dada a quase inexistência de estudos que envolvem Leishmania e quirópteros.

Nesse sentido, um aspecto a ser considerado é que esses mamíferos voadores representam 39% das 560 espécies de mamíferos reportadas nas florestas tropicais sul-americanas, sendo o grupo de mamífero mais comum em termos de diversidade e biomassa (Rotureau, 2006; Emmons & Feer, 1997). Além disso, são encontrados em ambientes silvestre, doméstico e sinantrópico, sendo capaz de colonizar hábitats variados em diversos ecótopos. Seus refúgios incluem ocos de árvores, folhas de bananeiras, forros de habitações humanas e construções rurais. Sua elevada abundância e adaptabilidade a ambientes peridomiciliares reforçam a necessidade de se investigar o possível papel desses mamíferos, já reconhecidos como potenciais reservatórios de outros tripanossomatídeos, como o T. cruzi (Roque & Jansen, 2010), também nos ciclos de transmissão de Leishmania spp.

Outras Ordens de Potenciais Reservatórios

Além das sete ordens citadas anteriormente, a infecção por Leishmania spp. já foi encontrada em outras duas ordens de mamíferos nas Américas: Perissodactyla e Artiodactyla.

A ordem Perissodactyla é composta de mamíferos ungulados, herbívoros, cuja principal característica é a presença de um número ímpar de dedos não articulados. São três as famílias, sendo duas delas presentes nas Américas: Tapiridae (antas) e Equidae (equinos e asininos). As antas são ainda um grupo muito pouco estudado, visto que dependem de uma grande área de vida e são bastante sensíveis aos processos de devastação, fatores que certamente contribuíram para que as três espécies de antas presentes nas Américas sejam consideradas criticamente em perigo pela Union for Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN) (Mangini, 2007). A captura desses animais no campo é extremamente difícil, e até o momento não há registro de infecção por Leishmania sp. nesses mamíferos. Já em relação aos equídeos, aqui incluídos os cavalos, asnos e os híbridos resultantes do cruzamento entre eles, já foram reportadas infecções naturais por L. braziliensis (Aguilar et al., 1989; Vedovello et al., 2008) e reações sorológicas positivas após a infecção experimental por L. infantum (Cerqueira et al., 2003).

A ordem Artiodactyla é caracterizada pelos ungulados que apresentam um número par de dedos articulados. Nas Américas, seus representantes estão incluídos nas famílias Suidae (porcos e javalis), Tayassuidae (catetos e queixadas), Camelidae (lhamas, alpacas e similares), Cervidae (veados e cervos), Antilocapridae (antilocapras) e Bovidae (bovinos, ovinos, cabras e antílopes). Destes, apenas porcos domésticos (Sus scrofa) já foram encontrados infectados por Leishmania sp., mas apenas em reações sorológicas. Nesse mesmo estudo, a infecção experimental por L. infantum resultou igualmente apenas em reações sorológicas positivas, não sendo possível o reisolamento de parasitos (Moraes-Silva et al., 2006).

A importância dos equídeos, suídeos e bovídeos domésticos, bem como seu potencial papel na epidemiologia das leishmanioses serão discutidas no capítulo 15.

 

Conclusões e perspectivas

No caso da leishmaniose visceral humana, causada pela L. infantum, a ideia de que os cães são os principais responsáveis pela manutenção da parasitose resulta em que a eliminação dos cães soropositivos seja considerada por muitos a única forma de controle. Ignora-se por completo a possibilidade da participação de mamíferos silvestres e sinantrópicos infectados que podem se aproximar de áreas domiciliadas e servir de fonte de infecção ao vetor.

Este capítulo cita inúmeros casos de diferentes espécies de mamíferos que podem manter o ciclo de transmissão e servir de constante fonte de realimentação a um sistema peridomiciliar de transmissão da parasitose. A situação é ainda mais grave para as demais espécies de Leishmania sp., responsáveis por graves doenças humanas e cujo atual conhecimento dos ciclos de transmissão não permitem sequer a determinação dos principais reservatórios envolvidos na manutenção desses parasitos. Na Região Amazônica, o risco de contrair as formas tegumentares da doença ao se expor diretamente aos ciclos silvestres de transmissão, quando da invasão do homem para caça ou coleta extrativista, é outra realidade que deve ser considerada.

De fato, ainda estamos muito longe de entender os fatores que envolvem a manutenção das diferentes espécies de Leishmania na natureza. Nesse sentido, estudos em campo e em cativeiro utilizando potenciais reservatórios devem ser encorajados. Tais estudos não devem se restringir apenas a diagnosticar a infecção, mas devem, principalmente, buscar o entendimento do curso e o perfil de infecção nos hospedeiros silvestres. Quais os fatores responsáveis pela maior transmissibilidade ao vetor e como o manejo ambiental pode resultar em maior ou menor emergência da parasitose em ambientes próximos aos ciclos silvestres de transmissão são as duas primeiras perguntas a serem respondidas. A comunidade científica, ao longo dos anos, já mostrou que diversas espécies silvestres podem se infectar. O foco agora deve ser outro: quais dessas espécies efetivamente transmitem o parasito, são reservatórios e podem amplificar os focos enzoóticos, constituindo risco de transmissão ao homem?

A mudança de paradigmas na pesquisa e a vigilância de reservatórios silvestres dessa parasitose é necessária e urgente. Tal mudança passa, entre outros fatores, pelo entendimento do que significa estar incluído num sistema reservatório e pela necessidade de compreendermos o papel que cada hospedeiro desempenha na manutenção desses parasitos na natureza. Os fatores envolvidos na amplificação dos focos enzoóticos são particulares para cada local e em cada momento, e entender alguns desses fatores pode fornecer subsídios para a proposição de efetivas e sustentáveis estratégias de vigilância das leishmanioses.

 

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