Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Demétrio Alves Paz e Jeize de Fátima Batista · Capítulo 11 de 17

Páginas do PDF

Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Fenomenologia hermenêutica como analítica da linguagem: o caso da análise lógicosemântica do pronome “eu” nos escritos fenomenológicos de martin heidegger

Fenomenologia hermenêutica

 

como analítica da linguagem: o

 

caso da análise lógico-

 

semântica do pronome “eu”

 

nos escritos fenomenológicos

 

de Martin Heidegger

 

Livio Osvaldo Arenhart 1

 

Considerações iniciais

 

O professor Ernildo Stein, pensador brasileiro de referência da fenomenologia hermenêutica, costuma familiarizar seus alunos e leitores com o paradigma filosófico do ser-no-mundo, calçado na obra filosófica de Martin Heidegger. Rejeitando a mera replicação das ideias de Heidegger, o professor Stein insiste em aproximar a analítica da existência da analítica da linguagem. Com os recursos da filosofia analítica, procura formular em termos intersubjetivamente controláveis as descobertas quase intuitivas de Heidegger. Há mais de quarenta anos, o professor Stein vem sustentando que a fenomenologia hermenêutica deve ser vista como um “projeto de analítica da linguagem” (STEIN, 1991, p. 100).

Em interlocução com E. Tugendhat (1979), M. Frank (1991; 1994; 1996), A. Koch (1990) e R. Rorty (1993), este capítulo visa exemplificar a tese steiniana de que a analítica existencial se realiza como analítica da linguagem. Já que o ser-aí (Dasein, em língua alemã) só pode desvelar o ser das coisas em geral enquanto se desdobra fenomenologicamente como ente falante (RORTY, 1993. p. 62-81), a analítica do ser-aí só pode ser executada a partir de como ele, de início e na maioria das vezes, fala de si, ainda que, pela regra metodológica da analítica existencial, esta autointerpretação cotidiana deva ser desconstruída com base no critério ontológico-existencial, igualmente linguístico, do sum – “eu sou”. Quem diz sum, está também a dizer “eu”. Ora, entre os filósofos analíticos, há décadas tornou-se consensual que a explicação do modo de utilização do pronome “eu” constitui o caminho que conduz à solução do problema da consciência-de-si imediata (RORTY, 1993, p. 70.). Se a consciência-de-si está ligada ao uso do pronome de primeira pessoa do singular e se Heidegger, no período em que se orientou pelo método fenomenológico, tratou de decifrar o verbo “ser” conjugado na primeira pessoa do singular, então é pertinente perguntar se e como o tema da consciência-de-si imediata aparece nos escritos fenomenológicos de Heidegger (ARENHART, 2004).

No modelo da relação sujeito-objeto, criticado por Heidegger, o tema da consciência-de-si mostrou-se como problema na formulação que segue: “como sei que, quando me refiro a mim, esse (‘objeto’) a que me refiro é idêntico a este (sujeito) que faz a referência?” (TUGENDHAT, 1979, p. 70). Heidegger não se guiou pelo modelo da relação sujeito-objeto e, por isso, não se colocou esse problema. Mas, dirigindo a seus escritos fenomenológicos a pergunta se eles contêm uma explicação plausível para a regra de uso da palavra “eu”, uma leitura atenta nos autoriza a dizer que sim, a considerar, inicialmente, que a explicação da existencialidade do Dasein, que se expressa dizendo ‘eu’” (HEIDEGGER, 1977a, p. 318).

É algo trivial afirmar que o pronome «eu» não foi uma questão importante para Heidegger. Uma de suas grandes contribuições à filosofia foi a distinção semântico-pragmática entre o sum (da execução da ipseidade) e o “é” (da predicação teórica). Muito diferente do “é” da asserção de algo (predicado) a respeito de algo (sujeito) em terceira pessoa, é o sum (“eu sou…”), pelo qual, de modo performativo e autoimplicativo, ponho em execução minha existência. Heidegger foi quem primeiro explicitou essa distinção. A partir dela, passou a se dedicar à análise do sum (HEIDEGGER, 1995a; TUGENDHAT, 1979). Todavia, no sum, enunciado ontológico sobre o Dasein, o pronome pessoal “eu” é necessariamente conotado, mitgesagt (HEIDEGGER, 1977a). Prontamente, pode-se dizer que, pelo fato de eu realizar minha existência sempre em situação, o “eu” da expressão “eu sou” tem que ser tomado no sentido de indicar não para um ego cogito cartesiano nem para um objeto espaciotemporal, mas, segundo Heidegger, “para minha vida concreta e fática em meu mundo concreto” (1994a, p. 174); “o dizer-’eu’ tem-em-mente o ente que cada vez eu sou enquanto ‘eu-sou/estou-em-um-mundo’” (1977a, p. 321).

O ensaio teórico apresentado neste capítulo registra um trabalho de garimpagem nos escritos fenomenológicos de Heidegger focado na questão do modo de uso do pronome de primeira pessoa do singular, com o propósito de exemplificar a tese de que a analítica existencial se realiza como analítica da linguagem. O conceito nuclear que serve a esse propósito é o de “indício formal não-cogente”, criado pelo próprio Heidegger.

 

O pronome “eu” como “indício formal

 

não-cogente”

 

Doze anos antes da publicação de Sein und Zeit (1927), num escrito de sua juventude (1915), Heidegger incorporou uma análise lógico-semântica do pronome “eu”, provavelmente aprendida de seu mestre Husserl (HEIDEGGER, 1978; HUSSERL, 1900). Essa análise lógico-semântica do pronome “eu” não é exaustiva, mas suficientemente elaborada para comprovar que ele, desde jovem, teve certa vigilância crítica quanto ao uso dessa expressão.

No contexto da pergunta pelo ser do “quem do Dasein” (HEIDEGGER, 1977a, § 25), o pronome pessoal de primeira pessoa é tido por Heidegger como um “indício formal não-cogente (unverbindlich) de algo que, em cada contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar como o ‘seu contrário’” (1977a, p.

116) 2. Esta citação de Sein und Zeit tem como suporte o estudo da questão do pronome pessoal “eu” feito em 1915, sob influência de Husserl. A expressão heideggeriana “indício formal não-cogente” parece ter um sentido aproximável da expressão kaplaniana “caráter” (por oposição a “conteúdo”): em cada contexto de uso (pelo mesmo falante e por falantes distintos) a expressão “eu”

designa um “conteúdo” diferente. 3

No estudo mencionado do jovem Heidegger (1978), ele trata do “eu” no contexto da análise da função significante dos pronomes

(1978). 4 Os pronomes, incluído o “eu”, são indícios formais. De pronto, isso quer dizer que a sua função lógico-semântica invariável não é a de representar gêneros/classes de coisas ou estados-de-coisas, ou seja, não são expressões classificatórias.

A concepção de “formal” que Heidegger herdou de Husserl obriga pensar esse termo por exclusão da generalidade, seja do grau que ela for, pois mesmo o gênero supremo comporta sempre um conteúdo. De acordo com Heidegger (1995ª, p. 63), “No tocante ao conteúdo, a determinação formal é totalmente indiferente”. As expressões formais não estão atadas a degrau algum da teorização generalizadora; certa vez Heidegger deu um exemplo bem simples, usando a palavra “algo”: quando, por ocasião de um barulho estranho na sala do lado, dizemos “algo não está em ordem”, este “algo” não determinado da experiência fática tem um sentido diferente que o “algo” lógico-formal da objetividade real; este último, ao contrário do primeiro, sempre já tem um mínimo de conteúdo, sempre já está minimamente determinado (1993, p. 106). Outro exemplo claro encontra-se no Vol. 61: na frase “tem nada aí”, o “nada” não representa algo determinado, mas tem um sentido puramente formal-indicativo (1994a, p. 145-147).

Pöggeler (1989, p. 267) explica que, se a generalização sobe para a generalidade cada vez mais elevada, a formalização “retorna para formações lógicas e categoriais sempre já pressupostas”. Heidegger tomou a peito a questão de que, pelo fato de o “noético” e o “noemático” se correlacionarem diferentemente em um âmbito que nos outros, deve-se distinguir, nos diferentes âmbitos, a correspondência entre generalização e formalização. Ele viu que, no âmbito do humano, a relação de uma realização com conteúdos não poderia ser prévia, definitiva e exaustivamente estabelecida, mas, a rigor, só pode ser indicada, o que implica encurtamento e refinamento do trabalho filosófico. Vale para as coisas, mas não para a existência dos humanos serem consideradas como casos de uma generalidade conhecida. A um ser que se compreende como existência histórica e se empenha na execução de um projeto de vida, não é apropriado ver-se como realização de um quê genérico. Por isso, com os seus conceitos formal-indicadores, a hermenêutica pode somente apontar para as situações fáticas da existência – calcular, dançar, orar etc. – devendo “deixar em suspenso as decisões lá necessárias…” (PÖGGELER, 1989, p. 267). De acordo com a explicação de Lehmann (s/d, p. 147-148), a historicidade pertence ao humano como estrutura formal. Isto é, sem um conteúdo essencial, de modo que a expressão “essência geral de ‘historicidade’” apenas “indica para as condições que circunscrevem a possibilidade pela qual e segundo a qual a historicidade, como também os outros caracteres existenciais, pertence ao ser humano”, de tal modo que sem estes elementos constitutivos não se pode falar deste como “ser humano”. Saliente-se que “esta ‘formalização’ não é uma generalização… ela se refere à generalidade incondicional e apriórica”. Não pode haver preenchimento material-conteudístico sem esse “formal” (LEHMANN, p. 147-148). Além disso, com o formal assim concebido, é dada, como pano de fundo, uma referência ao preenchimento material, cuja concretização é posta entre parênteses. Em virtude de que este preenchimento material é “fático” e existenciário, ele não é previamente dedutível.

De acordo com o próprio Heidegger, indícios formais são pura e simplesmente indicadores, apontando para determinados fenômenos sem prejulgar coisa alguma sobre eles (1995a). O preenchimento material-conteudístico do “formal” far-se-á a partir do olhar para a fonte concreta da intuição (1995b). Heidegger adverte os leitores para que evitem tomar os indícios formais pelas coisas mesmas e para que evitem deixar-se conduzir do conceito formal puro ao conceito material puro e, assim, inadvertidamente, dar uma função teórica ao que é tido-em-mente com o conceito material puro. Há nos indícios formais “uma indeterminidade que aponta-para, mas não determina previamente” (1994a, p. 175).

No Vol. 58, Heidegger escreveu isso precisamente a propósito dos indícios formais “eu”, “mim” e “si-mesmo”, no contexto em que ele cita a definição que Avenarius dera ao “eu”: “substituto linguístico de um gesto indicador” (1993, p. 156-157. 249). Antecipando Sein und Zeit, o Vol. 60 já fala formal-indicativamente e não lógico-formalmente – não de acordo com os procedimentos de inclusão e exclusão de classes –, de “existência” e de “si-mesmo” como “este singular que eu mesmo sou, e não segundo o ‘quê’ geral das propriedades objetivas, mas o como do ‘sou’” (1995a, p. 91. 239); nenhum termo ou expressão classificatória pode substituir “si-mesmo” ou “eu”; na frase citada isso é corroborado pelo recurso ao demonstrativo “este” para explicitar a função meramente indexical de “eu”.

A função significante invariável, ou seja, a regra de uso dos pronomes enquanto “indícios formais” é, em cada caso de uso, apontar para um objeto bem determinado, sem que o pronome em si esteja comprometido com algum objeto determinado, sem que o objeto seja conteudisticamente determinado pelo próprio pronome (HEIDEGGER, 1978). “A tendência do pronome vai no sentido de intencionar um objeto sem determiná-lo do ponto de vista do conteúdo…” (HEIDEGGER, 1978, p. 379). Os pronomes têm uma função significativa geral determinada, que é a de significar ou intencionar ou de apontar para objetos individuais sem determiná-los do ponto de vista do conteúdo (HEIDEGGER, 1978); o conteúdo do pronome – aquilo de que concretamente se fala – “muda cada vez, de caso para caso de uso” (HEIDEGGER, 1978, p. 379). Isto quer dizer que o pronome não é uma expressão classificatória (determinadora da quididade), mas é uma expressão com função referencial, identificadora, designativa. E significa também que um mesmo pronome, cada vez que é usado, designa um outro objeto, dependendo do contexto do uso; em cada contexto de uso, é específico o conteúdo com que se preenche o índice vazio e preenchível. Embora sua função significante geral seja a de meramente referir objetos determinados, os pronomes mesmos, em si, antes e fora do contexto de uso, não estão comprometidos com nenhum objeto determinado. Este é o sentido do termo “não-cogente” que aparece na expressão “indício formal não-cogente” (HEIDEGGER, 1977a, p. 116).

Os pronomes demonstrativos, segundo Heidegger, cumprem a função significante de “indicar para um objeto corporalmente dado”, para um objeto “de carne de osso” presente na intuição imediata, de tal modo que seja impossível duvidar quanto ao seu estar-ali e ao seu “quê” (Was) materialmente apreensível. “A função significante, que em si não determina, mas que em sua essência (é) contudo função significante determinada, obtém seu preenchimento pelos objetos em cada caso imediatamente ‘apresentados’” (HEIDEGGER, 1978, p. 376), isto é, sem a mediação de caracterizações gerais ou de conceitos. O preenchimento dos “indícios formais”, das “palavras-índices” do tipo “pronome demonstrativo” “é direto, imediato”, o que significa dependente da situação de fala (HEIDEGGER, 1978, p. 377).

Qual é então, de acordo com Heidegger, a regra de uso do pronome pessoal “eu”? Notoriamente não é a de designar uma região ou um tipo de objetos. Enquanto “ponto de referência vazio” (perspectiva desde a qual qualquer agente-falante se refere a si, dirige-se para o mundo e “tem” o não-egóico), mas também enquanto “variedade concreta de determinações objetivas” (pessoa que se refere a si; o que tem e forma a unidade da situação), o pronome de primeira pessoa do singular “não se presta à operação de inclusão definitiva de classe” (1993, p. 159. 161. 164. 257; 1995a, p. 90-91. 147; 1976a, p. 346). Também “eu” funciona como um “indício formal” que, em cada vez que é usado, se preenche com outro conteúdo, ou seja, por sua mediação outro falante atual se refere em cada caso a si mesmo:

 

O “eu” se refere ao objeto mais conhecido e mais imediato, o próprio

(falante) que atualmente executa a função significante do mesmo (pronome

pessoal “eu”). A função significante é uma função bem determinada, o

preenchimento é em cada caso outro, tantas vezes quantas um outro eu

(falante desde a perspectiva de primeira pessoa do singular) atualiza a

significação (HEIDEGGER, 1978, p. 377).

 

Mais adiante cita Hegel, explicitando melhor uma das condições necessárias para o êxito da referência a si: “De igual modo, quando digo “eu”, intenciono-me enquanto este (o falante atual) que exclui todos os outros…” (HEIDEGGER, 1978, p. 380-381).

Em Sein und Zeit, o filósofo segue pensando o pronome de primeira pessoa do singular como “indício formal não-cogente” e, levando a sério o fenômeno do autoengano sob o domínio do “todo mundo”, admite que, em cada caso de uso, “eu” é preenchido por conteúdo mutante também pela mesma pessoa falante: “‘Eu’ só pode ser entendido no sentido de um indício formal não-cogente de algo que, no respectivo contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar como o ‘seu contrário’” (HEIDEGGER, 1977a, p. 116). O mesmo parágrafo explica que este (ontológico-fenomenal) “contrário”-do-eu, no plano ôntico, continua sendo o próprio usuário do pronome “eu”: “sem dúvida, ao dizer ‘eu’, o Dasein aponta para o ente que é cada vez ele mesmo”, o falante (HEIDEGGER, 1977a, p. 321).

É necessário frisar aqui a insistência de Heidegger na diferença abissal entre a sua concepção ontológica da ipseidade como tarefa a ser realizada por cada um e a concepção, por ele criticada, que trata do referente de “eu” como algo puramente subsistente (HEIDEGGER, 1977a, p. 130). Esta insistência do filósofo não nega que, do ponto de vista ôntico, é sempre legítimo dizer que eu sou este ente que, “no referir-se mais próximo a si mesmo”, parece-me ser eu mesmo (ainda que, do ponto de vista ontológico, “a evidência ôntica de que o “quem” do Dasein é cada vez meu” encobre o Dasein. Desde o ponto de vista formal-vazio, isto é, desde o ponto de vista que nada prejulga acerca do conteúdo, o eu é (formalmente) dado como o mais indiscutível para quem diz “eu…” (1 HEIDEGGER, 1977a, p. 115s.). E nos usos subsequentes desta palavra, o que é por ela expresso e referido é cada vez encontrado pelo falante como sendo o mesmo que se mantém (HEIDEGGER, 1977a). No dizer-”eu” executa-se de modo infalível a autorreferência e, no mesmo ato, subentende-se sem um mínimo de hesitação a identidade de si consigo. Mas o equívoco é possível quanto ao modo como aquele que diz “eu” se autointerpreta: “no ôntico referir-se a si mesmo ele se equivoca quanto ao modo de ser do ente que ele mesmo é” (HEIDEGGER, 1977a, p. 321).

A regra de uso da expressão “eu” é: quem a usa, no ato de e por meio deste uso, “tem-em-mente a si mesmo”, só a si mesmo e nada mais (HEIDEGGER, 1977a, p. 318). O pronome da primeira pessoa do singular “não é, ele mesmo, um predicado, mas é um ‘sujeito’ absoluto” (HEIDEGGER, 1977a, p. 318). Com ele não se opera uma classificação (HEIDEGGER, 1993). Se o “eu”, usado corretamente, não é um predicado, então ele desempenha a função autorreferencial de modo direto, independentemente de caracterizações, sem a mediação de identificação através de “termos gerais” (classificatórios, predicativos). Se o “eu” é um “sujeito ‘absoluto’”, se “o conteúdo dessa expressão passa por absolutamente simples”, então “eu” não é relativo a, não é substituível por, não é redutível a (HEIDEGGER, 1997b). O sentido que Heidegger dá aqui ao termo “ absolutus” remonta aos pensadores medievais e se opõe a “respectivus”: é o de determinar a forma (significativa) essencial do pronome “de modo puro e simples”, sem “proporcionar uma relação a outras significações”, ou seja, sem necessidade de ostensões ou caracterizações predicativas (HEIDEGGER, 1978, p. 345; FRANK, 1991, p. 357). Este caráter absoluto, insubstituível e irredutível do uso de “eu” foi precisamente confirmado pela Filosofia Analítica contemporânea, com o seu método de substituição das expressões linguísticas por outras. Aliás, Heidegger havia aprendido do mestre Husserl (1900, I, p. 274) que não existe expressão linguística que pode substituir adequadamente o pronome “eu”.

Portanto, a Filosofia não precisou esperar o paradigma analítico para descobrir “eu” é uma expressão indicativa; que, em si e por si, “eu” não representa um “objeto”; que o “objeto” por ele designado cada vez depende da situação de fala; que seu significado é unitário, mas cada vez que é usado representa outro “objeto”; que por meio de seu uso o falante em cada caso se designa a si mesmo (TUGENDHAT, 1979, p. 71-73).

Heidegger também teve ciência de que “eu” forma, junto com “tu” e com “ele” um “conjunto conectado” (zusammengehörige Gruppe), para usar uma expressão de Tugendhat: quem diz “eu” sabe que à mesma pessoa (por ela designada) podem referir-se outros falantes dizendo “tu” ou “ele”/”ela” e que com isso se discrimina uma pessoa particular do conjunto de outras que ela pode designar por “eles”; “se não existisse este contexto, a expressão ‘eu’ não poderia designar uma entidade” (TUGENDHAT, 1979, p. 73-74). Heidegger tratou disso em 1915/1916, nos termos que seguem:

 

Também o (pronome pessoal) “tu”, tampouco intencione precisamente aquele mesmo que executa o ato significante do pronome, traz em si um estar-relacionado com o falante em cada caso (de uso), na medida em que em cada caso (de uso) é intencionada a pessoa à qual o falante está dirigindo a palavra (HEIDEGGER, 1978, p. 377).

 

O estar-orientado para o outro, referido com “tu”, é inerente à ação levada a efeito desde a perspectiva de primeira pessoa (HEIDEGGER, 1976a). Mas, pelo fato de a perspectiva de primeira pessoa do outro Dasein não ser redutível a, ou subsumível por minha perspectiva de primeira pessoa, o outro Dasein, por mim referido com “tu”, “não é algo assim como um segundo eu face ao qual eu me ponho” (HEIDEGGER, 1976, p. 236; 1990, p. 241-243). E vice-versa: na relação de mim comigo eu não sou um outro, ainda que possa me abordar desde a perspectiva da terceira pessoa, do impessoal, do todo mundo (HEIDEGGER, 1976a).

Embora não seja exaustiva, a análise heideggeriana da regra de uso do pronome “eu” é clara e consistente. Quanto à explicação do modo de uso ou “função significante” geral e invariável de “eu”, pelo visto, não cabe a Heidegger a crítica de ter se orientado por um “método evocativo” ou “pela acumulação de palavras”, como é acusado por Tugendhat (1979). Por hipótese, seria outro o juízo deste crítico sobre os escritos de Heidegger a respeito do “eu” se tivesse levado em consideração o conceito de “indício formal não-cogente” e a distinção formal entre o ôntico e o ontológico.

 

O problema da função identificadora

 

da expressão “eu”

 

No marco da teoria do “eu” como indício formal não-cogente, cabe agora perguntar se “eu” cumpre uma função identificadora. O problema surge porque Heidegger pensa o “eu” em base ao sum de realização e não a partir do “é” da predicação. Pensa o “eu” enquanto conotado no sum, dando prioridade a este sobre aquele (HEIDEGGER, 1977a; 1976a), embora, reciprocamente, o sum é também conotado pelo dizer “eu” (HEIDEGGER, 1997b). Entre outras coisas, isso significa que aquilo a que com “eu” se faz referência não é “objeto” determinável mediante predicados, no sentido comum deste termo, não é classificável ou categorizável (HEIDEGGER, 1993; 1976a; 1997b), não é “uma coisa puramente subsistente, na qual se poderia observar isto ou aquilo” (HEIDEGGER, 1997b, p. 107; 1993, p. 39; 56; 165).

O problema em pauta é duplo: 1) há algo assim como referente de “eu”?; 2) caso houver algo ou alguém referido mediante a expressão “eu” e considerando que, por definição, os predicados são expressões classificatórias, como falar do referente de “eu” sem lhe adscrever predicados, já que, por um lado, não são possíveis frases sem predicados, e, por outro, Heidegger parece estar interditando a atribuição de predicados qua expressões classificatórias ao referente de “eu”?

Heidegger correlaciona dois tipos de predicados a dois tipos de “como” (als). Os predicados comuns expressam o “como apofântico” (assertórico) da atitude teórico-objetivadora. No plano prático-existencial e antepredicativo, há o “como hermenêutico” da significância, que nasce a partir da situação vivida e que realça e explicita modos de compreender-me/sentir-me acoplados ao ser-com os outros, ao estar-junto às coisas e ao ser-no-mundo como tal (HEIDEGGER, 1993; 1977a). Pelo “como hermenêutico” tomamos “conhecimento” de e, de modo exclamativo, poético, retórico ou narrativo, damos a conhecer os estados/relações vivenciais (Lebensverhalten) ou os caracteres significativos do mundo compartilhado, cada vez experienciados na perspectiva da primeira pessoa. Para expressar este “como”, usamos os “predicados espirituais”. Heidegger combate duramente a ideia de que os estados subjetivos se situariam no lado objetivo de uma representação (HEIDEGGER, 1995a). A partir disso, podemos nos perguntar se, na declaração autoexpressiva “sou feliz contigo”, “feliz” – termo que expressa o “como” do ser-com – é ou não um predicado. Se, com a devida precaução, dissermos que se trata de um predicado, devemos logo acrescentar que não é um predicado teórico-genérico ou categorial, mas um predicado existencial, pois dizer “sou feliz…” não equivale a dizer que a coisa-“eu” se inclui no gênero das coisas a que cabe o estereótipo “feliz”, não equivale a dizer que “eu” é um caso singular do gênero das coisas felizes. “Sou feliz” é um ato de fala, é autoexpressão performativa; expressa a situação, vivida por mim e a partir de mim, que compartilho com outro(s) sujeito(s). Logo, quando o sujeito lógico-semântico da frase é “eu”, “feliz” não é propriamente predicado qua expressão classificatória; não expressa estados-de-coisas (FRANK, 1996). Não foi por acaso que Heidegger insistiu tanto na dimensão pragmática da linguagem (HEIDEGGER, 1978; 1924; 1992; 1977a; 1996; 1983).

Pode-se agora compreender que, a rigor, “eu” não é uma expressão identificadora. Se lermos os escritos de Heidegger em busca de uma resposta positiva para a pergunta acerca do referente de “eu”, obtemos que “’eu’ tem que ser tomado no sentido de indicar para a minha vida concreta e fática em meu mundo concreto”, vivida por mim desde a minha perspectiva (HEIDEGGER, 1994a, p. 174). Minha vida concreta sou eu como um particular corporalmente situado no tempo e no espaço (HEIDEGGER, 1999; 1924; 1994c); mas este particular é subjetividade corporificada, ou seja, estando corporalmente enraizado em um mundo circundante, está ao mesmo tempo intencionalmente fora – ex-siste –, está junto às coisas, com os outros, projetado para adiante de si. Na verdade, em primeira e última instância, a perspectiva-“eu” só é pensável em sua unidade com a imaginação, mediante a qual antecipo o meu possível não-mais-ser. Esta antecipação constitui o princípio adequado de individuação: “no antecipar (a morte) vejo-me como o único ser que é desta vez em seu único destino na possibilidade de seu passar” (HEIDEGGER, 1989b). Consequentemente, eu sou o Dasein no ter-que-sê-lo-cada-vez, no ocasional e respectivo ter-que-ser. E este ego-perspectivado ter-que-ser-cada-vez “dá a diretriz para compreender todos os fenômenos do Dasein como modos de seu ter-que-ser”, como “modos-a-ser possíveis” e não propriamente como modos-de-ser, propriedades, aspectos, componentes, partes e camadas (HEIDEGGER, 1994c, p. 207; 1977a, p. 12. 42. 45. 284). Ao dizer-”eu”, não estou me referindo a um elemento ôntico primordial, a uma coisa-eu dotada de corpo (HEIDEGGER, 1977a).

As reflexões de Heidegger sobre a função significante de “eu” parecem coerentes com a tese defendida pela Senhora Anscombe, de que “eu” não pertence ao grupo das expressões “cuja função lógica é fazer referência” (apud FRANK, 1994, p. 102). No caso do “eu” “só há o uso”, ao passo que nos nomes e nas expressões indexicais, além do modo de uso, compreende-se aquilo a que, de quando em quando, se aplicam as expressões. Sem saber que Heidegger já o fizera (1994b), Anscombe interpreta o “penso, logo sou” de Descartes com base no argumento da contradição performativa entre o ato de dizer e o conteúdo dito. A filósofa escreveu que, ao pensar “eu…”, estou certo da presença real da minha existência (apud FRANK, 1994). Esta tese parece estar se referindo ao dado fenomenal que Heidegger formula assim: “Eu estou presente a mim mesmo concretamente numa experiência determinada de vida, eu sou em uma situação” (HEIDEGGER, 1993, p. 258). Com efeito, a vida fática “não é uma região determinada de objetos” (HEIDEGGER, 1994a, p. 174; 1967, p. 29). Em seu comentário a Fichte, em 1929, Heidegger (1997b) escreveu que “dizer algo de mim nunca significa adjudicar algo a esse ente como a um outro de si mesmo, mas todo ‘eu sou assim e assim’ significa: eu me ponho nesta e naquela tarefa minha…” (p. 108). E conclui o argumento: “Por princípio, as determinações de ser do eu, do Dasein humano não são categorias. Eu as chamo de existenciais” (p. 108). Portanto, as frases – “eu” são exteriorizações performativas – exclamativas, poéticas, retóricas, narrativas etc. –, o que requer levar em consideração as regras dos respectivos jogos linguísticos. A propósito, antes para Heidegger do que para Wittgenstein, é absurda a ideia de uma exteriorização de opiniões, desejos, afetos e estados de ânimo fora da respectiva trama de significância, a qual inclui as regras sociais e a condição corporal (HEIDEGGER, 1983; 1976a). O Dasein é significador ( bedeutend) em seu ser: por um lado a sua (pré-teórica) compreensão-de-si cresce em um mundo já interpretado e em um correspondente universo vocabular; por outro lado, pode expressar-se em significações a que acrescem locuções verbais (HEIDEGGER, 1976a; 1994c). Em todos os atos de fala, inclusive nos que são dominados pela pretensão de dizer a verdade sobre algo, “sempre é co-desvelado o Dasein mesmo”, pois “falar é expressar-se” e o modo como eu, o falante, me sinto torna-se co-manifesto na fala viva (HEIDEGGER, 1994c, p. 288; 363; 1924, p. 69-106; 1994b, p. 317). Os proferimentos se fundam em um estar-manifesto antepredicativo a partir do “como” da totalidade dos entes, o qual não apreendemos expressa e propriamente (HEIDEGGER, 1983; 1992).

A esta altura da exposição, caberia a explicitação do nexo de “eu” com os advérbios “aqui” e “agora”. Em obediência ao limite de páginas este capítulo, remeto o leitor às páginas 312 e seguintes do livro Ser-no-mundo e consciência-de-si (ARENHART, 2004). Basta registrar aqui que esses advérbios “não são primariamente determinações de lugar dos entes intramundanos simplesmente dados em posições espaciais”; eles “têm em seu sentido relação ao ‘eu’ qua Dasein mesmo”; eles têm “primariamente significação existencial, não categorial” (HEIDEGGER, 1994c, p. 343; 1977a, p. 119). O enunciado “estou agora aqui” pode expressar adequadamente o mesmo fenômeno que o enunciado ontológico “eu sou” (KOCH, 1990, p. 37). Referindo-se a si mesmo, Dasein sabe, a priori e com “certeza agostiniana” (HEIDEGGER, 1995a, p. 298; 1994c, p. 437), o “conteúdo” explicitado na frase “eu estou agora aqui”; em outras palavras, “sabe a priori que ele mesmo é um quadro de referência para a identificação indexical de particulares potenciais” (KOCH, 1990, p. 36-39).

 

Considerações finais

 

Em resposta a uma diretiva metodológica do Professor Ernildo Stein, o texto registra um exercício de escavação e de argumentação para razoabilizar a tese de que a analítica existencial de M. Heidegger se realiza como analítica da linguagem. O foco é a regra de uso do pronome “eu”, simultaneamente, para a analítica da linguagem, o caminho que conduz à solução do problema da consciência-de-si imediata, e, para a analítica da existência, o termo necessariamente subentendido em um dos existenciais determinantes do ser-aí-no-mundo, o sum. A empreitada teórica aqui consignada foi possível pela mediação de um conceito criado pelo próprio Heidegger, o conceito de “indício formal não-cogente”.

O/a leitor/a poderia levantar a objeção ao texto de que ele seria mais compreensível se apresentasse, na entrada, uma explicação sintética, à maneira dos filósofos analíticos, da utilização do pronome “eu”. Para suprir essa falta, o/a leitor/a poderá se valer do livro Ser-no-mundo e consciência-de-si (ARENHART, 2004).

O conceito heideggeriano de indícios formais, aqui usado para aproximar a analítica existencial da analítica da linguagem, detém um potencial reflexivo extensível a outras áreas de conhecimento, por exemplo, o Direito (COSTA, 2015).

 

Referências

 

ARENHART, L. O. Ser-no-mundo e consciência-de-si. Uma leitura dos escritos fenomonológicos de Martin Heidegger a partir de um conceito filosófico-analítico plausível de consciência-de-si imediata. Porto Alegre: EDIPURS, 2004.

 

COSTA, M. C. O método dos indícios formais de Martin Heidegger e a contribuição da moral como condição de possibilidade de uma adequada aplicação do Direito. Tese de doutorado em Direito, UNISINOS, 2015. Disponível em:

http://www.repositorio.jesuita.org.br/bitstream/handle/UNISINOS/518

8/Marcelo%20Cacinotti%20Costa_.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 18 dez. 2019.

 

FRANK, M. Selbstbewusstsein und Selbsterkenntnis. Essays zur analytischen Philosophie der Subjektivität. Stuttgart: Philipp Reclam, 1991.

 

FRANK, M. (hrsg.). Analytische Theorien des Selbstbewusstseins. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1994.

 

FRANK, M. “É a subjetividade um ‘absurdo’?: algumas dificuldades da redução naturalista da consciência-de-si”. In: DE BONI, L. (org.). Finitude e transcendência: Festschrift em homenagem a Ernildo Stein. Petrópolis: Vozes, 1996.

HEIDEGGER, M. (Vol. 1) “Die kategorien- und bedeutungslehre des Duns Scotus”. In: Frühe Schriften - Gesamtausgabe. Band 1. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1978. p. 189-454.

 

HEIDEGGER, M. Grundprobleme der Phänomenologie. Vol. 58: WS, 1919/20. In: Gesamtausgabe. Band 58. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1993.

 

HEIDEGGER, M. Phänomenologie des religiösen Lebens. Vol. 60: I -WS, 1920/21; II - SS, 1921; III – 1918/19. In: Gesamtausgabe. Band 60. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1995a.

 

HEIDEGGER, M. Phänomenologische Interpretationen zu Aristoteles. Einführung in die phänomenologische Forschung. Vol. 61: WS, 1921/22. In: Gesamtausgabe Band 66. 2. Aufl. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1994a.

 

HEIDEGGER, M. Wegmarken. Vol. 9. In: Gesamtausgabe. Band 9. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1967.

 

HEIDEGGER, M. Ontologie: Hermeneutik der Faktizität. Vol. 63: SS, 1923. In: Gesamtausgabe. Band 63. 2. Aufl. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1995b.

 

HEIDEGGER, M. Eiführung in die Phänomenologische Forschung. Vol. 17: WS, 1923-1924. In: Gesamtausgabe. Band 17. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1994b.

 

HEIDEGGER, M. Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie. Sommer-Semester 1924, Marburg/L. (Fotocópia do original ainda não editado).

 

HEIDEGGER, M. Platon: Sophistes. Vol. 19: WS, 1924/1925. In: Gesamtausgabe. Band 19. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1992.

 

HEIDEGGER, M. Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegriffes. Vol. 20: SS, 1925. In: Gesamtausgabe. Band 20. 3. Aufl. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1994c.

 

HEIDEGGER, M. Sein und Zeit. In: Gesamtausgabe. Band 2. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1977a.

HEIDEGGER, M. Der deutsche Idealismus (Fichte, Schelling, Hegel) und die philosophische Problemlage der Gegenwart. Vol. 28: SS, 1929. In: 28. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1997b.

 

HEIDEGGER, M. Die Grundbegriffe der Metaphysik. Vol. 29/30: WS, 1929/30. In: Gesamtausgabe. Band, Band 29/30. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1983.

 

HEIDEGGER, M. Logik – Die Grundfrage nach der Wahrheit. Vol. 21. In: Gesamtausgabe, Band 21. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1976.

 

HUSSERL, E. Investigaciones Lógicas, 1. Madrid, Alianza, 1999.

 

KOCH, A. F. Subjektivität in Raum und Zeit. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1990.

 

LEHMANN, K. “Christliche Geschichtserfahrung und ontologische Frage beim jungen Heidegger”. In: PÖGGELER, O. (hrsg.). Heidegger. Perspektiven zur Deutung seines Werks. Köln Berlin, Kiepenheuer & itsch, s/d.

 

PÖGGELER, O. Die Krise des phänomenologischen Philosophiebegriffs. In: JAME, Christoph & PÖGGELER, Otto (hrsg.). Phänomenologie im Widerstreit. I. Aufl. – Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1989. p. 255-276.

 

RORTY, R. Ensayos sobre Heidegger y otros pensadores contemporâneos. Barcelona: Paidós, 1993.

 

STEIN, E. A caminho de uma fundamentação pós-metafísica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.

 

TUGENDHAT, E. Selbstbewusstsein und Selbstbestimmung. Frankfurt am Main: Surkamp Verlag, 1979.