Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Demétrio Alves Paz e Jeize de Fátima Batista · Capítulo 7 de 17

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Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

A ética na/da violência latinoamericana: entre “plata quemada” e “feliz ano novo”

A ética na/da violência latino-

 

americana: entre “plata

 

quemada” e “feliz ano novo” 1

 

Alan Ricardo Costa 2

 

Considerações iniciais

 

A literatura contemporânea é profícua ferramenta de construção de memória e de identidade latino-americana. No caso de países que se reerguem após rupturas sociais e crises históricas resultantes de regimes ditatoriais, a memória e a construção de identidade são, pois, processos e produções potentes de denúncia e, como tais, devem ser considerados sem negligências às múltiplas formas de violência (UMBACH, 2013). A violência, enquanto problema sistêmico inerente aos países da América do Sul, foi fortemente moldada pelas ditaduras civis-militares e, ainda hoje, mesmo nas reaberturas democráticas, persiste, como uma herança maldita que não será superada ou erradicada enquanto exaustivos debates não vierem à luz, inclusive pelas artes e, pontualmente, pela ficção.

À guisa de menção aos estudos mais recentes, esse complexo construto – a violência – já foi debatido na literatura dos colombianos Gabriel García Márquez (VIEIRA, 2010) e Héctor Abad Faciolince (CARDOSO, 2013), do paraguaio Augusto Roa Bastos (CARDOSO; DÖRR, 2015), dos brasileiros Caio Fernando Abreu (UMBACH, 2016) e Ana Maria Machado (UMBACH, 2013), da nicaraguense Gioconda Belli (CARDOSO, 2018), da argentina Laura Alcoba (SANTOS, 2014), do peruano Alonso Cueto (LEIRIA; CARDOSO, 2016) e de inúmeros outros escritores e escritoras. Em comum, tais publicações contam com a denúncia às múltiplas facetas da violência (para muito além da dimensão física) e a forma como elas emergiram e impregnaram a sociedade a partir dos regimes de exceção.

Justiça seja feita: mencionar todos os escritores latino-americanos que já abordaram o referido assunto seria uma tarefa tão árdua quanto tentar quantificar o impacto da violência enquanto tema gerador de nossa literatura. Vieira (2010, p. 120) sumariza este debate explanando que falar sobre essa realidade histórica é fundamental para entender aquilo que é a América Latina, bem como para compreender por que somos assim, um continente tomado pela violência.

No presente capítulo, entender-se-á que a violência deve ser devidamente vislumbrada e tratada na literatura com vistas também ao entendimento de sua extensão ética. Ou seja, enquanto emergência de cunho filosófico, a questão ética não deixa de estar presente na ficção latino-americana do século XX e, portanto, correlacionada à violência. É adequado interpretar que a correspondência ética-violência deve ser proposta com ressalvas e cautela, mas também não pode ser negligenciada, sobretudo, quando compreendida para fins de interpretação das violências de todas as ordens praticadas durante e após períodos de ditadura: a tortura, a barbárie, a privação de liberdade… Nesse viés, o objetivo específico aqui é debater a ética na/da violência a partir da leitura de duas obras de ficção: o romance Plata Quemada, de Rubem Fonseca (2012). Para dar conta desse objetivo, as reflexões filosóficas de Marilena Chauí (1999; 2011) tecidas sobre a ética e a violência compõem o arcabouço teórico de sustentação do debate.

 

De que falamos quando o assunto é

 

ética e violência?

 

Explica Chauí (2011) que “ética” (do grego, éthiké, derivada de ta ethé) e “moral” (do latim, mores) são conceitos que abarcam, em suma, os costumes e os modos de agir de uma sociedade. Nas línguas grega – ethos – e latina – ingenium – temos essas acepções do caráter, da índole ou do temperamento individual, que deve ser educado para conformar-se aos costumes sociais definidos como corretos. Nesse viés mais clássico, a ética se ocupa “com a figura do agente ético e de suas ações e atitudes, tendo como referência seus motivos e os valores conforme aos quais uma ação ou uma atitude são consideradas eticamente corretas” (CHAUÍ, 2011, p. 379).

Temos, contudo, um possível impasse ao considerar que a ética procura definir, antes de mais nada: (1) a figura do agente ético (ser fundamentalmente racional, consciente, livre e responsável); (2) as suas ações éticas (balizadas pelas ideias de bom e mau, justo e injusto, virtude e vício…); e (3) o conjunto de noções (ou valores) que balizam o campo de uma ação que se considere ética. Afinal, uma ação ética, efetivada pelo agente, só será, de fato, ética quando virtuosa, realizada em conformidade com o bom e o justo, valores que podem ser drasticamente variáveis de uma sociedade para outra ou dentro de uma mesma sociedade ou período histórico. Isso posto, o debate sobre ética traz à tona uma vasta discussão sobre as subjetividades inerentes à complexidade da sociedade pós-moderna contemporânea.

Com efeito, a considerar o dilema dos valores sociais que constituem “uma tábua de deveres e fins”, os quais, do exterior, obrigam um agente a agir de determinada maneira, não cabe desconsiderar a(s) força(s) extrema(s) que pressiona(m) o sujeito social a agir segundo algo que não foi ditado por ele mesmo (CHAUÍ, 2011, p. 379). Destarte, urge indagar: qual o espaço da violência nesse debate? A violência (do latim vis, força):

 

significa (1) tudo o que age usando a força para ir contra a natureza de

algum ser (é desnaturar); (2) todo ato de força contra a espontaneidade, a

vontade e a liberdade de alguém (é coagir, constranger, torturar, brutalizar);

(3) todo ato de violação da natureza de alguém ou de alguma coisa

valorizada positivamente por uma sociedade (é violar); (4) todo ato de

transgressão contra aquelas coisas e ações que alguém ou uma sociedade

define como justas e como um direito; (5) consequentemente, violência é um

ato de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra alguém e

caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão,

intimidação, pelo medo e pelo terror (CHAUÍ, 2011, p. 379).

Enquanto tópico recorrente na literatura latino-americana das últimas décadas do século XX e que se mantém no século XXI (embora com fôlegos distintos e estéticas com certas especificidades), a violência é pauta constante na agenda do dia. Uma das razões mais manifestas para parte significativa de nossa produção das últimas décadas voltar-se quase exponencialmente para o estudo das formas de violência na ficção é a necessidade da denúncia. Carecemos da liberação da voz presa na garganta durante os períodos de repressão e os Anos de Chumbo, não apenas no Brasil, mas, de modo geral, nos países acuados pela presença “do Condor” e das ditaduras civis-militares.

Na interface violência/ética, há de enfatizar-se as múltiplas leituras possíveis, sendo uma delas a da dicotomia: enquanto construtos gerais, as acepções de “violência” e de “ética” são antagônicas, opostas:

 

A violência se opõe à ética porque trata seres racionais e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade como se fossem coisas, isto é, irracionais, insensíveis, mudos, inertes ou passivos. Na medida em que a ética é inseparável da figura do sujeito racional, voluntário, livre e responsável, tratá-lo como se fosse desprovido de razão, vontade, liberdade e responsabilidade é tratá-lo não como humano e sim como coisa, aplicando-lhe violência nos cinco sentidos em que demos a essa palavra (CHAUÍ, 2011, p. 379-380).

 

Nessa perspectiva, lembremo-nos das palavras de ordem comuns de setores da sociedade contemporânea: “retorno à ética” ou “necessidade de ética”, que comumente abrem alas para debates sobre a crise dos valores, como assinala Chauí (2011). Tais discursos têm, em sua gênese e arquitetura, elementos: (a) do refluxo dos movimentos e das políticas de emancipação do gênero humano, o qual gerou um vazio (que a ideologia neoliberal vem preenchendo constantemente); (b) da forma atual da acumulação ampliada do capital, que produz a dispersão e a fragmentação de grupos/classes sociais, destruindo seus antigos referenciais de identidade e de ação, e tornando complicada a criação de novos referenciais; e (c) da naturalização/valorização positiva da fragmentação e da dispersão socioeconômica, em sinergia com o estímulo neoliberal ao individualismo competitivo e ao “sucesso a qualquer preço”, de um lado, e, de outro, “como a salvação contra o egoísmo pela produção do sentimento comunitário por todas as formas religiosas de fundamentalismo” (CHAUÍ, 2011, p. 380).

Não raro desponta, então, a urgência de indagar a compatibilidade entre a panaceia geral de “retorno à ética” e o cenário de uma sociedade multi e intercultural e heterogênea. Segundo Chauí (2011), essa ética à qual se pretenderia “retornar” é mera reforma dos costumes (moralidade, portanto) e restauração de valores, e não análise das condições presentes de uma ação ética. Esse “retorno à moralidade” invariavelmente leva à dispersão de éticas (ética política, familiar, profissional, escolar e ética universitária…). Desprovida de qualquer universalidade, pois espelha, sem análise e sem crítica, a dispersão/fragmentação socioeconômica, tal “ética” reverbera em certa alienação, no sentido de ser competência específica de especialistas (as comissões de ética) que detêm o sentido das regras, das normas, dos valores e fins locais, os quais, amiúde, estão em contradição com outras localidades (CHAUÍ, 1999; 2011).

No seio dessa fragmentação social desvairada, demarcada basicamente por questões de status e classe econômica, nasce a ética como pura e simples ideologia, propícia ao exercício da violência. Sobre essa visão de ética, Chauí explana:

 

[…] significa que, em lugar da ação reunir os seres humanos em torno de

ideias e práticas positivas de liberdade e felicidade, ela os reúne pelo

consenso do mal. Com isso, a ética como ideologia é duplamente perversa:

por um lado, ela procura fixar-se em uma imagem do presente como se esse

não só fosse eterno, mas sobretudo como se existisse por si mesmo, isto é,

como se não fosse efeito das ações humanas e como se não tivesse causas

passadas e efeitos futuros, isto é, reduz o presente ao instante imediato sem

porvir; por outro lado, procura mostrar que qualquer ideia positiva do bem, da

felicidade e da liberdade, da justiça e da emancipação humana é um mal.

Em outras palavras, considera que as ideias modernas de racionalidade –

em seu sentido histórico, com abertura temporal do possível pela ação

humana, objetividade, subjetividade – teriam sido responsáveis por todo o

mal do nosso presente, cabendo tratá-las como mistificações totalitárias. A

ética como ideologia é perversa porque toma o presente como fatalidade e

anula a marca essencial do sujeito ético e da ação ética, isto é, a liberdade

(CHAUÍ, 2011, p. 381).

A segunda leitura possível sobre a interface violência/ética é aquela da qual subjaz um rompimento com a sinonímia ética-moral, quer dizer, com a acepção de referência a um conjunto de princípios e de regras cujo respeito é obrigatório e cuja transgressão é, portanto, punida (LA TAILLE; SOUZA; VIZIOLI, 2004). Tal perspectiva – que dilui o dito dilema da incongruência entre ética e violência – é rizomática e complexa a ponto de abarcar o estudo dos fenômenos e das condições implicadas em uma ação ética. E contribui para uma leitura crítica dos contextos em que, historicamente, foram tomados os caminhos suntuosos que “naturalizam” ou favorecem a violência, pela deturpação de certas noções sociais, bem como desconsideram e negligenciam “éticas” possíveis em grupos invisibilizados.

Em vista disso, em lugar de preocupar-se com subéticas, cabe tentar criar inteligibilidades sobre as condições iniciais para essas éticas em determinados contextos, ponderando, por um lado, as diferentes perspectivas humanas em questões sociais e, por outro, considerando os fatos (e fatores) sociais que levam a conflitos e a impasses entre éticas ditas antagônicas. Em suma, portanto, uma ética marginal, como talvez pudesse ser depreendida da leitura das obras Plata Quemada e Feliz Ano Novo, não seria fundamentalmente uma subética. Provavelmente seria mais uma perspectiva contra-hegemônica e crítica (no sentido de ser questionadora da verdade universal hegemônica, que não se sustenta à luz da Pós-Modernidade). Com isso, não se está colocando em questão a superação da ética por especificidades de grupos sociais ou étnico-raciais, por exemplo, mas aquilo que move tais indivíduos – agentes éticos em determinados aspectos – também é ética, no que concerne às ações balizadas por noções de um determinado contexto.

 

Entre Plata quemada e Feliz ano novo

 

Plata Quemada 3 é um romance que aborda um assalto cometido por um bando de criminosos liderado por Malito. Eventos históricos serviram de matéria-prima para a elaboração do romance de Piglia, que consultou arquivos confidenciais para produzir a obra. Milreu (2008) sumariza o enredo de Plata Quemada observando que:

 

[O romance] recria um fato que ocorreu em 1965, em San Fernando,

província de Buenos Aires. Um grupo decide assaltar, em plena tarde, um

banco e rouba o dinheiro destinado ao pagamento de funcionários

municipais e às obras de saneamento básico. Entretanto, apesar do êxito da

empreitada, a situação se complica para os assaltantes, uma vez que

decidem trair seus cúmplices e fugir com todo o dinheiro para o Uruguai,

embora o seu objetivo fosse chegar ao Brasil (MILREU, 2008, p. 19).

 

O conto Feliz Ano Novo, por sua vez, publicado na coletânea homônima de Rubem Fonseca, trata também de um assalto, seguido de outros crimes (estupro e assassinato), por parte de três marginais. Assim, Garlet (2015) sintetiza o enredo:

 

Em Feliz Ano Novo, no Rio de Janeiro, três jovens pobres encontram-se no

apartamento – igualmente pobre – do narrador-personagem, sem dinheiro,

sem comida, sem água, fumando maconha e vendo televisão na noite de 31

de dezembro. Decidem sair pela cidade e assaltar uma casa de gente rica

em meio à comemoração do Ano Novo. Durante o assalto, matam quatro

pessoas, defecam na cama e nos lençóis, comem a ceia, roubam joias e

relógios e estupram uma mulher. Retornam ao apartamento e celebram o

Ano Novo (GARLET, 2015, p. 66).

 

Há pelo menos dois grandes aspectos de aproximação entre as obras. O primeiro deles é a presença de um trio protagonista, um grupo marginalizado (no sentido mais pragmático do termo: à margem da sociedade) que recorre ao crime e à violência como forma de (sobre)viver. Em Plata Quemada, o trio é composto por Marcelo “Nene” Brignone, Carlos “Cuervo” Mereles e Roberto “Gaucho” Dorda, que fogem rumo ao Uruguai após o assalto, deixando para trás os demais cúmplices (policiais e grandes figuras públicas) e, nesse sentido, estabelecendo a centelha de um pacto ético próprio entre eles. Com isso, lê-se: enquanto sujeitos, eles diferem dos policiais e políticos, não apenas por “colocarem a mão na massa” e efetivarem o furto, mas também por suas condições sociais e perspectivas de mundo, entre outros aspectos.

Já em Feliz Ano Novo, o trio protagonista é composto por Pereba (que “não tem dentes, é vesgo, preto e pobre”), Zequinha e o narrador (que não é nomeado). No conto, a apresentação da aproximação entre os três indivíduos se dá no diálogo inicial, que ocorre num “cafofo” (talvez um pequeno casebre ou apartamento, numa favela do Rio de Janeiro). Já nesse primeiro diálogo, afinidades entre eles ficam evidentes: a fome, a pobreza, o ódio – à classe burguesa e à polícia – e o desejo por dinheiro e por uma vida mais digna. A composição de um trio mostra-se uma chave para uma leitura possível da ética, haja vista que ela pode ser uma acepção individual, no sentido de partir de um indivíduo (agente), mas alcançar a dimensão social. Afinal, ainda que o ethos parta do indivíduo (individual), a ética não pode ser pensada sozinha, única e deslocada do meio social.

A segunda semelhança entre as obras é o contexto histórico. Piglia começou a escrever Plata Quemada, segundo relato próprio, no ano de 1968, após a publicação de seu primeiro livro. Uma série de episódios de sua vida pessoal fez o processo de escrita estender-se pelas décadas de 1970 e 1980, até sua finalização e, posteriormente, sua publicação oficial, em 1997. Ao longo desses anos, confessa o autor seu estudo aprofundado da obra de Oscar Lewis, historiador e antropólogo norte-americano, e seu conceito de “cultura da pobreza”, fortemente marcada por aspectos como a aversão à polícia e a desconfiança ao Estado, a qual aparece devidamente retratada na conduta dos três protagonistas.

Por sua vez, a obra Feliz Ano Novo foi escrita no início dos anos 70 e lançada em 1975. Porém, segundo Garlet (2015, p. 65), no ano

de sua publicação, a coletânea foi inteiramente censurada4 pelo Departamento de Polícia Federal, sob a alegação de “exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes”, conforme podemos ler na contracapa da edição de 2005. Após uma década de censura, em 1985, a obra finalmente foi liberada e, na sequência (em 1989), relançada pela Companhia das Letras.

Garlet (2015, p. 64), ao abordar a questão do contexto histórico da produção de uma obra, considera como paradigma a relação entre a literatura e o contexto de produção. Nesse sentido, entende que o escritor incorpora à narrativa, de maneira estetizada, elementos extraestéticos do mundo circundante, como a gratuidade da violência em contexto de ditadura ou pós-ditadura, e posiciona-se criticamente na escolha do tema e da forma de realizá-lo. Em acordo com o pensamento de Candido (2010), “o externo se torna interno, passando a funcionar de maneira específica no interior da narrativa” (GARLET, 2015, p. 64). Umbach (2016), sobre esse mesmo tópico, nos permite pensar que aproximações entre literatura, história e sociedade denotam certa conscientização de escritores e escritoras acerca da realidade sociopolítica, o que resulta em uma ficção representativa daquele momento.

Destarte, a violência tornada prosaica na sociedade acaba por ser refletida/refratada no ato estético, permanecendo seu traço cotidiano, “mas instalando uma posição axiológica de desacordo, sobremaneira na forma lexical escolhida para representar a mesma” (GARLET, 2015, p. 64). É essa a violência como elemento constitutivo da ficção latino-americana do período de ditadura e pós-ditadura que possibilita o debate ético aqui proposto.

 

Por que queimar dinheiro?

 

O escritor argentino Ricardo Piglia (1941–2017) foi um dos maiores expoentes da literatura argentina do final do século XX. Com vasta obra – que abrange contos, ensaios e romances –, Piglia é um dos escritores mais premiados da América do Sul.

Segundo Milreu (2008), entre os romances de Piglia mais conhecidos destaca-se Plata Quemada, que, além de ter sido traduzido para várias línguas, também motivou um filme homônimo dirigido por Marcelo Piñeyro, em 2000. Apesar desse sucesso, um grande paradoxo envolve o romance: ao mesmo tempo em que é a obra mais conhecida de Piglia, é a menos estudada e analisada.

Santos (2014) faz um valioso estudo da violência na Argentina, enfocando mais notoriamente um viés histórico, com uma abordagem documental do Governo Perón-Perón e o Golpe de Estado até o Processo de Reorganização Nacional (PRN). A discussão da autora prioriza os rastros de sangue nas marcas da história argentina pela empreitada ditatorial, que

não foi diferente daquilo que se vislumbrava em todo o continente, pois o regime vivido pelos argentinos nos anos de 1976 a 1983 é considerado pelos estudiosos como extremamente repressivo e cruel, uma vez que se estima que cerca de trinta mil pessoas estejam entre os desaparecidos e/ou assassinados (SANTOS, 2014, p. 37).

 

Segundo a autora, tal cenário resultou em índices alarmantes na sociedade, pois a violência, ademais de política, era econômica, “e suas bases institucionais também haviam sido afetadas” (SANTOS, 2014, p. 37). O resultado, invariavelmente, é essa perturbação da ética pelas instituições. A respeito disso, Chauí (1999; 2011) aponta a tese de deturpação da ética pela violência quando promovida, por exemplo, pelo Estado. Como exemplo, pensemos no caso dos presídios: enquanto mecanismos do Estado, em essência, não são ilustrações de ética, no sentido de espaços de busca por justiça, mas, sim, espaços de retroalimentação da violência, a considerar que aquele espaço brutaliza indivíduos, corpos, mentalidades, sem uma profunda preocupação legítima com a ressocialização e o bem-estar social. É cabível interpretar, sim, que há – subjacente aos presídios – uma sanha por vingança, por uma violência reparadora de injustiças cometidas e supostamente justificadas pela privação de liberdade e pela dor daqueles indivíduos, pelo sofrimento deles.

No caso de Plata Quemada, um exemplo dessa deturpação da

ética pelo Estado5 é ilustrada pela presença de policiais e políticos corruptos no esquema do assalto a um carro-forte em Buenos Aires, retratado na obra. A caçada implacável ao trio que furtou o dinheiro assume tal intensidade e cólera em função de alguns membros da polícia almejarem a recuperação de sua devida parte no furto. O trio protagonista foge e consegue instalar-se em um apartamento no centro de Montevidéu, até que são sitiados pela polícia e resistem a mais de quinze horas de cerco (MILREU, 2008).

O enfoque narrativo do romance é, por assim dizer, ponderado no

arranjo e na apresentação de perspectivas diferentes6. Ainda que o protagonismo recaia sobre o trio de fugitivos, outras personagens, outros grupos e outras instituições têm o seu devido espaço para apresentar sua ótica na tessitura do enredo. Um desses grupos é a polícia, elemento que possibilita o debate sobre a ética num viés comparatista, destacando a conduta de um grupo (os marginais) em oposição a outro (os representantes do Estado). Chauí (1999; 2011), a esse respeito, elenca e examina inúmeros mecanismos de

preservação do mito da não violência7 (ou, em melhores palavras, da preservação da violência dentro da ética). Um desses mecanismos é o jurídico, em que a violência fica circunscrita ao campo da delinquência e da criminalidade, e o crime definido como ataque à propriedade privada (furto, roubo e latrocínio, isto é, roubo seguido de assassinato). Esse mecanismo permite, por um lado, determinar quem são os “agentes violentos” (de modo geral, os pobres) e legitimar a ação (essa, sim, violenta) da polícia (CHAUÍ, 2011, p. 382).

 

A ação policial pode ser, às vezes, considerada violenta, recebendo o nome

de “chacina” ou “massacre” quando, de uma só vez e sem motivo, o número

de assassinados é muito elevado. No restante das vezes, porém, o

assassinato policial é considerado normal e natural, uma vez que se trata de

proteger o “nós” contra o “eles” (CHAUÍ, 2011, p. 383).

 

Essa normalização da conduta policial em prol da justiça, inclusive ofusca a visão civil que não compreende toda a mobilização do aparato representativo do Estado na perseguição pelos assaltantes. Em um primeiro momento, aos olhos civis, o que se passa é a tentativa correta e justa da recuperação do montante roubado do banco e, por conseguinte, a aplicação da lei aos meliantes. Os diretamente envolvidos com a ação (os marginais e os policiais) sabem, contudo, que o desfecho não pode (e não vai) encerrar-se aí: é necessário morte, extermínio, para que haja o silêncio. Nene, Cuervo e Gaucho sabem o alvo que carregam no peito; prendê-los com vida significaria permitir a denúncia do envolvimento da polícia e de políticos no planejamento e na realização do furto. Tal caso fortalece o argumento de uma ética entre o trio fugitivo, sendo ela movida e balizada pela sobrevivência, um princípio de conservação da própria vida.

Toda a conduta dos assaltantes leva à questão central: por que queimar dinheiro? Milreu (2008) entende que, apesar da riqueza de histórias e relatos que se mesclam e se entrelaçam ocorrendo paralelamente à trama central (o furto e a perseguição), o romance está centrado de fato no grande enigma da queima do dinheiro.

Quando estão encurralados pela polícia, os assaltantes ateiam fogo ao dinheiro e jogam as cédulas pela janela. É o clímax do romance. Esse ato faz com que a multidão que assiste aos acontecimentos fique paralisada e tente entender a atitude dos assaltantes. Surgem várias hipóteses para essa ação, gerando uma discussão ética sobre o uso do dinheiro (MILREU, 2008, p. 20).

 

Muitas interpretações já foram propostas sobre a queima do dinheiro, e tal ato é relatado: (1) com a pretensa objetividade de um informe (“duró exactamente quince interminables minutos”); (2) com intenções estéticas (“mariposa de luz”; “una columna bellísima de cenizas azules”; “la ceremonia trágica”); (3) com base em critérios sociopolíticos (“ese acto era una declaración de guerra total, una guerra directa y en regla contra toda la sociedad”); (4) com nuances de crítica e/ou ironia filosófica (“quemar dinero inocente es un acto de canibalismo”) e de preocupações éticas (“un murmullo de indignación”, “con salvar a uno solo de los niños huérfanos habrían justificado sus vidas”); e até mesmo (5) com viés religioso, assumindo o dinheiro o papel de objeto sagrado (“Quemar plata es feo, es pecado.”).

Neste capítulo, opta-se pela interpretação da queima do dinheiro como um simbólico pacto ético. Essa perspectiva não nega as interpretações prévias, mas enfatiza a ação ética de agentes éticos frente à sociedade. Há pelo menos dois argumentos que corroboram essa interpretação. O primeiro é o desenvolvimento de uma consciência crítica. De acordo com Chauí (1999), o agente ético é um ser consciente, crítico, pensante, que assume sua ação ética. Nesse sentido, o trio de assaltantes, no contexto do cerco, vê na queima do dinheiro uma forma de transgredir a “vitória” da polícia corrupta e, ainda, provocar a reflexão da população como um todo quanto às motivações por trás do ato. O segundo argumento é inerente ao ato de violência em si. Se, por um lado, a violência rompe com a ética (como dois elementos antagônicos) e, por outro, a violência é a ação contra outro indivíduo, o resultado é bastante singular: a queima do dinheiro pode ser interpretada como uma violência (noção de senso-comum) contra um objeto, mas não como a violência que está em discussão aqui, isto é, violência na dimensão ética-filosófica. Afinal, os meliantes não estão colocando fogo em outro indivíduo, não estão ateando fogo em agentes éticos (pessoas, sujeitos).

A ação de queimar, nesse sentido, é simbólica em várias direções: por ser o fogo purificador, o que está sendo queimado é o produto do ato de corrupção (não dos assaltantes, apenas, mas da sociedade como um todo); por ser sinalizador, o fogo que clareia indica também a oposição dos marginais com o fim previsto, o fogo ilumina o rompimento do trio com o destino inevitável desenhado – assassinato realizado pela polícia para fins de “queima-de-arquivo”.

 

Que o próximo ano seja melhor

 

Há pelo menos três décadas, Chauí propõe como chave de leitura do Brasil a ideia de que nossa sociedade é autoritária e violenta, contrariando a imagem (estereotipada) de uma cultura nacional pretensamente formada pelo acolhimento recíproco, pela alegria e cordialidade, revelando estruturas enraizadas de hierarquização e de sedução pela autoridade (SAVIAN; MODELLI, 2016). Para a filósofa,

 

Há, no Brasil, um mito poderoso, o da não-violência brasileira, isto é, a

imagem de um povo generoso, alegre, sensual, solidário, que desconhece o

racismo, o sexismo, o machismo, que respeita as dificuldades étnicas,

religiosas e políticas, não discrimina as pessoas por suas escolhas sexuais

etc. (CHAUÍ, 2011, p. 381).

 

Cabe elucidar: a tese da filósofa não recai sobre os brasileiros individualmente, mas sobre uma coletividade. Em melhores palavras: estruturas históricas e culturais do país intensificam nosso gosto por relações de poder que se confundem com autoridades e autoritarismos e, na sequência, com as múltiplas violências: físicas, verbais, culturais, simbólicas, estatais… (CHAUÍ, 2011).

Feliz Ano Novo, conto de Rubem Fonseca (2012), talvez não tenha sido pensado ou elaborado propositalmente para discutir a violência nessa perspectiva ética e sociocultural, mas, evidentemente, serve para tal fim, pois, enquanto produção ficcional situada em um tempo-espaço, não está isenta de abarcar elementos próprios da sociedade brasileira da época. Isso é notório na própria construção das três personagens protagonistas, que são movidas pela fome, pelo desejo de dinheiro e pelo ódio às classes média-alta, atingindo o ápice das violências físicas, como no episódio do assassinato de Maurício, um dos reféns (o dono da mansão assaltada na noite de ano-novo). Para os órgãos de censura brasileiros, tal episódio é interpretado como glorificador e incentivador da violência e da criminalidade. Para Garlet (2015, p. 63), a cena tem outra conotação, totalmente oposta:

 

A cena expõe um assassinato violento por meio de um tom de normalidade, como algo prosaico, lúdico inclusive, como a referência ao “panetone” em sugestão ao tamanho do buraco aberto no peito do assassinado pela descarga da arma. Através deste excerto, podemos compreender a estreita relação entre a forma e o conteúdo, articulando uma posição de crítica à violência, tão banalizada que não causa espanto, perplexidade. Com esse entendimento, rechaçamos a priori qualquer possibilidade de compreensão do texto pelo viés de uma apologia da violência, antes exatamente o contrário. A violência, sobremodo a urbana, de fato constitui o leitmotiv de Feliz Ano Novo, tanto do conto, quanto da coletânea de título homônimo. Um leitmotiv que instala, ao lado da organização formal de matiz realista, uma posição axiológica no universo ficcional e, em diálogo, com a realidade concreta, a saber, a crítica à banalização da violência (GARLET, 2015, p. 63).

 

O enfoque deste capítulo, todavia, não segue nem o caminho da interpretação do fragmento como incentivo à violência, nem o caminho da ilustração da banalização do crime e da barbárie. Em contrapartida, opta-se pelo caminho da reflexão sobre as motivações éticas. Não se pode deixar de observar que a conduta é balizada, primeiramente, pela fome e pelas necessidades básicas mais instintivas do ser humano. Isso se torna notório em inúmeras passagens do conto: “Tô morrendo de fome, disse Pereba” (FONSECA, 2012, p. 13), “Zequinha chupou ar, fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome” (FONSECA, 2012, p. 16). Quando Pereba e seus amigos invadem a mansão e percebem que a mesa posta alimentaria um presídio por semanas, novamente a questão da fome torna-se presente:

Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do

pescoço. Podem também comer e beber à vontade, ele disse. Filha da puta.

As bebidas, as comidas, as joias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era

migalha. Tinham muito mais no banco (FONSECA, 2012, p. 17).

 

No próprio ordenamento sintático dos termos, bebidas e comidas são enumeradas antes de joias e dinheiro. Ademais, Pereba e seus comparsas demonstram certo conhecimento estrutural do funcionamento da sociedade no sentido de entenderem que, para os ricos, aquilo é pouco, embora para eles signifique subsistência básica.

Em segundo lugar, a conduta do trio também deve ser considerada pela influência de entorpecentes. Ainda no diálogo inicial, o narrador comenta: “Fumamos. Esvaziamos uma pitu” (FONSECA, 2012, p. 15). Logo na sequência, no momento de elaborar o plano do assalto e preparar o armamento, novamente: “Fumamos mais um pouco” (FONSECA, 2012, p. 15). Também ingeriram álcool antes de começarem a execução do plano, de acordo com o narrador: “O fumo acabou. A cachaça também” (FONSECA, 2012, p. 16). A influência de drogas é basilar para dissolver a tese moralista de uma violência e uma maldade essencial dos marginais, o que comprometeria uma ética entre eles. Os crimes que eles cometem não são efetuados de “cara limpa”, mas com o auxílio de recursos (i)lícitos. A visão simplória, maniqueísta e generalista da tendência natural à violência por parte dos pobres e dos marginalizados não cabe aqui, por conseguinte.

Discorrer sobre a violência em Feliz Ano Novo também demanda a consideração de pelo menos mais um mecanismo elencado por Chauí (1999; 2011) como recurso para a manutenção do mito da não violência e consequente violência sistêmica disfarçada de conduta ética:

 

[Sobre o mecanismo da exclusão] afirma-se que a nação brasileira é não-

violenta e que, se houver violência, essa é praticada por gente que não faz

parte da nação (mesmo que tenha nascido e viva no Brasil). O mecanismo

da exclusão produz a diferença entre um nós-brasileiro-não-violentos e um

eles-não-brasileiro-violentos. “Eles” não fazem parte do “nós” (CHAUÍ, 2011,

p. 382).

Essa exclusão é o que permite pensar o outro como um “inimigo”, como alguém a ser aniquilado, pelo bem maior (o bem da nação). Os marginais da sociedade, enquanto criaturas sujeitas à tortura, à prisão, à privação de liberdade e linchamentos, são indivíduos vistos pela sociedade dessa forma, vistos como os “outros”, aqueles que não são “nós” e supostamente não compartilham da “nossa” ética, o que não significa que eles não tenham uma ética entre eles. A ética está lá, devidamente apresentada no conto, sobretudo em seu desfecho, que alude a um senso de coletivo, até mesmo de empatia: “Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba” (FONSECA, 1989, p. 19). Não seria ético beber e comer sem o Pereba.

 

Considerações finais

 

O escopo do estudo que deu origem a este capítulo recaiu sobre intersecções entre ética e violência em duas obras específicas da ficção latino-americana do final do século XX: o romance Plata Quemada e o conto Feliz Ano Novo. Vistos como elementos a priori antagônicos, paradoxais, a ética e a violência têm suas fronteiras borradas por contextos sociais nos quais os ideais e os entendimentos daquilo que é ético são modificados pelas diretrizes do cotidiano brutal, como acontece nos períodos ditatoriais. Nesses períodos, o silenciamento, a tortura e as múltiplas violências em prol de uma dita justiça podem naturalizar-se e assumem-se como uma faceta de um status quo ético-moral.

Chauí (2011, p. 381) elucida que, nos referidos contextos, em suma, “a violência não é percebida ali mesmo onde se origina” e ali mesmo onde se define como violência propriamente dita. Em outras palavras, nessas sociedades – marcadas pela vulgarização indiscriminada da violência – banaliza-se toda prática e toda ideia que reduza um sujeito à condição de coisa, que viole interior e exteriormente o ser de alguém, que perpetue relações sociais de profunda desigualdade econômica, social e cultural. Daí provêm os marginais, os que estão à margem da sociedade e, supostamente, da ética universal.

Entretanto, há uma ética mesmo entre estes indivíduos, cumpre sublinhar. Com base em Chauí (2011), nota-se que a sociedade não percebe que as próprias explicações oferecidas sobre tais indivíduos e seus contextos são violentas. Isso porque ela está cega ao lugar efetivo de produção da violência, a saber, a estrutura da sociedade (não só a brasileira, mas também a de praticamente todos os países da América Latina durante e após as ditaduras militares). A falta de visão sobre as práticas de violência comuns ao contexto dificulta o pensamento crítico sobre o que seria, ou como se daria, uma ética entre os marginais, aos quais a alcunha “marginalizados” cabe melhor. Isso está devidamente retratado em Plata Quemada e Feliz Ano Novo, obras nas quais é possível perceber, de determinados ângulos, condutas éticas de agentes éticos, embora alterados e embrutecidos pela vida, pela sociedade, pela história e por seu entorno social.

Chauí (2011) é enfática em destacar que as desigualdades econômicas, sociais e culturais – bem como as exclusões econômicas e políticas, a corrupção como forma de funcionalismo das instituições, o racismo, o sexismo, a intolerância religiosa, sexual e política – não são consideradas formas de violência, o que leva a sociedade a não perceber-se como estruturalmente violenta. Seria nessa visão reducionista, portanto, a violência um mero fato esporádico de superfície. Em Feliz Ano Novo, por exemplo, não há violência no fato de Pereba ser desdentado (pequeno detalhe narrativo que permite inferir a falta de saúde pública e, nesse viés, a marginalização do indivíduo) ou de os três assaltantes estarem com fome e cogitarem roubar farofa de macumba da encruzilhada. A violência está meramente no “produto”, negligenciando o “processo”; violência é apenas matar e não tudo aquilo que complexifica o fenômeno e leva até o ato de matar.

Pensar no processo em lugar do produto social-cultural permite descortinar os entendimentos de uma ética maior, generalista, suficientemente ampla para abarcar todo mundo e, consequentemente, ninguém. Pensemos na ética universal não como essa ética reducionista, padrão, que prioriza determinados setores sociais e, consequentemente, criminaliza e marginaliza outros. Pensemos nessa ética que é universal enquanto anseio próprio de todo ser humano, para si e para os seus. Essa ética pode, sim, ser interpretada como presente nos dois trios de protagonistas, ainda que com cuidados. É uma ética construída e vivida por sujeitos éticos autônomos, conscientes (a seu modo) de suas condições. Tais sujeitos brindam a essa ética com fogo – queimando o dinheiro que simboliza suas sinas – ou com champanhe – acompanhada de votos de feliz ano-novo.

 

Referências

 

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