Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão
Itinerários da língua de imigração hunsrückisch e suas contribuições ao plurilinguismo na região sul do brasil
Itinerários da língua de
imigração Hunsrückisch e suas
contribuições ao plurilinguismo
na região sul do Brasil1
Sandra Vidal Nogueira 2
Introdução
A “Língua Hunsrik”, de origem germânica, caracteriza-se como um dialeto e, portanto, possui distinções do hochdeutsch (alemão-
padrão)3. O Hunsrik é falado em algumas regiões do Nordeste da Argentina e do Sudeste do Paraguai. No Brasil, encontra-se presente em algumas regiões dos estados de Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Atualmente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), uma agência especializada das Nações Unidas (ONU), utiliza oficialmente a grafia Hunsrik para se referir à língua em sua forma nativa, oficializada com esse nome após estudos da Ethnologue (ente de caráter consultivo oficial do organismo internacional) e que tem suas publicações lideradas pela Sociedade Internacional de Linguística (SIL).
Essa língua foi considerada parte integrante do patrimônio histórico e cultural do estado do Rio Grande do Sul no ano de 2012
(RIO GRANDE DO SUL, 2012) 4 e, desde 2016, como patrimônio cultural imaterial do estado de Santa Catarina (SANTA CATARINA,
2016)5. Integra o currículo obrigatório, desde 2016, no Município de Estância Velha/RS em parceria com o Município de Santa Maria do Herval. Nova Hartz (RS) e Treze Tílias (SC) possuem, igualmente, iniciativas desse tipo.
Para diferenciar o emprego da língua no Brasil, em detrimento de seus usos na Alemanha, Cléo Vision Altenhofen, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), denominou o
dialeto brasileiro de 6 Riograndenser Hunsrückisch .
De acordo com Altenhofen (1998), a forte presença em comunidades de colonização germânica, fez com que o
Hunsrückisch 7 se constituísse na mais popular variedade de alemão falada no Brasil e usada por quase dois milhões de pessoas. Isto quer dizer que, mesmo que os teuto-brasileiros dominem o português, a língua principal da imigração continua sendo o alemão. Isto se explica em função do Hunsrückisch possuir traços intermediários entre os vários dialetos alemães, facilitando a
comunicação entre os emigrantes8 (OLIVEIRA; ALTENHOFEN, 2011).
A pesquisa sobre uma língua de imigração 9, no caso o Hunsrückisch, acontece a partir da reconstituição de sua historicidade, ou seja, a partir das próprias comunidades de falantes. Possui relevância não somente linguístico-literária, mas também sociológica, histórica, política, educacional e antropológica.
Nesse sentido, o conhecimento sobre o tema se torna um conceito relevante nas ciências da linguagem e igualmente para os cursos das Universidades situadas na Região Sul do Brasil, entre outros. Destaque seja feito para a Área de Letras e afins da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), localizada na Mesorregião Grande Fronteira do MERCOSUL e que abrange o Sudoeste do Paraná, o Oeste de Santa Catarina e o Norte do Rio
Grande do Sul 10.
É deste ponto de vista que o presente capítulo foi concebido. Ou seja, tratar de um tema fundamental para consolidar políticas linguísticas e curriculares na Mesorregião Grande Fronteira do MERCOSUL, que respeitem as identidades e que queiram salvaguardar o plurilinguismo e sua importância aos processos de escolarização regular, formação docente e, da pesquisa científica, propriamente dita.
O reconhecimento do Hunsrückisch
como patrimônio imaterial
O Hunsrückisch é uma língua germânica que tem suas origens nos dialetos rheinfränkisch (francônio-renano) e moselanfränkisch (francônio-moselano) falados na região do Hunsrück, localizada às margens dos rios Reno e Mosela, no sudoeste da Alemanha. Assim,
A língua alemã trazida pelos imigrantes, a partir de 1824, envolve um leque
de variedades dialetais, que se pode agrupar em três grandes grupos e
áreas: 1) o grupo do baixo-alemão (Niederdeutsch), de dialetos do Norte da
Alemanha, como o pomerano e o vestfaliano; 2) do centro da Alemanha
(médio-alemão, Mitteldeutsch), onde se situa o Hunsruckisch e o
Hochdeutsch; 3) do sul, incluindo o bávaro, suábio, suíco, tirolês, austríaco,
etc. (veja-se mapa na página seguinte). Cada uma dessas variedades
corresponde a um “modo de falar alemão” da matriz de partida na Europa
(ALTENHOFEN et al., 2018, p. 23).
Essa variedade dialetal falada foi denominada de 11 hunsriqueano no Brasil. Em contato com o idioma local ocorreu um fenômeno chamado de “diglossia” (GARDÈS-MADRAY, 1989), sofrendo influências do português e vice-versa:
Na história dos documentos [testemunhos] escritos sobre a emigração alemã
produzidos de forma direta, os hunsriqueanos estão bem à frente. A
emigração desse grupo para o Brasil iniciou em 1824, precede, portanto,
praticamente em uma geração as grandes ondas emigratórias
desencadeadas pela malograda revolução de 1848 (ALTENHOFEN et al.,
2018, p. 33).
Isto quer dizer que há um dinamismo intrínseco no contato das línguas com as realidades culturais, religiosas e sociais.
[…] É este contato, esta influência mútua especialmente no contexto de
imigração que permite que o Hunsrückisch seja o mecanismo preterido para
a transmissão de conhecimento intergeracional. Entretanto, todos os
registros e informações encontradas em relação ao ensino da língua dão
conta de que é o alemão padrão o eleito para compor o currículo escolar das
localidades, muito embora, durante as atividades de campo, não tenha sido incomum ouvirmos relatos a respeito da presença das duas línguas (Hunsrückisch e Hochdeutsch) “misturadas” no ambiente escolar e cotidiano (ALTENHOFEN; MORELLO et al., 2018, p. 218).
No início do século XX, havia centenas de milhares de teuto-brasileiros de segunda e terceira geração que mal conseguiam falar o português. Segundo Kreutz (2010, p. 73), “o Brasil chegou a ter em torno de 2.500 escolas étnicas em 1930. Dessas escolas, 1.579 eram de imigrantes alemães.” Estima-se que na atualidade um quarto da população riograndense tenha algum nível de fluência no Riograndenser Hunsrückisch. Preservar o legado existente e fomentar ações educativas, destinadas ao ensino, propriamente dito.
As línguas, assim como os aspectos culturais, são dinâmicas e estão sempre em contato, sendo justamente esse dinamismo o que há de mais rico. É este contato, esta influência mútua especialmente no contexto de imigração que permite que o Hunsrückisch seja o mecanismo preterido para a transmissão de conhecimento intergeracional. Entretanto, todos os registros e informações encontradas em relação ao ensino da língua dão conta de que é o alemão padrão o eleito para compor o currículo escolar das localidades, muito embora, durante as atividades de campo, não tenha sido incomum ouvirmos relatos a respeito da presença das duas línguas (Hunsrückisch e Hochdeutsch) “misturadas” no ambiente escolar e cotidiano (ALTENHOFEN; CLÉO, MORELLO et al., 2018, p. 218).
Apesar da complexidade das relações sociais e linguísticas que seu estudo possa ensejar, o Hunsrückisch é uma das línguas da diversidade linguística brasileira melhor documentada:
[…] o destino do dialeto local parece assegurado contanto que a identificação com os valores locais mantenha sua importância e que o sistema socioecológico continue a evitar o acúmulo de indivíduos como os estudantes, que não conseguem manter a barreira situacional entre o dialeto e a língua-padrão (BLOM; GUMPERZ, 2002, p. 84).
O reconhecimento da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul como parte do patrimônio histórico, em 2012, representou um importante avanço para a garantia do plurilinguismo como um bem cultural de valor, revertendo, de certo modo, uma posição histórica do Estado Brasileiro que foi de reprimir e silenciar muitas línguas.
O inventário do Hunsrückisch como
política, pesquisa e documentação
O Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), possui um coletivo bastante atuante junto ao tema: “Grupo de Estudos da
Escrita do Hunsrückisch (ESCRITHU)” 12 .
Por meio de transliterações dos dados, foi desenvolvido um trabalho consistente de inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração (IHLBrI), entre os anos de 2017 e 2018, numa parceria estabelecida entre o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) e o Projeto Atlas Linguístico-Contatual das Minorias Alemãs na Bacia do Prata:
Hunsrückisch (ALMA-H) 13 (ALTENHOFEN et al. 2007). Para Altenhofen et al. (2018, p. 99),
Essa relação de complementaridade entre os dois projetos criou uma base
muito privilegiada de sustentação à língua, tornando o Instituto de
Letras/UFRGS e, com isso, a linha de pesquisa de Sociolinguística
(PPGL/UFRGS) um centro de excelência de pesquisas sobre “plurilinguismo,
contatos linguísticos e línguas minoritárias” – especialmente, no que se
refere ao Hunsrückisch.
Há de esclarecer-se que as regras e os princípios do ESCRITHU
seguiram as mesmas normas de ortografia do alemão 14 standard. Essa escolha objetivou facilitar a intercompreensão e uniformidade entre as variedades alemãs e os diferentes usuários e interesses envolvidos. Cabe considerar, no entanto, que “a escrita em Hunsrückisch, atualmente, se divide em dois modelos de grafia: uma que se baseia na grafia do Hochdeutsch, e com ela dialoga, e a outra pautada em regras fonéticas” (ALTENHOFEN et al., 2018, p. 86).
Sua elaboração contou com o apoio financeiro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e alinha-se à perspectiva da política brasileira do “Inventário Nacional da Diversidade Linguística” (INDL). Para Altenhofen et al. (2018, p. 100),
O Inventário do Hunsrückisch como política, pesquisa e documentação faz um recorte nesse campo de pesquisas efervescentes, propondo novas questões, sobretudo vinculadas às condições atuais de uso e de transmissão da língua, gerando deste modo novas formas e instrumentos de coleta. Ao mesmo tempo, sua execução exigiu a constituição de uma rede de pesquisadores, que passaram a se reunir com regularidade para planejar, investigar, compreender e sistematizar o trabalho de pesquisa. Podemos afirmar, nesse sentido, que o IHLBrI proporcionou uma formação contínua e qualificada de pesquisadores no campo da Política Linguística, da Sociolinguística, da Dialetologia e dos procedimentos de arquivagem e de finalização de produtos impressos e audiovisuais.
Buscou-se inventariar, reconhecer, salvaguardar e promover as línguas faladas no Brasil, compreendidas como parte do patrimônio cultural imaterial, conforme estabelecido pelo Decreto nº 3.551/2000 e atendendo as prerrogativas previstas na Constituição Federal de 1988. De modo específico, segundo Altenhofen et al. (2018, p. 97-98), o formulário do INDL está organizado em seis módulos, incluindo um conjunto de temas em cada um deles:
1º) Identificação da pesquisa (incluindo dados gerais, escopo do inventário, documentação de anuência, avaliação sobre as informações fornecidas e identificação da área de abrangência da pesquisa); 2º) Caracterização territorial (incluindo identificação das localidades onde a língua é falada e caracterização desse território linguístico); 3º) Identificação e caracterização da comunidade linguística (incluindo informações sobre a população da comunidade linguística); 4º) Identificação e caracterização da língua de referência (incluindo denominações, modalidade e historicidade da língua, variedades, situação político e jurídica, recursos documentais, pessoas de referência e instituições); 5º) Diagnóstico sociolinguístico (incluindo dados sobre falantes, aquisição e transmissão da língua, escrita e leitura, situações de uso e atitudes linguísticas na comunidade); 6º) Avaliação da vitalidade linguística, revitalização e promoção.
Como previsto pelo INDL, após o Inventário, o Hunsrückisch passou ao rol das línguas reconhecidas como Referência Cultural Brasileira. Valendo-se de dados produzidos pelo ALMA-H, desde 2007, que priorizou a descrição e o estudo linguístico da língua, o IHLBrI focalizou sua promoção linguística e o diálogo com a
sociedade15.
Uma dificuldade é identificar quando se trata de um estudo que tem a língua
inventariada como um fim em si ou um meio ou um aspecto entre outros.
Os primeiros estudos tiveram essa característica; nasceram de áreas como
sociologia, antropologia e história e consideraram a língua como um aspecto
entre outros16 (ALTENHOFEN et al., 2018, p. 86).
O código já está ativo e sendo usado em emissoras de rádio, em livros, revistas e jornais locais, além de gibis para as crianças, que tem se mostrado um grande sucesso. Também foram traduzidos textos históricos, literários, bíblicos e teatrais. Segundo Altenhofen et al. (2018, p. 217), “ O Hunsrückisch é reconhecido enquanto dialeto e variação do alemão, todavia, não se apresenta como opção rentável aos municípios, pois ainda circula fortemente a ideia de inferioridade e até atraso diante do alemão padrão”. E, ainda,
A ausência de dados demolinguísticos de abrangência nacional para apoiar
o planejamento de políticas linguísticas no Brasil, tem conduzido à realização
de censos linguísticos localizados, conduzidos por municípios que
cooficializaram línguas em sua jurisdição (ALTENHOFEN et al., 2018, p. 94).
De acordo com Altenhofen et al., (2018, p. 87), identifica-se a produção científica (teses e dissertações) sobre o Hunsrückisch em diferentes campos, desde a dialetologia e a sociolinguística, germanística e romanística, passando pela linguística aplicada, até a psicolinguística e a antropologia linguística (ALTENHOFEN et al., 2018). Ainda, segundo os mesmos autores,
Nos últimos anos, no entanto, surgiu um número considerável de Teses e
Dissertações que contribuíram para um avanço significativo no conhecimento
do Hunsrückisch, que é o que nos trouxe até este Inventário. A seguinte lista
de 27 Teses e 45 Dissertações exemplifica a trajetória de conhecimento
produzido acerca do alemão no Brasil. Do total de 72 Teses e Dissertações
levantadas, 20 foram desenvolvidas no PPG-Letras / UFRGS e 13 em universidades da Alemanha, seguido da UFSC (10), UNICAMP (4), UFFS (4) e UNISINOS (3). O Hunsrückisch aparece como objeto de estudo em pelo menos 33 desses estudos, portanto 45,8% do total, sendo que em mais 13 (= 18%) figura como uma das variedades/línguas observadas. Entre os temas abordados, estão a variação e o contato linguístico; aprendizagem, aquisição plurilíngue e letramento; bem como interferência e atitudes/percepções linguísticas, sendo as principais áreas atingidas Sociolinguística e Dialetologia (30), Linguística Aplicada (17) e psicolinguística (7), entre outras. Como mostra o gráfico a seguir, observa-se um interesse e desenvolvimento crescente desses estudos, nos últimos anos. O número de Teses e Dissertações tem praticamente dobrado, de uma década a outra (ALTENHOFEN et al., 2018, p. 103)
Entre os anos de 2012 e 2019, foram realizados quatro encontros
de falantes, nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul 17. Esses eventos cumpriram a função de reunir falantes e gestores da língua Hunsrückisch para troca de conhecimentos e salvaguarda como patrimônio cultural imaterial.
A consciência sobre a própria cultura,
língua e identidade como um marco
conceitual na garantia da diversidade
linguística
Na Mesorregião Grande Fronteira do Mercosul, composta por 396 municípios, região de atuação dos seis campi da UFFS (Chapecó, em Santa Catarina; Realeza e Laranjeiras do Sul, no Paraná; Cerro
Largo, Erechim e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul)18, o Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (PPGEL) é o único programa da área de Letras/Linguística em IES pública. Nessa Mesorregião, além do PPGEL há apenas mais um programa de pós-graduação stricto sensu na área de Letras/Linguística, em funcionamento na Universidade de Passo Fundo, IES comunitária instalada no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
O PPGEL insere-se na política de interiorização das atividades de Pesquisa e de Pós-Graduação desenvolvida pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES). No caso do Estado de Santa Catarina, historicamente, os programas de Pós-Graduação tendem a concentrar-se no litoral. Na área de Letras/Linguística, o PPGEL é o único Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu no interior do Estado. Os outros programas da área estão instalados na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), ambas em Florianópolis e região metropolitana.
Devido a essa litoralização histórica dos programas de pós-graduação stricto sensu da área de Letras/Linguística, a complexa realidade linguística do interior do Estado de Santa Catarina e da Mesorregião Grande Fronteira do Mercosul permanece, em vários aspectos, desconhecida, o que produz efeitos importantes no desenvolvimento socioeconômico regional. As atividades de pesquisa desenvolvidas no PPGEL buscam, sem perder de vista a universalidade da ciência, conhecer as línguas, os contatos entre línguas e os funcionamentos discursivos que configuram os laços sociais e as matrizes produtivas da região.
Desse contexto foram selecionadas quatro dissertações produzidas no PPGEL (2014-2017) sobre a temática do Hunsrückisch, sob orientação dos Professores Dr. Marcelo Jacó
Krug19 20 e Drª Cristiane Horst. Segundo descrição feita pelos seus
autores (RUSCHEINSKY, 201421 22 ; WEHRMANN, 2016;
WOLSCHICK, 201623 24 ; SCHNEIDERS, 2017), essas pesquisas tiveram como trilha metodológica uma matriz dialetologia pluridimensional e relacional, baseadas em Thun (2009). Por meio dela, procurou-se investigar a fala não só a partir do espaço geográfico em relação à função das variáveis extralinguísticas na mudança linguística. Ela combinou, assim, as superfícies da dialetologia tradicional com o eixo de grupos sociais diferentes, criando, assim, um modelo de espaço tridimensional.
O conjunto das investigações científicas (elencados numa dada temporalidade) escolhidas define um importante marco conceitual curricular na promoção e ampliação da capilaridade do debate sobre
o assunto nos territórios da UFFS 25 e, também em seu extramuros, considerando a dimensão geolinguística, propriamente dita. Nessa perspectiva, ambos os Pesquisadores (KRUG e HORST) protagonizam a abertura da visão acadêmica e de pesquisa para uma tipologia de trabalhos de suma relevância ao atendimento da missão institucional, dentro da Linha de Pesquisa “Práticas discursivas e subjetividades”, do PPGEL.
Esta linha reúne pesquisas que se propõem a investigar a produção de sentidos e de subjetividades, na perspectiva discursiva, pela análise de políticas e processos de significação e de constituição de sujeitos em diferentes materialidades significantes. Mobiliza a noção de fronteira, quer seja de saberes, de línguas, de discursos, de subjetividades
contemporâneas. 26 (Proposta do Curso, na Plataforma Sucupira).
A partir da leitura crítica sobre as pesquisas supracitadas, evidencia-se que há vários conceitos que merecem análises a posteriori, identificando aspectos epistemológicos relevantes. Na verdade, são conteúdos que inspiram pesquisadores para a realização de outros estudos em perspectiva interdisciplinar. De toda forma, se constituem em excelentes fontes de consulta, conjuntamente aos demais trabalhos sobre o assunto e que constam nos repositórios especializados. Uma revisita ao tema em questão, tratando o mesmo, sob o ponto de vista da historicidade institucional na constituição das escolas étnicas no Sul do Brasil, alguns apontamentos se fazem necessários.
Das relações estabelecidas no eixo “imigração, etnia e identidade”, emergem constatações sobre a permanência entre os imigrantes de relações sociais étnicas associadas à cultura e organização social de origem, dentre as quais a preservação da língua materna com representação do fator essencial à manutenção da função identitária das comunidades. Isto aconteceu principalmente nos cenários do germanismo teuto-brasileiro [Deutschbrasilianertum]. Há de se ressaltar, contudo, que não estão excluídos, obviamente, desse contexto de análise, os condicionantes de gênero, religião e classe, entre outros. Em relação à formação do sistema escolar das comunidades teuto-brasileiro, mais especificamente, pode-se afirmar que se constitui de forma bastante complexa. É o que afirma Schaden (1966, p. 65):
A sua notável diferenciação interna tem sido escamoteada não raro pela
designação corrente de “escola alemã”. Dadas as múltiplas formas de
transição, não é fácil, aliás, dar uma tipologia satisfatória das “escolas
alemãs” no Brasil. De qualquer modo, conviria distinguir pelo menos entre:
1o, escolas alemãs propriamente ditas, surgidas sobretudo em núcleos
urbanos e mantidas, em sua maioria, por sociedades escolares; 2 o, escolas
comunitárias ou coloniais, características das zonas de fraca densidade
demográfica, e 3 o, escolas mantidas por congregações religiosas alemãs.
A estrutura minifundiária e a natureza da colonização homogênea oportunizaram condições adequadas para a reprodução das línguas de imigração, em especial o alemão e o italiano, no Sul do Brasil. A noção de “unidade nacional” acabou sendo garantida pelo Estado brasileiro, com base nas aproximações estabelecida entre “língua portuguesa” e “nação brasileira”. Esta foi uma estratégia governamental que redundou na limitação da expansão e do empoderamento de importantes grupos étnicos e linguísticos da nacionalidade, da universalização no conceito de povo e de nação em detrimento das especificidades e diferenciações culturais, a partir de uma unidade simbólica.
O ideário recente que aborda os conteúdos atinentes ao direito
linguístico 27 recupera tal aspecto, que é por natureza, deveras excludente, numa dimensão de análise política. É, pois, um fator central para o entendimento sobre a formação cultural do povo brasileiro e de seus processos de escolarização. A esse respeito, Oliveira (2008, p. 8) esclarece:
A História nos mostra que poderíamos ter sido um país ainda muito mais
plurilíngüe, não fossem as repetidas investidas do Estado contra a
diversidade cultural e lingüística. Essa mesma História nos mostra,
entretanto, que não fomos apenas um país multicultural e plurilíngüe: somos
um país pluricultural e multilíngüe, não só pela atual diversidade de línguas
faladas no território, mas ainda pela grande diversidade interna da língua
portuguesa aqui falada, obscurecida por outro preconceito: o de que o
português é uma língua sem dialetos.
Priorizar uma concepção de plurilinguismo que priorize o desenvolvimento de competências comunicativa, práticas transculturais e plurilíngue são desafios intergeracionais no Brasil e, portanto, permanecem bastante atuais, principalmente nas nações que fizeram adesão pelos regimes democráticos, como forma de combater as desigualdades globais.
Nesse sentido, a presença de línguas de imigração (e da História das escolas étnicas) no cotidiano escolar e da educação regular de massas pode ser forma de despolarizar o cenário plurilíngue, evitando que a diversidade seja suplantada por tendências de cunho mais general e uniformizante. Seria este o caminho inverso feito pelos governos nacionais até o momento. Traduzindo, significa em apostar nas políticas curriculares de formação e qualificação profissionais que possam criar e consolidar espaços educacionais e pedagógicos para o locus regional, as línguas de nações autóctones, de herança, de imigração e de sinais. Revela-se, assim, urgente que as dinâmicas dos processos de escolarização, em todos os seus níveis e modalidades, a partir das perspectivas postas pela educação linguística, se ocupem de ensinar (conscientizar) as pessoas sobre a importância de promover (e garantir!) a heterogeneidade e diversidade sociocultural e linguística.
Considerações finais
A partir de uma revisita ao passado é possível observar que, durante a maior parte da História, o Brasil se constituiu como um território plurilíngue, contudo, houve forte influência de políticas
linguísticas homogeneizadoras e por que não dizer repressoras 28. Nesse sentido, há uma concepção deveras equivocada de que em nosso país se fala uma única língua, a língua portuguesa. Ser brasileiro e falar o português (do Brasil) são, nessa concepção, sinônimo, ou seja, “no nosso caso, produziu-se o ‘conhecimento’ de que no Brasil se fala o português, e o ‘desconhecimento de que muitas outras línguas foram e são igualmente faladas’” (OLIVEIRA, 2008, p. 3).
Na realidade, a população brasileira caracteriza-se pela pluralidade étnica e, em se tratando da história política e da inserção dos imigrantes na dinâmica social do Estado brasileiro, constata-se que somente a partir de 1970 iniciou-se uma série de estudos sobre o tema da nacionalização do ensino no Sul do Brasil e a consequente desmobilização das escolas comunitárias, que teve seu ápice no período do Estado Novo (1937-1945). Desse modo, as línguas de imigração, faladas por imigrantes europeus e asiáticos que vieram para o Brasil a partir do fim do século XIX, sofreram forte repressão por conta da política nacionalista de Getúlio Vargas. Esse quadro se intensificou durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o Brasil se posicionou contra os países do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. O governo brasileiro proibiu que imigrantes alemães, italianos, japoneses – e até poloneses e ucranianos – falassem suas línguas.
Desde então, foram quase quatro décadas de profundo silenciamento sobre uma questão identitária importantíssima e que envolve as escolas étnicas. Portanto, todo esse perfil de diversidade linguística precisa ser estudado nos currículos dos cursos de formação e qualificação profissionais, considerando as distinções presentes entre língua, idioma e dialeto. Há de se defender uma sociedade culturalmente pluralista, em face da enorme diversidade linguística no Brasil, entendida para além dos fluxos internos à própria língua portuguesa. Isso quer dizer que se torna necessária e urgente a promoção de políticas públicas para integrar estudantes das universidades, principalmente, à nova realidade linguística e cultural.
A maioria da população brasileira é monolíngue, isto é, fala apenas o português, contudo, de acordo com o levantamento do Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) há, pelo menos, 56 línguas faladas por descendentes de imigrantes que vivem no Brasil há pelo menos três gerações. Ou seja, temos cenários multilíngues com espaços onde há plurilinguismo, formado por grupos populacionais que falam línguas maternas diferentes, mas são capazes de se comunicar em outra língua.
É importante considerar também que o Brasil possui uma fronteira terrestre que se estende por mais de 15 mil quilômetros, o país limitase com dez países da América do Sul, e, em função dos movimentos migratórios contemporâneos, novos fatos demolinguísticos têm surgido. Reitera-se, com isso, o poder da palavra como elemento mobilizador da autoridade acumulada pelo falante e produtor de atos verbais em contextos linguísticos e extralinguísticos. A língua é, pois, promotora de vínculos, identidades, memórias, afetos e conhecimentos. A consciência da sua própria cultura, língua e identidade é, portanto, um marco conceitual fundamental para a garantia da diversidade linguística, principalmente nas comunidades escolares.
Referências
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