Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Demétrio Alves Paz e Jeize de Fátima Batista · Capítulo 9 de 17

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Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

O garimpo do texto: o protonarrador em uma vela para dario, de dalton trevisan

O garimpo do texto: o

 

protonarrador em Uma vela

 

para Dario 1 , de Dalton Trevisan

 

Demétrio Alves Paz 2

 

Considerações iniciais

 

Dalton Trevisan nasceu no ano de 1925, em Curitiba. De acordo com Gomes e Vecchi (1981), na sua obra é retratada a decadência moral, na qual machões, espancadores de mulheres, bêbados, tarados, cafajestes, vagabundos, adúlteras, virgens e prostitutas são as personagens constantes. Em “Vampiro de Curitiba”, sua obra mais famosa, a unidade advém da personagem principal, Nelsinho, que aparece em todos os contos. Dono de um estilo em que prevalece uma linguagem concisa, quase elíptica, Dalton revela uma estrutura familiar abalada, a desagregação familiar e a busca de prazeres carnais. A maioria das personagens busca realizar sonhos, mas não consegue. São comuns em seus contos os nomes João e Maria, e a sua cidade natal, Curitiba, é o cenário da maioria das histórias. Conhecido por seu perfeccionismo, o autor paranaense revisa constantemente seus textos. A maioria das suas obras é revisada antes de ter uma nova edição, sendo comum alguma mudança nos contos.

O presente capítulo tem como objetivo analisar três edições do conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan. Publicado originalmente em 1964, o conto foi revisado pelo autor duas vezes. Numa antologia organizada por Herberto Sales há um fac-símile do conto. O organizador ressalta a importância do manuscrito ao dizer: “O autor, entretanto, reviu-o especialmente para esta antologia, e tão grande foi o número de alterações que fez no texto que resolvemos reproduzi-lo em fac-símile, dado o seu inestimável valor documental” (SALES, 68, p. 112). Observo a postura do protonarrador ao ordenar a narração do texto, selecionando palavras (acrescentando ou cortando-as) do manuscrito. Cabe aqui ressaltar que não tive acesso aos manuscritos de Trevisan, mas comparo três edições impressas do conto.

 

As peripécias do protonarrador no

 

texto

 

Passos (apud AGRA, 1992, p. 41) define o protonarrador como a “voz que comanda a encenação da narrativa e orienta o processo do manuscrito”. Para Agra (1992, p. 41),

 

O protonarrador pode ser visto como a voz que orienta a sua própria construção […] sendo assim, se a narrativa está em construção, o protonarrador, que é a voz responsável pela orientação deste processo, também estará sendo construído e, portanto, não deve ser confundido com o autor.

 

Da mesma forma, “O protonarrador estará pondo a linguagem em funcionamento de um modo particular, pois esta é utilizada de acordo com a cultura manifestada por este ser” (AGRA, 1992, p. 42), assim como ele “seleciona os elementos que devem permanecer, ser retirados ou acrescentados e rearranja-os no discurso” (AGRA, 1992, p. 43). Portanto, o protonarrador age durante o processo de escritura do texto. Somente após a conclusão desse processo é que surge o narrador.

Para Agra (1992), o protonarrador tem duas características em relação ao texto: a hesitação, pois ele retira e recoloca um mesmo termo no texto; a experimentação, ao usar diferentes termos e selecionar o mais adequado. A autora também vê quatro atitudes tomadas durante o processo de elaboração do texto: a primeira é o retorno ao texto, cujo objetivo é corrigir, retirar, acrescentar ou substituir um termo; a segunda, a proposição, isto é, a busca da palavra ou expressão ideal; a terceira, a transparência em que ocorre a observação, no texto, de elementos ideológicos; a quarta é o dinamismo, pois o texto está sempre em processo, em andamento. Da mesma maneira que o protonarrador tem características e atitudes, ele tem duas funções: orientar o processo de escritura e comandar a encenação da narrativa.

Das atitudes tomadas pelo protonarrador aqui estudado, o retorno ao texto é a mais saliente, pois ele volta duas vezes ao texto depois de editado. Há uma primeira edição em 1964. A segunda edição foi corrigida em 1968, e a décima quarta em 1998, a qual comparamos com as anteriores. A análise será feita parágrafo por parágrafo com o objetivo de ressaltar as mudanças propostas pelo protonarrador. A principal e mais notória foi a troca de tempo verbal. Nas duas primeiras edições, a maioria dos verbos está no pretérito perfeito, que indica uma ação concluída no passado. A décima quarta apresenta os verbos no presente. Essa alteração de tempo verbal realizada pelo protonarrador faz com que a leitura do conto se presentifique durante o ato da leitura, como se a história estivesse acontecendo naquele instante. Visto que falei aqui a respeito do tempo verbal, na análise a seguir deixarei de ressaltar essa mudança.

Ao longo do capítulo farei a comparação entre as três versões do texto, salientando as mudanças que o protonarrador faz. Analiso uma das duas características, a hesitação (como não tive acesso aos manuscritos antes da primeira edição, não posso falar de experimentação, pois ela ocorre durante o ato de escritura) e as quatro atitudes elencadas por Agra. Vejamos, agora, o primeiro parágrafo:

 

Dario vinha apressado, o guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que

dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de

uma casa. Foi escorregando por ela, de costas, sentou-se na calçada, ainda

úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. (1ª edição)

 

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que

dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de

uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de

chuva, e descansou na pedra o cachimbo. (2ª edição)

Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo. (14ª edição)

 

No primeiro parágrafo da segunda edição, o protonarrador suprime algumas palavras no retorno ao texto: o artigo definido “o” e a expressão “de costas”. Há uma proposição na inversão do início da segunda oração: “por ela escorregando”. Na décima quarta edição, o retorno ao texto modifica o tamanho das orações. Nas duas primeiras edições, há duas orações; na última há quatro. Ao realizar esse aumento de orações, o protonarrador suprime outras palavras: a expressão “de uma casa” e duas conjunções “e”. Há também um acréscimo, pois acrescenta o artigo indefinido “uma” na frente do substantivo “parede”.

O segundo parágrafo:

 

Dois ou três passantes rodearam-no, indagando se não estava se sentindo bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, mas não se ouviu resposta. Um senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. (1ª edição)

 

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. (2ª edição)

 

Dois ou três passantes à sua volta indagaram se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque. (14ª edição)

 

Na segunda edição, ao retornar ao texto, o protonarrador suprime uma vírgula, acrescentando a conjunção “e”, assim como troca o tempo verbal de “indagar” de gerúndio para o pretérito perfeito. De modo igual, suprime o verbo “estar” e a conjunção “mas”. Troca também o artigo indefinido “um” pelo definido “o”. Na décima quarta edição, há a supressão de “rodearam-no” e a inclusão de “à sua volta”. Há também uma hesitação, visto que na segunda edição o verbo “estar” foi suprimido, mas voltou a ser usado na última edição. O protonarrador também troca o verbo “dizer” por “sugerir”.

Estendeu-se mais um pouco, deitado agora na calçada, e o cachimbo a seu

lado tinha apagado. Um rapaz de bigode pediu ao grupo que se afastasse,

deixando-o respirar. E abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta.

Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou pela garganta e um fio de

espuma saiu no canto da boca. (1ª edição)

 

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo

tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o

deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta.

Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma

surgiram no canto da boca. (2ª edição)

 

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou.

O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe

o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario

rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca. (14ª edição)

 

Há o retorno ao texto, na segunda edição, ao substituir “estendeu-se” e “deitado” por “ele reclinou-se” e “estendido”. Ocorre a supressão de “ao seu lado”, da conjunção “e”, da expressão “pela garganta”. O protonarrador troca o artigo indefinido “um” pelo definido “o”, assim como substitui a expressão “um fio de espuma” por “bolhas de espuma”. Na décima quarta edição, há mais mudanças. Na expressão “que se afastam” o “que” é suprimido. Há substituição de verbos: “retirar” por “tirar”, “roncar” por “rouquejar”. A conjunção “e” da última oração é substituída por uma vírgula.

 

Cada pessoa que chegava se punha na ponta dos pés, embora não o

pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as

crianças foram acordadas e vieram de pijama às janelas. O senhor gordo

repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do

cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-

chuva ou cachimbo ao lado dele. (1ª edição)

 

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o

pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as

crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo

repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do

cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-

chuva ou cachimbo ao seu lado. (2ª edição)

Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. (14ª edição)

 

A retomada do texto, na segunda edição, traz as seguintes trocas: os verbos “pôr” por “erguer” e “vir” por “acudir”; o adjetivo “acordadas” por “despertadas”; a expressão “às janelas” por “à janela”; “ao lado dele” por “ao seu lado”. Na décima quarta edição, há supressão de várias palavras e expressões: “embora”, “foram despertadas e”, “ainda”. A conjunção “e” é trocada por uma vírgula.

 

Uma velhinha de cabeça grisalha gritou que Dario estava morrendo. Um grupo transportou-o na direção do táxi estacionado na esquina. Já tinham introduzido no carro a metade do corpo, quando o motorista protestou: Se ele morresse na viagem? A turba concordou em chamar a ambulância. Dario foi conduzido de volta e encostado à parede – não tinha os sapatos e o alfinete de pérola na gravata. (1ª edição)

 

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. (2ª edição)

 

A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. (14ª edição)

 

Na segunda edição, o artigo indefinido “uma” é trocado pelo definido “a”. Igualmente, o substantivo próprio “Dario” é trocado pelo pronome pessoal “ele”. Há também algumas substituições de verbos: “transportar” por “arrastar”, “encostar’ por “recostar”. Do mesmo modo, há substituição da expressão: “na direção do” por “para o”. Alguns cortes no texto ocorrem: “tinham introduzido”, “quando”, “a turba”, “em”, “estacionado na”. A oração “se ele morresse na viagem?” é substituída por “quem pagaria a conta?”.

Na décima quarta edição, não há alteração alguma, exceto o tempo verbal.

 

Alguém informou que na outra rua havia uma farmácia. Carregaram Dario

até a esquina; a farmácia era no fim do quarteirão e, além do mais, ele

estava muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Imediatamente

um enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para

espantá-las. (1ª edição)

 

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da

esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi

largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto,

sem que fizesse um gesto para espantá-las. (2ª edição)

 

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da

esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É

largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto,

sem que faça um gesto para espantá-las. (14ª edição)

 

Há algumas supressões na segunda edição: “que”, “havia uma”, “era”, “estava”, “imediatamente um”. Ocorre também uma troca: “até a” por “além da”. Na décima quarta edição, não há mudanças, exceto o tempo verbal.

 

As mesas de um café próximo foram ocupadas pelas pessoas que tinham

vindo apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as

delicias da noite. Dario ficara torto como o deixaram, no degrau da peixaria,

sem o relógio de pulso. (1ª edição)

 

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e,

agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto

como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. (2ª edição)

 

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora,

comendo e bebendo, gozam as delicias da noite. Dario em sossego e torto

no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. (14ª edição)

 

Algumas mudanças ocorrem na segunda edição. Além da inversão sintática, há uma grande supressão de palavras na primeira oração: “as”, “mesas”, “de”, “um”, “foram”. O protonarrador substitui o tempo composto “tinham vindo” pelo simples “vieram”.

Ele também substitui o pretérito mais-que-perfeito “ficara” pelo perfeito “ficou”. Na décima quarta edição, há a supressão dos verbos “vir” e “ficar”; a expressão “como o deixaram” foi retirada. Igualmente, ocorre o acréscimo da expressão “em sossego”.

 

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os documentos. Vários objetos foram retirados de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo de seu nome, idade, cor dos olhos, sinais de nascença, mas o endereço na carteira era de outra cidade. (1ª edição)

 

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados – com vários objetos – de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade. (2ª edição)

 

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados – com vários objetos – de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade. (14ª edição)

 

Na segunda edição, há trocas: a expressão “os documentos” por “os papéis”; “sinais de nascença” por “sinal de nascença”. Ocorre a junção das duas primeiras orações. Para isso, o protonarrador corta um ponto final, suprime o verbo “ficar”, muda de lugar o particípio “retirados”, acrescenta “com”, destaca a expressão “com vários objetos”, ao usá-la entre travessões. Há duas supressões: “cor dos olhos” e “mas”. Na décima quarta edição, somente um “que” é suprimido na primeira oração.

 

Registrou-se tumulto na multidão de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupava toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu contra o povo e várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes. (1ª edição)

 

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes. (2ª edição)

Registra-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam

toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão.

Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

(14ª edição)

 

O protonarrador substitui, na segunda edição, “tumulto na multidão” por “correria” e “contra o povo” por “a multidão”. Há a supressão de um “e”, dividindo a antiga oração em duas. Na décima quarta edição, somente um “que” é suprimido na última oração.

 

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos

vazios. Restava apenas a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio

– quando vivo – não podia retirar do dedo senão umedecendo-o com

sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão. (1ª edição)

 

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos

vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio –

quando vivo – só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido

que o caso era com o rabecão. (2ª edição)

 

O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo – os bolsos vazios.

Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio – quando vivo –

só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

(14ª edição)

 

Na segunda edição, há a supressão de “apenas”. Uma oração é reescrita, passando de “não podia retirar do dedo senão umedecendo-o com sabonete” para “só podia destacar umedecida com sabonete”. Na décima quarta edição, duas orações são reescritas: “só podia destacar umedecida com sabonete” passa para “só destacava molhando no sabonete”; “Ficou decidido que o caso era com o rabecão” muda para “A polícia decide chamar o rabecão”.

 

A última boca repetiu – “Ele morreu, ele morreu”, e então a gente começou a

se dispersar. Dario havia levado quase duas horas para morrer e ninguém

sequer acreditara que estivesse no fim. Agora, aos que podiam olhá-lo, viam

que tinha todo o ar de um defunto. (1ª edição)

 

A última boca repetiu – Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se

dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que

estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. (2ª edição)

 

A última boca repete – Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto. (14ª edição)

 

As aspas foram retiradas, na segunda edição, assim como a conjunção “e” e o advérbio “então”, resultando numa nova oração. A locução verbal “havia levado” foi trocada por “levara”. Da mesma maneira, “sequer acreditara” foi substituído por “acreditou”. A conjunção “e” foi suprimida e colocada uma vírgula em seu lugar. O verbo “olhar” foi trocado por “ver”. Na décima quarta edição, há duas supressões: “que” e “tinha”. Há também uma substituição, o verbo “poder” por “alcançar”.

 

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não lhe pôde fechar os olhos nem a boca, onde as bolhas de espuma haviam desaparecido. Era apenas um homem morto e a multidão se espalhou rapidamente, as mesas do café voltaram a ficar vazias. Demoravam-se nas janelas alguns moradores, que haviam trazido almofadas para descansar os cotovelos. (1ª edição)

 

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a escuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. (2ª edição)

 

Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. (14ª edição)

 

Ocorre a supressão de “lhe”, “era” e “rapidamente” na segunda edição. O protonarrador troca a expressão “bolhas de espuma” por “a escuma”. Igualmente, ele troca o verbo “haver” pelo “ter” no tempo composto, e “voltaram a ficar” é substituído por “ficaram”. A última oração é reescrita, passando de “Demoravam-se nas janelas alguns moradores, que haviam trazido almofadas para descansar os cotovelos” para “Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos”. Na décima quarta edição, há somente uma supressão, a de “suas”. Contudo, há várias substituições. Os verbos “despir”, “sustentar”, “poder” são trocados, respectivamente, por “dobrar”, “apoiar”, “conseguir”. A locução verbal “tinha desaparecido” é substituída por “sumiu”. A expressão “os olhos” é trocada por “olho”. Ocorre também a hesitação em “espuma”, pois na primeira edição está “espuma”, mas na segunda ele altera para “escuma”, trocando, mais uma vez, para “espuma”.

 

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do

cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto

desbotado pela chuva. (1ª edição)

 

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do

cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto

desbotado pela chuva. (2ª edição)

 

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do

cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto

desbotado pela chuva. (14ª edição)

 

Nesse parágrafo, não há mudança alguma, exceto o tempo verbal na décima quarta edição. Entretanto, percebe-se a transparência no uso do termo pejorativo “de cor” para indicar a raça negra.

 

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario

esperando o rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem

a aliança. A vela tinha queimado até a metade, apagando-se às primeiras

gotas de chuva, que voltava a cair. (1ª edição)

 

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, estava Dario à

espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a

aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas

de chuva, que voltava a cair. (2ª edição)

 

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera

do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança.

O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair. (14ª edição)

 

O advérbio “lá” é suprimido na segunda edição. O protonarrador troca “esperando” por “à espera”. Também muda uma vírgula e o gerúndio “apagando-se” pela conjunção “e” e o verbo “apagar” no pretérito perfeito. Na décima quarta edição, o protonarrador suprime um “e” e acrescenta um ponto para separar em duas a antiga oração. Há também o acréscimo de outro ponto para separar duas orações. A última oração é reescrita, passando de “A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas de chuva, que voltava a cair” para “O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair”. A hesitação ocorre quando o protonarrador recoloca o advérbio “lá”, pois na primeira edição está “lá”, mas na segunda ele suprime, voltando a usá-lo na décima quarta edição. O dinamismo pode ser compreendido nas três diferentes edições que o conto teve, pois o protonarrador não achava que o texto estivesse pronto. Esse talvez seja o motivo para as reescrituras do texto, mesmo depois de publicado.

 

Considerações finais

 

Optei por uma abordagem genética devido a três fatores. O primeiro é uma melhor compreensão do “processo de criação artística, a partir dos registros deixados pelo artista deste seu percurso” (SALLES, 2000, p. 18). Segundo, o ato de criação é um processo em contínuo andamento. O autor deixa em seus manuscritos registros desse processo. Assim sendo, ao analisá-los, percebemos que o artista não é um ser especial, dotado de um poder divino, mas um trabalhador. Em outras palavras, o autor é alguém que elabora. Para isso, ele necessita de “tempo, dedicação e disciplina” (SALLES, 2000, p. 22). Terceiro, no manuscrito e nos diferentes trabalhos de elaboração, vemos “um pensamento em evolução, idéias crescendo, idéias se aperfeiçoando, um artista em ação, uma criação em processo” (SALLES, 2000, p. 25). Portanto, ao analisar as três edições do conto, percebi esse constante trabalho com o texto pelo protonarrador. A cada reescritura, ele opta por deixá-lo mais enxuto, retirando aquilo que considerava excesso, na busca constante pela concisão.

Salles (2000, p. 103) salienta que “o estudo do processo nos dá condições, por vezes, de conhecer os efeitos que o artista espera que sua obra cause.” Consequentemente, ao mudar o tempo verbal do conto na última edição, o protonarrador fez com que toda nova leitura do conto presentificasse a ação. Isso ocorre de tal forma que “cada retomada do texto provoca uma consistência nova” (WILLEMART, 1993, p. 68). Desse modo, notei que o protonarrador está num processo contínuo de reelaboração do seu texto. O seu objetivo é sempre deixá-lo mais enxuto, com uma maior economia verbal e clareza de linguagem. Da 1ª à 2ª e desta à 14ª há uma série de mudanças, deixando o texto mais limpo.

 

Referências

 

AGRA, M. L. de S. O protonarrador. Manuscrítica. Revista de Crítica Genética, nº 3. São Paulo: Annablume/APML, 1992.

 

GOMES, Á. C.; VECHI, C. A. (org). Dalton Trevisan. São Paulo: Abril Educação, 1981. Coleção Literatura Comentada.

 

SALLES, C. A. Crítica genética: uma (nova) introdução. São Paulo: EDUC, 2000.

 

TREVISAN, D. Cemitério de elefantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.

 

TREVISAN, D. Cemitério de Elefantes. 14. ed. Record: Rio de Janeiro, 1998.

 

TREVISAN, D. Uma vela para Dario. In: SALES, H. (org.). Antologia escolar de contos brasileiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 1968. Edição Fac-similar.

 

WILLEMART, P. Universo da criação literária. São Paulo: EDUSP, 1993.

Anexo A: texto da 1ª edição

 

Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan

 

Dario vinha apressado, o guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Foi escorregando por ela, de costas, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no, indagando se não estava se sentindo bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, mas não se ouviu resposta. Um senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Estendeu-se mais um pouco, deitado agora na calçada, e o cachimbo a seu lado tinha apagado. Um rapaz de bigode pediu ao grupo que se afastasse, deixando-o respirar. E abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou pela garganta e um fio de espuma saiu no canto da boca.

Cada pessoa que chegava se punha na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram acordadas e vieram de pijama às janelas. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao lado dele.

Uma velhinha de cabeça grisalha gritou que Dario estava morrendo. Um grupo transportou-o na direção do táxi estacionado na esquina. Já tinham introduzido no carro a metade do corpo, quando o motorista protestou: Se ele morresse na viagem? A turba concordou em chamar a ambulância. Dario foi conduzido de volta e encostado à parede – não tinha os sapatos e o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou que na outra rua havia uma farmácia. Carregaram Dario até a esquina; a farmácia era no fim do quarteirão e, além do mais, ele estava muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Imediatamente um enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

As mesas de um café próximo foram ocupadas pelas pessoas que tinham vindo apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficara torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os documentos. Vários objetos foram retirados de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo de seu nome, idade, cor dos olhos, sinais de nascença, mas o endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se tumulto na multidão de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupava toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu contra o povo e várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos vazios. Restava apenas a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio – quando vivo – não podia retirar do dedo senão umedecendo-o com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu – “Ele morreu, ele morreu”, e então a gente começou a se dispersar. Dario havia levado quase duas horas para morrer e ninguém sequer acreditara que estivesse no fim. Agora, aos que podiam olhá-lo, viam que tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não lhe pôde fechar os olhos nem a boca, onde as bolhas de espuma haviam desaparecido. Era apenas um homem morto e a multidão se espalhou rapidamente, as mesas do café voltaram a ficar vazias. Demoravam-se nas janelas alguns moradores, que haviam trazido almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario esperando o rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade, apagando-se às primeiras gotas de chuva, que voltava a cair.

 

TREVISAN, Dalton. Cemitério de elefantes. 1. ed. Rio de

Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.

 

Anexo B: edição fac-similar

 

Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan

 

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados – com vários objetos – de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio – quando vivo – só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu – Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a escuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas de chuva, que voltava a cair.

 

TREVISAN, Dalton. Uma vela para Dario. In: SALES, Herberto

(org). Antologia escolar de contos brasileiros. Rio de Janeiro:

Ediouro, s/d. Edição fac-similar

 

Anexo C: texto da 14ª edição

 

Uma vela para Dario, de Dalton Trevisan

 

Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes à sua volta indagaram se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delicias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados – com vários objetos – de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

Registra-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo – os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio – quando vivo – só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

A última boca repete – Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.

TREVISAN, Dalton. Cemitério de Elefantes. 14. ed. Rio de

Janeiro: Record, 1998.