Manual do Xavequeiro

Fabiano Rampazzo e Ismael de Araújo · Capítulo 36 de 50

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Manual do Xavequeiro

Xaveco na Rua 3 69

DICA DO RAMPA:

Quando sentir que o papo já está se esgotando, tome você a iniciativa de ir embora Diga que tem que ir e, então, com total naturalidade, peça o telefone dela. É importante que a decisão da despedida parta de você. Além de lhe creditar um status de cara ocupado e seguro, justifica ainda mais o pedido do telefone.

 

DICA DO ISMÁ:

Se você leu esse xaveco, não tem dog e ficou morrendo de vontade de comprar um, por favor, evite arrumar um leão. Dobermanns, pit bulls e pastores alemães são desaconselháveis para o xaveco. Use o bom senso.

 

XAVECO NA RUA 3

 

Interpretação - ●

Risco - ●

Ousadia - ●●●

 

Atenção, machaiada com tendências românticas, galanteadoras, eis aqui uma pérola de xaveco que fará, no mínimo, com que você ganhe pontos no céu. Bem-vindo ao "xaveco da rosa".

Para uma boa e genuína execução de todo o ato, escolha um dia em que você esteja bem-disposto para aplicar essa investida. Um dia gostoso, de sol, em que você acorde e sinta a felicidade latejando em seu peito. Um dia em que você, enfim, esteja de bem com a vida. Pois bem, saia de casa e compre uma rosa. Faça tudo o que você tem que fazer nesse dia em posse da flor. Vá trabalhar com a rosa. Pegue ônibus, metrô, dirija seu carro, sua bike, seu skate, com a rosa. Cuide dela. Proteja-a. Vá à farmácia, ao orelhão, vá ao banheiro, mas não deixe a rosa de lado. Em nenhum instante. Porque a qualquer momento você pode topar com uma mulher, em qualquer uma dessas situações citadas, e escolhê-la como destino para a doce flor.

É isso. Entregue a rosa para uma mulher indefinida. Sem mais nem menos. Apenas entregue. No máximo, diga: "Hoje me deu vontade de comprar uma rosa e dá-la a alguém. Escolhi você" Seja sincero. Pode ser a menina encostada no ponto de ônibus, a caixa da lanchonete ou uma transeunte, se você viu razão para o ato — seja uma razão intuitiva, seja meramente estética --; não titubeie, entregue a flor. Proporcione a essa mulher o deleite de voltar para casa com uma rosa entregue por um estranho. Dê esse prazer para a dama. Você verá que isso também lhe fará bem.

Bom, e aí, o lance acaba aqui? Poderia até acabar. Assim, com o simples gesto, e o resto, nas mãos de Deus. Mas não custa dar uma ajudinha pra Ele, né? Evidentemente, após presentear a moça com uma flor, você tem, no mínimo, o direito de saber seu nome e trocar algumas palavras com ela. Se ao final desse rápido papo você sentir uma brecha pra pedir o tel da brota, peça. Mas fique atento, não force a barra, não se mostre um xavequeiro barato. Não dê a impressão de que só a presenteou com a rosa porque tinha segundas intenções. Tente mostrar que, independentemente de rolar uma troca de telefones ou não, a rosa é dela e o gesto foi sincero. Aliás, é assim que deve ser. Só use o xaveco da rosa se estiver imbuído desse espírito. Sim, pegar o tel da gatinha seria ótimo, claro, você pode até ter isso como objetivo. Mas o fato de você sair de mãos abanando não implica um fracasso. Muito pelo contrário, você exercitou o seu lado xavequeiro mais importante, que é a generosidade. Mostrou-se um homem capaz de dar sem exigir coisas em troca. Mostrou-se, em suma, um homem pronto para qualquer mulher. De antemão, parabéns!

 

DICA DO RAMPA:

Não é qualquer cara que se permite andar por aí de flor na mão. Há todo o machismo do mundo presente em qualquer esquina. Mas minha dica é a seguinte: na boa, passear pela cidade com uma rosa na mão pega bem. As pessoas vão imaginar que você a ganhou de alguma mulher, ou que vai se encontrar com a namorada, enfim, você vai chamar a atenção, esteja preparado. Mas é para poucos. Não me acanho em dizer que você será admirado e até invejado. Mais uma vez, parabéns!