Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Demétrio Alves Paz e Jeize de Fátima Batista · Capítulo 8 de 17

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Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Práticas de iniciação científica: contribuições para a formação do estudante de letras

Práticas de iniciação científica:

 

contribuições para a formação

 

do estudante de letras1

 

Pablo Lemos Berned 2 3 , Camila Stasiak , Sabrina Ferraz

Fraccari 4 5 , Tiago Miguel Chiapinotto

 

Considerações iniciais

 

A finalidade do Curso de licenciatura em Letras consiste, prioritariamente, na formação de professores de Línguas e de Literatura para atuar na Educação Básica. E a organização curricular do curso de graduação, por sua vez, oferece um conjunto de saberes a serem abordados em componentes curriculares com uma progressão sugerida e em tempo determinado. Ou seja, o currículo consiste em uma seleção, um recorte de prioridades para a formação básica do profissional.

Uma das possibilidades que se apresenta para buscar um aprofundamento de estudos em determinada área de estudos é a iniciação científica. Como concebido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o propósito da iniciação científica consiste em “despertar vocação científica e incentivar talentos potenciais entre estudantes de graduação universitária, mediante participação em projeto de pesquisa, orientados por pesquisador qualificado” (CNPq, RN-017/2006). Portanto, a iniciação científica, para além do mero cumprimento de horas-atividade, propõe ao estudante o contato com teorias e práticas no campo da pesquisa na área de sua formação profissional, que podem levá-lo à continuidade de seus estudos em programa de pós-graduação e à carreira acadêmica. E a participação no desenvolvimento de projetos de pesquisa, neste caso, contempla o exercício de busca de respostas tanto no âmbito individual – oportunizando ao estudante saber mais sobre um assunto de seu interesse – quanto no âmbito da comunidade acadêmica – contribuindo com produções científicas em um circuito de colaboração mútua, conhecendo o trabalho de pesquisadores que o antecedem e servindo de referência para outros pesquisadores de um mesmo tema.

Entre as finalidades da educação superior no Brasil, está o incentivo ao “trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive”, conforme o inciso III do Art. 43 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996). Esta concepção adotada aponta como um dos pilares do Ensino Superior a constante busca por respostas que expliquem os mais variados fenômenos, para além da difusão de saberes estabelecidos. A inquietação por buscar respostas é, em qualquer área de estudo, condição fundamental para a constituição do pesquisador.

A linguagem, a compreensão sobre a linguagem e os contextos de sua produção e circulação são fenômenos de constante transformação, o que exige do profissional de Letras uma postura ativa de observação da realidade. A prática da pesquisa, portanto, tomada em um sentido amplo, é elemento fundamental da formação do professor de línguas, tanto para a leitura de ocorrências e aspectos no campo da linguagem, quanto para o aprimoramento profissional no exercício docente.

No Curso de Letras: Português e Espanhol – Licenciatura da UFFS – Campus Cerro Largo, busca-se oferecer uma formação indissociada entre ensino, pesquisa e extensão, como prevê a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica (BRASIL, 2015), de modo que a leitura e a interpretação da realidade façam parte da constituição do egresso, tanto quanto a formação teórica e a ação para a transformação junto à comunidade. Isso é desenvolvido tanto nos componentes curriculares obrigatórios quanto nos projetos coordenados pelos professores e oferecidos aos estudantes, por engajamento voluntário ou financiado por programas, entre os quais, de fomento à prática de pesquisa. O objetivo deste capítulo consiste em compartilhar algumas dessas atuações na iniciação científica e a consequente reflexão sobre a contribuição de tais experiências na formação do acadêmico e profissional de Letras.

 

Estruturas poéticas emergentes na

 

modernidade

 

Entre os projetos de pesquisa desenvolvidos na UFFS, desde 2013, está em vigência o projeto de pesquisa “Estruturas poéticas emergentes na modernidade”. O projeto propõe-se a promover a realização de estudos sobre textos enquanto expressões da representação literária na modernidade, a partir dos modelos estruturais adotados e em relação à compreensão ética, estética, técnica e política das manifestações artísticas. Considera-se na abrangência do campo de pesquisa a pluralidade das manifestações estéticas, afirmadas pelos diálogos possíveis entre obras reconhecidamente vinculadas à tradição erudita, às vertentes populares e à indústria cultural, e entre as múltiplas vozes sociais que compõem a diversidade cultural na modernidade.

Esta proposta constitui-se enquanto um projeto integrado (“guarda-chuva”) que define a seleção para análise de textos literários ou outras manifestações culturais a partir de um recorte teórico-metodológico e um objetivo comum. Na prática, em paralelo aos trabalhos desenvolvidos pelo professor coordenador, este projeto de pesquisa constitui-se um laboratório de análises de textos literários voltado para estudantes de graduação em Letras, como uma possibilidade de proporcionar o aprofundamento de estudos e a familiarização com a prática de pesquisa. Aos estudantes que participaram e participam do projeto foram apresentados textos literários de escritores nacionais para a leitura da obra e da fortuna crítica.

A escolha de autores e obras, contudo, foi dos próprios estudantes, a partir do interesse despertado pela peculiaridade de cada escrito e pela abordagem metodológica proposta. Desde então, o projeto acolheu trabalhos de estudantes de graduação voltados para a obra de Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Osman Lins, João do Rio, Sérgio Sant’Anna, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst e Santiago Nazarian, que resultaram em trabalhos de conclusão de curso, apresentações de trabalhos em eventos acadêmicos, publicação de artigos e projetos de mestrado. Assim, algumas dessas trajetórias no Curso de Letras são compartilhadas aqui, registrando parte da memória do curso em sua primeira década na UFFS – Cerro Largo.

 

Sentidos e valores em santiago

 

nazarian

 

Os primeiros contatos de Tiago Chiapinotto com os estudos literários, durante a graduação, no primeiro ano no Curso de Letras, em 2012, possibilitaram uma nova visão sobre como estudar Literatura, que se distinguia muito daquela fomentada em sua educação básica, despertando o interesse pela possibilidade de trazer para dentro do curso aquilo que já gostava de ler. E quando teve a oportunidade de atuar como monitor de Literatura no curso dois anos depois, o estudante viu a possibilidade de aliar as suas preferências literárias com a iniciação científica.

A obra de Santiago Nazarian (1977), escritor e roteirista natural da cidade de São Paulo, foi a escolhida para os estudos por ser de um autor de grande interesse na adolescência de Tiago. Embora comumente não apareça no grupo de escritores brasileiros estudados na Educação Básica, ele foi eleito um dos autores jovens mais importantes da América Latina pelo júri do Hay Festival em Bogotá, em 2007, e sua obra “Mastigando Humanos” (2013) foi adotada pelo Projeto Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Sua narrativa é marcada pelo conceito de “existencialismo bizarro”, definido pelo próprio autor e explicado como uma mescla de questões atemporais da literatura existencialista com cultura pop, elementos trash, humor ácido e horror.

Nessa perspectiva de inter-relacionar temáticas é que a obra “Pornofantasma” (2011) foi escolhida para ser a primeira trabalhada. “Pornofantasma” é formada por 14 histórias de sexo e morte, em uma definição do próprio autor, e o conto escolhido para análise foi “Conto de Lobisomem”. Nesse conto o narrador convida o leitor a colocar-se no lugar da personagem principal, adotando o uso da segunda pessoa do discurso e de modos e tempos verbais que exploram sentidos hipotéticos, para que experimente suas angústias e tente entender suas motivações e seus anseios. A narrativa apresenta um homem que decide viver no deserto para que o clima seco o ajude no tratamento de suas mazelas físicas, além de a solidão ajudá-lo em seu amadurecimento. Porém, por mais que a personagem busque um crescimento pessoal, a maneira como ela narra suas possíveis vivências antes do deserto, ou mesmo durante, além de suas conjecturas para o futuro, muitas vezes são incompatíveis com suas ações presentes e impõem inúmeras dúvidas ao leitor.

São essas dúvidas que foram analisadas no projeto, buscando relações entre as personagens a partir das perspectivas de Roland Barthes et al. (2008) e Tzvetan Todorov (2011). Nessa abordagem, são as relações estabelecidas entre as personagens que criam um perfil mais confiável de cada uma delas e, nesse horizonte, é possível analisar também como a narrativa é composta em oposições. Na análise, buscamos apontar os graus de memória e atenção, fundamentada em conceitos propostos por Henri Bergson (2006), relacionando o real possível dentro da narrativa, com as conjecturas feitas pela personagem principal sobre o real, entendendo, assim como a interação do leitor no conto e as artimanhas de desvio da atenção pela personagem sobrepõem-se a uma mera noção de intencionalidade e aceitabilidade do texto.

Já mais familiarizado com a escrita acadêmica, o estudante voltou-se para a obra “O prédio, o tédio e o menino cego” (2009), uma produção voltada ao público infanto-juvenil, também escrita por Nazarian e considerada um fracasso pelo próprio autor. A obra, feita para integrar-se com vivências de adolescentes, parece que não atingiu o foco por valer-se de metáforas muito críticas e, ao mesmo tempo, superficiais, o que favorecia o interesse para o desenvolvimento de um trabalho de análise.

Na trama, um prédio começa a curvar-se e isso impossibilita a entrada de adultos no local, que passa a ser habitado apenas por crianças, com papéis sociais estabelecidos por elas mesmas. Os nomes das personagens são suprimidos em um primeiro momento, e elas se conhecem por apelidos que as definem de maneira estereotipada: o menino gordo chama-se “gordo”, o menino negro é o “negro”, o menino com traços femininos é o “andrógino”, por exemplo. É importante frisar que esses apelidos caricatos não são responsáveis por nada além de nomeá-los, propriamente, sem representarem o tratamento que a sociedade dá para cada uma dessas características físicas, por mais que certas personagens interajam com as outras de maneira ofensiva, como o “negro” ameaçando ao “gordo” sem motivos claros. Apenas com a chegada da professora Regina a sociedade passa a interferir dentro do prédio por meio das classes ministradas por ela, e o “gordo”, que agora volta a chamar-se Jonas, percebe-se também branco. Regina, enquanto professora, explica que os brancos se colocam como superiores aos negros na sociedade, e isso é o ponto de partida para que Jonas sinta-se confortável a atacar o “negro” e posteriormente matá-lo.

A análise das relações e das linhas de ações entre o “negro” e o “gordo” estabeleceu que, em um primeiro momento, o “negro” apresenta certo domínio, e no segundo, o “gordo” – agora Jonas – passa a impor-se. Ademais de qualquer analogia possível à teoria de Jean-Jacques Rousseau (1996), na qual a sociedade influencia o homem, aqui é importante perceber como Regina representa esse marco divisor da narrativa, apontando as ações do “negro” e os efeitos sobre o “gordo”. E, posteriormente à chegada de Regina, as ações de Jonas e seus efeitos sobre o “negro”. Entendeu-se, com isso, como um elemento pode influenciar toda a organização da narrativa desde quando ele é inserido no texto.

Em um último momento, agora já na fase final do curso, voltamo-nos à obra que possibilitou o primeiro contato de Tiago com Santiago Nazarian: “Mastigando Humanos” (2013). Revisitar as leituras da juventude, agora com mais bagagem de vida, é uma experiência tanto desconfortante como prazerosa. Impossível não relacioná-la com o longa-metragem de João Moreira Salles, “Santiago: reflexões sobre um material bruto” (2007), no qual o cineasta analisa materiais produzidos no início de sua carreira, mais de dez anos antes da produção do filme. Salvas todas as coincidências de nomes, abordar nas atividades de pesquisa algo que já fora lido apenas por lazer ressignifica a obra e mostra como a afetividade por uma produção pode ser muito mais interessante do que a percepção crítica que apontamos a ela.

Na trama de “Mastigando Humanos” (2007), um jacaré que vai parar no esgoto após uma enchente procura relacionar-se da melhor maneira possível com a organização social do lugar, convivendo com as demais personagens, apaixonando-se e envolvendo-se em brigas políticas, por exemplo. A análise, entretanto, restringiu-se às relações entre o Jacaré e Artur Alvin, um menino que vai ao esgoto para usar drogas. No primeiro momento, o jacaré entende Artur como uma possível fonte de alimento, mas logo abandona a ideia por ser o jovem uma possível companhia. Com o passar do tempo, as personagens tornam-se amigos, mas acabam por tomar rumos distantes. Após escrever um livro, o jacaré está interessado em publicá-lo e, em uma reunião com o possível editor – uma aranha gigantesca, decidem chamar um garoto de programa para fazer uma refeição. Eis que o rapaz que chega é Artur Alvin e embora se reconheçam, o jacaré, junto da aranha, decide por devorá-lo, garantindo mais tempo para convencer a aranha sobre a publicação de sua obra.

Da mesma forma que a análise anterior, foi possível estabelecer uma sequência de interações entre as personagens em duas linhas. Na primeira, temos um desejo reprimido pelo réptil que, em função do espaço social no qual está inserido, faz com que uma amizade se torne possível, mas se desfaça com o passar do tempo e de distintos acontecimentos, como uma nova enchente no esgoto. No momento de reencontro das personagens, os interesses já são outros, e o mesmo pensamento que antes repeliu Artur de sua dieta, agora faz com que ele pareça atrativo. Aliando o desejo com a necessidade de divulgar seus escritos, o jacaré opta por seguir seu novo rumo e afastar-se da linha traçada anteriormente, devorando o antigo amigo.

Além das percepções referentes às obras estudadas, é possível apontar o amadurecimento da participação em sala de aula a partir das vivências da iniciação científica. Muitas atividades e escritos produzidos durante diversos semestres do curso seguiam um mesmo formato, mas a compreensão sobre as teorias utilizadas e a síntese necessária para relacioná-las ao objeto de estudo pôde ser aprimorada cada vez mais. E passou de uma fragmentação de conteúdo apresentada junto de comentários sobre um poema no início do curso para uma abordagem sucinta de um romance, relacionando-o com concepções apresentadas por mais de um autor, caracterizando-o enquanto objeto de estudo ao final da graduação, após quatro anos participando do projeto.

E nesse desenvolvimento acadêmico, aliado ao trabalho com leituras feitas na adolescência, é possível perceber como ocorre a aquisição de novos interesses. As cabeças de lobisomem, os prédios tortos governados por crianças ou mesmo o jacaré do esgoto já não são narrativas que chamam a atenção por causa desses elementos, mas pela maneira como essas histórias são narradas. Um jovem confuso no deserto apresentado pela segunda pessoa do discurso passa a ser mais intrigante que as próprias dúvidas da personagem; o prédio torto nem chama tanto a atenção, mas sim a maneira como uma única personagem se torna responsável por uma grande mudança nos rumos da narrativa; da mesma forma que as personagens extremamente bizarras do esgoto, ou mesmo da cidade acima, já não surpreendem tanto, mas sim a maneira como novas relações de valor são estabelecidas entre as personagens. Analisar uma narrativa que foi importante em sua formação leitora é um processo sem volta, você se despe de tantas percepções infantis e as revisita, é como se você se percebesse como parte do processo que está estudando.

 

Aspectos da modernidade na obra de

 

joão do rio

O contato com a abordagem sobre a literatura desde o início do curso, no primeiro semestre de 2014, na disciplina intitulada “Introdução aos estudos literários”, foi fundamental para que a atenção de Sabrina Ferraz Fraccari se voltasse à área específica. Já no segundo semestre, teve início a sua participação como bolsista no projeto de iniciação científica. Foram quatro anos de vínculo ao projeto “Estruturas poéticas emergentes da modernidade” dedicados ao estudo de parte da obra ficcional de João do Rio (1881-1921), autor carioca comumente classificado como pré-modernista, mas que goza de pouco espaço em livros teóricos e não aparece em materiais voltados para as classes escolares.

Cronista, contista, romancista e também teatrólogo, a obra de João do Rio constitui importante retrato da sociedade que habitou o Rio de Janeiro no início do século XX. Flâneur, o escritor transitou pela capital fluminense em busca das personagens de suas narrativas, tomando como tema de seus escritos desde a elite da época, hipnotizada com os ares modernos da Belle Époque tropical, até os marginalizados do progresso, excluídos pela nova ordem econômica e social que passava a imperar. Figura controversa em virtude de seu estilo adandinado, João do Rio foi membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 26.

O primeiro livro do autor estudado foi “Dentro da noite” (2002), concedendo especial atenção ao conto “A peste”, cujo enredo gira em torno de dois rapazes – Luciano e Francisco – que tentam fugir da epidemia de varíola que assolou a cidade do Rio de Janeiro no início do século passado. O tema de pesquisa foram as ações da varíola e a possibilidade de afirmála enquanto uma personagem, problematizando questões concernentes à definição desta categoria narrativa, a partir da intervenção determinante da doença nas ações das demais personagens.

O primeiro semestre de participação foi extremamente desafiador, pois havia a necessidade de aproximação tanto com os temas e questionamentos concernentes à modernidade como com as leituras teóricas que subsidiaram a participação no projeto. A própria ideia que se tinha de arte ainda estava muito presa ao senso comum, vendo-a como algo descolado da realidade, resultado de um ato quase “divino” de criação, quando em orientações discutimos os ready-mades, de Marcel Duchamp (1887-1968), objetos comuns retirados de seu contexto habitual e tratados como objetos artísticos, por exemplo, um mictório. O estranhamento não podia ser maior, porém, foi suficiente para promover novas inquietações sobre a “divindade” da arte.

No segundo ano de participação, seguiu-se o trabalho com João do Rio e também com o estudo de personagem no romance epistolar “A correspondência de uma estação de cura” (1992). O foco principal foi a personagem Teodomiro Pacheco, jovem neurastênico que pouco conhece o Brasil e, impedido de viajar à Europa em função da Primeira Guerra Mundial, decide ir até a estação balneária de Poços de Caldas-MG, famosa no Brasil da Primeira República. Lá ele transita entre a elite e os esquecidos pela modernidade, apresentando um quadro significativo de contraposições tanto econômicas quanto sociais.

Teodomiro participa do evento chamado “grande semana”, um encontro da elite que está em Poços de Caldas e cuja principal figura é a Marquesa Justina da Luz. Na narrativa, em oposição à marquesa, encontra-se Tia Rita, moradora de uma cidade mineira que Teodomiro conhece em uma de suas incursões pelo interior. A fim de discutir acerca do poder que estrutura o campo social e que tem a Marquesa e Tia Rita como parâmetros, tomaram-se por base as considerações que faz Pierre Bourdieu em “O poder simbólico” (1989). De acordo com o sociólogo francês, os espaços e grupos sociais são constituídos a partir dos diferentes capitais (econômico, cultural, social e simbólico) de que cada agente dispõe e que são fundamentais para determinar a posição que ocuparão no espaço social.

Localizadas em polos opostos no espaço social, a Marquesa da Luz e Tia Rita servem de base para a disputa de poder que ocorre entre as personagens do romance. No entanto, nenhuma delas participa deste jogo: uma porque representa o ápice do privilégio social; outra por ser o seu estágio mais desfavorecido. Dessa forma, elas delimitam o espaço no qual as demais personagens podem colocar em jogo seus diferentes capitais a fim de ascenderem na disputa pelo poder travada pela elite. Ambas são apenas espetáculos para os turistas: Tia Rita é a personificação do Terrível, é “um espetáculo horrível” (RIO, 1992, p. 59), enquanto a Marquesa é um espetáculo encantador aguardado pela elite.

O diálogo entre as produções de João do Rio e as inovações técnicas chegadas ao Brasil no início do século XX foi o tema escolhido para dar sequência à participação no projeto. Nessa abordagem foram consideradas as figurações do automóvel e suas implicações em contos dos livros “Dentro da noite” (2002), “A mulher e os espelhos” (1990) e “Rosário da ilusão” (1921). Nesta etapa, o estudo de Flora Süssekind (1987) acerca das relações entre a literatura e as inovações técnicas no país foi fundamental. Para a autora, João do Rio foi um “espectador encantado da exhibitio moderna” (SÜSSEKIND, 1987, p. 25), e seus escritos seriam o perfeito exemplo de uma literatura que se converteu em flirt com as inovações técnicas.

Esse olhar sobre a incorporação de novidades tecnológicas ao cotidiano da capital do país poderia ser percebida no “aproveitamento de gêneros, dicção e personagens-apenas-superfície, característicos de jornais e revistas ilustradas, na prosa de ficção, no teatro e nas crônicas de João do Rio” (SÜSSEKIND, 1987, p. 90). Para o estudo desenvolvido, considerou-se a quantidade de vezes em que o veículo aparece nas narrativas compostas por João do Rio e também em virtude da crônica “A era do automóvel”, publicada no volume Vida Vertiginosa (1911), na qual o autor reflete sobre o protagonismo que o automóvel assume no modo de vida moderno, sendo capaz de acelerar nossa percepção do tempo.

Já a presença de personagens femininas nos textos literários de João do Rio chamou a atenção desde a leitura do romance “A profissão de Jacques Pedreira” (1992), no qual o protagonista, mencionado desde o título, rapaz fútil, filho de um engenheiro, consegue tudo o que quer graças às personagens femininas, sua mãe e suas amantes. Ainda que o protagonista seja uma personagem masculina, os espaços ocupados pelas personagens femininas e o modo como elas transitam na narrativa evidenciam uma posição que guarda certa liberdade, sobretudo, quando pensamos nos papéis destinados à mulher na sociedade brasileira. Em função disso, optou-se por estudar na sequência as relações entre as personagens femininas retratadas por João do Rio em sua produção ficcional e a situação das mulheres no contexto histórico-social brasileiro da Primeira República.

Dessa forma, a participação no projeto de iniciação científica possibilitou, ademais de questionamentos acerca da noção mesma de “arte” e “literatura”, a aproximação e análise da produção literária de João do Rio. Tal obra foi observada enquanto diálogo com o novo horizonte técnico que se configurava no Brasil, além de possibilitar reflexões acerca dos próprios papéis concedidos às mulheres na sociedade brasileira e a perturbação que as personagens do autor promovem nesse quadro.

As atividades de iniciação científica possibilitaram aprofundamentos teóricos e análises literárias capazes de gerar novas interpretações e fomentar novas discussões. Além disso, propiciaram também um amadurecimento intelectual e pessoal, agregando experiências que modificaram até o modo como se relacionava com o curso, passando a enxergar distintas possibilidades futuras, inclusive despertando a vontade de realizar uma pós-graduação. As leituras e análises realizadas concederam ferramentas para que se repensasse a própria relação entre a acadêmica e o mundo a sua volta, tanto em uma perspectiva local quanto em outros níveis.

As expectativas iniciais quanto ao curso – a ideia de ser professor e levar à sala de aula as perspectivas teóricas estudadas na graduação – modificaram-se por completo a partir da participação na iniciação científica. A percepção de professor enquanto profissão estática caiu por terra, dando lugar ao professor pesquisador, que possui ferramentas para exercer sua profissão e manter-se como investigador, refletindo e questionando “verdades” sobre si e sobre o mundo a sua volta. Os ready-mades já não assustam mais.

 

Erotismo, transgressão e morte em

 

hilda hilst

Uma das atividades de pesquisa em andamento volta-se para a obra de Hilda Hilst (1930-2004), escritora brasileira, dramaturga, contista e jornalista, ainda pouco conhecida pelo público em geral, mas com uma extensa e reconhecida produção literária. Para a acadêmica Camila Stasiak, que desenvolve sua participação no projeto de pesquisa desde o segundo ano no curso em conjunto com a sua colega Schena Karlec, um dos elementos que tem despertado o interesse para o estudo do texto “Estar sendo. Ter sido” (1997), último livro publicado em vida pela autora, é a linguagem grotesca e erótica a que se vale o texto para provocar os leitores.

A narrativa retrata a frustração do personagem Vittorio ao encontrar-se em diálogo com seu filho, seu irmão e, dramaticamente, com seus devaneios, fazendo menções drásticas à morte, que parece ser a fiel companheira do protagonista e o iminente fim às dores de sua existência. Diante da sua separação com a mulher, Vittorio apenas lamenta o “nada” que se tornou e narra a morte como um desejo seu, convivendo agora com a solidão, o medo e a velhice, de modo que o desprezo com que trata a morte expressa a sua insatisfação com a vida. O objetivo do estudo desenvolvido no projeto de pesquisa, portanto, consiste em compreender a posição do protagonista Vittorio perante sua perspectiva de morte através das categorias de erotismo e transgressão.

Evidencia-se que a narrativa de Hilda Hilst encena a violação de certos interditos sociais, como o uso da linguagem erótica sem pudor e as menções à morte que são retratadas com maturidade pelo protagonista, mas que podem soar incômodas a quem lê. Essa peculiaridade do narrador pode ser observada em passagens como a seguinte, quando evoca imagens desconfortáveis enquanto parece narrada com muita naturalidade:

 

Pedi que se masturbasse a minha frente e ao mesmo tempo fingisse que lia. Que livro devo ter nas mãos? O código penal, naturalmente. Que eu gostava sim, ver a mulher como se estivesse mesmo a sós, largadona distraída ela: nunca fico largada. Ah é? Nunca mesmo? Nem fico distraída. Nem quando caga? Ofendeu-se como se eu a tivesse espancado (HILST, 1997, p. 72-73).

Da mesma maneira que a ruptura com interditos é exposta no texto de Hilda Hilst sob um viés literário, observa-se uma afinidade entre teoria e prática, que pode ser, convictamente, associada às relações sociais, a fim de compreender certas ações humanas. Essa relação se dá visto que vivemos sob a correspondência de alguns interditos, já que são concepções tidas como determinadas regras que instruem uma sociedade. Ao distinguir o homem dos animais através do trabalho, Georges Bataille (2013) indica a relação entre os interditos sociais a sua transgressão:

 

O interdito e a transgressão correspondem a esses dois movimentos

contraditórios: o interdito o rejeita, mas a fascinação, introduz a

transgressão. O interdito, o tabu, só em certo sentindo se opõe ao divino,

mas o divino é o aspecto fascinante do interdito: é o interdito transfigurado

(BATAILLE, 2013, p. 21).

 

Dessa forma, compreende-se que o interdito e a transgressão se correlacionam em uma contradição necessária que rege a sociedade, na medida em que o homem se constitui em meio a determinadas regras sociais e pode ser tentado a romper com essas imposições, de modo que encontre alguma retribuição com tal ação. Nesse sentido, o homem estabelece a ligação entre esses dois movimentos (interdito e transgressão), enquanto possui suas ações determinadas no trabalho e na razão, o que faz com que a obediência a tais prescrições não seja limitada. Cabe considerar que o interdito e a violência também se entrelaçam, sendo esta uma das bases para que o interdito exista, pois, como o homem, ser de razão, pode desempenhar um ato transgressor, logo, os interditos seriam, em tese, irracionais.

São em considerações como essa que se permite compreender questões teóricas em uma relação com fatos recorrentes da sociedade. Nessa relação da pesquisa com a vida pessoal, pode se convictamente afirmar que não apenas se agregam muitas leituras à formação acadêmica, mas também há um impacto intrínseco em uma perspectiva que contribui para a discussão de temas coletivos presentes no âmbito social e, portanto, uma consciência maior sobre a vida em sociedade.

Simultaneamente, observa-se a relevância da Literatura e a sua capacidade de fomentar reflexões. Com o papel de sensibilizar aos que são suscetíveis a essa linguagem e abrir-se a um mundo de possibilidades, os textos literários desempenham a atribuição de inquietar o leitor e fazê-lo buscar suas próprias percepções de mundo.

Desse modo, a Literatura deve ter um papel fundamental para um ensino crítico e reflexivo. É essencial que a educação seja baseada em perspectivas que não delimitem as possibilidades do texto literário, que não o usem apenas como pretexto e nem o determinem somente às classificações, mas permitam a conexão com a complexidade da obra. Maurice Blanchot (2005) evidencia esse posicionamento, em que a literatura está além do que a ela se impõe:

 

Só importa o livro, tal como é, longe dos gêneros, fora das rubricas, prosa, poesia, romance, testemunho, sob as quais ele se recusa a abrigar-se e às quais nega o poder de lhe atribuir lugar e de determinar sua forma. Um livro não pertence mais a um gênero, todo livro diz respeito somente a literatura (BLANCHOT, 2005, p. 293).

 

Assim, a linguagem literária pode ser concebida justamente para desfigurar a linguagem de sua realidade, fundamentada pela ambiguidade e estimular o leitor a encontrar novas apreciações em seus tantos significados. E, do mesmo modo em que encontramos na literatura, a vida em sociedade é feita de paradoxos e ambiguidades. Como exemplo, há a vida e a morte: só existimos em consequência da morte, que é o fio condutor da vida. E, nesse sentido, a Literatura pode valer-se da relação que possui com o mundo real para elaboração de uma passagem de fuga, para uma ficção que esclarece tudo aquilo que talvez seja árduo de perceber-se em realidade através da língua comum.

Essa ambiguidade também é encontrada no texto de Hilst. Ao referir-se à morte, o protagonista fala de seus temores e o quanto sofre por nem mesmo conhecer seu próprio eu e passa a desejar a própria morte. Por outro lado, em outros momentos do texto, mostra-se contente com sua situação de vida: “como é bom estar sozinho. fazer planos para ficar cada vez mais sozinho. uma ilha quem sabe. e os cães e os gansos. alguns pássaros” (HILST, 1997, p. 30).

Ainda em processo de desenvolvimento, a participação no projeto já permite reconhecer a importância que essa experiência pode oferecer e acrescentar para a formação profissional. Constantes leituras, trabalhos, encontros e discussões do projeto também fortaleceram a permanência no Curso de Letras e concretizaram a necessidade de fazer da literatura uma possibilidade de melhor compreender a vida.

Durante as orientações do projeto, nas tardes entre cafés e diálogos, foram desenvolvidos e ampliados conhecimentos sobre a obra literária, além de tecerem-se paralelos entre texto e vida social, o que permitiu reflexões e aprendizados. Como exemplo, os diferentes modos de lidar com a morte, tabus, a suspensão dos interditos e a maneira como esses fenômenos podem ser observados fora dos textos literários. Desse modo, os exemplos do dia a dia foram detalhando-se e explicando-se entre textos teóricos e a literatura. Ao longo desse período, constatou-se um amadurecimento notável de ideias, que se torna mais evidente quando aplicado ao convívio diário.

 

Considerações finais

 

O engajamento de estudantes do Curso de Letras em projetos de pesquisa, como em “Estruturas poéticas da modernidade”, conforme os exemplos apresentados, propiciou uma vivência particular na formação acadêmica de cada um deles, pois, além das etapas obrigatórias oferecidas pelo curso para integralização curricular, a inserção na iniciação científica é motivada pelo desejo de investigação. A disposição em aderir às propostas de leituras teóricas exigidas pelo projeto e em comprometer-se com a apresentação de resultados em forma de trabalhos acadêmicos voltados para a publicação dos saberes desenvolvidos, a partir de objetos de análises e adoção de perspectivas de trabalho escolhidas pelos próprios estudantes – ainda que sugeridas pelo orientador – asseguram a autonomia e a autoria do trabalho de iniciação científica desenvolvido, o que contribui de forma significativa para a formação do egresso do Curso de Licenciatura em Letras.

Não se apresenta como possível o desenvolvimento de quaisquer atividades de iniciação científica com uma postura apática. Trata-se de um tipo de atividade que parece ser possível apenas se houver um entusiasmo em querer estar ali, realizando aquelas tarefas, na companhia daquela equipe. Esse convívio amplia as possibilidades de apropriação de determinados conhecimentos por meio da leitura, da prática e do diálogo constantes, oferecendo um percurso de formação muito particular do estudante ao longo de sua permanência como estudante de graduação.

 

Referências

 

BARTHES, R. et al. Análise estrutural da narrativa. 5. ed. Trad. Maria Zélia Barbosa Pinto. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

 

BATAILLE, G. O erotismo. Tradução Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

 

BERGSON, H. Memória e Vida. Tradução Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 

BLANCHOT, M. O livro por vir. Tradução Leila Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

 

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

 

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