Manual do Xavequeiro

Fabiano Rampazzo e Ismael de Araújo · Capítulo 23 de 50

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Manual do Xavequeiro

XAVECO NA LOJA 1 (em cima das VENDEDORAS) 44

DICA DO ISMÂ:

E se, quando você perguntar "dá licença, cê já viu esse filme?", ela disser que sim? Aí, amigão, o xaveco toma outro rumo. Você não vai mais indicar nem se oferecer para pagar o filme pra ela. Mas mantenha o discurso de que ela o fez lembrar-se do filme e tudo o mais. Um papo agradável deve surgir daí, seja ousado e peça o telefone assim mesmo.

 

XAVECO NA LOJA 1 (EM CIMA DAS VENDEDORAS)

 

Interpretação - ●●●●●

Risco - ●●●

Ousadia - ●●●●●

 

Pois é, eis a parte de seu Manual dedicada às doces e belas vendedoras de loja. O que você vai ler agora é um xaveco bem específico e até certo ponto polêmico. Específico porque para a sua execução é necessário (ou preferível) que você decida qual vendedora vai xavecar, antes mesmo de entrar na loja.

Como? Observando pela vitrine ou coisa que o valha -- o fato é que você deve entrar na loja com seu objetivo e alvo predefinidos. Já a polêmica, bom, a polêmica você vai entender logo mais... Assim, entre na loja e provoque uma situação de forma que você seja atendido pela desejada dama -- isso não é muito difícil, hã?

A partir daí, amigão, proceda normalmente, como um cliente gentil e descontraído que é, e comece a escolher uma série de roupas que deseje levar (é recomendável uma loja de roupas, ok?). Faça menção de que vai gastar um bom dinheiro, escolha peças do seu agrado, sem economia, você está lá para renovar seu guarda-roupa. Claro, não cometa excessos. Não é porque você não vai levar as roupas que deve fingir comprar a loja inteira.

E atenção! Nesse período em que você é atendido por ela, não passe cantadas baratas! Sem piadinhas ou trocadilhos infames. Não "xaveque" a mulher! Você pode até agir de forma sensual, até aí, tudo bem, mas não perca sua seriedade, não se precipite, a grande cartada ainda está por vir. E você está lá, esbanjando desenvoltura e pronto para contemplá-la com a venda do ano. Quando uma relação legal e amistosa estiver estabelecida entre vocês, e quando a "compra" já estiver ultrapassando as cifras do bom senso, seu celular vai tocar e você vai simular uma rápida conversa. Como o seu aparelho vai tocar? Simples. Programe o alarme para dez minutos além do horário em que você entrou na loja, ou finja que ele tocou, vibrou, enfim, ela nunca vai cogitar essa pequena farsa Você atende ao telefone e se mostra perplexo. Faça uma cara desolada preocupada, como uma criança de 11 anos de idade que acaba de receber a notícia de que repetiu o ano. Suas palavras no telefone serão as seguintes: "Alô... Oi,pode falar... Cê lá brincando!?... Ai, meu Deus... A que horas foi isso?... Não, vou já pra aí!... Fica calma, em cinco minutos eu tô aí...". E desliga o telefone. Tenso. Pede desculpas. Pede um cartão com o nome dela. E, sem meias palavras, vai embora da loja. Note que seu diálogo no telefone deve ser curto. Possivelmente na exata forma do exemplo dado. E é evidente que a moça deve ouvir essa conversa inventada. Você sai da loja às pressas, preocupadíssimo e com o cartão dela no bolso. Se você teve a maestria de executar os passos narrados (esse não é um xaveco fácil), comemore, a primeira etapa foi concluída. Seu segundo ato consiste num telefonema, dois dias depois, para a loja, chamando pela bela vendedora que o atendeu. Identifique-se e certifique-se de que ela se lembrou de você. Ela deverá lembrar-se, pois você foi um cara que ameaçou gastar horrores na loja e que saiu de um jeito pouco convencional.

Aí você emplaca: "Então, eu vou te pedir uma coisa que você pode achar estranha, mas eu preciso dizer. Aquele dia minha avó passou por uma cirurgia de emergência, bem na hora que eu tava com você. Felizmente correu tudo muito bem, ela está praticamente curada. E eu pensei muito em você. Sá lá, acho que você passou uma energia boa, bem ou mal você fez parte de um momento muito importante da minha vida. Pensei muito nisso esses dias". Ouça os comentários que ela quiser fazer e dê o arremate final: "Quero te convidar pra almoçar, vamos? Quero saber mais de você! Qual é seu horário de almoço? Vamos marcar?". Se ela fizer perguntas sobre sua avó, sobre o que ela teve, qual cirurgia, desvie o assunto. Não se aprofunde na mentira. Diga que você prefere não falar, não pensar no ocorrido. Que o importante é que está tudo bem, e que de certa forma ela contribuiu para isso. Se ela sugerir seu regresso à loja para terminar a compra, igualmente desvie o assunto. Diga que você não está com cabeça para isso no momento, que o que você deseja muito é conversar com ela. Faça com que a moça se sinta importante, lisonjeada com o assunto. Lembre-sede que ela tem boas referências de você. Você foi um cara simpático, um cara que tem pra gastar e sensível aos problemas de saúde da sua avó. Enfim, suas chances de descolar esse almoço são grandes, e a semente para um assunto particular, pessoal, está plantada. Não foi a "vendedora" que você chamou pra almoçar, foi a mulher sensível, o anjo azul que iluminou seu dia Seja cordial, ponderado e declare-se no momento certo.

IMPORTANTE: caso esse almoço aconteça, tente ser você mesmo o quanto antes Livre-se do personagem criado anteriormente. Você não tem a obrigação de ser um cara rico só porque estava fazendo uma big compra. Você não deve prolongar o assunto de sua avó. A coisa agora ficou real. Estabeleça a partir desse encontro um compromisso com a verdade. Há nesse xaveco a presença de um elemento altamente inventivo, de uma bela duma mentira, pra falar um português mais claro, Até onde isso é ético? Você foi sacana, usurpador? Antes de aplicar o xaveco vá à página 144 e leia "A mentira que vale". Pode esclarecê-lo sobre alguns pontos.

 

DICA DO RAMPA:

Evite usar esse xaveco no final de semana, em dias em que possivelmente a loja esteja cheia. Como você não vai comprar nada mesmo, tente minimizar as chances de sua vendedora querida perder uma venda real. Dê preferência para um dia em que a loja esteja vazia.

 

DICA DO ISMÁ:

Quando, ao telefone, você for revelar o motivo da sua saída abrupta da loja e mencionar sua avó e a tal cirurgia, tente trazer essa ficção para a sua realidade. Exemplo: se você não tem mais avós vivos, diga que era uma tia ou um amigo querido. Adapte a mentira às verdades de sua vida. Fica até mais fácil para desenvolver.