Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Demétrio Alves Paz e Jeize de Fátima Batista · Capítulo 6 de 17

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Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Parte II . Pesquisa

Fala, favela: memória e trauma

 

em Becos da memória (2006),

 

de Conceição Evaristo

 

Luiz Carlos Felipe1

 

Considerações iniciais

 

São três os objetivos deste capítulo. Primeiramente, investigar a representação da pobreza (e do espaço “favela”) na literatura brasileira contemporânea. Para isso, constituí uma espécie de contracânone ou “cânone preto”, incluindo obras como Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), Cidade de Deus (1997) e Becos da memória (2006), por exemplo. Em seguida, passo a caracterizar esse devir-favela na obra em prosa de Conceição Evaristo: sua “escrevivência”, seus recursos e efeitos. Por último, analiso a importância dos personagens Maria-Nova e Negro Alírio (vistos aqui como os “novos bárbaros”) para o resgate, via memória coletiva, da “experiência traumática” da escravidão e do desfavelamento dos quais são testemunhas/vítimas os personagens de Becos da memória.

O lugar que a sociedade brasileira reserva a uma mulher intelectual negra ainda é obviamente (para empregar um clichê largamente utilizado pela teoria contemporânea) o das margens, raras vezes ela e sua obra ocupam o centro do debate. Isso nos faz pensar nos infortúnios pelos quais a produção literária de Conceição Evaristo passa, desde a preparação dos originais até a publicação, depois as dificuldades de distribuição e divulgação (até o momento seus livros são publicados por editoras pequenas e sem verba suficiente para pôr as suas obras nas livrarias de todo o país). Foram essas dificuldades que deixaram Becos da memória engavetado por quase 20 anos! Em depoimento a Machado (2014, p. 258), a escritora revela-nos os problemas financeiros enfrentados à época da publicação do seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio (2003):

 

A Mazza eu já conhecia há anos, a pessoa Mazza [Maria Mazarello

Rodrigues], a dona da editora, porque ela é mineira, eu também. […] A

editora Mazza teve uma importância muito grande na história do Movimento

Negro porque foi a primeira editora a trabalhar [especificamente] com

autores negros. Então eu […] resolvi perguntar se ela não queria publicar

Ponciá Vicêncio. Só que a Mazza não é uma grande editora, quer dizer, hoje

está até maior, mas naquela época não era uma grande editora. Então, na

verdade, ela aceitou publicar, mas eu tinha que bancar. Então eu fiz um

empréstimo bancário, levei mais de um ano pagando, no vermelho, e

publiquei Ponciá Vicêncio.

 

Eu gostaria, antes de iniciar as análises da obra Becos da memória, de retomar esta pergunta de Roberto Schwarz: “[…] como se define e representa a pobreza nas letras brasileiras?”. Com ela o eminente crítico literário abre a apresentação para o volume “Os pobres na Literatura Brasileira”, publicado em 1983. Há exatos 38 anos, Schwarz considerava necessário, ainda, lembrar que:

 

[…] as crises da literatura contemporânea e da sociedade de classes são

irmãs, e que a investida das artes modernas contra as condições de sua

linguagem tem a ver com a impossibilidade progressiva, para a consciência

atualizada, de aceitar a dominação de classe. Assim, num sentido que não

está suficientemente examinado, a situação da literatura diante da pobreza é

uma questão estética radical (SCHWARZ, 1983, p. 8).

 

Considerando essa perspectiva teórica, seria necessário acrescentar – a fim de se fazer justiça ao projeto literário de Conceição Evaristo – a questão da raça e do gênero que configura a maneira como a sua obra representa a pobreza e, em particular, a condição da mulher negra e favelada. Passadas mais de três décadas, esse tema continua recebendo a atenção por parte de escritores e escritoras brasileiros que, de maneira diversa, mostram a atualidade e as nuances políticas e estéticas as quais permeiam o enredo (e, por que não dizer, a recepção por parte de um público leitor cada vez mais eclético e politizado) dessas publicações. Se elaborássemos uma rápida lista de obras cujo foco fosse o pobre, a favela ou a pobreza, deveríamos citar hoje títulos como Quarto de

despejo 2 : diário de uma favelada (1960, 10. ed., 2014), de Carolina Maria de Jesus, Subúrbio (1994, 2. ed., 2006), de Fernando Bonassi, Cidade de Deus (1997, 2. ed., 2002), de Paulo Lins, Capão Pecado (2000, 2. ed., 2005, 3. ed., 2016), de Ferréz, Inferno (2000, 2. ed., 2010), de Patrícia Melo e Becos da Memória (2006, 2. ed., 2013), de Conceição Evaristo. O que aproxima esses textos é o fato de todos tematizarem experiências violentas, traumáticas ou degradantes nas quais personagens, em uma determinada situação limite, enfrentam tensões e fracassos advindos de projetos modernizantes de uma gestão pública corrupta e falida que geraram o colapso de novas formas inclusão social. O que os singulariza é o trabalho com a linguagem, a forma como cada escritor ou escritora define, literariamente, esse espaço e examina os conflitos humanos por meio de personagens inspirados, quase sempre, em homens e mulheres reais.

Historicamente, a palavra “favela” referia-se a um tipo de leguminosa, um vegetal que recobria um local batizado de “Morro da Favela”, situado perto da cidade de Canudos, onde se desenrola o enredo da obra “Os sertões” (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909). É, a partir desse registro, que o vocábulo passa a ser empregado com um determinado sentido geográfico e associado a morro:

 

E no primeiro momento, antes que o olhar pudesse acomodarse àquele montão de casebres, presos em rede inextrincável de becos estreitíssimos e dizendo em parte para a grande praça onde se fronteavam as igrejas, o observador tinha a impressão exata, de topar, inesperadamente, uma cidade vasta. Feito grande fosso escavado, à esquerda, no sopé das colinas mais altas, o Vaza-Barris, […] a casaria compacta em roda da praça, a pouco a pouco se ampliava distendendo-se, avassalando os cerros para leste e para o norte até às últimas vivendas isoladas, distantes, como guaritas dispersas – sem que uma parede branca ou telhado encaliçado quebrasse a monotonia daquele conjunto assombroso de cinco mil casebres impactos numa ruga de terra. […] Aí caía a encosta de um esporão do morro da Favela, avantajando-se até ao rio, onde acaba em corte abrupto. […] (CUNHA, 1995, p. 223-224).

Ao retornarem ao Rio de Janeiro, em 1897, ex-combatentes da Guerra de Canudos acabam por estabelecer-se em um local que passa a ser conhecido como “Morro da Favela”, mais tarde rebatizado como Morro da Providência. Segundo Medeiros (2007), a favela veio a instalar-se nas proximidades de um antigo cortiço, o “Cabeça-de-Porco”, destruído em 1893. Os antigos moradores despejados juntam-se aos soldados e dessa maneira dão início a um novo tipo de habitação “herdando, também, o estigma de violência e precariedade que definia a vida no cortiço” (MEDEIROS, 2007, p. 278).

Entre os modernistas, havia um interesse por esse novo espaço habitacional e suas peculiaridades. Tarsila do Amaral, por exemplo, tem um quadro chamado “Morro da Favela” (1924), e Oswald de Andrade, no “Manifesto Pau-Brasil”, atribui valor estético à favela. Todavia, a favela alcançou status de best-seller apenas com Carolina Maria de Jesus, que, ao ter o seu Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, conseguiu esgotar em uma semana a primeira edição com dez mil exemplares. Enquanto a autora ainda estava viva, foram nove edições feitas no Brasil, sem contar a edição de bolso (1976); a obra foi traduzida para treze idiomas e circulou em quarenta países (SCHWARZ, 1983, p. 205). Trata-se de um desempenho editorial digno de nota, mesmo para os nossos padrões atuais. A autora (mulher negra, solteira, mãe, catadora de papel) faz um retrato isento de idealização da precariedade das moradias, da violência, dos maus hábitos dos vizinhos, da fome, da sua luta pela sobrevivência, morando às margens do Rio Tietê, em São Paulo, no período que vai de 1955 a 1960. Por exemplo, em 27 de dezembro de 1958, ela registra: “[…] a favela é o quarto de despejo de São Paulo. E […] eu sou uma despejada” (JESUS, 2001, p. 141). Pela primeira vez, em termos literários, temos uma inversão de ponto de vista. Agora, é a voz (e a escrita) do sujeito periférico que narra sua experiência de vida, encarando sua condição de marginalidade em relação aos “outros” que habitam espaços privilegiados da metrópole. Contudo, foram necessários quase 40 anos para que outra obra tivesse o impacto editorial e cultural que Quarto de despejo representou. Em 1997, Paulo Lins publicou Cidade de Deus, que foi recebido com extensa resenha elogiosa de Roberto Schwarz, classificando a obra como “um acontecimento” e “aventura artística fora do comum” (SCHWARZ, 1999, p. 163). São outros tempos, outras falas. As construções (casas e apartamentos) agora são de alvenaria, dotados de água e luz. Lins – que foi morador da comunidade – apresenta-nos um retrato poético e caótico dessa espetacular “neofavela”:

 

Aqui agora uma favela, a neofavela de cimento, armada de becos-bocas, sinistros-silêncios, com gritos-desesperos no correr das vielas e na indecisão das encruzilhadas. Os novos moradores levaram lixo, latas, cães vira-latas, exus e pombagiras em guias intocáveis, dias para se ir à luta, soco antigo para ser descontado, restos de raiva de tiros, noites para velar cadáveres, resquícios de enchentes, biroscas, feiras de quartas-feiras e as de domingos, vermes velhos em barrigas infantis, revólveres, orixás enroscados em pescoços, frango de despacho, samba de enredo e sincopado, jogo do bicho, fome, traição, mortes, jesus cristo em cordões arrebentados, forró quente para ser dançado, lamparina de azeite para iluminar o santo, fogareiros, pobreza para querer enriquecer, olhos para nunca ver, nunca dizer, nunca, olhos e peito para encarar a vida, despistar a morte, rejuvenescer a raiva, ensanguentar destinos, fazer a guerra e para ser tatuado. (…) Levaram também as pipas, lombo para polícia bater, moedas para jogar porrinha e força para tentar viver. Transportaram também o amor para dignificar a morte e fazer calar as horas mudas (LINS, 1997, p. 17-18).

 

Nessa versão mais contemporânea, Lins registra uma variada alteração no microcosmo da neofavela, diversificada sob aspectos religiosos, raciais, etários e morais, por exemplo. Todavia, uma parcela de seus moradores passa a ser submetida às regras impostas pelo tráfico de drogas e às ações violentas resultantes do comando do crime organizado. Com isso, surgem as tensões polarizadas entre asfalto e morro, civilização e barbárie, polícia e traficante, as quais permanecem atuantes em nosso imaginário. Não só a literatura, evidentemente, mas o cinema, a internet, a música, a pintura, a dança e a arquitetura expressam e fixam – mas também podem desconstruir – um modo de olhar a favela, uma vez que ela:

 

[…] simboliza, ainda, as desigualdades e injustiças sociais causadas pelo sistema político e econômico vigentes. Esse lugar pode gerar sentimentos como medo, repulsa, dependendo da posição de quem o focaliza. Uma

marca da produção literária brasileira contemporânea é exatamente a

representação da favela e do modo de vida a ela associado por seus

moradores, o que aponta para perspectivas menos idealistas ou

preconceituosas em relação a esse espaço (MEDEIROS, 2007, p. 281).

 

Essas manifestações colaboram para que os moradores dessas comunidades possam ocupar o lugar de sujeitos, pelo menos no que diz respeito à sua representação por meio da oralidade, do corpo ou da escrita.

 

A sedução da memória: uma

 

introdução

 

A memória coletiva e o trauma são temas cada vez mais discutidos no âmbito das artes. Esses tópicos de análise estão ganhando espaço sobre diversos modos de discussão. E, a partir dos anos 60, com a perspectiva da Nova História, há uma abertura acadêmica para as questões relacionadas à memória e ao trauma, com trabalhos expressivos nas áreas da arquitetura, do cinema e da literatura. Atualmente, tem-se uma discussão sobre restaurações de prédios, construções de monumentos, centros e museus, que aludem a grandes traumas históricos, como o Holocausto, a Guerra do Vietnã, o bombardeio em Hiroshima, a escravidão, as ditaduras na América Latina, entre outros. O crítico alemão Andreas Huyssen afirma que, em nosso tempo, estamos “seduzidos pela memória” e que deixamos de viver a era do “futuro-presente”, passando a vivenciar a época do “passado-presente” (HUYSSEN, 2000, p. 17). Em seu modo de ver a questão, a indústria cultural apossou-se das memórias e as transformou em mercadoria. Nem sempre, nesse caso, o compromisso será com a memória, mas com uma noção de realidade equivocada que se infiltra no imaginário coletivo. Huyssen afirmará, com base nas reflexões iniciadas por Sigmund Freud, que, ao invés dessas rememorações trazerem à tona a memória, o resultado vem a ser, justamente, o esquecimento:

[…] E se as relações entre memória e esquecimento estiverem realmente sendo transformadas, sob pressões nas quais as novas tecnologias da informação, as políticas midiáticas e o consumismo desenfreado estiverem começando a cobrar seu preço? Afinal, e para começar, muitas das memórias comercializadas em massa que consumimos são “memórias imaginadas” e, portanto, muito mais facilmente esquecíveis do que as memórias vividas. Mas Freud já nos ensinou que a memória e o esquecimento estão indissolúvel e mutuamente ligados; que a memória é apenas uma outra forma de esquecimento e que o esquecimento é uma forma de memória escondida. (…) (HUYSSEN, 2000, p. 18).

 

O sentido de “memórias vividas” é o que me interessa no estudo que deu origem a este capítulo. No contexto atual, ganham cada vez mais força as manifestações literárias contadas/narradas por moradores de comunidades carentes (quilombolas, aldeias indígenas, favelas, ribeirinhos, assentamentos, periferias etc.) que registram a experiência vivenciada em territórios dominados pela violência discriminatória, cuja ênfase ora pode ser étnica, ora de classe ou de gênero. Esse tipo de literatura recupera uma memória coletiva que quase sempre gira em torno de um trauma, causado pelo sistema político-social vigente. A obra Becos da memória resgata tanto um passado mais recente (o desfavelamento e a reurbanização das cidades) quanto episódios ligados à escravidão e às guerras protagonizadas pelo povo negro. Possui, evidentemente, traços autobiográficos em relação à infância e adolescência de Conceição Evaristo, mas não se restringe apenas ao registro fiel dos eventos. Não podemos ignorar a elaboração estética com a qual a autora constrói a narrativa a fim de contar a história de Maria-Nova, Maria-Velha, Vó Rita, a Outra, Cidinha-Cidoca (que depois vira Cidinha-Cidoca-Maria-Minhoca), Ditinha, Mãe Joana, Filó Gozogênia, Tio Totó, Negro Alírio, o Bondade, Louco Luisão da Serra, Tio Tatão, Pedro da Zica, entre outros personagens. Ao resgatar tais experiências vividas, Evaristo acaba por dar um excelente exemplo da definição de Huyssen, que entende “memória vivida” como sendo:

 

[…] ativa, viva, incorporada no social – isto é, em indivíduos, famílias, grupos, nações e regiões. Estas são as memórias necessárias para construir futuros locais diferenciados num mundo global. […] A memória é sempre

transitória, notoriamente não confiável e passível de esquecimento; em suma

ela é humana e social (HUYSSEN, 2000, p. 36-37).

 

Mas como manter essa memória viva? Como garantir que o passado inteiro de um povo não caia no esquecimento? Em Becos da memória, essa missão fica sob a responsabilidade da jovem Maria-Nova. Observar, escutar, analisar a vida e a história de seus vizinhos acaba por gerar uma irreversível tomada de decisão:

 

Sim, ela iria adiante. Um dia, agora ela já sabia qual seria a sua ferramenta,

a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar vozes, os

murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e

de todos. Maria-Nova um dia escreveria a fala de seu povo (EVARISTO,

2013, p. 247).

 

Memória e trauma em Becos da

 

memória

 

Até o século XIX, o conceito de “trauma” restringia-se a um machucado físico que era tratado pela medicina tradicional. Foi a partir da observação de uma série de “sintomas” presentes em indivíduos submetidos ou expostos a um evento de extremo sofrimento e violência que se chegou à noção de “experiência traumática”:

 

A experiência traumática é, para Freud, aquela que não pode ser totalmente

assimilada enquanto ocorre. Os exemplos de eventos traumáticos são

batalhas e acidentes: o testemunho seria a narração não tanto desses fatos

violentos, mas da resistência à compreensão dos mesmos. A linguagem

tenta cercar e dar limites àquilo que não foi submetido a uma forma no ato da

sua recepção. Daí Freud destacar a repetição constante, alucinatória, por

parte do “traumatizado” da cena violenta: a história do trauma é a história de

um choque violento, mas também de um desencontro com o real (em grego,

vale lembrar, “trauma” significa ferida) (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 48-49).

 

Não há como isolar a ideia de trauma dos processos de formação da sociedade brasileira, uma vez que esses processos se configuram violentos, autoritários e excludentes – e dos quais a escravidão é apenas um exemplo. O ensaísta Márcio Seligmann-Silva reforça essa percepção, lembrando-nos:

 

Aprendemos que o elemento traumático do movimento histórico penetra nosso presente tanto quanto serve de cimento para nosso passado, e essas categorias temporais não existem sem a questão da sua representação, que se dá tanto no jornal, na televisão, no cinema, nas artes, como na fala cotidiana, nos nossos gestos, sonhos e silêncios, e, enfim, na literatura (SELIGMANN-SILVA, 2005, p. 64).

 

Para refletir sobre a relação entre trauma e literatura, enfocarei o modo como esses processos autoritários impactam a constituição do texto literário e de seus personagens na obra Becos da memória (2006). Em suma, esses traumas culturais coletivos e a memória coletiva se sobrepõem, na medida em que um depende do outro para constituir-se. A memória é o que permite que os personagens tenham alguma ligação com o passado e, portanto, com as suas próprias origens. Aos olhos de Maria-Nova, por exemplo, os velhos Tio Tatão, Vó Rita e Tio Totó davam a impressão de sempre estar ali, “de que geraram a favela”. Todavia, ao mesmo tempo, essa memória é extremamente traumática, pois evoca a crueldade do sistema escravocrata, a privação da liberdade e o abandono proposital por uma parte da elite branca brasileira. É, portanto, uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que essa memória permite conhecer o passado, ela revela o quanto esse passado é doloroso.

É exemplar para a compreensão dessa ideia os fragmentos da narrativa que compõem a história de Negro Alírio. Desde muito cedo, o personagem observa as injustiças sofridas por ele e pela sua comunidade. É, no entanto, a garantia do acesso à leitura e à escrita que oferecem ao jovem as ferramentas para superar a “experiência traumática” da escravidão. A narradora revela-nos de um modo muito singular o acesso à leitura de Negro Alírio:

 

[…] Um dia aprendera a ler. A leitura veio aguçar-lhe a observação. E da observação à descoberta, da descoberta à análise, da análise à ação. E ele se tornou um sujeito ativo, muito ativo. Não era um mero observador, um enamorado das coisas e do mundo. Era um operário, um construtor da vida (EVARISTO, 2013, p. 79).

Esse personagem é marcado por um caráter reivindicativo, justiceiro, manifestação do guerreiro negro. Um elo, portanto, com uma parte da história da escravidão contada por aqueles que desafiaram o poder, questionaram as regras de submissão impostas pelo regime colonial, personificaram a liberdade possível. Negro Alírio encarrega-se de inventar um futuro melhor para si e para seu povo, e essa marca pessoal chama imediatamente a atenção de Maria-Nova:

 

Ele disse se chamar Negro Alírio. Negro deveria ser apelido e Alírio o nome,

mas ele dissera Negro Alírio. Gostou de ouvir a palavra negro pronunciada

por um negro, pois o termo negro, ela só ouvia na voz de branco, e só para

xingar: negro safado, negro filho da puta, negro baderneiro e tantos defeitos

mais! (EVARISTO, 2013, p. 133).

 

Nascido em uma pequena cidade do interior, o jovem não entende por que um único homem detém o poder político e financeiro do local, em detrimento dos demais moradores que, apesar de trabalharem na terra todos os dias, não conseguem ter mais que o básico para sobreviver. Pouco a pouco ele começa a entender o funcionamento desse mecanismo, o poder mantido à base de coerção e imposição. A memória coletiva está presente ao longo dessa tomada de consciência, como é possível notar neste trecho:

 

Um dia, o Homem, que, na época, era ainda um pouco mais que um menino,

já de noite, tomava banho no rio, quando viu alguns homens chegarem

carregando uma pessoa que parecia morta e jogá-la nas águas do rio.

Reconheceu que eram os homens, os capangas do Coronel. […] O Homem,

quando ainda menino, ao testemunhar o fato, sentiu que ali havia algum

perigo. […] Naquela noite ele não dormiu, pensou o tempo todo em dois

fatos: um, era aquele que acabara de testemunhar – um homem sendo

lançado ao rio pelos capangas do Coronel –; o outro, um fato que seus pais

lhe contaram um dia. Ele tivera um bisavô que tinha uma ferida na perna. […]

Já velho, inútil para o trabalho, peso morto, ficava sentado, e a ferida

exposta aos mosquitos, além do cheiro e da dor. Sempre que o Sinhô moço

passava por ele, fazia questão de chutar a ferida do velho. Ele apenas gemia

“ui, ui, ui,.. Sinhô-moço!”. Depois, muitos anos depois, uma ferida apareceu

na perna de Sinhô-moço, na mesma perna, no mesmo lugar. […] Os negros

diziam que era castigo de Deus. E ficavam felizes porque tinham um Deus

que se vingava por eles e que um dia lhes daria o reino do céu (EVARISTO, 2013, p. 83-85).

 

Esse fragmento denuncia a longa linhagem dos desmandos das grandes oligarquias brasileiras e seu modo desumano de impor o poder sobre os negros, submetidos à violência de coronéis e seus capangas. Mas como traduzir pela linguagem a dor e a submissão impostas ao povo negro? Como dizer o indizível sem que pareça tratar-se apenas de um documento? O crítico Seligmann-Silva lembra que “o sobrevivente é aquele que reencena a criação da língua” (2003, p. 52), isto é, ao reencontrar-se com os horrores da escravidão, Evaristo remete o leitor a duas imagens aterradoras desse período: os corpos de negros e negras boiando nas águas do “Rio dos Mortos” e a ferida na perna do bisavô de Negro Alírio. Esteticamente elaborado, o grotesco dessa cena fixa-se na viva metáfora da “ferida”, e as suas camadas simbólicas são frequentemente retomadas pela narradora, sendo fundamental para a compreensão dos laços de tensão histórica passado-presente que perpassam a obra.

Em outro momento da narrativa, Negro Alírio diz que é necessário “pôr o dedo na ferida”: “E mais ainda acreditou que era preciso pôr o dedo na ferida. Não na ferida de seu povo, mas na ferida do povo contrário ao seu.” (EVARISTO, 2013, p. 86-87). E continua: “Seria hoje que ele poria o dedo na ferida dos que estavam do lado de lá. A ferida dos seus já estava sangrando há muito tempo” (p. 86-87). Na sequência, a narradora repete a imagem: “Dias depois, naquela época, mais dois fatos sangraram a ferida do Homem […]” (EVARISTO, 2013, p. 88). Dificilmente conseguiremos assimilar o trauma na totalidade da carga emocional que o pressupõe, haja vista que as palavras, como lembra Aleida Assmann, não incorporam o trauma nelas mesmas:

 

Palavras não podem representar essa ferida memorativa do corpo. Ante o trauma, a linguagem comporta-se de forma ambivalente. Há a palavra mágica, estética, terapêutica, que é efetiva e vital porque bane o terror, e há a palavra pálida, generalizadora e trivial, que é a casca oca do terror (ASSMANN, 2011, p. 278).

Por essa razão, o termo “ferida”, ao mesmo tempo em que representa o trauma e a violência de uma imposição de poder e de controle que passa por gerações, vai sendo repetido e ressignificado a fim de lembrar da experiência dolorosa e sepultar essa recordação. Ao tomar conhecimento dessa história, pela fala do personagem Bondade, Maria-Nova experimenta uma imensa tristeza (“banzo”). Intencionalmente, a narrativa funde passado-presente por meio dessa luta atemporal e mítica pela liberdade e pela dignidade do povo negro protagonizada por Negro Alírio – por cuja história Maria-Nova se sente atravessada:

 

[…] Mas, a menina é do tipo que gosta de pôr o dedo na ferida, não na

ferida alheia, mas naquela que ela traz no peito. Na ferida que ela herdou de

Mãe Joana, de Maria-Velha, de Tio Totó, do Louco Luisão da Serra (…)

Maria-Nova, talvez, tivesse o banzo no peito. Saudades de um tempo, de um

lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em

Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo,

a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas

as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre os

vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava

muito (EVARISTO, 2013, p. 91, grifos meus).

 

Essa dor ancestral, a saudade de sua terra e de suas tradições, esse estado latente de falta e tristeza que caracteriza o “banzo” envolvem Maria-Nova, por meio do imaginário e das memórias coletivas, nos traumas vividos pelos seus antepassados. Ela não ignora as novas formas de escravidão às quais são subjugados os moradores da “senzala-favela”. A menina, segundo a narradora, “já tinha no sangue o banzo, já guardava no peito saudades de uma vida longínqua, não vivida” (EVARISTO, 2013, p. 162). E, pela terceira vez, a narradora retoma esse abatimento, essa nostalgia do não vivido, encenados por Maria-Nova. O “banzo” como um traço de desculturação de um povo, reeditado aqui pela ameaça do desfavelamento:

 

Maria-Nova andava em dias de grande banzo. Tristeza por tudo, por fatos

recentes e passados. Tristeza por fatos que ela testemunhara e por fatos que

ouvira. O peito, o coração da menina estava inchado de dor. Era preciso

segurar a lágrima e ensaiar o riso. Saía um sorriso molhado dos olhos

úmidos. Como e quando acabaria aquilo tudo? Por que um lugar tão triste, uma vida tão desesperada e a gente se apegando tanto? […] (EVARISTO, 2013, p. 178-179).

 

Maria-nova: memória, trauma e

 

gênero

 

[…] Invento? Sim, invento, sem o menor pudor. Então, as histórias não são inventadas? Mesmo as reais, quando são contadas. Desafio alguém a relatar fielmente algo que aconteceu. Entre o acontecimento e a narração do fato, alguma coisa se perde e por isso se acrescenta. O real vivido fica comprometido. E, quando se escreve, o comprometimento (ou o não comprometimento) entre o vivido e o escrito aprofunda mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registrar estas histórias, continuo no premeditado ato de traçar uma escrevivência (EVARISTO, 2016, p. 8).

 

A personagem central de Becos da memória (2006) é a jovem Maria-Nova. Graças ao seu devir-escritora, mantém-se o registro das histórias vividas e escutadas por ela, o que, hipoteticamente, resultaria no livro que está diante de nós. No início da narrativa, ela tem apenas nove anos, porém, já trabalha com a mãe como lavadeira: “As torneiras, a água, as lavadeiras, os barracões de zinco, papelões, madeiras e lixo. Roupas das patroas que quaravam ao sol. Molambos nossos lavados com o sabão restante.” (EVARISTO, 2013, p. 29).

O aspecto mais trágico das histórias dos moradores da favela é a perturbadora aproximação do desfavelamento. O processo de despejo avança. A jovem Maria-Nova, que já está com quase 15 anos, escuta atenta o lamento de seu povo: “Tio Totó não entendia que os seus noventa e tantos anos eram necessários aos quase quinze de Mariinha” (EVARISTO, 2013, p.72). Muito perspicaz e observadora, é pela escuta que Maria-Nova compreende o que se passa ao seu redor, a situação de medo provocada pelo processo de remoção dos moradores: “Fatos estavam acontecendo, muita coisa ela percebia, mas só conseguia um melhor entendimento por meio das narrações que ouvia. Ela precisava ouvir o outro para entender.” (EVARISTO, 2013, p. 78).

É por meio dessa escuta que a personagem encontra seu modo de inserção na história do povo negro no Brasil e, consequentemente, os traumas e a memória coletiva. As “memórias vividas” de Tio Totó e Maria-Velha, tios maternos da menina, fazem parte de sua Bildung (formação). No entanto, não é apenas pelas histórias contadas por eles que Maria-Nova identifica as tensões de uma geração, de uma época. Ao frequentar a escola, a menina amplia sua percepção das disparidades presentes em seu cotidiano e dos mecanismos sociais que oprimem pobres e negros:

 

Nessa época, ela iniciava seus estudos de ginásio. Lera e aprendera

também o que era casa-grande. Sentiu vontade de falar à professora. Queria

citar como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como senzala,

a favela onde morava. Ia abrir a boca, olhou a turma e a professora.

Procurou mais alguém que pudesse sustentar a ideia, viu a única colega

negra que tinha na classe. Olhou a menina, porém ela escutava a lição tão

alheia como se o tema escravidão nada tivesse a ver com ela. Sentiu certo

mal-estar. Numa turma de quarenta e cinco alunos, duas alunas negras, e,

mesmo assim, tão distantes uma da outra. Fechou a boca novamente, mas o

pensamento continuava. Senzala-favela, senzala-favela! (EVARISTO, 2013,

p. 104).

 

O mundo interior de Maria-Nova, alimentado por histórias e pela íntima observação do mundo da favela, era mais complexo que o oferecido pela escola. Infelizmente, o episódio cruel envolvendo seus antepassados era contado do ponto de vista dos vencedores pelos livros didáticos. O trauma da escravidão e, agora, da expulsão dos moradores da favela não ganha espaço na aula de História da professora, comprometida com uma visão eurocêntrica e distanciada dos fatos vividos pela jovem:

 

Na semana anterior, a matéria estudada em História fora a “Libertação dos

Escravos”. Maria-Nova escutou as palavras da professora e leu o texto do

livro. A professora já estava acostumada com as perguntas e com as

constatações da menina. Esperou. Ela permaneceu quieta e arredia. A

mestra perguntou-lhe qual era o motivo de tamanho alheamento naquele dia.

Maria-Nova levantou-se dizendo que, sobre escravos e libertação, ela teria

para contar muitas vidas. Que tomaria a aula toda e não sabia se era bem

isso que a professora queria. Tinha para contar sobre uma senzala que, hoje,

seus moradores não estavam libertos, pois não tinham nenhuma condição

de vida. A professora pediu que ela explicasse melhor, que contasse em mais detalhes. Maria-Nova fitou a professora, fitou seus colegas, havia tantos, aliás, alguns eram até amigos. Fitou a única colega negra da sala e lá estava Maria Esmeralda entregue à apatia. Tentou falar. Eram muitas as histórias, nascidas de uma outra História que trazia vários fatos encadeados, consequentes, apesar de muitas vezes distantes no tempo e no espaço. […] Maria-Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma História muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou-se e, pela primeira vez, veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado, gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente (EVARISTO, 2013, p. 209-211).

 

Mas a garota está ciente de que sua vida e a dos seus não estão nos livros. Ela percebe, desse modo, toda carga de exclusão cultural e histórica à qual está submetida apenas por ser mulher e negra no Brasil. Mas é uma descoberta solitária. Ela não pode dividir essa angústia nem com Maria Esmeralda, sua única colega negra na sala. Imperceptivelmente, abre-se uma nova “ferida” aqui. Ela retoma a história do bisavô de Negro Alírio sobre outro foco, ou seja, como as instituições formalizam uma violência epistemológica censurando ou controlando a memória coletiva, desautorizando determinadas versões dos fatos. A solução seria Maria-Nova reescrever essa história, mudar o foco presente nos livros, alterar e (por que não?) afrocentrar os saberes epistemológicos.

No ambiente familiar, porém, impera um otimismo, uma esperança. A mãe e os tios acreditam em uma vida diferente para a jovem: “Lembrou de Tio Totó e Maria-Velha. Pensou que seria velha um dia. O que seria quando crescesse? Mãe Joana, Maria-Velha, Tio Tatão, todos diziam que a vida para ela seria diferente. Seria?! Afinal ela estava estudando”. (EVARISTO, 2013, p. 155). Tio Tatão explica para a sobrinha:

 

Nossa gente não tem conseguido quase nada. Todos aqueles que morreram sem se realizar, todos os negros escravizados de ontem, os supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós, que consegue viver, que consegue se realizar. A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se libertar, vão se realizar por meio de você. Os gemidos estão sempre presentes. É preciso ter os ouvidos, os olhos e o coração abertos (EVARISTO, 2013, p. 156).

A escola, assim, é vista pelos familiares da personagem como um espaço de possível ascensão social e econômica, no qual é possível construir um caminho para uma vida diferente. Diferente do quê, exatamente? Maria-Nova empreende uma busca constante pela compreensão da realidade ao seu redor. A visão da escola, parcial, excludente, desagrada a jovem e não combina com sua tentativa de um modo de vida diferente daquela imposta pela sua condição social. Em seu projeto de uma nova existência não há espaço para a imitação do comportamento conformista das matriarcas Mãe Joana, Maria-Velha, por exemplo. Maria-Nova, tal como foi concebida pela autora, configura a força motriz de um permanente estado de insubordinação e de resistência aos devires traumáticos com os quais a jovem aprende a ler os sinais que constituem a sua história particular.

 

Considerações finais

 

O percurso teórico seguido neste capítulo visou, entre outras possibilidades, a compreensão acerca de como os processos narrados em Becos da memória (2006) encontram eco na história da formação do Brasil e, consequentemente, na Literatura Brasileira. Tomando por base textos de áreas do conhecimento distintas como História, Antropologia e Teoria Literária, procurei traçar uma cartografia cuja finalidade fosse analisar como os sujeitos negros vêm sendo representados pela literatura a partir de 1960. A percepção das sucessivas “experiências traumáticas” vividas pela população africana e afro-brasileira espoliada de sua terra, cultura, língua, religião e dignidade orientou minha escolha sobre as categorias de análise que tivessem os conceitos de memória e trauma em sua base. Era preciso investigar como essa história violenta e excludente foi/é transmitida de uma geração a outra, propagando-se por meio da oralidade e da escrita. Foram fundamentais nesta investigação os estudos teóricos sobre a memória de Huyssen (2000), além das imprescindíveis observações críticas sobre o trauma verificadas em Seligmann-Silva (2003; 2005) e Assmann (2011).

As conclusões possíveis observadas a partir da relação entre trauma e memória coletiva presentes no texto de Conceição Evaristo constituíram-se, por sua vez, na base para a reflexão sobre a Bildung (formação), a alteridade desses sujeitos que, habitando as margens (da história, da cidade, do discurso etc.), são forçados a imitar um modelo único de vida. Nessa perspectiva, buscando compreender a identidade desse sujeito marcado por camadas de sujeição a padrões sociais e culturais, cheguei à análise dos personagens, procurando em suas histórias e ações exemplos da problemática relação entre trauma, memória. Cada personagem do grande painel que é Becos da memória (2013) poderia constituir-se, por si só, um objeto de estudo. Cada um tem uma história tão singular, que convida o leitor a mergulhar em sua complexidade interior. Foram escolhidos, todavia, Negro Alírio e Maria-Nova por representarem de modo mais bem acabado os conceitos postos em questão neste capítulo.

Nesses tempos cruéis em que a imprensa, aliada a interesses políticos escusos, procura nos convencer de que o inimigo mora na favela, o lirismo e a tragicidade com que Conceição Evaristo estrutura seu Becos da memória têm muito a nos ensinar. Além do resgate da “memória vivida” de uma parcela expressiva da população brasileira e da tentativa de fazer esquecer a “experiência traumática” da escravidão, tanto a histórica quanto a simbólica, há mais um importante mérito deste livro: seu caráter pedagógico. Esse traço marcante na literatura afro-brasileira é uma resposta de seus autores e autoras a todo um sistema que, historicamente, nega (restringe ou dificulta) o acesso de negros e negras ao conhecimento e a uma formação escolar digna, com um currículo minimamente afrocentrado. Maria-Nova (em seu devir-escritora) e Negro Alírio (em seu devir-alfabetizador) destacam-se na representação de uma Bildung negra, capaz de fortalecer a luta pela autoafirmação e pela reversão de velhos estereótipos. Movidos pela tentativa de superação do trauma, tanto Maria-Nova e seu idealismo, quanto Negro Alírio e sua luta atávica pela liberdade do corpo e da mente representam no contexto de Becos da memória novos modos de existir em meio a essa “pobreza de experiência”, ou seria, “a experiência da pobreza”. Tais como são constituídos os pensamentos e as ações de ambos poderíamos afirmar que são representantes legítimos da pujança da “nova barbárie” benjaminiana:

 

Barbárie? Sim, de fato. Dizemo-lo para introduzir um conceito novo e positivo

de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de

experiência? Ela o impele a partir para a frente, a começar de novo, a

contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem para a

direita nem para a esquerda. Entre os grandes criadores sempre existiram

aqueles implacáveis que operaram a partir de uma tábula rasa. Pois queriam

uma prancheta: foram construtores (BENJAMIN, 2012, p. 125).

 

Referências

 

ASSMANN, A. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Trad. Paulo Soethe. Campinas, SP: UNICAMP, 2011.

 

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EVARISTO, C. Ponciá Vicêncio. 2. ed. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2005.

 

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EVARISTO, C. Insubmissas lágrimas de mulheres. 2. ed. Rio de Janeiro: Malê, 2016.

 

HUYSSEN, A. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

 

JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8. ed. São Paulo: Ática, 2001.

 

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SCHWARZ, R. (org.). Os pobres na Literatura Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.

 

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SELIGMANN-SILVA, M. (org.). História, memória, literatura: o testemunho na Era das Catástrofes. Campinas, SP: UNICAMP, 2003.

 

SELIGMANN-SILVA, M. “Trauma, testemunho e literatura”. In: SELIGMANN-SILVA, M. O local da diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: 34, 2005. p. 63-120.