Leishmanioses do continente americano
Leishmanioses: uma apresentação
Leishmanioses: uma
apresentação
N a a 16 Assembleia Mundial de Saúde (2007) emitiu-se a resolução WHA60.13 sobre o controle das leishmanioses (WHA, 2007). No texto, foi reconhecido que a infecção por parasitos do gênero Leishmania causa uma das doenças tropicais mais negligenciadas no mundo. Já naquela época, mais de 12 milhões de indivíduos encontravam-se infectados, com pelo menos dois milhões de novos casos a cada ano e 350 milhões de pessoas consideradas em risco de contrair uma das formas clínicas da infecção, principalmente nas áreas de maior taxa de pobreza. Dentro de áreas endêmicas, o risco de infecção aumenta por meio de condições precárias de ocupação do espaço físico. Dessa forma, também contribuem para a manutenção do quadro de desigualdade social, já que representam forte entrave ao desenvolvimento dos países (Alvar, Yactayo & Bern, 2006; Alvar et al., 2012; Chawala & Madhubala, 2010). Nesse contexto, na reunião de 2007, as leishmanioses foram consideradas um problema de saúde pública substancial. Assim, algumas resoluções foram tomadas no sentido de reforçar os programas nacionais de controle, melhorar o diagnóstico e a prevenção, conduzir estudos epidemiológicos mais precisos e melhorar o intercâmbio de informações e ações entre países para promover a vigilância e controle da leishmaniose. Na ocasião, também foram indicadas algumas ações prioritárias como: desenvolvimento de novos medicamentos; reforço nas pesquisas para o controle de vetores, reservatórios e proteção do ser humano; melhoria dos métodos diagnósticos; e melhoria do acesso da população sob risco aos sistemas de saúde.
Muitos anos se passaram, no entanto ainda nos deparamos com os mesmos problemas. As leishmanioses, sobretudo a forma visceral (Leishmaniose Visceral – LV), têm se expandido para regiões antes consideradas indenes; e casos de lesão tegumentar (Leishmaniose Tegumentar – LT) e doença visceral têm sido diagnosticados em viajantes que retornam a seus países de origem, após visitas a regiões onde a transmissão da doença é relatada (Alvar et al., 2012).
Por que, apesar do grande número de grupos de pesquisas, instituições e países envolvidos no estudo das leishmanioses, ainda temos dificuldades para melhorar o diagnóstico, o tratamento e o controle da infecção? Pergunta difícil, respostas procuradas por muitos. Assim, organizar o conhecimento já existente, formular questões e propor meios para respondê-las é um exercício necessário e interessante. Nas páginas deste livro, algumas dessas questões são abordadas por especialistas da área. Mas, antes de fazer perguntas e procurar respostas, precisamos conhecer as leishmanioses e seus agentes etiológicos. É vasta a literatura sobre o assunto, e livros-texto podem ser consultados; por isso, aqui faremos apenas uma breve introdução ao assunto, de forma resumida. Cada parte será detalhada no(s) capítulo(s) correspondente(s).
As leishmanioses são doenças infecciosas causadas por diferentes espécies de protozoários intracelulares obrigatórios pertencentes ao gênero Leishmania, transmitidos por algumas espécies de insetos flebotomíneos (Brasil, 2010). Durante a hematofagia, as formas promastigotas presentes nas glândulas salivares dos flebótomos fêmeas são inoculadas na junção derme-epiderme do hospedeiro vertebrado. Nesse local ocorre a fagocitose dos parasitos, que irão se transformar em amastigotas no interior do vacúolo parasitóforo de células do sistema fagocítico mononuclear (SFM), entre elas o macrófago. No interior dessas células os amastigotas multiplicam-se por divisão binária e são responsáveis pelas infecções, que podem persistir por todo o tempo de vida do hospedeiro, com risco provável de acarretar as lesões cutâneas e viscerais.
O curso da infecção é definido por uma série de fatores do parasito (espécie, cepa, forma evolutiva, número inicial) e do hospedeiro (células do sistema imune inato e adaptativo, sistema complemento, quimiocinas etc.). A localização do parasito nas células do SFM, associada à resposta imune, estimulada pela presença do antígeno parasitário, produz uma reação inflamatória com predominância celular (processo inflamatório crônico do tipo granulomatoso). A interação entre a multiplicação parasitária e a resposta imune do hospedeiro poderá produzir infecção mais ou menos grave e, na dependência da espécie do parasito envolvida, podem surgir lesões teciduais acometendo o tegumento cutâneo e/ou mucoso (LT), ou órgãos viscerais (LV). Para a continuidade da transmissão, flebótomos fêmeas, durante o repasto sanguíneo, podem ingerir as formas amastigotas do hospedeiro infectado. No interior do inseto uma nova transformação ocorre, e após um período de divisão as formas denominadas promastigotas metacíclicas se instalam na região das glândulas salivares do inseto, o que permite a transmissão do protozoário para novo
hospedeiro durante novo repasto sanguíneo (Figura 1).
Figura 1 – Esquema geral do ciclo biológico dos parasitos do
gênero Leishmania
Ilustração: Heloisa Diniz (IOC/Fiocruz)
Pensar na vida biológica das Leishmania spp. é refletir que a sobrevivência de tais parasitos pode modificar a qualidade de vida de seus hospedeiros, uma vez que interfere na homeostasia destes. Provavelmente, isso se deve a uma adaptação genética associada à mudança de microambiente e à existência de dependência metabólica com vias redirecionadas às formas promastigotas e amastigotas do parasito – em ambos os casos, com expressão gênica regulada nas fases do ciclo de vida. O êxito do parasito vem também sendo explicado pela atuação direta dos componentes orgânicos das espécies de Leishmania. Nesse contexto, os componentes da superfície do parasito são traduzidos como um conjunto de fatores que influenciam no sucesso da vida parasitária, visto que sua superfície celular representa o primeiro contato com os diferentes microambientes de ambos os hospedeiros.
O ciclo biológico das espécies de Leishmania nos hospedeiros vertebrados vem sendo extensivamente estudado em modelos de infecção experimental, como roedores e primatas não humanos. Com base nos modelos são feitas inferências acerca de aspectos da doença humana, uma vez que reúnem uma série de vantagens para o estudo da rede de interações que se estabelece entre parasito-hospedeiro, como: (i) a possibilidade de infecção pelos mesmos parasitos que infectam o homem; (ii) a diversidade de linhagens híbridas ou mutantes de camundongos. Tais fatores permitem a escolha de características específicas (Foote & Handman, 2005), dependendo do objetivo da pesquisa, e quando utilizadas linhagens suscetíveis, a infecção pode cursar com características similares às que ocorrem na doença humana (Pereira & Alves, 2008). Assim, dentro das normas de uso ético da experimentação animal, esses animais são amplamente utilizados em estudos de quimioterapia e vacinação (Divanovic et al., 2011; Garg & Dube, 2006).
A associação das formas clínicas da doença humana com as espécies de Leishmania é um capítulo largamente estudado e vem definindo o perfil das leishmanioses em nosso continente. Nas Américas, a forma visceral é causada por Leishmania infantum (estudos mais atualizados têm apontado para a semelhança entre L. chagasi e L. infantum, advindo daí a identificação do parasito causador da leishmaniose visceral americana como L. infantum. No entanto, ainda pode ser encontrado na literatura o uso de L. chagasi, L. infantum e L. infantum chagasi como sinonímias), e na forma tegumentar pelo menos 16 diferentes espécies de Leishmania foram identificadas como agentes causais de Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) em ambos os subgêneros: Leishmania e Viannia (Brasil, 2010; Baptista et al., 2009). No Brasil, as espécies causadoras de LTA mais comuns são: Leishmania amazonensis, Leishmania guyanensis e Leishmania braziliensis. Esta última tem ampla distribuição, do sul do Pará ao Nordeste, atingindo também o centro-sul do país e algumas áreas da Amazônia Oriental (Brasil, 2010), sendo o agente mais frequentemente encontrado em território nacional.
A LV é a forma de acometimento das leishmanioses que se localiza preferencialmente em órgãos e vísceras do sistema linfohematopoiético, como fígado, baço, gânglios e medula óssea, podendo também estar presente em outras regiões como rim, pulmão etc. É causada por parasitos como L. donovani, L. chagasi e L. infantum (as duas últimas hoje consideradas como sinonímias), mas alguns casos de infecção por L. tropica têm sido relatados (Brasil, 2011). A LV pode ser endêmica, esporádica ou epidêmica, com apresentações clínicas e sintomatologia variável. É infecção com distribuição mundial e a espécie envolvida depende de cada área endêmica, ocasionando pequenas diferenças entre as infecções que ocorrem nas Américas, Europa, África e Ásia. Nas duas últimas décadas, deu-se uma grande expansão dos casos detectados em muitas regiões do planeta e, apesar dos esforços no controle de vetores e reservatórios, a LV mantém-se em rápida expansão territorial, acometendo indivíduos de diferentes grupos de idades. No Brasil, epidemias urbanas foram observadas em várias cidades e a doença também tem sido verificada como infecção oportunista em pacientes com Aids, à semelhança do que se observa no sul da Europa (WHO, 2010). Em particular nos últimos dez anos, apesar dos recursos de tratamento intensivo e das rotinas estabelecidas para o tratamento específico da LV, constatou-se aumento na letalidade da doença em diversas regiões do Brasil. Um dos principais fatores que contribuem para o aumento dessa letalidade é o diagnóstico tardio (Campino & Maia, 2010). Como ocorre acometimento sistêmico e a apresentação clínica é relacionada à sintomatologia comum a outras doenças infecciosas ou não, o diagnóstico nem sempre é feito rapidamente, colocando o paciente sob risco, já que a infecção tem letalidade potencial alta. Contudo, estudos longitudinais demonstram que parte da população da área endêmica permanece assintomática ou se recupera espontaneamente da infecção. Os fatores de riscos considerados mais importantes para a progressão da LV são: desnutrição, fatores genéticos e concomitância de outras doenças (Brasil, 2011; Griensven & Diro, 2012). Nesse contexto, melhorar a rotina diagnóstica, dar ferramentas para o estadiamento da infecção e o correto manejo dos doentes pode fazer diferença na evolução da LV para casos graves ou para cura. Aliado a isso, melhorar o sistema de prevenção, o arsenal terapêutico e diminuir as taxas de transmissibilidade poderia diminuir a população em risco de infecção e controlar a expansão de LV.
A LTA é classificada em três formas clínicas básicas: leishmaniose cutânea localizada (LCL), leishmaniose mucosa (LM) e leishmaniose cutânea difusa (LCD). A LCL tem como principal manifestação uma lesão ulcerada que se desenvolve no local de inoculação do parasito. O indivíduo desenvolve úlcera de bordos elevados, fundo plano e superfície granulosa, geralmente autolimitada. Em algumas situações, a infecção pode se desenvolver de forma atípica, produzindo as formas disseminadas (LCDi) ou difusas (LCD). No primeiro caso ocorre a presença de inúmeras lesões, geralmente pequenas e distribuídas por várias regiões do tegumento cutâneo, que respondem bem ao tratamento antimonial. No segundo, advém também a disseminação das lesões, mas nesse caso as lesões tendem à forma tuberosa, sem ulceração, sendo por isso denominada difusa (LCD). Os parasitos são facilmente detectados e os pacientes de LCD respondem mal ao tratamento específico, levando à cronicidade da infecção e ao acometimento progressivo.
A LM geralmente apresenta destruição tecidual progressiva associada à intensa resposta inflamatória nas vias aerodigestivas superiores, abrangendo mucosa nasal, oral, faringe e laringe (Brasil, 2010; Amato, Andrade & Duarte, 2003; Marsden, 1986; Lessa et al., 2007). Essa lesão geralmente surge semanas ou anos após o desaparecimento da lesão cutânea inicial, por disseminação hematogênica ou linfática, a partir do foco primário. Trabalhos experimentais em hamsters parecem corroborar tal hipótese (Kanan & Ryan, 1975). Mais raramente, a lesão mucosa pode aparecer na vigência de úlcera cutânea em atividade, sendo então denominada leishmaniose mucocutânea (LMC). Parte dos pacientes de LM relata história de ausência de tratamento ou tratamento inadequado da lesão cutânea inicial, o que leva a concluir que as curas espontâneas e os tratamentos curtos e irregulares constituem um forte risco para o aparecimento da forma mucosa (Brasil, 2010). Dados da frequência da doença na forma mucosa são variáveis, de acordo com a região. A maior parte dos casos atendidos ocorre em hospitais, aos quais os portadores da LTA são atraídos pela extensão e cronicidade da doença.
Os pacientes de LM apresentam resposta positiva à intradermorreação de Montenegro (IDRM) e à resposta linfoproliferativa específica, in vitro, de células do sangue periférico. A magnitude dessa resposta é geralmente maior que aquela verificada na forma localizada (Amato, Andrade & Duarte, 2003; Carvalho et al., 1985; Castes, Verde & Rondón, 1983; Conceição-Silva et al., 1990). O mecanismo exato da formação da lesão mucosa, como e onde as leishmânias sobrevivem em latência no organismo humano durante anos e os fatores que desencadeiam a doença ainda permanecem obscuros (Brasil, 2010). De modo geral, qualquer região da mucosa nasal, oral ou faríngea pode apresentar lesões de LTA. No entanto, a maioria dos pacientes acometidos tem envolvimento nasal isolado ou em associação com outras áreas de mucosa. Em 42% dos pacientes de LM, ocorre perfuração do septo nasal (Amato, Andrade & Duarte, 2003). A boca geralmente tem lesões em associação com o acometimento nasal, mas é possível o encontro de uma ou mais lesões apenas na mucosa oral. Mais frequentemente, tais lesões ocorrem no lábio e no palato, embora já tenham sido identificadas lesões de úvula, gengiva, tonsilas e língua. Quando ocorre o acometimento da laringe, este costuma ser bastante intenso, com a presença de granulações vegetantes, recobertas com uma tênue camada de fibrina envolvendo a mucosa da epiglote e estendendo-se para a mucosa do vestíbulo laríngeo e pregas vocais. Pode ocorrer odinofagia e disfonia (Marsden, 1986; Lessa et al., 2007; observações não publicadas do Laboratório de Vigilância em Leishmanioses/Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas – LAB-VigiLeish/Ipec/Fiocruz).
A complexidade das leishmanioses impõe que o diagnóstico considere vários parâmetros clínicos, epidemiológicos e laboratoriais que consistem basicamente na evidenciação do parasito e em provas imunológicas. Assim, o diagnóstico laboratorial pode ser obtido por meio de ferramentas parasitológicas (exames diretos e cultura), imunológicas (sorologia e IDRM) e histológicas (HE, imuno-histoquímica). De acordo com a infraestrutura, ainda podem ser empregadas ferramentas moleculares baseadas na reação em cadeia da polimerase (Polymerase Chain Reaction – PCR), que constitui uma técnica com elevada sensibilidade, tornando possível o diagnóstico, principalmente nos casos não resolvidos pelos métodos clássicos (Andrade et al., 2005).
Os espécimes clínicos coletados para o diagnóstico parasitológico dependem da apresentação clínica da doença (Andrade et al., 2005). Na LT podem ser obtidos tendo como base a escarificação ou biópsia de lesão (Mello et al., 2011). Também pode ser feita a punção aspirativa, quando houver necessidade de investigação de comprometimento ganglionar primário. Já na LV os espécimes são comumente obtidos por amostras de sangue periférico, punção aspirativa de medula óssea ou punção biópsia de fígado ou baço. No exame parasitológico direto, é realizada a pesquisa de formas amastigotas em lâminas de impressão por aposição ou material proveniente de escarificação, biópsia e punção aspirativa, corados pela técnica de Giemsa ou Leishman. O exame parasitológico indireto visa ao isolamento do agente infeccioso em meios de cultivo apropriados, como, por exemplo, o meio semissólido Novy, McNeal e Nicolle (NNN) e os meios líquidos Schneider’s ou infusão de coração e cérebro (Brain and Heart Infusion – BHI). Outro método de diagnóstico indireto é a inoculação em animais de laboratório, sendo o hamster o animal de escolha. No entanto, em razão da dificuldade de manuseio e manutenção, a inoculação em animais tem utilização restrita, não sendo usada em exames de rotina diagnóstica (Brasil, 2010).
A análise histopatológica dos fragmentos de biópsia também é de fundamental importância no diagnóstico da LTA, pois pode identificar as formas parasitárias e, ao mesmo tempo, contribuir para o diagnóstico diferencial. Alguns estudos e esforços têm sido realizados com o objetivo de implantação de outras metodologias auxiliares, como a imuno-histoquímica e o PCR (Kenner et al., 1999).
A detecção de resposta imune específica pode ser feita através da intradermorreação de Montenegro (IDRM), imunofluorescência indireta (IFI) e/ou ensaio imunoenzimático (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay – Elisa), além de resposta proliferativa primária de linfócitos (RPL), sendo esta última pouco utilizada na prática (Brasil, 2010).
Sabe-se que as manifestações clínicas de determinados agravos, assim como a resposta terapêutica, podem estar parcialmente relacionadas à espécie de parasito envolvido na infecção. Nas leishmanioses, este é um assunto bastante explorado, buscando-se, principalmente, estabelecer possíveis associações dos padrões clínicos e/ou da resposta terapêutica com a diversidade genética dos parasitos (Baptista et al., 2009).
A ampla diversidade genética dos parasitos do gênero Leishmania, sobretudo L. brazilensis, é bastante conhecida (Lessa et al., 2007; Pacheco et al., 1990; Cupolillo et al., 2003; Ishikawa et al., 2002). Tal diversidade pode estar relacionada ao genoma nuclear desses organismos, que mostram uma considerável plasticidade inter e intraespécies em termos de número e tamanho dos cromossomos (cariótipo molecular) e, também, no genoma mitocondrial, que pode variar principalmente no tamanho e organização dos maxicírculos. Entretanto, aspectos concernentes aos padrões epidemiológicos também podem ter influência na diversidade desses parasitos. Estudo com amostras de L. braziliensis isoladas da região amazônica revelaram elevada heterogeneidade genética, fato que foi relacionado ao grande número de espécie de vetores e animais que atuam nos ciclos de transmissão nessa região, ao contrário do que ocorre na costa atlântica do Brasil, onde as amostras estudadas indicaram baixo nível de heterogeneidade (Pacheco et al., 1990).
Mesmo com grande prevalência e com os conhecimentos atuais sobre a relação entre o parasito e seu hospedeiro, poucos avanços foram obtidos no tratamento dessa parasitose. O gênero Leishmania foi descrito em 1903, e em 1912 Gaspar Vianna demonstrou o uso do tártaro emético (tartarato de potássio e antimônio trivalente) no tratamento de pacientes com LTA. Entretanto, em razão dos graves efeitos secundários provocados por esse fármaco, outros compostos, baseados nos antimoniais, foram testados, chegando-se ao antimonial pentavalente, que passou a ser utilizado, a partir da década de 40 do século XX, como fármaco de primeira escolha para o tratamento das leishmanioses. Apesar de eficaz, na maioria dos casos os antimoniais estão associados à considerável toxicidade hepática e renal. Por essa razão, naqueles casos em que há impedimento da utilização dos antimoniais, outros fármacos podem ser utilizados como tratamento alternativo, sendo os mais usados a anfotericina b e a pentamidina (Brasil, 2010; Oliveira et al., 2011). No entanto, todos os fármacos empregados no tratamento das leishmanioses, seja o antimônio pentavalente, a anfotericina B ou a pentamidina, têm limitações quanto ao seu emprego, tais como custo elevado, dificuldade de administração, toxicidade ou ainda o desenvolvimento de possível resistência, o que representa grande obstáculo para o sucesso da terapia (Ameen, 2010).
Embora os antimoniais pentavalentes sejam usados há mais de sessenta anos, seu mecanismo de ação ainda não foi esclarecido. Falta elucidar detalhes da ação leishmanicida dos antimoniais pentavalentes na forma orgânica, como pró-fármacos (Goodwin & Page, 1943), ou na forma iônica (Sb 5+ 3+ ou Sb), após sua conversão in vivo (Roberts, Berman & Rainey, 1995). O esclarecimento desses detalhes pode ser útil à compreensão do mecanismo de toxicidade do antimônio, que é influenciada pela natureza química do composto, seguindo o pressuposto de que espécies químicas distintas de um mesmo elemento químico podem seguir caminhos metabólicos diferentes. Estudos nessa área podem ser proveitosos no desenvolvimento de formulações à base de derivados do antimônio mais eficazes e menos tóxicos, melhorando o tratamento das leishmanioses.
Ainda com relação aos antimoniais, observa-se grande variabilidade de respostas terapêuticas, cujas razões específicas não são totalmente esclarecidas. Sugere-se que fatores imunológicos dos hospedeiros, variabilidade genética do parasito, assim como a farmacocinética do antimonial no organismo, possam interferir no processo de resposta terapêutica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os antimoniais pentavalentes sejam usados nas doses de 10-20 mg/kg/dia, por um período mínimo de vinte dias, para tratamento da LTA. Contudo, outras doses e outros esquemas terapêuticos são utilizados, não havendo um consenso de qual seria o melhor esquema (Ameen, 2010).
O Ministério da Saúde do Brasil (Brasil, 2010) preconiza a utilização do antimonial pentavalente (antimoniato-N-metil-glucamina – Sb v v ) na dose de 10-20 mg Sb/kg/dia durante vinte dias consecutivos. A dose dependeria do tipo de apresentação clínica e da idade dos pacientes. No entanto, dependendo da região e da experiência dos médicos responsáveis, o esquema pode variar não só em relação à dose, mas também em relação ao tempo e à forma de administração.
Apesar dos intensos estudos já realizados, muito pouco ainda se sabe sobre possíveis fatores que podem estar envolvidos na evolução das leishmanioses para a cura clínica e a proteção contra recidivas e reinfecções (Mishra, Saxena & Singh, 2007). Estudos sistemáticos avaliando vários aspectos (clínicos e laboratoriais) poderiam trazer subsídios para o conhecimento da dinâmica desse processo infeccioso.
Entre os fatores ligados à cura das lesões de LTA, a discussão sobre a erradicação do parasito após a cura clínica foi motivo de controvérsia durante muitos anos. Com o estudo sistemático de cicatrizes e com a possibilidade de utilização de técnicas de grande sensibilidade, a evidenciação de parasitos pode ser feita com a detecção de antígenos ou DNA parasitários em lesões de LTA em cicatrização (Oliveira et al., 2011; Schubach et al., 1998a, 1998b; Mendonça et al., 2004). Schubach e colaboradores (2001) demonstraram a existência de antígenos de Leishmania no tecido cicatricial e sugeriram que tal fato poderia estar relacionado a mecanismos de manutenção da resposta imune, levando à imunoproteção. Por sua vez, como foi possível o isolamento de parasitos em culturas de amostras de cicatriz, também foi sugerido que a persistência do agente infeccioso poderia estar relacionada ao desenvolvimento de lesões tardias ou ao aparecimento de reativações no local da lesão primária. Também é fato hoje reconhecido a manutenção de infecção latente em casos de LV, o que pode ser verificado pelo surgimento de casos de LV em população adulta acometida de HIV-Aids em regiões sem história atual de infecção nos residentes hígidos, como tem ocorrido em países da região do Mediterrâneo Europeu (Brasil, 2011; Campino & Maia, 2010; Griensven & Diro, 2012). Todos esses dados sugerem a tendência ao equilíbrio dinâmico entre o parasito e o sistema imune. Assim, o estudo de resposta imune nos tecidos e órgãos normalmente acometidos pela infecção, e a identificação dos mecanismos modulatórios envolvidos no equilíbrio da relação parasito-hospedeiro, podem ser uma boa ferramenta na compreensão dos fatores que mantêm ou alteram tal equilíbrio. Além disso, outros fatores como doenças concomitantes, o uso de determinadas drogas, idade, localização etc. também poderiam influenciar a evolução da infecção para o controle ou a manutenção de atividade. Um conhecido fato é a dificuldade de cicatrização de lesões da LTA nas pernas, em razão das dificuldades de drenagem local. Por último, fatores pertencentes a variações genéticas do parasito, assim como a carga parasitária, poderiam estar envolvidos na manutenção da atividade inflamatória e consequentemente na ocorrência de falha terapêutica precoce ou tardia.
As leishmanioses permanecem como uma das doenças parasitárias de grande impacto para a humanidade. Podemos afirmar que ainda temos muitas questões não respondidas, e pensar sobre elas, além de ser um bom exercício, é acima de tudo uma necessidade. Neste livro, especialistas se debruçaram sobre algumas dessas questões, o que, em determinadas situações, fez surgir novas questões. Nem todas têm resposta fácil, mas pensar sobre elas é nosso trabalho.
Ao longo das páginas desta publicação, o leitor perceberá que cinco tópicos do tema leishmânia vão conseguir prendê-lo à leitura: o parasito, sua estrutura e sua composição bioquímica; os hospedeiros e os diversos modelos experimentais; a clínica e a resposta imune associada; o passado e o presente do tratamento; e os desafios para o controle da doença. Os organizadores desta obra entendem que essa pluralidade de temas, reunida em um único volume, oferece ao leitor uma visão única e multifacetária do assunto leishmanioses, ou seja, abordando os aspectos relevantes para uma visão crítica das leishmanioses nos dias de hoje. Seguindo a opção por organizar uma coletânea de informações e ideias não necessariamente homogêneas, cada autor teve independência para escrever sobre as informações constantes na literatura e sobre sua experiência e hipóteses acerca do tema, não havendo obrigatoriedade de sequência ou cerceamento de conteúdo pelos organizadores.
O primeiro grupo de ideias desenvolvidas pelos autores, aqui, é composto por capítulos que relatam o estado da arte das Questões Evolutivas, Taxonômicas e Ultraestruturais de Parasitos do Gênero Leishmania (1, 2, 3) e da composição Bioquímica e o Metabolismo Energético dos Parasitos do Gênero Leishmania (4 a 7), além dos Aspectos Bioquímicos e Moleculares na Interação Parasito-Hospedeiro-Vetor (8 e 9). O segundo grupo de ideias contemplada na obra reúne capítulos que dissertam sobre temas como Hospedeiros, Reservatórios e a Manutenção dos Ciclos de Transmissão (10 a 15) e Modelos Experimentais no Estudo das Leishmanioses do Continente Americano (16, 17). O terceiro grupo é dedicado a temas da clínica e do status imunológico dos pacientes com leishmaniose, relatando sobre Espectro Clínico das Leishmanioses (18, 19) e sobre a Resposta Imune na Leishmaniose Tegumentar Americana (20, 21). O Tratamento e Diagnóstico das Leishmanioses são abordados no relato do Estado da Arte no Tratamento da LTA no Brasil (22) e na descrição dos Modelos de Estudo para o Desenvolvimento de Drogas Anti-Leishmania (23). Finalmente, reservou-se espaço nesta publicação para informar aos leitores sobre os Desafios para o Controle das Leishmanioses, descrevendo A Questão do Controle das Leishmanioses (24), as Vacinas nas Leishmanioses (25) e, ainda, questões relacionadas às Abordagens Genômicas, Transcriptômicas e Proteômicas Aplicadas ao Estudo de Leishmania spp. (26).
Uma publicação como esta não poderia ter sido concretizada sem a participação e o auxílio de muitas pessoas, a quem gostaríamos de agradecer. Mesmo incorrendo na possibilidade de esquecermos alguém (a quem, de antemão, pedimos desculpas), não poderíamos deixar de mencionar o grupo de pesquisadores da Área de Pesquisa em Leishmanioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), que junto conosco participou da primeira etapa de discussão sobre a ideia deste livro: drs. Sergio Coutinho Furtado de Mendonça, Maurício Luiz Vilela, Renato Porrozzi de Almeida e Salvatore Giovanni De Simone, além do entusiasmo do trabalho da analista de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PDI) do Instituto, Andréa Silva de Souto, que nos prestou assistência durante a organização inicial deste livro. Agradecemos também às analistas de PDI Helenice Andrade e Claudia Kamel, assim como à jornalista Elisandra de Araújo Galvão (BioManguinhos/Fiocruz), que auxiliaram na organização da parte documental e/ou nos contatos iniciais com a Editora Fiocruz; e às dras. Mariza Morgado e Mariza Conde, que propiciaram as condições para a aglutinação dos pesquisadores da Área de Pesquisa em Leishmanioses do IOC/Fiocruz em torno deste projeto.
Esta obra também não teria sido possível sem a participação da equipe do Setor de Produção e Tratamento de Imagens do IOC/Fiocruz, em especial Genilton José Vieira, Heloisa Maria Nogueira Diniz e Rodrigo Mexas, e sem o aval e o suporte da Editora Fiocruz, a quem agradecemos nas pessoas do editor executivo João Canossa e do revisor Marcionílio Cavalcanti de Paiva, além de Augusta Avalle e Myllena Paiva, que auxiliaram na finalização da revisão, e de Clarissa Bravo e Gislene Coimbra, normalizadoras das referências. Também foram fundamentais na composição do livro os programadores visuais Adriana Carvalho e Carlos Fernando Reis.
Tudo isso seria muito mais difícil sem o suporte dado pela Fiocruz e em particular pela atual Direção do IOC (na pessoa do diretor dr. Wilson Savino) e à passada, representada aqui pela ex-diretora dra. Tânia Cremonini de Araújo-Jorge.
Por fim, este trabalho seria inviável sem a adesão maciça e entusiasmada dos profissionais autores desta coletânea. Este livro é um reflexo do comprometimento dos pesquisadores com a qualidade da ciência e informação que produzem para a sociedade.
A todos, nossos sinceros agradecimentos.
Os organizadores
Referências ALVAR, J.; YACTAYO, S. & BERN, C. Leishmaniasis and poverty. Trends in Parasitology, 22: 552-557, 2006.
ALVAR, J. et al. Leishmaniasis worldwide and global estimates of its incidence. Plos One, 7(5): e35.671, 2012.
AMATO, V. S.; ANDRADE, H. F. & DUARTE, M. I. Mucosal leishmaniasis: in situ characterization of the host inflamatory response, before and after treatment. Acta Tropica, 85: 39-49, 2003.
AMEEN, M. Cutaneous leishmaniasis: advances in disease pathogenesis, diagnostics and therapeutics. Clinical and Experimental Dermatology, 35: 699-705, 2010.
ANDRADE, B. B. et al. Métodos diagnósticos da Leishmaniose tegumentar: fatos, falácias e perspectivas. Gazeta Médica da Bahia, 75: 75-82, 2005.
BAPTISTA, C. et al. Leishmania (Viannia) braziliensis genotypes identified in lesions of patients with atypical or typical manifestations of tegumentary leishmaniasis: evaluation by two molecular markers. Experimental Parasitology, 42: 317-322, 2009.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de Vigilância da Leismaniose Tegumentar Americana. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
BRASIL. Ministério da Saúde. Leishmaniose Visceral: recomendações clínicas para redução da mortalidade. Brasília: SVS, Departamento de Vigilância Epidemiológica, 2011. (Serie A: Normas e Manuais Técnicos).
CAMPINO, L. & MAIA, C. Epidemiology of leishmaniases in Portugal. Acta Médica Portuguesa, 23: 859-864, 2010.
CARVALHO, E. M. et al. Cell mediated immunity in American cutaneous and mucosal leishmaniasis. The Journal of Immunology, 135(6): 414-418, 1985.
CASTES, M.; VERDE, O. & RONDÓN, A. J. Characterization of the cellular immune response in American cutaneous leishmaniasis. Clinical Immunology and Immunopathology, 27: 176-186, 1983.
CHAWALA, B. & MADHUBALA, R. Drug targets in Leishmania. Journal of Parasitic Diseases, 34:1-13, 2010.
CONCEIÇÃO-SILVA, F. et al. Quantitative study of Leishmania braziliensis reactive T cells in peripheral blood and in the lesions of patients with american mucocutaneous leishmaniasis. Clinical and Experimental Immunology, 79: 221-226, 1990.
CUPOLILLO, E. et al. Genetic polymorphism and molecular epidemiology of Leishmania (Viannia) braziliensis from different hosts and geographic areas in Brazil. Journal of Clinical Microbiology, 41: 3.126-3.132, 2003.
DIVANOVIC, S. et al. Therapeutic enhancement of protective immunity during experimental leishmaniasis. PLoS Neglected Tropical Diseases, 5(9): e1.316, 2011.
FOOTE, S. J. & HANDMAN, E. Genetics of murine leishmaniasis. Briefings in Functional Genomics and Proteomics, 4(3): 270-276, 2005.
GARG, R. & DUBE, A. Animal models for vaccine studies for visceral leishmaniasis. The Indian Journal of Medical Research, 123(3): 439-454, 2006.
GOODWIN, L. G. & PAGE, J. E. A. Study of the excretion of organic antimonials using a polarographic procedure. The Biochemical Journal, 37: 198-209, 1943.
GRIENSVEN, J. & DIRO, E. Visceral leishmaniasis. Infectious Disease Clinics of North America, 26: 309-322, 2012.
ISHIKAWA, E. A. et al. Genetic variation in populations of Leishmania species in Brazil. Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, 96, supl. 1: S111-121, 2002.
KANAN, M. W. & RYAN, T. J. Endonasal localization of blood borne viable and non viable particulate matter. The British Journal of Dermatology, 92(4): 663-673, 1975.
KENNER, J. R. I. et al. Immunohistochemistry to identify Leishmania parasites in fixed tissues. Journal of Cutaneous Pathology, 26(3): 130-136, 1999.
LESSA, M. M. et al. Mucosal Leishmaniasis: epidemiological and clinical aspects. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 73: 843-847, 2007.
MARSDEN, P. D. Mucosal leishmaniasis (Espundia Escomel, 1911). Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, 80: 859-887, 1986.
MELLO, C. X. et al. Comparison of the sensitivity of imprint and scraping techniques in the diagnosis of American tegumentary leishmaniasis in a referral centre in Rio de Janeiro, Brazil. Parasitology Research, 109(3): 927-933, 2011.
MENDONÇA, M. G. et al. Persistence of Leishmania parasites in scars after clinical cure of American cutaneous leishmaniasis: is there a sterile cure? The Journal of Infectious Diseases, 189(6): 1.018-1.023, 2004.
MISHRA, J.; SAXENA, A. & SINGH, S. Chemotherapy of leishmaniasis: past, present and future. Current Medicinal Chemistry, 14: 1.153-1.169, 2007.
OLIVEIRA, L. F. et al. Systematic review of the adverse effects of cutaneous leishmaniasis treatment in the New World. Acta Tropica, 118(2): 87-96, 2011.
PACHECO, R. S. et al. Population heterogeneity among clones of New World Leishmania species. Parasitology, 100(3): 393-398, 1990.
PEREIRA, B. A. S. & ALVES, C. R. Immunological characteristics of experimental murine infection with Leishmania (Leishmania) amazonensis. Veterinary Parasitology, 158: 239-255, 2008.
ROBERTS, W. L.; BERMAN, J. D. & RAINEY, P. M. In vitro antileishmanial properties of tri- and pentavalent antimonial preparations. Antimicrobial Agents Chemotherapy, 39(6): 1.234-1.239, 1995.
SCHUBACH, A. et al. Detection of Leishmania DNA Polymerase Chain Reaction in Scars of Treated Human Patiens. The Journal of Infection Disease, 178: 911-914, 1998a.
SCHUBACH, A. et al. Cutaneous scars in american tegumentary leishmaniasis patients: a site of Leishmania (viannia) braziliensis persistence and viability eleven years after antomonial therapy and clinical cure. The American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, 58(6): 824-827, 1998b.
SCHUBACH, A. et al. Leishmanial antigens in the diagnosis of active lesions and ancient scars of American tegumentary leishmaniasis patients. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 96(7): 987-996, 2001.
WORLD HEALTH ASSEMBLY (WHA). Resolution from the 16º. World Health Assembly, 21 maio 2007. Disponível em:
<www.who.int/neglected_diseases/mediacentre/WHA_60.13_Eng.pd
f>. Acesso em: 11 mai. 2012.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Control of leishmaniasis. In: REPORT OF A MEETING OF THE WHO EXPERT COMMITTEE ON THE CONTROL OF LEISHMANIASES, 22-26 mar. 2010, Geneva. (WHO Tecnichal Report Series, 949).