Leishmanioses do continente americano

Fátima Conceição-Silva · Capítulo 17 de 28

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Leishmanioses do continente americano

15. Os Parasitos e a Questão da Infecção em Animais Domésticos e Domiciliados

15. Os parasitos e a questão da

infecção em animais

domésticos e domiciliados

Fabiano Borges Figueiredo, Maria de Fátima Madeira

As leishmanioses são doenças mundialmente negligenciadas, que afetam em sua grande maioria populações mais vulneráveis ou carentes, refletindo um conjunto de circunstâncias epidemiológicas provocadas pela multiplicidade de espécies do parasito, de insetos vetores, de diferentes reservatórios envolvidos no ciclo natural, de fatores ecológicos que interferem nessa cadeia e do envolvimento de políticas públicas de saúde, cujo impacto pode ser sentido no controle dessa endemia em várias regiões do mundo (WHO, 2008; Brasil, 2006, 2010).

Nos últimos anos, as leishmanioses têm sido incriminadas, junto com outras doenças também transmitidas por artrópodes, como uma doença emergente e reemergente, cuja propagação pode estar associada ao comportamento humano, em virtude dos processos migratórios, ações de desmatamentos, projetos de construção de rodovias e, também, de conflitos sociais (Shaw, 2007). Os fatores ambientais, como o aquecimento global por exemplo, interferem nos microambientes atuando sobre os processos naturais e podem ter influência direta na densidade dos agentes vetores, embora não esteja evidenciada a demonstração desse impacto (Kuhn, 1999). Outro fator que pode também incidir na modificação e propagação geográfica das leishmanioses é o aparecimento de novos genótipos/fenótipos de parasitos e vetores, a partir de pressões seletivas naturais (Pacheco et al., 1995), cujo conhecimento e rastreamento de subpopulações de parasitos circulantes nos diferentes hospedeiros pode contribuir para melhor compreensão da epidemiologia em diversas áreas endêmicas.

Em inúmeros focos de leishmaniose descritos no mundo, observa-se uma grande variedade de animais mamíferos pertencentes a grupos taxonômicos distintos, incriminados como possíveis reservatórios, ou simplesmente como hospedeiros acidentais, no ciclo de transmissão de diferentes espécies de Leishmania.

Neste capítulo abordaremos os diferentes aspectos que envolvem a infecção de animais domésticos por protozoários do gênero Leishmania, com base em relatos da literatura científica e na experiência dos autores.

 

Desenvolvimento

Entre os animais domésticos envolvidos com parasitos do gênero Leishmania, o cão (Canis familiaris) apresenta papel de destaque, seja pela proximidade que tem com o homem, funcionando como elo no ciclo de transmissão, seja pelo papel mantenedor e dispersor de determinadas espécies, principalmente em áreas urbanas (Marzochi & Marzochi, 1994; Dantas-Torres, 2007; Madeira et al., 2006b; Figueiredo et al., 2009; Marzochi et al., 2009). Esse animal tem sido encontrado naturalmente infectado por diferentes espécies de Leishmania, incluindo espécies dermotrópicas como L. braziliensis, L. amazonensis, L. mexicana, L. colombiensis, L. panamensis, L. peruviana, L. pifanoi, L. tropica, L. major e espécies viscerotrópicas como L. donovani e L. chagasi (sin. L. infantum) (Gallego, 2004; Solano-Gallego et al., 2009; Dantas-Torres, 2009). Entretanto, o leque de espécies que possam estar infectando esse animal pode ser maior, uma vez que a etiologia nem sempre é confirmada. Tais dados demonstram que cães domésticos são suscetíveis a inúmeras espécies do gênero Leishmania, no entanto, sua importância epidemiológica encontra-se principalmente no ciclo de transmissão das espécies causadoras da leishmaniose visceral, no qual são centradas as ações de controle.

No Brasil, das espécies causadoras da doença tegumentar humana, o cão doméstico tem sido incriminado como um eventual hospedeiro somente no ciclo epidemiológico de L. braziliensis. Seu envolvimento foi sinalizado já no início do século XX, após ter sido relatado o encontro de cães portando úlceras semelhantes às encontradas no homem (Pedroso, 1913). Essa hipótese foi mais tarde reforçada por Aragão (1927), que conseguiu reproduzir uma lesão no focinho de um cão ao inocular um macerado de Phlebotomus intermedius, comprovando, assim, a possibilidade da infecção experimental de cães com transmissão por meio de um inseto da família Phlebotominae. Posteriormente, a participação do cão doméstico no ciclo de transmissão da leishmaniose tegumentar passou a ser objeto de estudo durante vários surtos ocorridos na Região Sudeste do Brasil (Araújo & Coura, 1978; Coutinho et al., 1985; Falqueto et al., 1986; Pirmez et al., 1988). Esses estudos contribuíram, de certa forma, com argumentos favoráveis à implicação desses animais como possíveis reservatórios de L. braziliensis, uma vez que eram frequentemente encontrados naturalmente infectados em áreas de ocorrência dos casos humanos, embora outros estudos tenham apontado o cão doméstico como mero hospedeiro acidental nesse ciclo.

A infecção canina causada por L. braziliensis geralmente não compromete o estado geral do animal, e a doença manifesta-se com lesões cutâneas localizadas preferencialmente na bolsa escrotal, pavilhão auricular e focinho, que são os locais de pouco pelo preferidos pelo inseto vetor (Aragão, 1927). As lesões podem permanecer em atividade por longos períodos ou intercaladas com períodos de cicatrização. Frequentemente a resposta imune humoral é baixa ou mesmo negativa (Madeira et al., 2003a; Serra et al., 2003), inviabilizando os métodos sorológicos como ferramenta única no diagnóstico. Por sua vez, o diagnóstico clínico nem sempre é uma tarefa fácil, tendo em vista que podem ser confundidas com doenças clinicamente semelhantes, entre elas a esporotricose canina ocasionada pelo Sporothrix schenckii, que constitui o principal diagnóstico diferencial, especialmente em áreas de sobreposição de ambos os agentes (Santos et al., 2007). Além das características clínicas bem semelhantes, como as lesões cutâneas ulceradas e nodulares nas regiões periféricas como orelhas e focinho, o diagnóstico sorológico e o teste intradérmico (teste de Montenegro) podem apresentar resultados falso-positivos, agregando ainda mais um fator de confusão (Santos et al., 2007).

O teste de Montenegro (1926), que mede a hipersensibilidade do tipo retardado a antígenos de Leishmania, de grande aplicação no diagnóstico da leishmaniose tegumentar humana, foi utilizado pela primeira vez na leishmaniose tegumentar canina (LTC) (Pirmez et al., 1988) como proposta alternativa no diagnóstico desses animais. Entretanto, os resultados obtidos não foram conclusivos para determinação da infecção. Estudos posteriores revelaram que os resultados negativos encontrados (Pirmez et al., 1988) não estavam relacionados a uma imunossupressão específica do cão infectado, mas sim à apresentação do conteúdo proteico do antígeno (Marzochi & Barbosa-Santos, 1988), mostrando-se útil como instrumento nos inquéritos epidemiológicos (Santos et al., 1998). É importante ressaltar que a positividade desse teste, como ocorre no homem, não descarta outras infecções.

Assim, o diagnóstico confirmatório da LTC deve empregar métodos que possibilitem a demonstração do parasito nas lesões cutâneas, os quais podem ser feitos por meio de exames citológicos e histopatológicos ou através do isolamento em meio de cultura, permitindo posteriormente a identificação da amostra isolada. Métodos moleculares também são amplamente empregados com fins diagnósticos. Na LTC, apesar dos relatos da evidência de DNA parasitário pela PCR em sangue de cães infectados (Reithinger et al., 2000; Reithinger & Davies, 2002; Reithinger et al., 2003), a demonstração da viabilidade e infectividade desses parasitos é primordial para subsidiar as discussões relacionadas ao papel que o cão doméstico possa assumir no ciclo de transmissão (Dantas-Torres, 2007; Reithinger & Davies, 1999). Métodos tradicionais de diagnóstico como a cultura, em várias ocasiões, não foram capazes de detectar a presença do parasito em locais diferentes da lesão cutânea (Madeira et al., 2006b; Herrer & Christensen, 1976; Pirmez, Marzochi & Coutinho, 1988), sugerindo que os flebotomíneos possam ter baixa probabilidade de se infectarem quando alimentados fora do sítio das lesões cutâneas (Silveira et al., 1989). Embora ainda sejam escassos os estudos que investiguem a distribuição de L. braziliensis nos tecidos do cão infectado, Madeira e colaboradores (2005), avaliando um grupo de 19 cães naturalmente infectados por L. braziliensis, demonstrou a presença exclusiva desta espécie somente em lesões cutâneas, corroborando achados anteriores. Os animais desse grupo apresentaram títulos sorológicos, avaliados pela imunofluorescência indireta (IFI), que variaram de resultados negativos a títulos de 1:640, revelando, por um lado, a diversidade sorológica de cães com LTC e por outro, que títulos elevados não são exclusivos da leishmaniose visceral canina (LVC). Tais resultados, também já assinalados por outros autores (Falqueto et al., 1986; Pirmez, Marzochi & Coutinho, 1988), sugerem a hipótese de que L. braziliensis talvez possua uma tendência de se restringir ao sítio da lesão cutânea de cães infectados (Madeira et al., 2006b; Madeira et al., 2005). Tais observações, associadas a inúmeras outras questões levantadas acerca do papel que o cão doméstico possa desempenhar no ciclo de transmissão da LT, têm sido discutidas (Dantas-Torres, 2007; Reithinger & Davies, 1999) e, a nosso ver, esse debate deve ser incentivado. Por recomendação do Ministério da Saúde (Brasil, 2010), o sacrifício de cães com LTC não constitui uma das medidas de controle. A eutanásia é indicada somente quando os animais doentes evoluírem para o agravamento das lesões cutâneas ou a partir do surgimento de lesões mucosas e infecções secundárias que possam conduzir o animal ao sofrimento.

Diferentemente do que ocorre no ciclo de transmissão da LT, durante o qual se desconhece o potencial do cão doméstico como reservatório, na LV, tal papel já está bem definido e sedimentado, sendo considerado um importante reservatório doméstico de espécies viscerotrópicas em países do Velho e Novo Mundo. A notificação constante de cães infectados nas áreas endêmicas de LV, associado ao aparecimento dos casos humanos, tem reforçado que esse animal possa ser responsável pela manutenção e amplificação de ciclos instalados no peridomicílio (Marzochi & Marzochi, 1994; Marzochi et al., 2009; Paranhos-Silva et al., 1996; Palatnik-de-Sousa et al., 2001).

No Brasil, a LV é endêmica, especialmente na Região Nordeste. A transmissão autóctone, associada à Lutzomyia longipalpis, é registrada em praticamente todos os estados brasileiros, inclusive na Região Sul do país (Souza, Santos & Andrade Filho, 2009). Nos últimos anos, tem-se registrado um marcado aumento na incidência da LV, principalmente nos centros urbanos (Brasil, 2006). A doença, antes restrita às áreas rurais, avançou para regiões indenes instalandose nos grandes centros urbanos, passando a ser considerada como um grave problema da saúde pública. O processo de urbanização das cidades e ocupação do solo urbano, muitas vezes sem planejamento, certamente contribuiu para a mudança no perfil epidemiológico da LV. Em particular, no município do Rio de Janeiro, o processo de ocupação do espaço também foi associado ao processo de instalação e propagação da LT (Kawa & Sabroza, 2002).

O quadro clínico da LVC é bastante variável, apresentando-se desde aparente estado sadio a quadros severos de caquexia associada a outras complicações (Marzochi et al., 1985b; Alvar et al., 2004). A evolução da doença também é bastante variável, podendo apresentar uma forma aguda e grave, levando o animal a óbito em poucas semanas, evoluir de uma forma lenta que pode durar anos, acompanhada ou não de sintomas, ou evoluir para uma forma grave e até mesmo regredir espontaneamente (Marzochi et al., 1985b). Os sinais clínicos mais comuns relatados na literatura são as alterações cutâneas (alopecia, dermatites, descamações, úlceras cutâneas, onicogrifose); sinais oculares (conjuntivite, ceratoconjuntivite, uveíte); alterações cervicais (linfoadenopatia – local ou generalizada); anemia, febre e hepatoesplenomegalia (Marzochi et al., 1985b; Alvar et al., 2004; Silva et al., 2001). Em fases avançadas da doença, pode ocorrer paresia dos membros posteriores, caquexia, inanição e morte. Cães infectados também podem permanecer sem sinais clínicos por um longo período de tempo (Marzochi et al., 1985b; Almeida et al., 2005), sendo a forma assintomática relatada em proporções que podem representar cerca de 40% a 60% da população soropositiva (Marzochi & Marzochi, 1994; Dantas-Torres, Brito & Brandão-Filho, 2006).

Na LVC, a distribuição do parasito pode ser extensiva, alcançando órgãos como baço, fígado, linfonodos, pele, medula óssea etc. (Alvar et al., 2004), oposto do que ocorre no homem, no qual o parasito é normalmente limitado à medula óssea, baço e fígado. O acometimento do sistema nervoso central também é descrito na infecção por L. infantum (Vinuelas et al., 2001). A presença do parasito nos mais diferentes tecidos e órgãos provoca reações características da LVC, entre as quais a ativação policlonal de células B, produzindo elevados níveis séricos de imunoglobulinas, que, se por um lado não tem significado de proteção, por outro, facilita o diagnóstico laboratorial através de testes sorológicos. A pesquisa parasitológica por meio de métodos clássicos ou moleculares pode ser feita em diversos espécimes clínicos, como sangue, aspirados ou através de biópsias de lesões cutâneas, vísceras, gânglio ou pele (Madeira et al., 2006b; Marzochi et al., 1985b; Ashford et al., 1995; Lachaud et al., 2002; Reithinger & Dujardin, 2007).

Atualmente é aceito que o background genético dos cães, determinado por diversos fatores, pode influenciar no perfil que determina a resistência ou suscetibilidade da LVC. A resistência é caracterizada por baixa produção de anticorpos e a imunidade celular está presente. Já em animais considerados suscetíveis, ocorre uma multiplicação acelerada do parasito com uma superprodução de anticorpos específicos e não específicos para Leishmania, o que acarreta danos para diversos órgãos (Saridomichelakis, 2009).

A prevalência da LVC é dada normalmente por meio de dados sorológicos obtidos após os inquéritos (Brasil, 2006). Métodos parasitológicos não são aplicados, em razão do grande volume de trabalho gerado, embora o valor de cada método empregado possa variar de acordo com o objeto da investigação.

Apesar do amplo espectro clínico da LVC, que pode variar de acordo com a fase da doença e o status imunológico do cão, são as alterações dermatológicas os sinais mais relevantes citados por diversos autores (Alvar et al., 2004; Silva et al., 2001; Marzochi et al., 1985a; Lima et al., 2004). A ulceração cutânea, que constitui uma dessas alterações, pode estar relacionada a uma ação direta do parasito (Ridley & Ridley, 1983), ou mesmo ser resultado do depósito de imunocomplexos naquele local. Em um estudo feito com 150 cães infectados por L. infantum, contatou-se que 40% dos animais apresentavam úlceras cutâneas (Ciaramella et al., 1997). Em outro estudo, conduzido no município do Rio de Janeiro, lesões cutâneas foram encontradas em 47,0% dos 68 animais avaliados (Madeira et al., 2006b). Nesse estudo, comprovou-se a presença de L. chagasi, no sítio da lesão, em oito animais; L. braziliensis em 16, e em oito casos não se observou a presença de Leishmania.

Esses resultados sugerem que a presença de lesões cutâneas, embora descrita em vários estudos como um dos sinais importantes de LVC, nem sempre podem estar associadas à infecção por L. chagasi, principalmente em áreas onde ocorre a sobreposição com a forma tegumentar. Tanto dados clínicos quanto sorológicos devem ser interpretados com cautela nessa situação. Nesse estudo, comprovou-se a presença L. braziliensis em 50% das lesões investigadas em cães sororreatores, das quais 25% foram negativas. Lesões cutâneas também devem ser investigadas para o diagnóstico diferencial por outras doenças, como neoplasias, infecções fúngicas e bacterianas e até mesmo lesões provocadas por traumas.

O parasitismo de pele íntegra, descrito de forma pioneira na década de 1950 por Deane e Deane (1954), é uma das características que fazem do cão um elemento de importância no ciclo de transmissão da LV. Os fatores que determinam a disseminação de L. chagasi para os diferentes sítios anatômicos do cão doméstico são desconhecidos (Colmenares, 2002). Entretanto, o parasitismo de pele tem sido apontado como um evento tardio no curso da infecção canina (Tafuri, Oliveira & Melo, 2001), estando fortemente associado às manifestações clínicas comuns da LVC (Solano-Gallego et al., 2004; Giunchetti et al., 2006; Reis et al., 2006). O encontro de L. chagasi, nesse órgão, poderia estar relacionado às áreas de maior irrigação sanguínea, como observado por Travi e colaboradores (2001), que destacaram o maior potencial infectivo da pele da orelha para flebótomos quando comparado à pele do abdômen.

Já outros estudos não conseguiram demonstrar diferenças relacionadas à densidade parasitária quando diferentes locais desse órgão foram investigados (Saridomichelakis et al., 2007). Pesquisando simultaneamente a pele da orelha e da região escapular em um grupo de 394 cães sororreatores, eutanasiados pelo programa de controle da LV, Madeira e colaboradores (2009a), além de comprovar o parasitismo em 78,7% dos animais, também não observou diferenças estatísticas para a chance de isolamento de L. chagasi em ambos os locais de pele investigados.

Os resultados obtidos nesse estudo sugerem que L. chagasi possa estar distribuída de forma uniforme na pele de cães infectados, e apontam este sítio como um bom alvo na confirmação parasitológica da LVC, independentemente da condição clínica do animal. Por essa razão, a biopsia de pele íntegra de cães suspeitos de LVC, como ferramenta na confirmação parasitológica de cães sororreatores, tem sido utilizada por diversos pesquisadores com grande sucesso (Figueiredo et al., 2010; Madeira et al., 2009a; Paula et al., 2009). Apesar da sorologia ser determinante nos casos de LVC, estudos também têm demonstrado o isolamento parasitário em pele íntegra de animais soronegativos (Figueiredo et al., 2010; Barrouin-Melo et al., 2004), indicando que diferentes parâmetros devem ser avaliados no momento do diagnóstico desses animais.

Pelo fato de a LV assumir formas graves e letais, as ações sanitárias direcionadas para essa forma da doença são mais rigorosas que aquelas direcionadas à forma tegumentar. As ações de controle estão centradas no diagnóstico precoce e no tratamento dos casos humanos, vigilância entomológica, saneamento ambiental e controle químico, vigilância e monitoramento canino com eutanásia de cães sororreatores (Brasil, 2006).

Nas áreas endêmicas de LV, o diagnóstico da LVC é dado principalmente por ferramentas sorológicas que, embora apresentem vantagens sobre os métodos parasitológicos, podem ter o seu resultado limitado, especialmente pela possível reatividade cruzada com outras doenças, sendo importante a consideração de outros aspectos para o diagnóstico final.

No Brasil, tais programas iniciaram-se por volta da década de 1950 durante um surto ocorrido no estado do Ceará, estendendo-se mais tarde para outras regiões do país. A estratégia do sacrifício canino foi por muito tempo priorizada, orientando as áreas para o controle vetorial. No entanto, a partir de observações de que a eliminação de cães sororreatores estivesse exercendo pouca ou até mesmo nenhuma influência no surgimento de novos casos, humanos ou caninos (Evans et al., 1992; Dietze et al., 1997; Ashford et al., 1998, Paranhos-Silva et al., 1998), abriram-se questionamentos quanto à aplicação dessa medida realizada de forma vertical, desconsiderando outras variáveis (Palatnik-de-Sousa et al., 2001).

A partir dessas observações, o Ministério da Saúde lançou estratégias com maior abrangência e integração, considerando as particularidades de cada região, aplicando esforços não só no controle vetorial, mas também no conhecimento da fauna e dos parasitos que possam estar circulando nessas regiões, para que ações de controle individualizadas possam ser desencadeadas (Brasil, 2006).

Uma importante questão é a sobreposição de áreas endêmicas, seja por diferentes espécies de Leishmania ou por diferentes gêneros de tripanossomatídeos. Áreas com tal característica favorecem o aparecimento de infecções mistas, dificultando um correto diagnóstico. No Brasil, a coinfecção natural de cães domésticos, com diferentes espécies de tripanossomatídeos tem sido registrada. No município do Rio de Janeiro, três casos de coinfecção por L. braziliensis e L. chagasi foram descritos (Madeira et al., 2006a, 2006b). Nesse mesmo município foi também descrito um caso de coinfecção canina, desta vez por L. braziliensis e um Trypanosoma sp., cuja identidade até então era desconhecida (Madeira et al., 2003b). No estado de Mato Grosso, área endêmica para L. chagasi e T. evansi, um caso de coinfecção por ambas as espécies foi também descrito (Savani et al., 2005). Tais relatos demonstram que cães domésticos são suscetíveis a diferentes membros da família Trypanosomatidae, inclusive em coinfecções, e ressaltam a importância da adoção de ferramentas diagnósticas que possam discriminar com segurança os agentes etiológicos envolvidos, notadamente em área endêmicas de sobreposição. De outro lado, em áreas de sobreposição, onde circulam diferentes tripanossomatídeos, dados sorológicos obtidos após os inquéritos podem não refletir dados reais da prevalência de LVC (Madeira et al., 2006b).

Recentemente, a descrição de um novo parasito, denominado Trypanosoma caninum (Madeira et al., 2009b), pode abrir discussões relacionadas ao controle da LVC. Esse parasito foi isolado no município do Rio de Janeiro e, inicialmente, tal achado parecia ser ocasional, sem importância epidemiológica. No entanto, a partir do encontro de outros isolados similares à espécie original, tanto no município do Rio de Janeiro (Pinto et al., 2010) como em diferentes regiões do Brasil (dados em fase de publicação), levantam a suspeita de um ciclo natural desse protozoário entre cães domésticos. Pouco se sabe sobre a biologia e epidemiologia desse novo parasito, contudo, um dado interessante é o isolamento exclusivo em fragmentos de pele íntegra, característica não muito comum aos parasitos do gênero Trypanosoma. Inúmeros aspectos precisam ainda ser esclarecidos, sobretudo os relacionados ao ciclo natural e ao impacto que esse parasito possa causar em áreas onde L. chagasi e L. braziliensis ocorrem, uma vez que compartilham o mesmo hospedeiro.

A circulação de T. caninum em áreas de ocorrência das leishmanioses abre um alerta, principalmente no que diz respeito aos aspectos relacionados ao diagnóstico e à eutanásia de cães, com base somente em evidências sorológicas, visto que a reatividade sorológica cruzada entre membros da família Trypanosomatidae é um fato que constitui um dos maiores problemas em áreas endêmicas de sobreposição com diferentes agentes etiológicos (Madeira et al., 2009b; Saldana & Sousa, 1996; Caballero et al., 2007). Segundo Marzochi e colaboradores (2009), apesar de nenhum caso de LV humana ter sido relatado nos últimos anos no município do Rio de Janeiro, a persistência da soroprevalência canina torna-se fato preocupante.

Estratégias alternativas no controle da LVC têm sido propostas, desde diferentes protocolos terapêuticos (Slappendel & Teske, 1997), uso de coleiras impregnadas com inseticida (Killick-Kendrick et al., 1997), até o desenvolvimento de vacinas (Silva et al., 2000). Entretanto, tais alternativas devem ser tratadas com cautela, pois devem considerar diferentes aspectos, desde custos, praticidade de aplicação em larga escala e eficácia.

Atualmente, no Brasil, duas vacinas comerciais (Leishmune e Leish-Tec) são disponibilizadas. Ambas foram aprovadas e estão registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, órgão responsável pela aprovação e liberação de produtos terapêuticos e profiláticos de uso animal. Contudo, por meio de nota técnica publicada no Diário Oficial da União em 10 de julho de 2007, o Ministério da Saúde não recomenda o uso desses produtos como uma das medidas de controle da LV, uma vez que ainda estão sendo realizados estudos para avaliar sua eficácia. Adicionalmente, o tratamento desses animais também não constitui uma medida de controle aceita pelo Ministério da Saúde brasileiro, tendo em vista que tal prática poderá levar ao risco da seleção de subpopulações de parasitos resistentes às drogas utilizadas para o tratamento humano.

Os agentes causadores das leishmanioses são transmitidos por insetos flebotomíneos em que, durante o repasto sanguíneo, formas promastigotas são inoculadas na pele dos hospedeiros vertebrados. Em áreas endêmicas com casos caninos comprovados, e na ausência desses insetos, tem sido sugerido que talvez outras formas de transmissão possam estar ocorrendo entre os cães, incluindo a transmissão vertical (Pangrazio et al., 2009), transfusões sanguíneas (Freitas et al., 2006) e transmissão via venérea (Silva et al., 2009). Apesar de tais mecanismos não possuírem significância epidemiológica, devem ser considerados em áreas nas quais a densidade de flebotomíneos é baixa ou inexistente. Adicionalmente, outros artrópodes como pulgas e carrapatos também têm sido sugeridos como vetores em potencial de L. chagasi (Coutinho et al., 2005; Coutinho & Linardi, 2007), embora ainda faltem evidências que comprovem este modo de transmissão (Dantas-Torres et al., 2010).

No Brasil, L. braziliensis e L. chagasi são as espécies comumente encontradas na infecção natural canina e, apesar de L. braziliensis exibir grande polimorfismo genético (Cupolillo, Grimaldi & Momen, 1997; Ishikawa et al., 2002), o mesmo não pode ser atribuído a L. chagasi, que em vários estudos tem apresentado baixo nível de variações genéticas (Momen & Grimaldi, 1989), o que pode ser reflexo das características epidemiológicas desta espécie (Lainson & Rangel, 2005).

Considerando-se as diferentes características das leishmanioses caninas e os quadros clínicos apresentados por ambas as doenças, parece razoável acreditar que cães domésticos exerçam papéis diferenciados nos ciclos de transmissão da LT e da LV, fazendo supor que na LTC deva existir maior tendência de elevadas densidades vetoriais para a ocorrência da transmissão de L. braziliensis para o homem e para outros animais domésticos. A propagação de L. braziliensis e L. chagasi para novas áreas onde existam condições propícias para a instalação de novos focos é preocupante, e o controle deve considerar a complexidade epidemiológica de ambas as espécies. Todavia, animais errantes, apesar de presentes em várias regiões endêmicas, não são contemplados nas ações específicas de controle das leishmanioses, constituindo também mais um elemento de preocupação. Esses animais podem albergar e disseminar outros parasitos, carreados ou não por vetores, que podem ameaçar a saúde humana. Seu monitoramento deve fazer parte das estratégias de controle.

O papel de outros animais domésticos como possíveis hospedeiros dos parasitos do gênero Leishmania também tem sido especulado, reservando ao gato (Felis catus) um papel de destaque, em razão sobretudo dos casos de infecção natural relatados em diferentes partes do mundo, tanto por espécies causadoras da forma tegumentar como da visceral. O primeiro caso de leishmaniose felina foi descrito em 1912, na Argélia (Sergent, Lombard & Quilichini, 1912), e embora tenha sido considerado um evento raro (Bonfante-Garrido et al., 1991), nos últimos anos a frequência desse achado tem sido maior do que o esperado (Simões-Mattos et al., 2005).

Em 1931, Machattie, Mills e Chadwick (1931) descreveram dois casos de leishmaniose tegumentar felina (LTF) naturalmente adquirida, no Iraque. Em ambos os casos, o parasito envolvido foi Leishmania tropica e as alterações clínicas encontradas foram lesões extensas no focinho, pequenas ulcerações em membros e pápulas interdigitais. A LTF provocada por L. tropica também foi relatada nos Estados Unidos por Craig e colaboradores (1986) e por Barnes, Stanley e Craig (1993), cujos autores relataram a presença de lesões localizadas nas orelhas, tronco, focinho e na mucosa nasal. Na Venezuela, Bonfante-Garrido e colaboradores (1991) descreveram a LTF causada por L. venezuelensis em três gatos que apresentavam lesões nodulares e nódulos na face, no focinho e nas orelhas.

No Brasil, Schubach e colaboradores (2004) diagnosticaram, pela primeira vez, dois casos autóctones de LTF causada por L. braziliensis. Nesse relato, um dos animais apresentava úlcera cutânea e endurecimento no plano nasal, além de duas úlceras menores na face. O segundo gato possuía uma pápula na ponta do nariz e uma lesão vegetante na mucosa nasal. Quatro anos mais tarde um terceiro gato foi encontrado parasitado também por L. braziliensis, entretanto, além das lesões cutâneas localizadas na face, o animal apresentava-se apático, desidratado, desnutrido, caquético, com plano nasal edemaciado, mucosas nasais congestas e narinas totalmente obstruídas (Figueiredo et al., 2008). Ainda em relação à LTF, De Souza e colaboradores (2005) diagnosticaram um felino doméstico infectado por Leishmania amazonensis. Nesse caso, uma lesão nodular única foi encontrada no focinho e muitos nódulos de diferentes tamanhos nas orelhas e regiões digitais de todas as patas.

As manifestações clínicas da LTF parecem similares àquelas que ocorrem nos caninos, cujas lesões cutâneas localizam-se preferencialmente em áreas de pouco pelo, como orelhas e áreas da face (Simões-Mattos et al., 2005). Contudo, pela escassez de dados na literatura, pouco se sabe sobre o curso natural da infecção nesses animais. Em estudos experimentais, demonstrou-se que gatos são suscetíveis a L. braziliensis, apresentando clínica similar aos achados descritos antes, sendo também observado casos de cura clínica (Simões-Mattos et al., 2005).

Os relatos da infecção por espécies causadoras da leishmaniose visceral também são descritas em várias regiões do mundo. Na leishmaniose visceral felina (LVF) as alterações clínicas seguem, como na LTF, um padrão semelhante ao da doença canina, no qual, além das implicações sistêmicas, são encontradas uma gama de alterações dermatológicas (Dantas-Torres et al., 2006).

Ozon e colaboradores, em 1998 (Ozon et al., 1998), na França, descreveram um caso de LVF causada por L. infantum. Nesse achado os autores relataram que o animal apresentava alopecia, dermatite seborreica e úlcera crostosa por todo o corpo. Mediante punção de medula óssea pôde-se confirmar a presença de numerosas formas amastigotas parasitando macrófagos. Na Itália, Poli e colaboradores (2002), durante exame físico de um gato com histórico de letargia, observaram lesões nodulares ulceradas nas pálpebras, perda de peso, disorexia severa, estomatite ulcerativa, linfadenopatia generalizada e esplenomegalia. A presença de L. infantum, nesse animal, foi confirmada pela PCR. Nesse mesmo estudo, demonstrou-se, experimentalmente, que esses animais, infectados por L. infantum podem servir de fonte de infecção para P. perniciosus (Poli et al., 2002).

No Brasil, Savani e colaboradores (2004) identificaram, também através da PCR, a infecção de um gato por Leishmania infantum chagasi. Presença de lesão nodular localizada no focinho, perda excessiva de peso e musculatura, desidratação severa e uma linfadenopatia generalizada foram constatadas nesse caso.

A confirmação dos casos de leishmaniose felina segue o mesmo padrão realizado nos caninos, entretanto não existem kits validados para o diagnóstico sorológico. Em muitos dos relatos encontrados na literatura os resultados são obtidos com base em exames parasitológicos diretos realizados em aspirado de linfonodo, fígado e de lesões cutâneas (Savani et al., 2004; Costa-Durão et al., 1994), por meio de exames histopatológicos (Ozon et al., 1998; Grevot et al., 2005; Hervas et al., 2001), por isolamento em cultura (Schubach et al., 2004; Figueiredo et al., 2008; Kirkpatrick, Farrel & Goldschmidt, 1984) e por meio de técnicas moleculares em que se empregam fragmentos de pele e órgãos do sistema fagocítico-mononuclear (Poli et al., 2002; Savani et al., 2004; Passos et al., 1996).

A sorologia para o diagnóstico, tanto da LTF como da LVF, são realizados tendo por base técnicas in house desenvolvidas pelos próprios laboratórios, utilizando cepas de parasitos homólogos isoladas nas próprias regiões, o que restringe sua utilização em inquéritos censitários e dificulta a vigilância da leishmaniose felina nas áreas endêmicas (Poli et al., 2002; Figueiredo et al., 2010).

Embora sem importância ainda comprovada no ciclo das leishmanioses, a descrição dos casos felinos dessa zoonose demonstra que esses animais também são suscetíveis a diferentes espécies de Leishmania, sendo importante ressaltar que, como ocorre com os cães, a doença felina pode ser confundida com outras doenças que apresentem clínica semelhante. Os donos e os profissionais envolvidos no cuidado desses animais devem estar atentos para a ocorrência das leishmanioses, devendo procurar a confirmação de casos suspeitos.

Com relação aos equinos, asininos e suínos, apesar dos relatos da infecção natural por Leishmania serem extremamente raros, existem registros em diferentes regiões (Yoshida et al., 1990; Aguilar & Rangel, 1986; Barbosa-Santos et al., 1994; Rolão et al., 2005; Vexenat et al., 1986).

No sul da Alemanha, a infecção por L. infantum de um equino foi diagnosticada com base em exame histológico, imuno-histoquímico e PCR. Os exames sorológicos empregados nesse estudo (IFI e Elisa) não identificaram positividade no animal (Koehler et al., 2002). Em uma região endêmica para LTA no Brasil, testes de aglutinação direta identificaram que 76% dos equinos avaliados apresentaram positividade, sendo que no mesmo grupo estudado a técnica de PCR confirmou a presença de Leishmania (Viannia) em 7% dos animais. Somente um animal apresentou lesão característica (Vedovello Filho et al., 2008).

Em 1987, Brazil e colaboradores (1987) identificaram a infecção em um suíno, provavelmente pela forma tegumentar da doença. Dezenove anos mais tarde, realizou-se um estudo conduzido em uma região de grande pressão endêmica na Bahia. Nesse estudo, apesar de os autores demonstrarem uma prevalência sorológica entre 27,02% e 53,38% em uma população de suínos, não conseguiram comprovar o parasitismo nesses animais através da cultura parasitológica e da técnica de PCR em amostras de pele e baço (Moraes-Silva et al., 2006).

A raridade dos achados descritos demonstra que a participação desses animais no ciclo de transmissão dessas doenças pode ser irrelevante, o que não justifica o acompanhamento rotineiro para o controle das leishmanioses.

 

Perspectivas e conclusões

Desde a descrição do gênero Leishmania em 1903, por Ross, obtiveram-se inúmeros avanços em diferentes aspectos. No entanto, considerando o cenário atual das leishmanioses, constata-se que a doença continua se expandindo para novos focos, cujo controle ainda se constitui um grande desafio para os órgãos responsáveis. Sem dúvida, as modificações ambientais interferiram nos diferentes elos que compõem a cadeia de transmissão. Nesse contexto, os animais domésticos, sobretudo os cães, têm sido um importante elemento de preocupação. Na LV, apesar de bem sedimentada a participação do cão como reservatório, busca-se justificar com segurança a prática da eutanásia como uma das medidas de controle. Já na LT, tenta-se estabelecer qual é a real importância desse animal no ciclo de transmissão. Adicionalmente, as ferramentas aplicadas atualmente nos inquéritos caninos têm valor limitado, uma vez que em áreas de sobreposição de LT e LV não permitem a discriminação dos casos de LVC e LTC, devendo considerar que para a LTC não há indicação de eutanásia. Lacunas no conhecimento, relacionadas ao papel de outros animais domésticos, ainda persistem. Especialmente em relação aos gatos domésticos, apesar de os relatos serem esporádicos, a vigilância e a notificação dos casos torna-se essencial, já que ocorrem por diferentes espécies de Leishmania e em várias regiões do mundo.

Ainda nesse contexto, não podemos deixar de mencionar a descrição de T. caninum, um novo parasito que possivelmente está circulando entre cães domésticos, fato que poderá se tornar fator de confusão no diagnóstico desses animais quando avaliados pela sorologia, visto que ferramentas sorológicas não contam com poder discriminatório entre os diferentes membros da família Trypanosomatidae. Pouco se sabe ainda sobre essa nova espécie e estudos são necessários, sobretudo no tocante aos aspectos biológicos e epidemiológicos que envolvem esse parasito, sendo um dos grandes desafios o conhecimento da prevalência na infecção canina e no impacto que poderá causar em áreas onde as leishmanioses caninas ocorrem.

Ao fim desta exposição, evidencia-se cada vez mais a relevância da utilização de métodos diagnósticos que sejam capazes de confirmar e discriminar com segurança a infecção nos animais suspeitos, sobretudo no que diz respeito à aplicação de métodos que objetivem a correta identificação dos agentes etiológicos que possam estar circulando particularmente nos animais domésticos. O conhecimento das áreas acometidas pelas leishmanioses, assim como o conhecimento da presença de outros tripanossomatídeos nessas áreas, são fundamentais para que específicas ações de controle sejam desencadeadas.

 

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