Manual do Xavequeiro
Xaveco no Metrô 3 53
DICA DO ISMÁ:
E se vocês descerem na mesma estação? Sugiro abortar a missão. Entregando o papel e indo embora você estaria se confessando um meninote covarde. Diferente das outras situações, em que você ou ela teriam a necessidade de desembarcar às pressas, aqui haveria espaço e tempo para uma troca de palavras Seria até melhor você ler o texto do bilhete a ela do que simplesmente entregá-lo.
XAVECO NO METRÔ 3
Interpretação - ●●●●●
Risco - ●●
Ousadia - ●●●
Lá está você na estação do metrô, e eis que a delicinha da tarde (ou da noite, ou da manhã) aparece, sem mais nem menos, à sua frente. Como agir? Bom, este é o xaveco n° 3 para o metrô, alguma opção para essa situação você já deve conhecer. E aqui vai mais uma: o vigoroso "xaveco da febre". Chegue até a menina, peça licença e pergunte, com grande tranqüilidade: "Você consegue saber se uma pessoa está ou não com febre colocando a mão assim, na testa?". Exemplifique, enquanto diz isso, e ponha você mesmo a mão em sua testa. Continue e justifique dizendo "eu não tenho essa sensibilidade, mas eu acho que tô meio mal...".
Não, você não entendeu errado, é isso mesmo. Prepare-se, pois você fará o estilinho doente. Toda essa ação deve, portanto, ser acompanhada de uma interpretação de homem combalido, debilitado. Mas, por favor, sem exageros. Se bancar o molambo a mulher não vai querer nem chegar perto. Apenas fale baixo, mantenha os olhos semi-abertos, evite movimentos bruscos, aja com tranqüilidade. Não é tão difícil assim. Estar febril não significa estar caindo pelas tabelas. E a idéia disso tudo qual é? Simples: você, quer queira, quer não, puxou papo com a brota. Iniciou uma conversa. Se ela mediu ou não sua temperatura com a mão, isso nem tem tanta importância. O importante é que ela se mostre minimamente preocupada.
Você vai perceber isso caso ela lhe indique um remédio ou uma farmácia. Se o papo sobre febres, gripes, tempos estranhos, poluição, rotina puxada e estafa ganhou força, lamente que você talvez perca um compromisso legal por conta dessa possível, súbita e inoportuna febre. Esse compromisso pode ser uma peça de teatro, uma festa bacana ou uma viagem descolada. Decida isso de acordo com o perfil da mulher, e evidentemente conforme o seu próprio estilo. Quando perceber que a conversa já ganhou um ritmo natural, que vocês já se apresentaram um ao outro, que existe um mínimo de confiança e de troca de informações, peça o telefone. Caso ela relute e indague o porquê do pedido, diga com um leve sorriso febril: "Ah, mesmo com febre pude notar como você é simpática, gostei de você. Ia adorar te ligar, só isso!". Pronto. Seja simples e claro.
Se depois disso ela ainda relutar, não insista. Não pega bem um cara doente clamando por um telefoninho no metrô. Ponha a mão na cabeça como quem sentiu uma pontada e diga "então tá, tudo bem". Continue o papo sem demonstrar nenhum rancor. Entre no trem e tente continuar a conversa. Na hora que o primeiro de vocês for desembarcar, peça de novo. "Fala o número".
Claro que esse foi seu golpe de misericórdia. Sua ação acaba aí, com ou sem telefone. Mas as chances de ela falar não são pequenas, até porque ela não se sentiu xavecada, você não a convidou para nada, não houve qualquer proposta. Apenas quis prorrogar o contato. Ao mesmo tempo em que isso lhe garante mais chances de êxito, também limita e dificulta mais a sua ação no eventual telefonema. Como auxílio, pegue as dicas da página 158 para essa ligação. E vê se não toma nada gelado, hã?
DICA DO RAMPA:
Se a conversa entre vocês, na plataforma de embarque ou dentro do vagão, engrenar, ficar boa, tome cuidado para não se empolgar muito. Lembre-se de que você é um cara adoentado.