Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Demétrio Alves Paz e Jeize de Fátima Batista · Capítulo 13 de 17

Páginas do PDF

Letras UFFS Cerro Largo 10 anos de ensino, pesquisa e extensão

Eu pesquiso, tu pesquisas e nós nos ajudamos: possibilidades metodológicas para a pesquisa em letras

Eu pesquiso, tu pesquisas e nós

 

nos ajudamos: possibilidades

 

metodológicas para a pesquisa

 

em letras1

 

Angelise Fagundes 2 3 , Marcus V. L. Fontana

 

Introdução

 

[…] lo interesante del proceso de comunicación es que nos permite tomar

conciencia de que las palabras que salen de nuestro cuerpo, ya sea en forma

escrita, hablada o cantada, vuelan en el espacio cargadas de eco de otras voces

que ya antes de nosotros las habían pronunciado (ESQUIVEL, 2014, p. 194).

 

Por que e para que estudamos? Por que e para que pesquisamos?

São perguntas cujas respostas podem parecer óbvias, mas que precisamos nos fazer uma e outra vez sempre que decidimos enveredar pelas trilhas de uma nova pesquisa. De maneira singela, podemos dizer que estudamos, pesquisamos para aprender, para conhecer sobre determinado tema que ou nos é caro ou precisamos dar conta por ser significativo para nosso quehacer profissional.

Etimologicamente, os verbos aprender e conhecer nos indicam um

caminho bastante instigante que nos conduz ao fundamento da pesquisa em Letras. Conhecer deriva do latim cognocere, e o significado principal desse verbo é o mesmo que se preservou no nosso idioma – ato de tomar conhecimento (CASTELLO; MÁRSICO, 2007). Conhecimento como resultado de conhecer. Aprender, por sua vez, derivado do verbo prehendo, significando tomar, colher. Pressupõe, como apontam Castello e Mársico, “a ideia de que o conhecimento é algo que se toma e se assimila” (2007, p. 120). Pesquisamos, portanto, a fim de tomarmos para nós, para assimilarmos, para conhecermos os saberes necessários à nossa profissão e a nossa vida. Como educadores, pesquisamos para aprimorarmos nossos conhecimentos e proporcionarmos situações aos nossos alunos onde eles também possam ampliar seus saberes. Pesquisamos para dialogar com muitas outras vozes que, assim como nós, estão em busca de compreensão, de entendimento.

Não raro, nossos estudantes que ingressam no mundo da pesquisa acadêmica, seja por meio da iniciação científica, seja por meio da escrita de seus trabalhos de conclusão de curso, veem-se perdidos no momento de iniciar uma atividade de investigação. É principalmente para estes jovens pesquisadores que escrevemos este capítulo, ainda que, talvez, os mais experientes possam beneficiar-se de algumas de nossas sugestões. Aqui, sistematizamos um método relativamente simples, mas que se originou de longos e intensos estudos sobre metodologia. A simplicidade só floresce quando submergimos na complexidade e dela, com muito esforço, logramos emergir. Compartilhamos aqui o caminho metodológico que nos permitiu, em diferentes momentos, viabilizar nossas pesquisas quando da escrita de nossas teses e o que temos orientado a estudantes de graduação e pós-graduação vinculados ao nosso trabalho, com alguma variação, evidentemente, de acordo aos objetivos de cada projeto que nasce.

Nas próximas seções, discutiremos, primeiro, a entrevista narrativa como instrumento de coleta e caminho para (re)pensar a pesquisa em Letras (FAGUNDES, 2018); na sequência, pensamos o tratamento dos dados coletados, apresentando uma espécie de tutorial para a transcrição da entrevista narrativa (FAGUNDES, 2018); por fim, exploramos a técnica e as possibilidades da hermenêutica crítica reconstrutiva como ferramenta para a análise de dados (FONTANA, 2015). Como já afirmamos, este é apenas um caminho, mas por meio dele temos obtido resultados bastante significativos tanto em nosso trabalho como pesquisadores quanto como orientadores.

 

A entrevista narrativa como caminho

 

para (re)pensar a pesquisa em letras

 

Lo recuerdo (yo no tengo derecho a pronunciar ese verbo sagrado, sólo un

hombre en la tierra tuvo derecho y ese hombre ha muerto) con una oscura

pasionaria en la mano, viéndola como nadie la ha visto, aunque la mirara desde

el crepúsculo del día hasta el de la noche, toda una vida entera. Lo recuerdo, la

cara taciturna y aindiada y singularmente remota, detrás del cigarrillo. Recuerdo

(creo) sus manos afiladas de trenzado. Recuerdo cerca de esas manos un mate,

con las armas de la Banda Oriental […] (BORGES, 1998, p. 123).

 

Funes, personagem central do conto homônimo de Borges, era um

“memorioso”, ou seja, recordava-se de cada detalhe de todas as coisas que havia visto, vivido, lido. Lembrava-se da forma das nuvens austrais do amanhecer de 30 de abril de 1882. Não esquecia. Recordar, para ele, no entanto, não era simples. “Cada imagen visual estaba ligada a sensaciones musculares, térmicas, etcétera. Podía reconstruir todos los sueños, todos los entre sueños” (BORGES, 1998, p. 131).

Recordar, para nós, que não somos uma personagem de Borges, é

reconstruir uma rede de sentidos, envoltos em sentimentos, sensações, emoções. Recordar, para nós, também não é tarefa simples. Trata-se (por que não?) de habitar o mítico vilarejo Macondo, de “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez, vivendo a insônia e o esquecimento como uma peste. Trata-se de preencher o tecido narrativo de nossos esquecimentos com pedaços do vivido e remendos de entendimento. Trata-se de observar e interpretar este vivido. Trata-se de nos colocarmos diante dos fatos e construirmos caminhos, análises, possibilidades.

A escritura desta seção caminha em busca destas possibilidades de

fiar sentidos nas pesquisas através da entrevista narrativa. Para tanto, consideramos a entrevista narrativa como o instrumento de captura das memórias, como um fio de Ariadne em busca de Mnemosine, em busca do arcabouço de experiências docentes, discentes, etc., que apontarão contornos, caminhos, mapas, territórios. Nesta seção, no entanto, apenas abarcaremos algumas das especificidades da entrevista narrativa, a fim de compreender melhor seu funcionamento, bem como sua contribuição para as pesquisas em Letras.

Ao definirmos uma metodologia de coleta de dados para nossas

investigações, algumas perguntas iniciais nos parecem fundamentais: 1) Por que esta metodologia é adequada ao que nos propomos realizar? 2) Há outra metodologia que contemple nossos objetivos de forma adequada? 3) Esta metodologia dará conta de abarcar nossas necessidades de pesquisa? De que forma contemplará nossos propósitos? 4) Ao usar esta metodologia e não outra prevalecerá a ética de pesquisa necessária ao nosso trabalho? Certos de que a escolha se adéqua ao nosso propósito, é preciso considerar o método escolhido e suas nuanças no campo de investigação, sem perder de vista que ainda que o método nos dê um caminho, sempre é possível criarmos nossas próprias formas de caminhar.

A entrevista narrativa, por exemplo, tem sido utilizada em análises de memórias docentes, em especial, em narrativas (auto)biográficas. Ainda que este instrumento esteja fortemente ligado às escritas e construções orais que envolvam as histórias de vida dos colaboradores presentes no processo de pesquisa, não é a única possibilidade de caminhar. Entendemos a entrevista narrativa como um gênero discursivo que permite visualizar, através do funcionamento da língua, práticas comunicativas amplas, pois, como destaca Barthes (1976, p.25), “o ser humano é essencialmente um contador de histórias que extrai sentido do mundo através das histórias que conta.” E isto não se restringe apenas ao narrar sua existência, mas a narrar fatos periféricos ao seu (con)viver, etapas e/ou fatos significativos (ou não) a sua trajetória profissional. Além disso, a entrevista narrativa serve como instrumento significativo para a análise a partir de um paradigma interpretativo, como a hermenêutica reconstrutiva.

Dessa forma, este instrumento de captura de dados pode ser utilizado para além da análise de (auto)biografias, pois apresenta campo vasto de possibilidades de levantamento de dados através de sua utilização. Tais possibilidades têm sido apresentadas nas pesquisas desenvolvidas pelas Ciências Sociais, como mostram Weller e Pfaff (2011), em obra organizada por eles, intitulada “Metodologias da Pesquisa Qualitativa em Educação – teoria e prática”. A entrevista narrativa permite narrar vivências, situações acadêmicas que auxiliaram nos processos de formação inicial, por exemplo, ainda que não narre especificamente aspectos particulares da vida, das práticas dos envolvidos.

Este tipo de instrumento de captura de dados é, segundo, Miguel (2010, p. 3),

 

uma técnica de interação social, interpenetração informativa, capaz de quebrar

isolamentos grupais, individuais e sociais, podendo também servir à pluralização

de vozes e à distribuição democrática da informação. Em seus mais diversos

usos das Ciências Humanas, constitui-se sempre um meio cujo fim é o inter-

relacionamento humano.

Usualmente, pesquisadores optam entre três tipos clássicos de

entrevistas: (1) a estruturada; (2) a semiestruturada; e a (3) não estruturada. Manzini (2004) entende por entrevista estruturada aquela que contém perguntas fechadas, semelhantes a formulários, sem apresentar flexibilidade. Já a semiestruturada é conduzida por um roteiro previamente elaborado, composto por questões abertas. A não estruturada, por sua vez, é aquela que oferece ampla liberdade na formulação de perguntas e na intervenção da fala do entrevistado. A entrevista narrativa, contudo, escapa à tríade tradicional, sendo considerada “uma técnica específica de coleta de dados” (JOVCHELOVITCH; BAUER, 2014, p. 90).

É importante destacar que, independente-mente do tipo de entrevista

escolhida para um trabalho em Letras, é fundamental preocupar-nos com a elaboração das perguntas que serão feitas, ou seja, é imprescindível saber o que perguntar, a quem perguntar e como perguntar. Questões mal formuladas e executadas de forma errônea provocarão obstáculos ao desenvolvimento da pesquisa.

Nesse sentido, vale mencionar o que propõem Jovchelovitch e Bauer

(2014, p. 95) a respeito da entrevista narrativa:

 

Para se conseguir uma versão menos imposta e por isso mais válida da

perspectiva do informante, a influência do entrevistador deve ser mínima e um

ambiente deve ser preparado para se conseguir esta minimização da influência

do entrevistador. As regras de execução da EN restringem o entrevistador. A EN

vai mais além que qualquer outro método ao evitar uma pré-estruturação da

entrevista. É o empreendimento mais notável para superar o tipo de entrevista

baseado em perguntas-respostas.

 

O esquema de narração substitui o esquema pergunta-resposta que

define a maioria das situações de entrevista e, frente a isto, propõem quatro fases para o desenvolvimento da entrevista narrativa, segundo Para Jovchelovitch e Bauer (2014, p. 96): “ela começa com a iniciação, move-se através da narração e da fase de questionamento e termina com a fase da fala conclusiva”. Para cada fase, de acordo com os

autores, conforme mostra a Tabela 1, é sugerido um conjunto de regras que servem muito mais para guiar e orientar o entrevistador.

 

Tabela 1 – Fases da entrevista narrativa

 

Fases Regras Fases Regras

 

Preparação Exploração do campo

Formulação de questões exmanentes*

 

Iniciação Formulação do tópico inicial para a narração;

Emprego de auxílios visuais.

 

Narração central Não interromper; somente encorajamento não

verbal para continuar a narração; esperar para os sinais de finalização (“coda”).

 

Fase de perguntas Somente “que aconteceu então?”; não dar

opiniões ou fazer perguntas sobre atitudes; não discutir sobre contradições; não fazer perguntar do tipo “por quê?”; ir de perguntas exmanentes para imanentes.

 

Fala conclusiva Parar de gravar; são permitidas perguntas do tipo

“por quê?”; fazer anotações imediatamente

depois da entrevista

 

*Questões exmanentes refletem os interesses do pesquisador, suas formulações e linguagem; questões imanentes são os temas, tópicos e

relatos de acontecimentos que surgem durante a narração, trazidos

pelo informante (JOVCHELOVITCH; BAUER, 2014, p. 97).

Fonte: JOVCHELOVITCH; BAUER (2014).

 

A respeito da entrevista narrativa como técnica de captura de dados para a pesquisa, Miguel (2010, p. 4) salienta que “entrevistamos porque temos interesse nas histórias de outras pessoas; temos interesse pelo outro, por suas histórias, reflexões, ordenamentos dos fatos e acontecimentos”. Não se buscam respostas específicas nestas práticas sociais. O que se quer com elas é compreender experiências, significados que estas pessoas atribuem ao vivido; identificar o quanto uma experiência – seja como aluno, seja como professor – colabora, por exemplo, na formação profissional do sujeito.

 

O tratamento dos dados: um tutorial

 

para a transcrição da entrevista

 

narrativa

 

Para além da busca por informações, a entrevista narrativa requer

atenção com a análise dos dados, a fim de proporcionar à pesquisa consistência suficiente para a sua validade. No tocante à análise, Jovchelovitch e Bauer (2014) resgatam questões importantes. A primeira delas diz respeito à transcrição das gravações. Passo fundamental e já considerado parte da análise dos dados, a transcrição das entrevistas narradas requer, por mais cansativo que seja o trabalho, extrema atenção do pesquisador. Recomenda-se, inclusive, que essa não seja uma fase terceirizada no processo de pesquisa, pois é parte constituinte da análise.

A fim de não terceirizarmos um dos processos mais importantes de

nossas pesquisas de doutoramento, precisamos estudar e minerar incansavelmente recursos disponíveis na internet. Para tanto, buscamos, primeiramente, escolher o recurso que melhor se adaptou a nossos interesses de pesquisa. É preciso comentar que nos empenhamos sempre, nesse processo, no sentido de atentar para recursos gratuitos e acessíveis, justamente para que nossos estudantes, depois, pudessem fazer uso de nossas descobertas sem preocupar-se com gastos.

O trabalho prático teve início com a gravação das entrevistas com

nossos colaboradores de pesquisa. Para isso, utilizamos o gravador de voz do celular. Feita a gravação, preparamos os áudios e os transcrevemos. O melhor recurso que encontramos e que disponibilizamos aqui, em formato tutorial, foi o Google Documentos on-line e seus complementos (recurso Google Drive). Para a transcrição, seguimos duas etapas que apresentamos na sequência.

Etapa 1 – Preparação do áudio

Configurações de áudio para capturar som do computador:

 

Alto-falantes, canto direito da tela do computador (clica com o botão direito do mouse);

Dispositivo de gravação;

Habilitar “mixagem estéreo”;

Aplicar.

 

Edição de áudio para melhor captação do Google Documentos (on-line):

 

Grave as entrevistas em locais pouco ruidosos; Use, preferencialmente, o celular para a gravação; Copie o arquivo de áudio para um computador e o converta ao formato MP3 (Format Factory é um bom programa gratuito para

isso – https://formatfactory.br.uptodown.com/windows); Com o apoio do software gratuito Audacity, amplifique o som para que o Google Documentos capte melhor o áudio da entrevista

(https://audacity.br.uptodown.com/windows). Para isso, primeiro use as teclas de atalho e os menus para duplicar a faixa de áudio, tornando-a estéreo: ctrl+a para selecionar todo o áudio + editar +

duplicar (Figura 1 e 2). Por fim, acione o menu efeito seguido do

comando amplificar (Figura 3).

Figura 1- Audacity com faixa de áudio selecionada

 

Fonte: Os autores (2018).

Figura 2- Audacity com faixa de áudio duplicada

 

Fonte: Os autores (2018).

Figura 3- Audacity aplicação do efeito amplificar

 

Fonte: Os autores (2018).

 

Etapa 2 – Programa de reconhecimento de voz que melhor se

adapte aos objetivos de pesquisa

Para encontrar a melhor opção de programa de reconhecimento de

voz, apresentamos algumas possibilidades on-line gratuitas:

 

Sugestão 1: Voice Dictation (https://dictation.io/);

Sugestão 2 - Speechlogger (https://speechlogger.appspot.com/pt/); Sugestão 3: Voicenote II (extensão do navegador Chrome).

 

Em nossa experiência, preferimos o Google Docs, um editor de

textos da empresa Google que permite armazenamento automático de arquivos em nuvem no Google Drive. Para usar este recurso, seguimos os seguintes passos:

 

1. Acessamos documentos Google (https://docs.google.com);

2. Iniciamos novo documento;

3. Selecionamos Ferramentas/Digitação por voz (Fig. 4).

Figura 4- Google Docs digitação por voz

 

Fonte: Os autores (2018).

 

Também é possível optar pelo complemento Speech Recognition Sound Writer. Para isso, acionamos o menu Complementos seguido do comando Instalar complementos e o selecionamos a partir de uma lista

(Fig. 5). Com o complemento instalado, ativamos o botão vermelho

start (Fig. 6). Logo, abrimos o arquivo de áudio em um software adequado (player), como a tradicional opção do Windows, o Media Player, ou o VLC. Pode ser aquele com o qual o pesquisador se sinta mais confortável. Há vários gratuitos nas lojas on-line. Em seguida, rodamos uma parte do áudio e observamos a captação do som. É preciso parar a reprodução de tempos em tempos e transcrever partes que não sejam adequadamente captadas ou apresentem problemas. Ainda que o sistema seja eficiente e poupe um trabalho significativo de digitação, não é infalível. A tecnologia de conversão voz/texto tem avançado muito nos últimos anos, mas ainda precisa ser aperfeiçoada.

Figura 5- Instalação do Speech Recognition Sound Writer

 

Fonte: Os autores (2018).

Figura 6- Acionamento do Speech Recognition Sound Writer

 

Fonte: Os autores (2018).

 

Estas, portanto, são algumas sugestões que podemos compartilhar a respeito de metodologia de coleta de dados e transcrição. Na próxima seção, discutiremos a hermenêutica crítica reconstrutiva como metodologia de análise.

 

A reconstrução da memória com a

 

hermenêutica crítica

 

Pode parecer inusitado, especialmente para o pesquisador inexperiente, a associação da hermenêutica com a ciência, já que, conforme Steinberg (2006, p.129, tradução nossa), a hermenêutica tem suas raízes na “interpretação de textos religiosos e de escrituras

canônicas”4. A técnica interpretativa, porém, não se resumiu a esse campo; ela se desenvolveu e tomou força, de forma definitiva, ao longo do Século das Luzes, subvertendo a tradição científica do distanciamento entre pesquisador e objeto. A hermenêutica crítica, em especial, vinculada à tradição da Escola de Frankfurt, mostra-se hoje um caminho bastante interessante para a interpretação de entrevistas ambientadas em pesquisas voltadas para a Educação. E, claro, inclui a área de Letras, porque se dedica também, embora não exclusivamente, à compreensão das relações de poder e derrama um olhar ao contexto histórico-cultural. Não se pode negar que nas relações que emergem no sistema educativo, envolvendo professores, alunos, gestores e administração pública, entram em jogo relações de poder. Importa saber como este poder é exercido. Conforme Kincheloe e Berry (2007, p. 102),

 

A forma da hermenêutica empregada […] é a da hermenêutica crítica – crítica no

sentido de que se dedica a um diálogo com a tradição da teoria crítica. A teoria

crítica está sempre preocupada com as formas como o poder opera, as

maneiras com que várias instituições e interesses mobilizam o poder no esforço

de sobreviver, moldam o comportamento, adquirem dominação sobre outros ou,

num viés mais produtivo, aprimoram a condição humana. […] As identidades

humanas são moldadas pelos inter-relacionamentos nas teias que o poder tece.

A hermenêutica crítica emerge no diálogo entre a hermenêutica e a preocupação

da teoria crítica com o poder e a ação social.

 

A perspectiva hermenêutica baseia-se numa visão dialética da

realidade. Nela não há oposição entre fenômeno e essência, realidade e conhecimento. Considera o ser humano como sujeito histórico, cujos valores e ações se desenvolvem dentro de um ambiente sociocultural concreto, nas relações com outros seres humanos. Para Devechi e Trevisan, que trabalham numa concepção reconstrutiva da hermenêutica crítica, entre os grandes problemas da pesquisa atual estão a “falta de diálogo entre as diferentes perspectivas teóricas e despreocupação com a totalidade” (DEVECHI; TREVISAN, 2011, p. 412). Entre outros campos, a hermenêutica reconstrutiva tem sido usada como ferramenta de análise para dar conta de processos de formação de professores de diferentes áreas, inclusive nas Letras:

 

[…] a posição da hermenêutica reconstrutiva diante do objeto da formação pode

ser entendida como uma investigação com a formação de professores,

consentindo pensar sua compreensão como forma comunicativa de alcançar

argumentos válidos. Esses são constituídos com a finalidade de valorizar

proferimentos que, partindo do empírico, pretendem alcançar saberes cada vez

mais amplos ou universais (DEVECHI; TREVISAN, 2011, p. 412).

Sob esta mesma perspectiva, Steinberg (2006, p. 129, tradução nossa) afirma que a “interpretação [hermenêutica] não é simples e

direta”5, pois está em jogo a complexidade e a ambiguidade do ser humano. Nada está às claras. O pesquisador precisa forçar “os limites da compreensão humana conforme a natureza contraditória do mundo

a nossa volta”6 (STEINBERG, 2006, p. 130, tradução nossa). Na hermenêutica, a intuição joga papel fundamental na interpretação, o que coincide com o conselho de Costa (2002, p. 147) a quem pratica pesquisa acadêmica: “seja um bom detetive e esteja atento a suas intuições”. Isso porque o próprio narrador ou informante ou colaborador precisa evocar uma memória, que é sempre falha e imprecisa, sujeita a seus valores, a sua história, a todo o seu contexto sócio-histórico-cultural, enfim. A narração, conforme (AGUIAR, 1998, p. 25),

 

[…] pressupõe sempre dois tempos: o presente em que se narra e o passado

em que ocorrem os eventos narrados… A busca do passado, porém, nunca o

reencontra de modo inteiriço, porque todo ato de recordar transfigura as coisas

vividas. Na épica, como na memória, o passado se reconstrói de maneira alinear

com idas e voltas repentinas, com superposição de planos temporais, com

digressões e análise. Naturalmente o que retorna não é o passado propriamente

dito, mas suas imagens gravadas na memória e ativadas por ela num

determinado presente.

 

Reitera-se, portanto, a ideia de que a imprecisão da memória é uma constante no caminho do pesquisador que se dedica a coletar narrativas. Além dessa imprecisão, por mais experiente que seja o pesquisador, não se pode negar que seu filtro pessoal, formado por suas próprias experiências de vida, por suas crenças e escolhas, entra em ação, o que torna ainda mais delicado e meticuloso o trabalho da interpretação hermenêutica. É por isso que, para Steinberg (2006), toda pesquisa e análise envolve uma variedade de consciências e de valores, incluindo aqueles próprios do pesquisador, o que coincide com o que afirmam Connelly e Clandinin (1995) a respeito da pesquisa científica que percorre a senda da tradição narrativa, quando defendem que a forma como os sujeitos relatam suas vidas é sempre perpassada pela maneira como os pesquisadores narram esses relatos. No mesmo sentido, Poupart (2012, p. 223) afirma que “[…] os ‘informantes’ agem como intérpretes, apresentando diferentes reconstruções parciais e pareceres da realidade […]; enquanto o pesquisador também procede à sua própria reconstrução da maneira pela qual os primeiros reconstroem a realidade”.

Além de tomar os aspectos contextuais em conta, a hermenêutica

reconstrutiva tem suas bases teóricas firmemente assentadas sobre a linguagem (DEVECHI; TREVISAN, 2011), o que aproxima esta perspectiva ainda mais das pesquisas da área de Letras e a converte num instrumento perfeitamente adequado para a construção de uma compreensão significativa sobre as narrativas colhidas em entrevistas. É importante deixar claro, porém, que, ao ser o conhecimento hermenêutico elaborado coletivamente a partir das opiniões e percepções dos envolvidos, é preciso ter-se em conta que se trata de uma construção submetida ao tempo, ao espaço e ao contexto e que, portanto, é provisória e processual. É preciso assumir que toda pesquisa é processo influenciado pela história pessoal, pelo gênero, pela classe social e por todos aqueles elementos que constituem o pesquisador, bem como as pessoas que fazem parte da pesquisa. O resultado é caleidoscópico, no sentido de que se constitui no amálgama de um sem número de imagens individualmente criadas e reunidas em um todo coerente, ainda que mutável. Por mais ampla e profunda que seja uma pesquisa, ela nunca estará verdadeiramente finalizada.

 

Considerações finais

 

Para finalizar este capítulo, propomos um diálogo (sempre aberto e

em construção) com o texto “Educação Ambiental: sobre metodologias, princípios e atitudes”, do professor Valdo Barcelos (2010). Este texto traz como mote para a discussão em torno das metodologias um pequeno conto de Borges que é bastante significativo para (re)pensarmos os caminhos das escolhas no campo das pesquisas acadêmicas. Narra o conto que:

 

Num certo império o rigor da Disciplina da Cartografia havia chegado a tal ponto

de perfeição que o mapa de apenas uma província era capaz de ocupar toda

uma cidade, enquanto que o mapa do império ocupava toda uma província. Com

o passar dos tempos, esses mapas, de tamanho descomunal, passaram a não

mais satisfazer aos Colégios e Academias dos Cartógrafos da época. Mais que

isso: o imperador, de então, solicitou que fosse colocado mais rigor nos mapas

que dali em diante lhe serviria de guia para as próximas viagens. Para satisfazê-Referências

lo, os cartógrafos confeccionaram, então, um mapa que tinha exatamente o

tamanho do império (BORGES apud BARCELOS, 2010, p. 28).

 

Diante desta narrativa cabe a seguinte reflexão: é ao caminhar, ao desvendar os territórios da pesquisa que vamos percebendo, ao certo, os caminhos metodológicos que devemos traçar, os mapas mais adequados para nossas viagens acadêmicas, para nossas travessias. Afinal, como verseja Antonio Machado, “se hace camino al andar”. E neste caminhar não importa o tamanho da metodologia, como mostra o conto de Borges, mas a forma como encontramos, com ela, a porta de saída de nosso bosque textual, discursivo, teórico. Afora isso, é importante considerar que a ou as metodologias escolhidas dialoguem com nossas realidades e com a escrita mesma de nossos textos e que essa escrita aponte para “uma reflexão do mundo vivido, como ação que nos institui como seres no e com o mundo”(BARCELOS, 2010, p. 39).

Por fim, mas não menos importante, no território da investigação qualitativa e, em especial, no que se refere às entrevistas narrativas, destacamos a importância do “saber escutar” e não apenas ouvir. Talvez esta seja a habilidade mais significativa que desenvolvemos como pesquisadores durante as entrevistas, como aponta Afora isso, é importante considerar que a ou as metodologias escolhidas dialoguem com nossas realidades e com a escrita mesma de nossos textos e que essa escrita aponte para “uma reflexão do mundo vivido, como ação que nos institui como seres no e com o mundo”(BARCELOS, 2010, p. 39).

 

[…] ouço muita coisa, e o tempo inteiro. Já escutar (do latim auscultar: atentar

para aquilo que vem de dentro) exige uma atitude de pausa: pausa para acolher;

pausa para cuidar; pausa para pensar; pausa para olhar; pausa para olhar com

vagar; pausa para sentir; pausa para sentir com cuidado; pausa para perceber a

minúcia; pausa para perceber e para cultivar a delicadeza; pausa para as

pequenas coisas; pausa para as ações cotidianas; pausa para os gestos sutis;

pausa para suspender a velocidade; pausa para exercitar a lentidão; pausa para

viver a experiência; pausa para escutar os silêncios (2010, p. 23).

 

Que essa escuta também seja um caminho de aprendizagem para tantos professores e professoras, seja na universidade, seja na escola, seja na vida.

 

AGUIAR, J. A. de. Espaços da Memória: um estudo sobre Pedro Nava. São Paulo: Universidade de São Paulo/Edusp/Fapesp, 1998.

 

BARCELOS, V. Educação Ambiental: sobre metodologias, princípios e atitudes. Petrópolis: Vozes, 2010.

 

BARTHES, R. Introdução à Análise Estrutural da Narrativa. Rio de Janeiro: Vozes, 1976.

 

BORGES, Jorge Luis.Ficciones. Madrid: Alianza Editorial, 1998.

 

CASTELLO, L. A.; MÁRSICO, C. T. O oculta nas palavras: dicionário etimológico para ensinar e aprender. Trad. Ingrid Müller Xavier. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

 

CONNELLY, F. M.; CLANDININ, D. J. Relatos de experiencia y investigación narrativa. In: LARROSA, J. et al. Déjame que te Cuente: ensayos sobre narrativa y educación. Barcelona: Laertes, 1995. p. 11-59

 

COSTA, M. V. Uma Agenda para Jovens Pesquisadores. In: COSTA, M. V. (org.). Caminhos Investigativos II: outros modos de pensar e fazer pesquisa em educação. Rio de Janeiro: Lamparina, 2002. p. 139-153.

 

DEVECHI, C. P. V.; TREVISAN, A. L. Abordagens na formação de professores: uma reconstrução aproximativa do campo conceitual. Rev. Bras. Educ. [on-line], 2011, vol. 16, n.47, p. 409-426.

 

ESQUIVEL, L. Tan Veloz como el Deseo. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 2014.

 

FAGUNDES, A. Pelos Bosques da Formação: o professor de espanhol como mediador intercultural na perspectiva da biologia do amor. 142 p. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, 2018.

 

FONTANA, M. V. L. Complexidade e Reconhecimento: as dinâmicas do afeto e do conflito na EaD. 284 p. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, 2015. JOVCHELOVITCH, S.; BAUER, M. Entrevista Narrativa. In: BAUER; GASKELL, G. Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som – um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

MANZINI, E. J. Entrevista: definição e classificação. Marília: Unesp, 2004.

 

MIGUEL, F. V. C. A entrevista como instrumento para investigação em pesquisas qualitativas no campo da linguística aplicada. Revista Odisseia – PPgEL/UFRN, n. 5, jan.-jun. 2010, ISSN 1983-2435.

 

POUPART, J. A entrevista de tipo qualitativo: considerações epistemológicas, teóricas e metodológicas. In: POUPART et al. A Pesquisa Qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Vozes, 2012.

 

STEINBERG, S. R. Critical Cultural Studies Research: bricolage in action. In: TOBIN, K.; KINCHELOE, J. L. (ed.). Doing Educational Research: a handbook. Boston: Sense Publishers, 2006.

 

WELLER, W.; PFAFF, N. (org.). Metodologias de Pesquisa Qualitativa em Educação Petrópolis: Vozes, 2011.