Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão
A formação de professor na contemporaneidade: compreendendo a reificação no processo
A formação de professor na
contemporaneidade:
compreendendo a reificação no
processo 1
Caroline Mitidieri Selvero 2
Para que a educação não recaia na repetência do mesmo, isto é, de algo
que não despertou para o novo, situando-se fora do tempo e do espaço
históricos, é preciso reconhecer o outro como outro e não como objeto
(TREVISAN, 2011a, p. 1195).
Considerações iniciais
A experiência de formação de todo professor envolve aspectos sociais e culturais que marcam a sua trajetória docente e influenciam diretamente em sua vida profissional. De acordo com Siqueira (2010), é uma necessidade envolver-se em uma prática que auxilie no entendimento e na contribuição a implicações sociais, econômicas e políticas da profissão docente. É necessário desafiar o tecnicismo e desenvolver uma pedagogia crítica que, seguindo os pensamentos de Freire, implica um movimento dinâmico, dialético, que se configura entre o fazer e o pensar sobre o fazer. Ao fazer referência sobre o saber, entende-se que a prática docente é espontânea ou quase espontânea, que se caracteriza pela curiosidade em busca pelo conhecimento do sujeito (FREIRE, 2004).
Assim, seguindo esse pensamento, a prática docente deve ser crítica no sentido de desenvolver sua prática nas determinações sociais, além de que é fundamental que seja construtiva, utilizando princípios científicos para a aprendizagem do aluno (LUCKESI, 2011). Dessa forma, a partir da inserção em um processo de ensino e aprendizagem, os estudantes devem desenvolver-se individual e coletivamente. A inclusão no trabalho escolar encontra uma série de impasses como a reprovação, a falta de interesse, problemas nas relações professor e aluno, entre outros.
Os jovens também reclamam de problemas relacionados à falta de infraestrutura e de segurança nas escolas, o que pode justificar-se pelo motivo de existirem instituições praticamente abandonadas, sem condições de receberem o público estudantil e os funcionários. Além disso, existem as questões da violência e a do bullying, as quais apavoram alunos, convivendo em sala de aula. É possível perceber que isso é muito comum e que os jovens enfrentam situações de violência diariamente. Nessa perspectiva, entende-se que essas questões prejudicam o aprendizado e não proporcionam aos estudantes o sentimento de estarem em um ambiente protegido.
A violência existente nessas relações interpessoais estabelecidas na escola, na sala de aula, também está presente em aula de língua estrangeira. Quem é o professor que está na sala de aula? Como é esse professor? Que preparo ele deve receber para inserir-se em sala de aula? Que profissional é este que estará nesse espaço repleto de dificuldades e impasses? Como o profissional pode preparar-se para fazer parte desse espaço e desenvolver o seu trabalho com o respaldo necessário?
Os tempos contemporâneos conservam a tendência ao aparecimento e à ocorrência da barbárie e das catástrofes. E percebe-se que essas catástrofes têm-se tornado comuns, visto que existe um despreparo para lidar com elas. Em decorrência disso, rememorando Auschwitz, compreende-se o ser humano como um ser descartável (BOHRER; TREVISAN, 2017). Com isso, entende-se que Auschwitz foi o retorno à barbárie, e isso continuará ocorrendo enquanto prosseguirem as condições que ocasionam essa regressão.
A educação é essencial quando se trata desse tipo de assunto. A impressão que se tem é que a vida no planeta depende de forças exógenas e não do homem, já que este não é causa, mas pode atuar nas consequências ou buscar suavizar os efeitos das catástrofes. As catástrofes influenciam as vidas dos que estão envolvidos ou não com elas, uma vez que são elaboradas bibliografias, histórias individuais de vida que passam a ser histórias coletivas. E surgem dúvidas: como a educação pode lidar com essa problemática? Será que a educação pode reduzir as catástrofes?
Durante o século XX, em especial nas duas Guerras Mundiais, a educação perdeu o combate para as calamidades. Existiu uma série de outros conflitos que fortaleceram a ideia de que tal século foi a Era dos Extremos: “a violência guarda uma preocupação com a relação entre meios e fins, recaindo na dimensão ética, pois a violência só se configura como tal no momento em que afeta desfavoravelmente a relação com o outro” (TREVISAN, 2017, p. 69). Assim, pode-se refletir que não existe uma formação suficiente com a qual as pessoas possam reagir a situações traumáticas, de forma que isso justifica a ocorrência do holocausto.
A reificação e a coisificação do
sujeito
Durante as décadas de 1920 e 1930, Axel Honneth (2007) destacou que o conceito de reificação foi bastante trabalhado e se tornou uma constante nas discussões de crítica social e cultural da época. Honneth foi assistente de Jürgen Habermas nos anos de 1984 a 1990 e, atualmente, é o diretor vigente do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, considerado como uma grande
personalidade da terceira geração da Teoria Crítica3 (PACHECO, 2016). O estudioso talvez possa ser considerado como o representante mais atuante da terceira geração da Escola de Frankfurt. Em sua teoria, o filósofo retoma as teses do jovem Hegel do período de Jena e as contrapõe empiricamente com a psicologia social de Mead, arquitetando a sua teoria social crítica e destacando como núcleo central o conflito. O estudioso faz isso com o intuito de explorar um tipo de conflito que é aguçado por experiências de desrespeito que abalam a identidade individual ou coletiva (TOMASI, 2014).
A Teoria Crítica, para Honneth, deveria considerar os conflitos sob um viés comunicativo, uma vez que, para ele, a integração social é representada por uma luta por reconhecimento, na qual os atores lutam por reconhecimento de suas identidades, para que pudesse participar igualmente da organização do espaço social. Segundo o estudioso, é necessário explicar como ocorre a integração social e não como os conflitos sociais se dão, uma vez que eles jamais deixam de existir, de se manifestar. Dessa forma, é fundamental explicar como ocorre a integração social e quais são os motivos que facilitam que a integração se dê de maneira conflitiva. Assim, a sociedade é concebida como sendo um espaço de luta por reconhecimento.
No contexto do período aconteciam alguns problemas marcantes como o crescente desemprego e a crise econômica; além disso, no sentido social, as relações que eram estabelecidas apresentavam um comportamento frio e calculista. O filósofo húngaro George
Lukács 4 apresentou-se como de grande importância no século XX, já que se preocupava com essas questões e foi ele quem conseguiu montar uma definição para o termo reificação, reunindo ideias de estudiosos como Karl Max, Max Weber e George Simmel.
Após a Segunda Guerra Mundial, a reificação perdeu a posição de destaque que tinha como uma representante do diagnóstico da época. A ruptura da civilização representava um holocausto por sua paralisação em questionamentos relacionados ao diagnóstico social, de forma que os teóricos sociais se conformavam em estudos relacionados à democracia e à justiça, deixando de lado conceitos como os que englobavam considerações sobre a reificação e a comercialização. Por mais que a Escola de Frankfurt, destacando os trabalhos de Adorno, com um retorno breve aos estudos de Lukács, tivesse verificado algo acerca da reificação, ela parecia fazer parte de um passado bem longínquo. Isso era enfatizado porque, nesse período, fazer comentários sobre a reificação representava uma época que já havia sido deixada para trás, visto que no pós-guerra a ideia era que isso havia perdido a sua legitimação, seguindo as reformas culturais e as inovações da teoria.
Na atualidade, existem indícios de que esse pensamento estaria voltando a ser modificado, pois um fragmento elaborado pela filosofia retoma o conceito de reificação (HONNETH, 2007). Honneth acredita que, para Lukács, a reificação não foi compreendida como uma violação contra princípios morais, mas como uma improvisação de uma práxis humana que é justificável a partir da distinção entre uma práxis humana correta e outra falsa (MELO, 2013).
Seguindo essa reflexão, o conhecimento de que existe uma troca no diagnóstico da época é sustentado por alguns indicativos que demonstram a utilização de formas de tratamento que se referem a outras pessoas como se fossem objetos inanimados. Ou seja, a sociedade começava a representar um indicativo de que era necessário retornar aos estudos da reificação. Alguns pensamentos sociológicos indicavam esse fenômeno como uma forma modificada do comportamento humano. Na atualidade, a sociologia cultural e a psicologia social detectaram que as pessoas trazem consigo uma tendência a mostrar desejos ou sentimentos como o oportunismo, nos quais Lukács acreditava, em sua época, que se referiam a um grau de reificação social nomeado por ele como uma prostituição de vivências e convicções.
O fenômeno da reificação passará a significar, desse modo, o processo por meio do qual os produtos da atividade e do trabalho humanos se expressam como um modelo estrutural que é coisificado, independente e estranho aos homens, passando a dominá-los por leis que adquirem uma existência externa ao sujeito. O mundo toma a aparência de um mundo de coisas, e os homens também se coisificam. Neste caso, a dominação capitalista é vista sempre tendo como um suposto a categoria da totalidade, não apenas enquanto objetividade do processo histórico, mas igualmente como algo que aponta para uma subjetividade que também compõe tal processo. Desse modo, a dominação capitalista que se expressa objetivamente na esfera material da necessidade, na forma da exploração, se manifesta igualmente em uma perda de liberdade, autonomia e autodeterminação dos indivíduos no capitalismo. Esse fenômeno da reificação se apresenta como algo generalizado e estrutural de toda a sociedade burguesa, cuja base material é a forma mercadoria (CAMARGO; SOUZA, 2012, p. 168).
Lukács, baseado na crítica da coisificação5 originária da análise de Marx sobre o fetichismo da mercadoria, retoma e amplia o conceito de reificação com a introdução, em sua significação, da ideia weberiana de racionalidade. Com isso, a sua crítica do capitalismo se torna também crítica da cultura, como uma apreciação da racionalidade capitalista, que é percebida como uma forma de organização da sociedade moderna indispensável ao processo de dominação burguesa. Nesse sentido, é fundamental assinalar a definição de reificação como processo social indivisível da racionalidade moderna.
Segundo Bottomore (1988, p. 242), na visão de Marx, o fetichismo pode ser definido como “os objetos materiais possuem certas características que lhes são conferidas pelas relações sociais dominantes, mas que parecem como se lhes pertencessem naturalmente”. A sua forma elementar é o fetichismo da mercadoria, o qual é portador de valor, portador de objetos materiais, reais e sociais. Dentro do pensamento marxista, o valor parece inseparável das mercadorias, natural a elas como coisas; as condições objetivas estariam impondo-se às subjetivas (TREVISAN, 2011). Nesse contexto, o capitalismo disfarçado surge como uma forma real objetiva determinada pelas relações subjacentes que a encobrem, de maneira que o conteúdo fundamental permanece oculto nas formas em que é manifestado.
O artigo “A reificação e a consciência do proletariado” faz parte do livro “História e consciência de classe”, de George Lukács. É um escrito que levanta questões como a consideração do fenômeno do fetichismo da mercadoria. Nesse sentido, realiza a verificação do predomínio de relações coisificadas no direito e no Estado em outras áreas, entre elas a filosofia. No escrito, apresenta-se o trabalhador submetido a uma reificação própria de todas as classes e das esferas da vida social. Isso porque a estrutura da mercadoria está baseada em uma relação entre pessoas tomar o caráter de uma coisa e, dessa maneira, o de uma “objetividade fantasmagórica” que, em sua legalidade própria, rigorosa, aparentemente racional e inteiramente fechada, oculta todo traço de sua essência fundamental: a relação entre homens (LUKÁCS, 2003, p. 194).
O fetichismo da mercadoria atribui à realidade social uma forma de objetivação, nomeada como reificação. Segundo Lukács e Marx, o capitalismo é caracterizado pela preponderância do valor de troca, relacionado com a dominação abstrata que as coisas desempenham sobre os sujeitos. Ou seja, “resultam do caráter fetichista da mercadoria como forma de objetividade, de um lado, e do comportamento do sujeito submetido a ela, de outro” (LUKÁCS, 2003, p. 194). Nesse ponto, são percebidos os problemas ideológicos do capitalismo moderno, nos quais a relação social pode ser considerada como a relação de uma coisa consigo mesma.
A definição marxiana a respeito do fetichismo da mercadoria é convertida em reificação e começa a referir-se ao domínio econômico e ao conjunto das relações sociais no capitalismo. Marx promove um desmascaramento das relações complexas que contemplam a mercadoria, que é considerada uma coisa, aparentar “ser um sujeito social, e, enquanto coisa, o fetiche busca submeter os homens ao seu domínio e, com isso, fazer-lhes parecerem, a si próprios, coisas e não sujeitos. Este fenômeno, correlato da religião, é o que ele chama de fetichismo” (SOUZA, 2011, p. 12). O homem não reconhece em seu produto o seu próprio produto e, assim, não reconhece a si mesmo. Nesse sentido, pode-se considerar como maior efeito da reificação e da expansão do fetichismo a perda da humanidade, que fortalece o poder da mercadoria e a especialização da produção.
Marx incluiu o fetichismo como uma força ideológica da sociedade capitalista. Além dessa interligação entre o fetichismo da mercadoria e o de racionalização de Weber, acrescentou a importância formadora também do conceito hegeliano de aparência por meio de pressupostos metodológicos, os quais permitiam perceber a realidade histórica de uma forma diferenciada das pretensões da ciência burguesa determinada no modelo de racionalidade formal. Com o intuito da formulação do conceito de reificação, o fetichismo da mercadoria desponta não somente como destaque da objetividade do universo, mas a abstração de sua estrutura permite também assegurá-la para o conjunto das relações sociais no capitalismo. Ao passo que é formadora e constituidora da própria subjetividade, a generalidade da forma mercantil conserva, nos planos subjetivo e objetivo, uma imaterialização do trabalho humano que se determina nas mercadorias (CAMARGO; SOUZA, 2012).
Nessas condições são desenvolvidas autorrelações de confiança, respeito e estima, que são vinculadas ao comparecimento e à aprovação de outro externo, ou seja, o completo desenvolvimento da personalidade individual a partir do reconhecimento é um processo intersubjetivo e não uma preferência política. Assim, o modelo moral do reconhecimento elaborado por Honneth (2003) está relacionado a dimensões da personalidade que o indivíduo deseja que sejam apreciadas, porquanto idealiza que elas complementem a integridade de seu ser. Dessa forma, a teoria do reconhecimento do filósofo funda-se, a princípio, em experiências de sociabilidade e não em processos identitários ou em distinções culturais. E esta verificação é essencial para que se compreendam em seu desejo ao procurar um embasamento para a teoria do
reconhecimento na ontologia6 social.
O reconhecimento na reificação e
uma
possibilidade de mudança na
educação
A reinterpretação do conceito de reificação é inspirada nas designações de Lukács, que buscava basear-se em um envolvimento acolhedor, enquanto Honneth procurava realizar tudo baseado em relações de reconhecimento. Portanto, as experiências de reconhecimento e de desrespeito poderiam estar relacionadas com as normativas que Lukács concedeu a esta definição, fundamentadas na ontologia social e, de alguma forma, em uma antropologia filosófica.
De maneira geral, a intenção do filósofo alemão Honneth é a de resgatar as pretensões normativas da teoria de Lukács; do mesmo modo, a partir de uma versão não oficial, retirá-la de suas limitações contextuais, para que o reconhecimento conquiste um espaço merecido. Com a teoria de Lukács, é possível encontrar uma fundamentação de uma ontologia do reconhecimento.
Atualmente, de acordo com Honneth (2007), também são encontrados estudos, na ética e na filosofia da moral, que buscam explicar fenômenos sociais, entre eles o da reificação. Nesse sentido, o comportamento humano rompe, muitas vezes, com os princípios morais ou éticos ao tratar os sujeitos de acordo com as suas qualidades humanas, tratando-os como mercadorias ou coisas, por exemplo, quando se refere ao mercado de relações amorosas ou indústria do sexo. Quando o homem de maneira real, no conceito ontológico, é tratado somente do ponto de vista neurofisiológico, não tendo as suas características ou qualidades pessoais consideradas, pode-se dizer que este é um caso de reificação.
Lukács defendia que toda a relação deve estar embasada por princípios éticos. Sua análise da reificação possui um conteúdo normativo mesmo renunciando ao vocabulário moral. Dessa forma, o autor percebia a reificação não como uma quebra dos princípios morais, mas como um desacerto na prática ou na atitude humana que define a racionalidade como a forma de vida das pessoas.
Segundo Marx 7, o filósofo húngaro admite que a reificação significa
uma relação entre pessoas, na qual se referem a “coisa8”. O estudioso acredita que essa forma de tratamento afeta as relações interpessoais e as relações com o mundo objetivo, com a sociedade e consigo mesmo. Assim, tanto os objetos quanto as pessoas, assim como as competências e os sentimentos são compreendidos como “objetos cóisicos” para serem utilizados em relações comerciais. A reificação, nesse sentido, é compreendida como segunda natureza, porque está relacionada às esferas não econômicas, e o sujeito possui um papel de contemplação, porque não participa ativamente das ações que ocorrem em seu entorno por ser um observador paciente e passivo, não afetado emocionalmente. Honneth critica a reificação em Lukács, pois ela se restringiu à dimensão econômica das leis de mercado; para Honneth, ela abrevia o respeito que as pessoas apresentam em relação a si mesmo, ao reconhecimento do outro e do universo em que está inserido (TREVISAN, 2011). A segunda natureza representa, pelos processos relevantes de socialização, um hábito em um grau que determina o comportamento individual na vida cotidiana e, nessas condições, os “dados cóisicos” estão presentes nas relações.
Por Lukács, a reificação não pode ser concebida como equivocada moralmente ou como um rompimento aos princípios morais, porque falta um elemento da postura de intenção subjetiva que seria fundamental para a aplicação da conduta moral. Para o autor, todos os sujeitos de sociedades capitalistas se socializaram da mesma forma em um sistema de conduta reificante, de maneira que o tratamento instrumental do outro representa um fato social e não uma queixa moral. A versão do conceito de reificação não está totalmente destituída de implicações normativas, já que faz parte da práxis humana correta, da filosofia moral ou ética. A práxis verdadeira apresenta características de participação e de interesse que estão sendo alteradas pela ampliação da troca de mercadorias. “A educação é um fenômeno social, não apenas algo submisso à escola e, como esta, também está presa às malhas do sistema” (TREVISAN, 2014, p. 216).
Honneth destaca que a reificação pode ser considerada como um esquecimento do reconhecimento, pois tanto nas teorias da psicologia evolutiva quanto nas análises do filósofo americano Stanley Cavell é mantida a tese de que, na conduta social do homem, há uma anterioridade da genética e da categorização do reconhecimento versus conhecimento. Ou seja, sem o reconhecimento prévio, os bebês não conseguiriam aceitar os pontos de vista de suas pessoas de referência, e os adultos tampouco conseguiriam compreender as manifestações linguísticas de seus interlocutores.
Tanto las teorías de la psicología evolutiva, a las que me he referido, como los análisis de Cavell sostienen la tesis según la cual en la conducta social del hombre existe una primacía al mismo tiempo genética y categorial del reconocimiento frente al conocimiento, de la implicación frente a la aprehensión neutral de otras personas: sin esta forma de reconocimiento previo, los lactantes no estarían en condiciones de adoptar las perspectivas de sus personas de referencia, y los adultos no podrían entender las
manifestaciones lingüísticas de sus interlocutores (HONNETH, 2007, p. 83).9
Para Cavell, reconhecer significa adotar uma postura na qual as expressões da conduta de uma segunda pessoa podem ser compreendidas como requerimentos para reagir de uma forma determinada (HONNETH, 2007). De acordo com o estudioso, a reificação referia-se somente a seres humanos, não a plantas ou coisas. Segundo Honneth, em um primeiro momento, nenhuma dessas teorias de embasamento afirma que deveriam ser adotadas tais posturas de implicação para circunstâncias não humanas, mas como é possível formular na atualidade um conceito de reificação? Como seria possível utilizar esse conceito na escola, dentro da sala de aula? Um conceito de reificação que consiga dar conta das instituições originais de Lukács? O filósofo húngaro desejava que se compreendesse a reificação como:
[…] una clase de hábito de pensamiento, de perspectiva habitual petrificada,
en virtud de cuya adopción los hombres pierden su capacidad de implicarse
con interés en las personas y en los sucesos; y con esta pérdida – creía él –
los sujetos se transformaban en observadores puramente pasivos a quienes
no sólo su entorno social y físico, sino también su vida interior, les debe
parecer como un conjunto de entidades cósicas (HONNETH, 2007, p. 84) 10.
Nesse sentido, outra dúvida surge ao refletir sobre a definição de reificação: como se pode alcançar essa perda de forma de conduta original, se ela já está tão enraizada na maneira como o homem age? Assim, Lukács deveria explicar essa perda mediante as circunstâncias sociais, isto é, diante de uma rede de práticas e de instituições sociais que deveriam se manifestar nas atitudes de reconhecimento. No entanto, ele destaca que é fundamental não confundir a reificação com a objetivação, pois o processo de reificação é desenvolvido de maneira distinta.
Já Habermas, na Teoria da Ação Comunicativa, buscou pensar a reificação como um processo no qual formas de conduta observadora penetram nas esferas sociais e são ameaçadas por condições constitutivas de comunicação. Para Honneth (2007), é reconhecida a importância do pensamento de Habermas, que acredita na emancipação do homem. Mas, segundo ele, essa estratégia apresenta uma desvantagem, um déficit sociológico, pois é fundamental perceber que o sistema é o resultado de conflitos sociais que são reformuláveis a partir de forças políticas e seria necessário descobrir a partir de que momento as atitudes objetivadoras exercem um efeito reificante. Ademais, a pergunta não pode ser contestada, aparentemente, de maneira neutra. Isso exige que os critérios sobre o processo de reificação sejam verificados de outra forma, demonstrando que é necessário superar a ideia simplista de observação que se opõem a reificação. O risco de reificação surge sempre quando é abandonada a ideia de reconhecimento; por isso, Lukács começou a referir-se à reificação como o esquecimento do reconhecimento.
Lukács coloca a dimensão social do mercado ao adotar uma postura do mercado capitalista que leva os sujeitos à utilização de um pensamento de conhecimento e não de reconhecimento: como é possível que o reconhecimento prévio seja esquecido genética e categoricamente durante as operações diárias de conhecimento? A reificação, no sentido do esquecimento do reconhecimento, significa a execução do conhecer e que o conhecimento se deve a um reconhecimento prévio. O conceito de reificação, segundo o autor, exige que se considere a possibilidade de uma percepção reificada do mundo social e do mundo físico, pois se percebe que animais, coisas e plantas são somente identificadas como coisas sem ter presente a ideia de que possuem uma multiplicidade de significados existenciais para as pessoas.
Considerações finais
A partir do auxílio de reflexões teóricas, foi possível perceber, em conjunto com Lukács, que a reificação é compreendida como o sentido direto entre as pessoas, enquanto que, em relação à natureza, somente poderá ser realizada em sentido indireto ou derivado. Em relação a pessoas, a reificação significa perder de vista o seu reconhecimento prévio, a sua multiplicidade de significados que possui para os outros reconhecidos antecipadamente.
O reconhecer não constitui uma condição necessária para o conhecimento da natureza, na mesma medida em que o conhecimento para outros homens, de maneira que se pode adotar uma atitude reificante diante do mundo objetivo, sem se perder a probabilidade de ter um acesso cognitivo a este espaço, da mesma maneira que se reconhecem outras pessoas como pessoas, mesmo no momento em que se esquece o prévio conhecimento delas.
A formação de indivíduos autônomos e emancipados é um dos desejos mais latentes da sociedade atual, já que se sabe de situações de falta de liberdade, de exclusão, de desigualdade, de exploração, entre outras, que exercem, no meio em que vivem, sensações desagradáveis, que são consideradas como anseios do ser humano em busca da superação desses entraves.
É importante destacar que a culpa do que ocorre dentro da sala de aula não se limita somente aos erros educacionais, uma vez que todo o sistema faz parte ativamente da educação. O professor busca estimular o aluno a desenvolver-se melhor, a aprender, a estar motivado e a ser um mediador que aja diferente, que faça a diferença na vida do estudante. O desenvolvimento do aprendiz engloba o desenvolvimento do ser humano como um todo, pois envolve a cognição, a afetividade, a psicomotricidade e o modo de viver. Além disso, envolve as capacidades de analisar, de compreender, de sintetizar, de julgar, de avaliar e de fazer a diferença no mundo. Desse modo, a educação pode ser considerada como o meio pelo qual a sociedade refaz e se renova em diversos aspectos, entre eles cultural e espiritualmente, e isso produz consequências em todos os que fazem parte do processo.
Tanto os docentes como os discentes transformam-se e formam-se reciprocamente nos processos de ensino e de aprendizagem, envolvidos pela reflexão e pela emoção que estão presentes na interação existente nessa referida atividade interativa. A arte de ensinar é uma prática com a qual o professor, como um mediador do processo de ensino e de aprendizagem, cria possibilidades para que o estudante compreenda o que se deseja que ele aprenda. Assim, para que essa aprendizagem ocorra de maneira efetiva, é necessário que os conteúdos aprendidos pelo aluno sejam entendidos e internalizados. Com isso, é possível compreender que existe um melhor desenvolvimento e motivação para os estudos por parte dos educandos.
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