Leishmanioses do continente americano

Fátima Conceição-Silva · Capítulo 4 de 28

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Leishmanioses do continente americano

2. Considerações sobre a Taxonomia do Gênero Leishmania

2. Considerações sobre a

taxonomia do gênero

Leishmania

Elisa Cupolillo, Mariana Côrtes Boité, Renato Porrozzi

A taxonomia reúne organismos em grupos definidos, promove nomenclatura apropriada para os grupos formados e sistematiza a identificação de organismos previamente desconhecidos. O termo tem sua origem na palavra grega táxis – que significa ordem, arranjo – e nomos (lei, ciência). Assim, a taxonomia de um organismo é a prática e a ciência da classificação, usando unidades taxonômicas, chamadas taxa, para analisar e formular uma estrutura hierárquica. Tipicamente, tal formulação obedece a relações de tipo e subtipo, que por definição devem apresentar as mesmas propriedades e comportamentos. Como se trata de uma abordagem criada pelo homem, e não uma regra natural, deve ser constantemente revista e submetida à validação.

Leishmania é um gênero de protozoários parasitas, notável pelo grande número de espécies descritas. Estudos empregando métodos moleculares para análises filogenéticas têm sugerido que realmente existe uma variabilidade elevada para esse gênero. Entretanto, a validade taxonômica de várias espécies de Leishmania tem sido constantemente discutida. Um estudo recente de análise filogenética do gene que codifica a proteína de choque térmico de 70 kDa (hsp70) analisou 17 espécies definidas por eletroforese de enzimas (análise de zimodemas), tendo os resultados obtidos suportado a existência de apenas oito dessas espécies (Fraga et al., 2010). Portanto, uma revisão da nomenclatura desse gênero se mostra de fundamental importância. Neste capítulo apresentaremos a situação atual da nomenclatura utilizada para o gênero Leishmania, as controvérsias a respeito do tema e aspectos que indicam a importância de estudos taxonômicos focando esse grupo de parasitos.

O gênero Leishmania foi descrito primeiramente por Ross em 1903, após sir William Boog Leishman atender, no hospital em que trabalhava, a um paciente proveniente da Índia. O mesmo apresentava febre, esplenomegalia e anemia. Sir Leishman já havia desenvolvido anteriormente um método de coloração (coloração de Leishman), e então, entre outros exames, ele optou por realizar uma punção do baço e submeter o material à coloração. Após observação em lâmina, identificou um grande número de corpúsculos ovais nas células do baço e do sangue. Meses depois ele observou as mesmas formas em fígado e baço de um rato com tripanossomíase. Após a publicação de tais achados, outro médico, Charles Donovan, confirmou essas observações, e os corpúsculos ficaram conhecidos como corpúsculos Leishman-Donovan. Entretanto, foi Ronald Ross (1903) quem propôs que tais corpúsculos representavam estágio intracelular de um novo parasito, o qual ele nomeou como Leishmania donovani. A partir daí várias espécies de Leishmania foram descritas e diversos sistemas de classificação foram adotados, usando categorias taxonômicas como a classificação em subespécie (Pessôa, 1961), ou classificações em complexos (Shaw & Lainson, 1972) e seções (Cupolillo et al., 2000). Uma excelente revisão histórica sobre a descrição das espécies neotropicais de Leishmania foi recentemente publicada (Lainson, 2010). No entanto, tal revisão não considera alguns trabalhos mais recentes que usam metodologias bioquímicas e moleculares em estudos de taxonomia de Leishmania e, portanto, a manutenção de algumas classificações antigas pode estar equivocada.

A classificação de Leishmania foi inicialmente baseada em critérios clínicos, bioecoepidemiológicos, tais como relação com vetores, distribuição geográfica, tropismo tissular, propriedades antigênicas e as manifestações clínicas (Bray, 1974; Lumsden, 1974; Pratt & David, 1981; Shaw et al., 1987). Contudo, análises imunológicas, bioquímicas e moleculares mostraram que tais critérios eram muitas vezes insuficientes. Assim, outros aspectos, tais como análises por reatividade com anticorpos monoclonais (análise de serodemas), padrões observados por eletroforese de isoenzimas (análise de zimodemas) e padrões de polimorfismo observados, tendo por base a digestão do DNA do cinetoplasto (kDNA) por enzimas de restrição, foram bastante utilizados para contribuir com a classificação de Leishmania (Chance, Peters & Shchory, 1974; Kreutzer & Christensen, 1980; Arnot & Barker, 1981; Miles et al., 1981; Pratt & David, 1981; Handman & Curtis, 1982; Wirth & Pratt, 1982; Anthony et al., 1985; Saravia et al., 1985; Barker et al., 1986).

Representantes do gênero Leishmania causam uma variedade de síndromes clínicas que incluem a forma visceral da doença, assim como lesões cutâneas com cura autorresolutiva ou que podem evoluir para formas metastáticas, envolvendo a infecção da mucosa orofaríngea. A gravidade do quadro clínico em pessoas imunocompetentes depende da resposta do hospedeiro e também da espécie de Leishmania responsável pela infecção. Distinguir entre as espécies é, portanto, crucial para o correto diagnóstico e prognóstico da doença, bem como para a tomada de decisões a respeito do tratamento e medidas de controle. Desde a primeira descrição do gênero Leishmania, o número de espécies tem variado, com muitas sendo descritas e algumas sendo consideradas como sinonímias.

Todos os membros do gênero Leishmania são parasitos heteroxênicos, sendo os flebotomíneos os hospedeiros invertebrados e tendo como hospedeiros vertebrados diversos répteis e mamíferos. Esse grupo de parasitos encontrase então dividido em três subgêneros. O subgênero L. (Sauroleishmania) inclui apenas as espécies parasitas de répteis, que embora para alguns autores seja considerado como outro gênero (Lainson et al., 1987), estudos moleculares corroboram sua classificação como subgênero (Saf’janova, 1982). As espécies de Leishmania de mamíferos são classificadas em dois subgêneros, L. (Leishmania) e L. (Viannia). De maneira geral, as espécies classificadas no subgênero L. (Viannia) apresentam desenvolvimento pobre em meio de cultura, desenvolvimento lento em hamsters experimentalmente infectados e desenvolvem-se no intestino posterior do flebotomíneo, ficando os parasitos aderidos à parede, na região do piloro; este grupo inclui apenas espécies que são encontradas nas Américas e por isso correspondem à maioria das espécies referidas como do Novo Mundo. Já as espécies do subgênero L. (Leishmania) geralmente crescem facilmente em cultura, provocam grandes lesões nodulares em hamsters, com metástase para as extremidades, e se desenvolvem no intestino médio e anterior de flebotomíneos; estão incluídas neste grupo espécies que circulam nas Américas, África, Ásia e Europa, o que justifica as referências às espécies desse subgênero como do Novo e do Velho mundos, dependendo da região geográfica onde são observadas.

Um conceito ainda bastante utilizado, e que por isso merece destaque, é o da classificação das espécies de Leishmania em complexos. Com base em critérios extrínsecos, tais como comportamento do parasito em cultura e em hamster, Shaw e Lainson (1972) reuniram as espécies de Leishmania em três complexos: complexo Leishmania braziliensis, Leishmania mexicana e Leishmania donovani. Tal classificação pôde ser validada pelo ‘método-ouro’ atual para tipagem de Leishmania: o ensaio isoenzimático, ou eletroforese de isoenzimas.

A aplicação de taxonomia numérica a partir dos dados obtidos pela eletroforese de isoenzimas e análise por marcadores moleculares, associadas aos conceitos que foram utilizados para descrição de cada espécie, resulta no sistema atual de classificação

das leishmânias (Figura 1). Por análise de isoenzimas, por exemplo, foram definidos complexos de espécies dentro dos subgêneros (Cupolillo, Grimaldi & Momen, 1994). Além disso, análises de isoenzimas, corroboradas por análises de filogenia molecular, foram utilizadas para organizar esses parasitos em duas seções: Euleishmania, que inclui todas as espécies classificadas nos subgêneros mencionados anteriormente, e Paraleishmania, na qual estão agrupadas espécies que não podem ser classificadas nestes subgêneros e que são filogeneticamente próximas a outro gênero da família Trypanosomatidea, o gênero Endotrypanum (Cupolillo et al., 2000).

Figura 1 – Esquema da classificação taxonômica atual de

espécies de Leishmania, considerando a descrição original das

espécies e classificações propostas com base em critérios

extrínsecos e a partir dos resultados obtidos por métodos

bioquímicos e moleculares

 

Números sobrescritos identificam as espécies em que há

discussão quanto à validade taxonômica (possíveis sinonímias).

**Espécie questionada quanto à sua validade taxonômica dentro

do gênero.

A descrição de algumas espécies antes do advento de técnicas moleculares, tendo como base apenas critérios extrínsecos, é marcante. Por exemplo, a localização geográfica foi determinante para descrever L. guyanensis e L. peruviana, ambas causando leishmaniose cutânea, mas representando um novo relato da presença do parasito na Guiana e na região dos Andes, no Peru, respectivamente. L. infantum foi isolada de uma criança na Tunísia e, embora associada com leishmaniose visceral, a sua história de isolamento foi determinante para sua descrição. Da mesma forma, foi denominada de L. chagasi o parasito associado à leishmaniose visceral isolado pela primeira vez no Brasil.

Hoje, são conhecidas cerca de trinta espécies de Leishmania, das quais em torno de vinte são patogênicas para seres humanos. É importante destacar que o gênero Leishmania é caracterizado por uma grande diversidade genética inter e intraespecífica. Sabe-se que as espécies descritas no subgênero L. (Viannia) variam enormemente em seu grau de diversidade: enquanto L. braziliensis, assim como L. naiffi, apresenta um alto grau de polimorfismo isoenzimático intraespecífico (ou seja, com diversos zimodemas), L. guyanensis é notavelmente homogênea.

Em contraste com taxonomistas que trabalham com protozoários como, por exemplo, o Trypanosoma cruzi, aqueles que trabalham com Leishmania tendem a não ser conservadores no que se refere à descrição de novas espécies. Usando o mesmo método de identificação (no caso, Random Amplified Polymorphic DNA – RAPD), a distância observada entre cepas de T. cruzi é, algumas vezes, maior do que aquela observada entre espécies de Leishmania (Bañuls et al., 1999a). Qual seria então a razão para a descrição de tantas espécies em Leishmania? As diversas espécies de Leishmania geralmente apresentam diferenças epidemiológicas e clínicas. No entanto, a validade de algumas espécies e dos esquemas de classificação de Leishmania tem sido questionada por vários autores. Alguns exemplos clássicos se referem à validade de L. panamensis, L. peruviana, L. shawi, L. chagasi, L. infantum, L. archibaldi, L. garnhami, L. pifanoi, L. venezuelensis e L. forattinii (Bañuls et al., 1999b; 2000; Mauricio, Stothard & Miles, 2000; Mauricio et al., 2001; Cupolillo et al., 2001). Dentre essas, a sinonímia de L. chagasi e L. infantum está bem evidenciada e tem sido aceita por vários autores (Mauricio, Stothard & Miles, 2000; Lukes et al., 2007), embora L. chagasi ainda seja uma nomenclatura utilizada. O caso das demais espécies é ainda mais complexo. Por exemplo, por meio de análises bioquímicas e moleculares, L. peruviana foi validada como espécie (Bañuls et al., 2000), embora estudo de filogenia molecular indique que esta deva ser considerada como uma subespécie de L. braziliensis (Fraga et al., 2010).

 

As espécies de leishmania, sua

distribuição geográfica e a

diversidade dos ciclos de

transmissão

As leishmanioses, em geral, são antropozoonoses. Os ciclos de transmissão podem ser silvestres e, neste caso, a infecção humana em geral é acidental, como ainda acontece em algumas infecções por L. guyanensis e L. braziliensis em áreas como a região amazônica. Muitas espécies já estão adaptadas a ciclos secundários ou peridomésticos, com animais sinantrópicos ou domésticos participando do ciclo de transmissão, que envolve flebotomíneos antropofílicos; este é o caso, por exemplo, do ciclo de transmissão de L. braziliensis em algumas áreas endêmicas de colonização humana antiga e também de L. infantum. Como mencionado anteriormente, L. donovani é transmitida em um ciclo antroponótico, sem aparente participação de um animal doméstico ou silvestre e envolvendo flebotomíneos totalmente antropofílicos.

Uma das características do ciclo de transmissão de Leishmania spp. é sua associação com vários ecótopos. Apesar de não haver indícios diretos de associação estrita entre espécie e ambiente específico, algumas espécies eram descritas em regiões cobertas pela Floresta Amazônica, como é o caso de L. lainsoni e L. naiffi. Espécies como L. infantum, L. braziliensis e L. guyanensis são observadas em vários ambientes e, logo, podem ser transmitidas por diferentes espécies de flebotomíneos, embora possa existir uma restrição em virtude de um ambiente propício ao vetor. Por exemplo, o principal vetor de L. infantum nas Américas é Lutzomyia longipalpis. Da mesma forma, na região amazônica brasileira existe uma forte associação entre L. guyanensis e Lutzomyia umbratilis, embora na região andina do Peru esse parasito pareça ser transmitido por Lutzomyia peruensis. O caso de L. braziliensis é ainda mais interessante, já que em uma mesma área observa-se a participação de diversas espécies de flebotomíneos no ciclo de transmissão dessa espécie do parasito (Souza Rocha et al., 2010). Tais informações apontam para o fato da adaptação do vetor a um ecótopo determinar a distribuição de algumas espécies de Leishmania. São observadas espécies do parasito com aparente adaptação a uma espécie de vetor, porém outras são capazes de infectar diversas espécies de flebotomíneos. Exemplo ilustrativo pode ser citado para L. naiffi. Até recentemente essa espécie havia sido descrita em áreas cobertas pela Floresta Amazônica (Naiff et al., 1991; Pratlong et al., 2002; Figueira et al., 2008; Van der Snoek et al., 2009), com pelo menos três espécies de flebótomos como vetor. Em estudo recente (Azpurua et al., 2010), parasito bastante semelhante à L. naiffi foi isolado pela primeira vez na região do canal do Panamá, em Lu. trapidoi e Lu. gomezi. Tais observações indicam que o parasito apresenta plasticidade quanto ao ambiente, e que a distribuição geográfica observada está mais relacionada à adaptação aos vetores e hospedeiros presentes no local do que ao bioma. Por isso a ocorrência de espécies de Leishmania deve ser tratada como dinâmica, e não restrita às informações existentes sobre alguns isolados.

A dispersão das espécies de Leishmania em vários ambientes também favorece a adaptação deste parasito a diferentes mamíferos (Rotureau, 2006a; 2006b). É conhecido que o mesmo parasito se comporta diferentemente em regiões distintas, isso não só em termos de relação parasito-hospedeiro, mas também no que diz respeito à sensibilidade a fármacos (Laurent et al., 2007).

Em um mesmo ambiente podemos encontrar espécies de Leishmania distintas, infectando os mesmos hospedeiros vertebrados e invertebrados (Lucas et al., 1988; Saravia et al., 1998; Martinez et al., 2002; Antoniou et al., 2004; Madeira et al., 2006; Rotureau, 2006a; Azpurua et al., 2010). Essas características certamente têm um importante papel na diversidade de Leishmania, assim como em um possível processo de especiação destes organismos (Shaw, 1997).

 

As espécies de leishmania e as

manifestações clínicas

Independentemente da espécie de Leishmania, a infecção por este parasito em humanos pode ser assintomática, assim como pode produzir um amplo espectro de manifestações clínicas, como: leishmaniose cutânea, cutâneo difusa, cutâneo-mucosa e visceral. Tais manifestações podem ser causadas por diversas espécies, no entanto, algumas relações podem ser feitas. Por exemplo, a forma mucosa é comumente observada em infecções causadas por L. (Viannia), mais frequentemente por L. braziliensis; esta espécie também apresenta forte associação com a forma disseminada, caracterizada clinicamente pela presença de múltiplas lesões. No caso da manifestação difusa, forma distinta da disseminada, caracterizada pela presença de múltiplas lesões nodulares ricas em parasitos e que produz uma resposta anérgica, as infecções são causadas pelas espécies L. mexicana e L. amazonensis. No caso da leishmaniose visceral, observa-se uma alta relação entre esta manifestação clínica e infecções por espécies do complexo L. donovani.

Uma característica comum em infecções causadas pelas diversas espécies é a ocorrência de cura espontânea em lesões cutâneas, sugerindo que as diversas espécies devem compartilhar moléculas envolvidas em processos de virulência e patogênese (Chang & McGwire, 2002). Entretanto, a despeito de vários estudos tentando associar espécies e cepas com manifestações clínicas produzidas, pouco se tem concluído.

 

Características genômicas das

espécies de leishmania

Considerando as informações existentes para algumas espécies de Leishmania, sabemos que as espécies do Velho Mundo apresentam 36 cromossomas (Wincker et al., 1996), enquanto as do Novo Mundo têm 34 ou 35, com os cromossomas 8 e 29, e 20 e 36 fundidos no grupo L. mexicana e os cromossomas 20 e 34 em L. braziliensis (Britto et al., 1998).

Sabe-se que a organização dos genes é conservada entre as espécies de Leishmania (Ravel et al., 1999). Contudo, observa-se um alto nível de polimorfismo nas sequências de DNA (Ravel et al., 1999; Beverley, Ismach & Pratt, 1987).

Uma análise comparativa dos genomas de três espécies, L. major, L. infantum e L. braziliensis, indicou relativa conservação no que tange ao conteúdo de genes, sintenia e arquitetura, embora tenham sido identificadas aproximadamente duzentas diferenças em nível de conteúdo de genes ou pseudogenes, incluindo 78 genes que estavam restritos a uma determinada espécie (Peacock et al., 2007). Até o presente, apenas um lócus foi diretamente relacionado com o tropismo de Leishmania spp. No caso de L. donovani, a expressão dos produtos do gene A2 é fundamental para a sobrevivência do parasito nas vísceras. Sabe-se que L. major contém apenas pseudogenes A2. A despeito das diferenças observadas com relação ao fenótipo de manifestações clínicas causadas pelas diversas espécies, poucos genes parecem ser espécie-específicos: cinco genes são específicos de L. major, 26 de L. infantum e aproximadamente 47 de L. braziliensis, o que corrobora o fato de que esta é a espécie mais divergente dentre as três estudadas. Análises com outras espécies deveriam ser realizadas para determinarmos, por exemplo, se os genes específicos de L. braziliensis são observados entre as outras espécies do subgênero L. (Viannia).

A comparação do genoma de L. major, L. braziliensis e L. infantum também indicou que aproximadamente 8% dos genes apresentam taxas evolutivas distintas e estão envolvidos em um espectro de processos essenciais, incluindo transporte, e metabolismo de diversas moléculas, que podem influenciar na sobrevivência do parasito no hospedeiro e também na produção da doença.

Uma das diferenças marcantes está relacionada com o fato de que apenas em L. braziliensis foram observadas evidências da existência de maquinaria de RNA de interferência (RNAi) e elementos transponíveis (Smith, Peacock & Cruz, 2007). Logo, parece que poucos genes espécie-específicos devem ser importantes na patogênese. A observação contrassensual da variedade de sinais clínicos causados perante a conservação de genótipos entre as espécies de Leishmania e a ausência de genes específicos relacionados ao fenótipo apontam para uma regulação gênica baseada predominantemente em número de cópias dos genes e em modificações pós-traducionais (Scheltema, 2010). Abordagens de filogenia molecular e

genética de populações aplicadas à

taxonomia de leishmania

Durante as últimas décadas, estudos de filogenia molecular de Leishmania por meio da análise de sequências de DNA de diversos genes têm sido conduzidos, servindo como parâmetros importantes na taxonomia desses parasitos. Sequências inteiras ou parciais de vários genes têm sido utilizadas, incluindo genes que codificam para DNA polymerase a (polA), a subunidade maior da RNA polimerase II (rpoIILS) (Talmi-Frank, 2010) e 7SL RNA (Azmi, 2010), espaçadores internos transcritos do rDNA (ITS) (Gelanew et al., 2010) e genes mitocondriais como citocromo b (cytb).

Mais recentemente, sequências do gene hsp70 foram analisadas (Fraga et al., 2010; Da Silva et al., 2010) e os resultados obtidos corroboram a divisão em subgêneros, assim como as evidências de que L. (Sauroleishmania) deve ser considerada como um subgênero de Leishmania e não como outro gênero da família Trypanosomatidae. Esses estudos indicam que algumas espécies de Leishmania não são válidas filogeneticamente, considerando as sequências analisadas. De acordo com o conceito filogenético, espécie deve constituir um grupo monofilético, sendo este um grupo basal de organismos, diagnosticavelmente diferente de outros grupos, e intimamente ligado a um modelo parental de ancestralidade e descendência. Isso assumido, tendo por base estudos analisando sequências de hsp70, não é possível validar espécies como, por exemplo, L. infantum, L. archibaldi, L. aethiopica, L. amazonensis, L. panamensis, L. shawi e L. peruviana. É evidente que não se pode fazer uma revisão taxonômica de um grupo com base em apenas um marcador. No caso de considerarmos hsp70 como alvo, por exemplo, é esperado que a filogenia resolva apenas os maiores grupos (como subgêneros e complexos) e não auxilie nas conclusões acerca de espécies, em razão da alta similaridade desse gene entre as diversas espécies (Schonian, Mauricio & Cupolillo, 2010). No entanto, a validade taxonômica de L. archibaldi, L. panamensis, L. shawi e L. peruviana também tem sido discutida com base em resultados obtidos por marcadores que apresentam taxa evolutiva mais rápida e, logo, maior divergência entre as sequências.

Análises de filogenia molecular têm indicado a necessidade de revisão da nomenclatura do complexo L. donovani. Estudos mais recentes mostram que apenas L. donovani e L. infantum devem ser incluídas neste complexo, não sendo L. archibaldi uma espécie válida. Além disso, foi reforçada a ideia de que os parasitos do complexo L. donovani que causam leishmaniose visceral na Europa e nas Américas devem ser classificados como L. infantum (Lukes et al., 2007). De fato, talvez esse seja um bom exemplo para o uso do conceito de subespécie em Leishmania, já que estes parasitos, hoje denominados como espécies distintas, têm diferentes vetores e, possivelmente, reservatórios, bem como circulam em diferentes áreas geográficas. Com base nesses argumentos é que os nomes subespecíficos L. (L.) infantum infantum e L. (L.) infantum chagasi foram propostos (Shaw, 2002).

Porém, se a definição de espécies em Leishmania é problemática, imagine a de subespécie. Se monofilia é um pré-requisito para definir qualquer grupo taxonômico, todos os grupos monofiléticos distinguíveis dentro de uma espécie deveriam ser considerados como subespécie.

Ao aplicarmos análises de filogenia molecular em taxonomia de Leishmania, é fundamental que o conceito filogenético de espécie seja aceito. Mais ainda, a filogenia molecular deve ser associada a estudos de genética de população (Tibayrenc & Ayala, 1999). De fato, a associação dessas abordagens, hoje essenciais para estudos epidemiológicos, tem contribuído muito para elucidar diversas questões relacionadas à taxonomia de Leishmania. A diversidade intraespecífica observada nesse grupo é marcante e, logo, é difícil chegar a conclusões quando apenas um ou poucos representantes de uma espécie são analisados. Vale ressaltar que a distância genética observada entre isolados de uma mesma espécie às vezes é maior do que aquela detectada entre espécies distintas (Cupolillo et al., 2001).

O uso de ferramentas moleculares e a interpretação dos dados por abordagens evolutivas auxiliaram, por exemplo, a entender a diversidade do complexo L. donovani, definindo L. chagasi como isolados provenientes de regiões das Américas, associados principalmente a leishmaniose visceral e que corresponde a uma sinonímia de L. infantum. Abordagem multilocus, seja por sequenciamento de genes de interesse ou por análise de microssatélites, certamente estão entre as abordagens que recentemente mais contribuíram para a compreensão da complexidade do gênero Leishmania. Tais estudos têm discutido a validade de espécies e a presença de populações e subpopulações de Leishmania spp. em algumas áreas endêmicas (Mauricio et al., 2006; Zemanova et al., 2007; Schwenkenbecher et al., 2006; Kuhls et al., 2008; Al Jawabreh et al., 2008; Tsukayama, Lucas & Bacon, 2009).

Ferramentas moleculares associadas à interpretação dos dados por métodos filogenéticos e de análises de populações têm sido também bastante valiosas para a compreensão do mecanismo de reprodução de Leishmania, o que certamente tem fortes implicações com a definição de espécies nesse grupo de parasitos. Classicamente, tais organismos são considerados como apresentando um modo de propagação clonal (Tibayrenc, Kjellberg & Ayala, 1990). No entanto, além de observações de possíveis híbridos entre espécies de Leishmania por eletroforese de enzimas, assim como por outros métodos, foi demonstrado que algumas espécies de Leishmania são potencialmente automíticas, com frequente troca genética. Ao que tudo indica, após recombinação esses possíveis híbridos se propagam por clonalidade (Bastien, Blaineau & Pages, 1992; Rougeron et al., 2009; Schwenkenbecher et al., 2006; Bañuls et al., 1997; Belli, Miles & Kelly, 1994; Dujardin et al., 1995a; 1995b; Delgado et al., 1997). É interessante ressaltar que as linhagens híbridas são possivelmente resultado de troca genética dentro da mesma espécie ou entre espécies bastante relacionadas filogeneticamente.

Definição de espécies e o gênero

leishmania

O conceito de espécie é certamente um ponto muito debatido e longe de ser completamente definido. Embora as classificações taxonômicas sejam esquemas propostos pelos cientistas e por isso não representam fielmente eventos da natureza, a classificação dos organismos em categorias taxonômicas é de fundamental importância.

Eventos de recombinação genética acontecem em Leishmania spp. (Akopyants et al., 2009), mas o processo de clonalidade é essencial para a propagação desses parasitos (Tibayrenc, Kjellberg & Ayala, 1990). Dessa forma, é evidente que não se podem definir espécies nesse grupo de organismos com base no conceito biológico de espécies.

Existem vários outros conceitos de espécie (Futuyama, 1998), mas no caso de Leishmania é difícil identificar qual conceito está sendo ou deve ser seguido. Desse modo, a definição de espécies é muito arbitrária, baseada em uma diversidade de caracteres extrínsecos e intrínsecos, na maioria das vezes considerados em conjunto. Isso certamente acarreta controvérsias e falta de consenso no que diz respeito à definição de espécies, levando a um número exagerado daquelas que são descritas e muitas classificações propostas.

Segundo Dobzhansky (1937), a classificação biológica dos organismos é, simultaneamente, um sistema de escaninhos concebido pelo homem com a proposta pragmática de registrar as observações de uma maneira conveniente e de reconhecer um fato de descontinuidade biológica. Não só no caso de Leishmania, debates acerca de conceitos de espécie em microrganismos têm sido muito frequentes e é consenso que critérios filogenéticos devem ser enfatizados. O fato é que fatores implicados no processo de especiação estão presentes em Leishmania, como propagação por clonalidade e por mecanismos de recombinação genética, restrição geográfica e ecológica e diferenças em propriedades genéticas.

Apesar da descrição de diversos métodos que se propõem a auxiliar a taxonomia de microrganismos, a definição de espécies continua, muitas vezes, arbitrária e artificial (Staley, 1997). Para muitos microrganismos é também pragmática, operacional e universalmente aplicável: uma espécie é uma categoria que circunscreve um grupo de isolados/cepas genomicamente coerente, que compartilham um alto nível de similaridade em características distintas.

Pelo que foi exposto nos tópicos anteriores, fica evidente que não é simples definir o conceito de espécie e um sistema de classificação para ser adotado em organismos que apresentem características semelhantes às que observamos no gênero Leishmania. Por isso, os estudos de sistemática desses organismos são tão essenciais. Destacamos a importância dos estudos de biologia evolutiva, associando as informações obtidas pelos estudos filogenéticos e de genética de populações. Não podemos deixar de transcrever uma colocação de Avise e Wollenberg (1997), adaptada de uma observação feita por Dobzhansky (1937: 7748): “population genetics has so profound a bearing on the problem of the mechanisms of speciation that any speciation theory that disregards established population genetic principles is faulty at its source” .

Dessa forma fica evidente que, mais do que apresentar uma definição de espécie mais apropriada para o gênero Leishmania, é fundamental definir uma metodologia-consenso que permita identificar Leishmania, e que seja comparável interlaboratorialmente, além de fornecer resultados que possam servir nas investigações epidemiológicas, usando como base as análises de genética populacional e de filogenia. Nesse sentido, assim como já proposto para outros microrganismos patógenos (Baldo et al., 2006; Maiden, 2006), uma abordagem sistemática incluindo análises multilocus contribuirá de forma ímpar com estudos taxonômicos de Leishmania.

 

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