Manual do Xavequeiro

Fabiano Rampazzo e Ismael de Araújo · Capítulo 47 de 50

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Manual do Xavequeiro

Xaveco na Academia 2 89

DICA DO RAMPA:

Se ela não topou o cinema, lamente, não insista, mas pegue o telefone. Lembre-se, essa história não acaba aí, ela não vai sumir da academia, deixe-a ir pra casa e absorver tudo o que você disse.

 

DICA DO ISMÁ:

Nesse primeiro papo, primeiro suco, capriche no desodorante, na balinha de hortelã. Seja esse cara sensível e surpreendente, mas lembre-se de que você está na academia e malhou. Portanto, nada de ir direto da sessão de abdominal para a conversa. Passe antes na ducha e saia cheirosão.

 

XAVECO NA ACADEMIA 2

 

Interpretação - ●●●

Risco - ●●

Ousadia - ●●●

 

Pois é, sendo as academias, em sua grande maioria, verdadeiros haréns, nada mais justo que uma segunda opção pra você, freqüentador assíduo, aproveitar. E se você está lá, meio entediado, e nota de repente aquela delícia -- que você sempre nota, de repente ou não -- passando por você, levantando pesinhos, suando na bike ergométrica, pois bem, ela tá lá, você tá lá, o que fazer? Vá até ela e, como quem não quer nada, minta. Minta na maior cara-de-pau e confiança do mundo.

A mentira nem sempre é ruim, nem sempre é negativa Se você já leu o texto "A mentira que vale", da página 144, já sabe disso. Chegue na brota e diga "Oi, eu te vi na Bienal esse fim de semana, no sábado à tarde, pra ser mais preciso... Você tava lá, não tava?".

Não, você não a viu coisíssima nenhuma Mas vai dizer que viu com a maior certeza do mundo. Claro, evidente, óbvio, que a Bienal foi um mero exemplo. Você pode substituí-lo por uma bela festa-rave-tesão que rolou no fim de semana, por uma peça de teatro bacana, pela pré-estréia de um filme interessante que entrou em cartaz, por um show de um cantor cool que aconteceu há poucos dias. Enfim, mais uma vez molde o xaveco de acordo com a sua realidade. Mas opte, invariavelmente, por algo que de fato lhe soe interessante.

Não vá dizer que a viu comendo um pastel de feira ontem de manhã. Já que é pra mentir, minta decentemente. Você sabe que ela não estava lá, então, o que em realidade vai ficar é o registro de lugares que você freqüenta. No exemplo dado ela certamente irá pensar "Hum, então esse cara vai a Bienais...". Salvo uma grande e absurda coincidência, ela vai dizer que não estava lá.

Faça uma cara de espanto e insista. "Nossa, não era você?". Não, não era ela Então, lamente, e diga que tinha achado muito legal a idéia de ter visto alguém da academia que também gostava desse tipo de programa. Observe a reação dela aos seus comentários. Ela se mostrou interessada em saber como estava a festa ou a Bienal? Como foi a peça ou o cinema? Fez algum tipo de pergunta para você? Algum comentário? Bom, independentemente da reação da gatinha, a continuidade do xaveco é a seguinte: você vai convidá-la, ali mesmo, entre o supino e o aparelho torneador de coxas, para o exato programa mencionado. Convide-a para a Bienal. Convide-a para a mesma peça, o mesmo filme, para a rave que você sabe que vai rolar semana que vem.

Não, não há problema em rever uma peça ou filme, desde que sejam bons programas. Um pouco de bom senso não vai mal. Mas o lance é pegá-la de surpresa e, mais que isso, instigá-la a ir num evento em que ela supostamente tinha ido, mas não foi, não era ela, ou seja, essa é a chance. Uma espécie de segunda chance. Termine esse papo com as formalidades necessárias (nome, bairro onde mora), troque telefones e ratifique o programa. Faça-a aceitar ali mesmo. Seja incisivo, decidido, costuma funcionar. Contudo, se a negativa da moça também for incisiva, lamente por ela, diga um simpático "tudo bem" e volte à sua rotina de exercícios de cabeça erguida. O importante é que você seja o tempo todo um cara obstinado, mas tranqüilo. Lembre-se de que você vai ver essa menina outros dias; se ela não puder ou não quiser mesmo, tente ao menos a troca de telefones -- criar um vínculo fora da academia já é um avanço.