Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 9
De volta à Questura, Brunetti foi informado de que os policiais Alvise e Riverre tinham ido ao apartamento do maestro, revistado os seus pertences e voltado com diversos documentos que estavam sendo traduzidos para o italiano. Ele ligou para o laboratório, mas ainda não tinham encontrado impressões digitais, embora tivessem confirmado o óbvio: que o veneno estava no café. Miotti tinha sumido; talvez ainda estivesse no teatro. Sem saber o que fazer e ciente de que logo teria que falar também com a viúva, Brunetti ligou para a casa dela e perguntou-lhe se poderia recebê-lo naquela tarde. Depois de uma hesitação inicial, perfeitamente compreensível, ela lhe pediu que fosse às quatro horas. Ele revirou suas gavetas até descobrir meio pacote de bussolai, espécie de biscoito salgado veneziano de que ele tanto gostava. Comeu-os enquanto examinava as anotações que fizera do relatório da polícia alemã.
Meia hora antes de seu encontro com a sra. Wellauer, ele saiu de seu escritório e foi andando devagar até a praça San Marcos. No caminho, parou para olhar as vitrines, impressionado (como sempre ficava ao passar pelo centro da cidade) de ver a rapidez com que mudavam o tipo de produto que estava sendo exposto. Parecia-lhe que todas as lojas que serviam à população local — farmácias, sapatarias, mercearias — estavam desapare cendo lenta e inexoravelmente, substituídas por butiques e lojas de suvenir para turistas, cheias de gôndolas fluorescentes de Taiwan e máscaras de papel machê de Hong Kong. Os comerciantes atendiam não às necessidades dos moradores locais, mas aos desejos dos turis tas. Ele se perguntava quanto tempo levaria para que toda a cidade se transformasse num museu, um lugar apenas para ser visitado e não onde se pudesse morar.
Como se para reforçar suas reflexões, um grupo de turistas extemporâneos passou por ele acompanhado de alguém que os protegia com um guarda-chuva aberto. Tendo a água à sua esquerda, passou pela piazza, espantado por ver que as pessoas achavam os pombos mais interessantes que a basílica.
Atravessou a ponte depois de campo San Moisè, dobrou à direita uma, duas vezes, e entrou numa calle estreita que terminava numa pesada porta de madeira maciça.
Tocou a campainha e uma voz mecânica, incorpórea, perguntou-lhe quem era. Brunetti falou seu nome e, segundos mais tarde, ouviu o barulho da trava sendo aberta. Entrou num vestíbulo reformado havia pouco tempo; as vigas do teto tinham sido descobertas e suntuosamente envernizadas. O soalho, ele o percebeu com seu olhar veneziano, era feito de placas de mármore formando figuras geométricas de ondas e remoinhos. Por sua delicada ondulação, ele supôs que se tratasse do revestimento original, talvez do começo do século XV.
Começou a subir a escadaria monumental, de amplos degraus. Em cada patamar, havia apenas uma única porta de metal; o fato de haver só uma porta era uma mostra de riqueza, e o metal, desejo de protegê-la. As placas metálicas diziam-lhe que continuasse a subir. Os degraus terminaram, cinco andares acima, diante de outra porta de metal. Ele tocou a campainha e um pouco depois foi recebido pela mulher com quem falara no teatro na noite anterior, a viúva do maestro.
Ele apertou a mão que ela lhe estendeu, murmurou “Permesso”, e entrou.
Não havia nenhum sinal de que ela tivesse dormido na noite anterior. Estava sem nenhuma maquiagem, e isso acentuava a grande palidez do seu rosto, que contrastava com as olheiras escuras. Mas a despeito de se encontrar à beira da exaustão, continuava bonita. Podia contar com a ossatura das maçãs do rosto para chegar a uma idade avançada com toda a tranqüilidade, e as linhas perfeitas de seu nariz sempre iriam fazer com que as pessoas se voltassem para vê-la novamente.
“Sou o comissário Brunetti. Nós conversamos ontem à noite.”
“Sim, eu me lembro”, respondeu ela. “Venha por aqui.” Levou-o por um corredor a um grande escritório. A um canto, havia uma lareira com o fogo baixo. Próximo a esta, duas cadeiras separadas por uma mesa. Convidou-o com um gesto a que se sentasse numa delas, e sentou-se na outra. Na mesa havia um cigarro aceso, num cinzeiro cheio. Atrás dela havia uma grande janela pela qual o policial via os telhados cor de ocre da cidade. Nas paredes estavam pendurados quadros que seus filhos insistiam em chamar de pinturas “de verdade”.
“Gostaria de tomar um drinque, dottor Brunetti? Ou talvez chá?” Ela repetia as frases em italiano como se as tivesse aprendido de cor de um manual, mas ele achou interessante que ela conhecesse sua qualificação.
“Por favor, signora, não precisa se incomodar”, respondeu Brunetti com a mesma polidez.
“Dois de seus policiais estiveram aqui esta manhã. Eles levaram algumas coisas.” Era evidente que seu italiano não lhe permitia nomear adequadamente as coisas que tinham sido levadas.
“Não seria melhor que falássemos em inglês?”, perguntou ele nessa língua.
“Ah, sim”, disse ela sorrindo pela primeira vez e lhe dando uma idéia de quão bela poderia ser. “Vai ser muito mais fácil para mim.” Suas feições se suavizaram, e alguns sinais de tensão desapareceram. Até o seu corpo pareceu relaxar quando a dificuldade da língua foi superada. “Vim muito poucas vezes a Veneza e fico incomoda da com meu péssimo italiano.”
Em outras circunstâncias, caberia negar essa afirmação e elogiar sua desenvoltura em falar a língua. “Eu imagino”, respondeu ele, “como deve ser difícil para a senhora e quero apresentar meus pêsames à senhora e a sua família.” Por que as palavras que usamos para a morte sempre soam tão inadequadas, tão flagrantemente falsas? “Ele era um grande músico, e a perda para o mundo da música é enorme. Mas tenho certeza de que a sua é ainda maior.” Pomposo e artificial, no entanto foi o melhor que ele pôde dizer.
Brunetti observou que havia muitos telegramas junto do cinzeiro mais próximo, alguns abertos, outros não. Ela devia estar ouvindo a mesma coisa o dia inteiro, porém não deu nenhum sinal disso. “Obrigada”, respondeu com simplicidade. Ela pôs a mão no bolso do suéter e tirou um maço de cigarros. Tirou um cigarro do maço e levou-o aos lábios, mas então viu o outro cigarro aceso no cinzeiro. Colocou o cigarro e o maço na mesa e pegou o que estava no cinzeiro. Deu uma grande tragada, reteve a fumaça por algum tempo antes de a expelir, evidentemente a contragosto.
“Sim, ele vai fazer falta no mundo da música”, disse ela. Antes que Brunetti pudesse refletir sobre a estranheza desse comentário, ela acrescentou: “E aqui também”. Embora só houvesse um milímetro de cinza na ponta do cigarro, ela tentou fazer com que caísse no cinzeiro; depois, inclinou-se para a frente e raspou-o na borda do cinzeiro como se estivesse apontando um lápis.
Ele tirou do bolso o bloco de anotações, abriu-o na página em que anotava os novos livros que queria ler. Brunetti notara na noite anterior que ela era quase bela, e que não havia dúvida de que o era sob certa luz e sob certos ângulos. Sob o cansaço que lhe toldava as faces naquele dia, aquela beleza ainda era visível. Ela tinha olhos azuis bem separados e cabelos loiros naturais, que agora estavam penteados para trás e presos.
“O senhor sabe o que o matou?”, perguntou ela.
“Falei com o legista esta manhã. Foi cianureto de potássio. Estava no café que ele bebeu.”
“Foi tão rápido. Pelo menos há esse consolo.”
“Sim”, concordou Brunetti. “Deve ter sido quase ins tantâneo.” Ele rabiscou alguma coisa em seu bloco. “A senhora conhece esse veneno?”
Ela lhe lançou um rápido olhar antes de responder. “Não mais do que qualquer outro médico conhece.”
Ele virou uma página. “O legista disse que não é muito fácil conseguir cianureto”, mentiu.
Como ela nada respondeu, ele continuou. “Como estava o seu marido ontem à noite, signora? Havia algo estranho ou especial em seu comportamento?”
Continuando a roçar a ponta do cigarro na borda do cinzeiro, ela respondeu: “Não, acho que seu comportamento estava normal”.
“E como era seu comportamento habitual?”
“Um pouco tenso, um pouco voltado para si mesmo. Ele não gostava de falar com ninguém antes de uma apresentação ou durante os intervalos. Não queria que nada o perturbasse.”
Aquilo pareceu a Brunetti bastante normal. “Ele não parecia um pouco mais nervoso na noite passada?”
Ela pensou um pouco. “Não, acho que não. Fomos andando a pé para o teatro por volta das sete horas. Bem perto disso.” Ele aquiesceu. “Fui sentar-me em meu lugar, embora ainda fosse muito cedo. Os empregados estavam acostumados a me ver nos ensaios, por isso me deixaram entrar. Helmut foi trocar de roupa nos bastidores e dar uma olhada na partitura.”
“Desculpe-me, signora, mas tenho a impressão de ter lido num dos jornais que seu marido era famoso por reger sem partitura.”
Ela sorriu a esse comentário. “É, ele regia sim. Mas sempre tinha uma no camarim, que consultava antes da apresentação e nos intervalos.”
“Era talvez por isso que ele não gostava de ser interrompido nos intervalos?”
“Sim.”
“A senhora disse que foi aos bastidores falar com ele na noite passada.” Ela não disse, por isso ele perguntou: “Isso era comum?”.
“Não. Como lhe disse, ele não gostava de que ninguém falasse com ele durante a apresentação. Dizia que isso o desconcentrava. Mas na noite passada Helmut me pediu para ir vê-lo depois do segundo ato.”
“A senhora estava com alguém quando ele pediu isso?”
“O senhor quer saber se eu tenho uma testemunha de que ele me pediu que fosse vê-lo?”, perguntou ela com certa tensão na voz. Brunetti fez que sim com a cabeça. “Não, dottor Brunetti, não tenho testemunha. Mas fiquei surpresa.”
“Por quê?”
“Porque Helmut raramente fazia coisas... nem sei bem como dizer, fora do comum. Ele raramente fazia alguma coisa fora de sua rotina. Por isso me surpreendeu o seu pedido de que o fosse procurar no intervalo.”
“Mas a senhora foi?”
“Sim, fui.”
“Por que ele queria falar com a senhora?”
“Não sei. Encontrei alguns amigos no foyer e parei para falar com eles por alguns minutos. Eu me esquecera de que durante uma apresentação não se pode ir aos bastidores saindo da plateia, que é preciso subir as escadas que levam aos camarotes. Por isso, quando finalmente consegui chegar ao camarim dele, já estava tocando o segundo sinal do fim do intervalo.”
“A senhora falou com ele?”
Ela hesitou por muito tempo antes de responder. “Sim, mal deu tempo de dizer olá e lhe perguntar o que queria falar comigo. Mas quando ouvimos...” Neste ponto ela fez uma pequena pausa e apagou o cigarro. Levou um bom tempo fazendo isso, fazendo girar muitas vezes a ponta do cigarro no cinzeiro. Finalmente o largou e continuou a falar, mas algo tinha mudado em sua voz. “Ouvimos o segundo sinal. Não havia tempo para falar nada. Eu lhe disse que o veria depois da apresentação e voltei para meu lugar. Cheguei no momento exato em que as luzes estavam se apagando. Esperei que a cortina subisse e o espetáculo continuasse, mas como o senhor sabe... o senhor sabe o que aconteceu.”
“Só então a senhora percebeu que alguma coisa estava errada?”
Ela pegou o maço e tirou outro cigarro. Brunetti o acendeu com um isqueiro que havia sobre a mesa. “Obrigada”, disse ela, voltando-se para evitar que a fumaça fosse na direção do policial.
“E só então a senhora percebeu que alguma coisa estava errada?”, repetiu ele.
“Sim.”
“Nas últimas semanas o comportamento de seu marido apresentou alguma mudança?” Como a viúva não respondeu, ele acrescentou: “Ele lhe pareceu nervoso, irritado?”.
“Eu entendi a pergunta”, disse ela secamente, depois lhe lançou um olhar nervoso. “Desculpe.”
Ele achou que era preferível ficar calado a aceitar expressamente suas desculpas.
Ela levou certo tempo para falar. “Não, ele parecia o mesmo de sempre. Ele sempre gostou da Traviata e amava esta cidade.”
“E os ensaios foram bem? Sem problemas?”
“Acho que não entendi sua pergunta.”
“Seu marido teve algum problema com outras pessoas que trabalhavam no espetáculo?”
“Não, não que eu saiba”, respondeu ela depois de uma pequena pausa.
Brunetti achou que já era hora de fazer perguntas mais pessoais. Ele passou algumas páginas do bloco de anotações. “Quem mora nesta casa, signora?”
Ela não traiu nenhum sinal de surpresa diante da brusca mudança de assunto. “Meu marido, eu e uma criada que dorme aqui.”
“Há quanto tempo essa criada trabalha para a senhora?”
“Ela trabalhou para Helmut por cerca de vinte anos, acho. Só a conheci quando vim a Veneza pela primeira vez.”
“E quando foi isso?”
“Há dois anos.”
“Sim?”, disse ele, encorajando-a.
“Ela fica aqui no apartamento o ano inteiro, quan do estamos fora.” E imediatamente se corrigiu. “Quando não estávamos aqui.”
“O nome dela?”
“Hilda Breddes.”
“Ela não é italiana?”
“Não, é belga.”
Ele anotou essa informação. “Há quanto tempo a senhora estava casada com o maestro?”
“Dois anos. Conhecemo-nos em Berlim, onde eu estava trabalhando.”
“Em que circunstâncias?”
“Ele estava regendo Tristão. Eu fui aos bastidores com alguns amigos meus que também eram amigos dele. Fomos todos jantar depois da apresentação.”
“Depois de quanto tempo vocês se casaram?”
“Uns seis meses.” Ela ocupou-se em apontar o cigarro.
“A senhora disse que trabalhava em Berlim, embora seja húngara.” Como ela nada disse, ele continuou. “Isso não é verdade?”
“Sim. Sou húngara de nascimento. Mas agora sou cidadã alemã. Meu primeiro marido, como o senhor já deve saber, era alemão, e eu adotei essa nacionalidade quando mudamos para a Alemanha depois que nos casamos.”
Ela apagou o cigarro e fitou Brunetti, como se lhe dissesse que agora ia dar toda atenção a suas perguntas. Ele imaginou que ela tinha decidido concentrar-se naqueles detalhes factuais já conhecidos de todos. Todas as respostas sobre seus casamentos tinham sido verdadeiras; ele sabia disso porque Paola, viciada nessa imprensa marrom, dera-lhe todos os detalhes naquela manhã.
“Isso não é algo excepcional?”
“O quê?”
“Conseguir autorização para mudar para a Alemanha e adotar cidadania alemã.”
Ela sorriu a isso, mas não, pensou ele, por achar divertido. “Não tão excepcional quanto os senhores, aqui no Ocidente, parecem pensar.” Havia certo desprezo naquela resposta? “Eu era uma mulher casada, casada com um alemão. Seu trabalho na Hungria terminara, e ele voltou ao seu país. Pedi permissão para ir com ele e ela me foi concedida. Mesmo sob o antigo governo, não éramos selvagens. A família é muito importante para os húngaros.” Pela forma como a viúva falou, ela parecia achar que, para os italianos, a família tinha pouca importância.
“Ele é o pai de seu filha?”
Era evidente que a pergunta a tomara de surpresa. “Quem?”
“Seu primeiro marido.”
“Sim, é.” Ela pegou outro cigarro.
“Ele ainda mora na Alemanha?”, perguntou Brunetti quando ela acendeu o cigarro, embora soubesse que ele era professor da Universidade de Heidelberg.
“Sim, mora.”
“Quer dizer então que antes de casar com o maestro a senhora era médica?”
“Comissário”, principiou ela numa voz cheia de uma raiva que pouco fazia para conter ou disfarçar. “Eu ainda sou médica, e sempre serei médica. No momento, não estou exercendo, mas, pode acreditar, ainda sou médica.”
“Desculpe-me, doutora”, disse ele, falando com franqueza e lamentando sua estupidez. Mudou então de assunto. “Sua filha mora aqui com a senhora?”
Ele a viu inclinar-se compulsivamente para o maço de cigarros e depois estender a mão para pegar o cigarro aceso. “Não, ela mora com os avós em Munique. Seria muito difícil para ela frequentar uma escola em língua estrangeira enquanto estivéssemos aqui, por isso decidimos que seria melhor que estudasse em Munique.”
“Com os pais de seu ex-marido?”
“Sim.”
“Quantos anos sua filha tem?”
“Treze.”
Sua própria filha, Chiara, tinha a mesma idade, e ele imaginou o quanto seria ruim obrigá-la a frequentar uma escola em outro país. “A senhora vai voltar a clinicar agora?”
Ela pensou um pouco antes de responder. “Não sei. Talvez. Gostaria de tratar de pessoas. Mas é muito cedo para falar sobre isso.” Brunetti inclinou a cabeça, num mudo assentimento.
“Se me permite, senhora, e quero que me desculpe desde já por minha pergunta, pode me dizer se seu marido tomou algumas providências em termos financeiros?”
“O senhor quer saber para onde vai o dinheiro?”, perguntou ela de forma mais que direta.
“Sim.”
Ela respondeu depressa. “Sei apenas o que Helmut me falou. Não fizemos nenhum contrato legal, nada por escrito, como fazem atualmente as pessoas que se casam.” Ela parecia rejeitar aquela ideia. “Pelo que entendo, cinco pessoas herdarão seus bens.”
“Quem são elas?”
“Seus filhos dos primeiros casamentos. Ele teve um do primeiro e três do segundo. E eu.”
“E sua filha?”
“Não”, disse ela imediatamente. “Só os filhos dele.’ Parecia natural a Brunetti que um homem quisesse deixar a fortuna para seus próprios filhos. “A senhora tem alguma ideia do valor dos bens?” As viúvas em geral sabem disso, e em geral dizem que não sabem.
“Acho que é muito dinheiro. Mas o advogado dele ou o empresário podem lhe informar sobre isso melhor do que eu.” Parecia-lhe estranho, mas ela dava a impressão de que realmente não sabia. E, mais estranho ainda, parecia não se preocupar com isso.
Os sinais de cansaço que ele vira ao entrar aumentaram durante a conversa. A linha de seus ombros parecia menos reta; dois vincos partiam do nariz, indo até os cantos da boca. “Tenho só mais algumas perguntas”, disse ele.
“Quer beber alguma coisa?” Era claro que ela se limitava ao meramente formal.
“Obrigado, mas não. Vou fazer estas perguntas e depois vou embora.” Ela aquiesceu com um gesto cansado, quase como se soubesse que eram justamente aquelas perguntas que ele viera fazer.
“Signora, gostaria de saber como eram suas relações com o seu marido.” Ele notou que ela foi ficando cada vez mais distante e mais esquiva. Brunetti foi mais claro. “A diferença de idade entre ele a senhora era considerável.”
“Sim, era.”
Ele permaneceu calado, esperando. Finalmente ela respondeu, sem dar a impressão de estar se desculpan do (e Brunetti apreciou isso nela): “Ele era trinta e sete anos mais velho que eu”. Isso significava que ela era alguns anos mais velha do que ele imaginara, exatamente da idade de Paola. Wellauer era oito anos mais novo que o avô de Brunetti. Por mais estranho que aquilo lhe parecesse, Brunetti procurou disfarçar o que lhe ia pela cabeça. Como seria para aquela mulher ter um marido quase duas gerações mais velho que ela? Ele percebeu que ela estava constrangida com a intensidade de seu olhar, por isso desviou os olhos por um instante, como se estivesse pensando em como formular sua próxima pergunta.
“A diferença de idade criava alguma dificuldade em seu casamento?” Quão transparente era o véu de eufemismos que sempre envolvia esse tipo de união. Embora polida, a pergunta tinha um certo quê de voyeurismo, e ele estava embaraçado com aquilo.
O silêncio se prolongou tanto que ele não saberia dizer o motivo: se sua curiosidade ou o aborrecimento que lhe causava a forma artificial como fora expressa. Súbito, com voz muito cansada, ela respondeu. “Dada a nossa diferença de idade, de geração, víamos o mundo de pontos de vista muito diferentes, mas casei-me com ele porque estava apaixonada.” O instinto de Brunetti lhe disse que acabara de ouvir a pura verdade, porém o mesmo instinto lhe soprou que ele ouvira apenas o singular. Por compaixão, absteve-se de indagar sobre a omissão.
Para indicar que tinha terminado, ele fechou o bloco e colocou-o no bolso. “Obrigado, signora. Foi muita gentileza sua me receber nestas circunstâncias.” Hesitou um pouco, receando cair de novo em eufemismos ou banalidades. “A senhora tomou as providências para o funeral?”
“Amanhã. Às dez. Em San Moisè. Helmut amava esta cidade e sempre desejou ter o privilégio de ser sepultado aqui.”
O pouco que Brunetti ouvira e lera sobre o maestro o fez duvidar de que o morto pudesse considerar privilégio algo que não aquilo que ele tinha o poder de conceder, mas talvez Veneza tivesse grandeza suficiente para ser uma exceção. “Espero que a senhora não tenha nenhuma objeção a que eu compareça.”
“Claro que não.”
“Tenho mais uma pergunta, também dolorosa, a fazer. A senhora sabe de alguém que pudesse desejar o mal a seu marido? Há alguém com quem ele tenha brigado há pouco tempo, alguém que ele pudesse ter razão para temer?”
Ela deu um leve sorriso, mas foi um sorriso. “O senhor quer saber”, perguntou, “se acho que havia alguém que pudesse querer matá-lo?”
Brunetti aquiesceu.
“Sua carreira foi muito longa, e tenho certeza de que ele incomodou muita gente durante esse tempo. Algumas pessoas não gostavam dele, sem dúvida. Mas não posso pensar em ninguém que pudesse querer fazer isso.” Ela deslizou maquinalmente o dedo pelo braço da cadeira. “E ninguém que gostasse de música poderia fazer isso.”
Brunetti se levantou e estendeu a mão. “Obrigado, signora, por seu tempo e por sua paciência.” Ela se levantou e apertou a mão dele. “Por favor, não precisa se incomodar”, disse ele, para que ela não o acompanhasse até a porta. Ela recusou a sugestão balançando a cabeça e levou-o até o vestíbulo. A porta, apertaram-se as mãos novamente, ambos em silêncio. Ele saiu do apartamento perturbado com o encontro, sem saber ao certo se a razão disso eram as banalidades e o excesso de gentilezas de sua parte ou algo que não fora capaz de captar.
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