Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 20
Padovani estava esperando dentro do restaurante quando Brunetti chegou. O jornalista estava sentado entre o bar e o balcão envidraçado com vários antepastos: litorinas, sibas, camarões. Eles trocaram um breve aperto de mão e logo foram levados a sua mesa pela signora Antonia, a altiva garçonete que reinava suprema no restaurante. Uma vez sentados, eles adiaram a discussão sobre crime e fofocas enquanto confabulavam com a signora Antonia sobre o almoço. Embora existisse um menu escrito, poucos clientes habituais se davam ao trabalho de consultá-lo; alguns nunca chegaram a vê-lo. As sugestões para o dia e as especialidades da casa estavam gravadas na memória de Antonia. Ela desfiou rapidamente sua lista — pura formalidade, como bem sabia Brunetti — e decidiu que o que os dois homens iriam comer era um antipasto di maré, risoto de camarão, e um branzino grelhado, que ela lhes garantiu terem sido trazidos fresquinhos, naquela manhã, do mercado de peixes. Padovani perguntou se seria possível, ou se a signora Antonia recomendava, que se servisse uma salada verde. Ela deu a esse pedido toda a atenção que merecia, aprovou-o, disse que eles deviam tomar uma garrafa de vinho branco da casa e foi buscá-la.
Quando o vinho já estava na mesa e o primeiro copo já havia sido servido, Brunetti perguntou a Padovani se tinha muito trabalho a fazer antes de partir de Veneza. O crítico explicou que tinha dois vernissages para cobrir, um em Treviso e outro em Milão, mas certamente ele faria a cobertura por telefone.
“Você liga para o jornal depois de ver as exposições?”
“Oh, não”, respondeu Padovani. Ele quebrou um pãozinho em dois e começou a comê-lo. “Eu faço tudo por telefone.”
“Crítica de arte?”, perguntou Brunetti. “Crítica de pinturas?”
“Claro”, respondeu Padovani. “Você não acha que vou perder meu tempo vendo aquelas porcarias, vai?” Quando ele notou a estupefação de Brunetti, explicou: “Conheço o trabalho de ambos os pintores, que nada valem. Ambos alugaram as galerias e ambos vão mandar amigos para comprar alguns quadros. O primeiro, ou melhor, a primeira, é mulher de um advogado de Milão, e o outro é filho de um neurocirurgião de Treviso, proprietário de uma das clínicas mais caras da província. Ambos têm tempo de sobra para não fazer nada, por isso resolveram se tornar artistas”. Pronunciou essa última palavra com um desprezo que não procurou disfarçar.
Padovani parou de falar, afundou em sua cadeira e abriu um grande sorriso quando a signora Antonia colocou os pratos ovais do antepasto diante deles.
“Que tipo de comentário você escreve?”
“Ah, isso depende”, disse Padovani, espetando com o garfo um pedaço de polvo. “Para o filho do médico, digo que ele mostra completa ignorância da cor e do traço. Mas o advogado é amigo de um dos diretores do jornal, por isso sua esposa ‘demonstra grande domínio da composição e do desenho’, quando na verdade não é capaz de desenhar um quadrado sem que ele pareça um triângulo.”
“Isso o aborrece?”
“O quê, escrever algo em que não acredito?”, perguntou Padovani, partindo mais um pão.
“Sim.”
“No início, acho que sim. Mas depois me dei conta de que era a única maneira de ficar livre para escrever os artigos que realmente me interessavam.” Ele viu o olhar de Brunetti e sorriu. “Vamos, Guido, não venha me dizer que nunca ignorou um indício ou que nunca escreveu um relatório de forma a insinuar algo contrário ao que sugeriam seus indícios.”
Antes que ele tivesse tempo de responder, Antonia voltou. Padovani acabou de comer o último camarão de seu prato e sorriu para ela. “Delicioso, signora.” Ela recolheu o prato dele, depois o de Brunetti.
Ela voltou imediatamente com o risoto, fumegante e apetitoso. Quando viu Padovani estender a mão para pegar o sal que estava na mesa, Antonia disse: “Já tem sal suficiente”. Ele afastou a mão como se tivesse sofrido uma queimadura e pegou o garfo.
“Ora, Guido, você não me convidou a vir aqui — à custa do município, espero — para conversar sobre a minha carreira, nem para examinar minha consciência. Você me disse que queria mais informações.”
“Gostaria de saber o que mais você descobriu sobre San tina.”
Com todo o cuidado, Padovani tirou um pedacinho de casca de camarão da boca e o colocou num canto do prato. “Receio ter que pagar o meu almoço.”
“Por quê?”
“Porque não sei mais nada sobre ela. Narciso já estava de saída quando liguei, e ele só teve tempo de me dar o endereço. Por isso só sei o que lhe disse ontem à noite. Desculpe-me.”
Brunetti achou inconveniente da parte do outro o comentário sobre pagar o próprio almoço. “Bem, então você poderia me falar sobre as outras pessoas envolvidas.”
“Confesso, Guido, que me esforcei bastante. Liguei para muitos amigos daqui, de Milão e de Roma; basta você dizer os nomes e me transformarei em uma verdadeira fonte de informações.”
“Flavia Petrelli?”
“Ah, a divina Flavia.” Ele pôs uma garfada de risoto na boca e disse estar excelente. “Você gostaria de saber também sobre a igualmente divina senhorita Lynch, não é?”
“Eu gostaria que você me dissesse tudo o que sabe sobre as duas.”
Padovani comeu um pouco mais de risoto, depois afastou-o para um lado. “Você quer me fazer perguntas específicas ou quer que eu simplesmente vá falando o que me ocorrer?”
“Acho que a segunda forma é melhor.”
“Sim. Sem dúvida. Sempre me dizem isso.” Ele tomou um pouco de vinho e começou. “Não lembro onde Flavia estudou. Provavelmente em Roma. De qualquer modo, o inesperado aconteceu, como sempre acontece, e pediram-lhe no último minuto que substituísse a Caballé, que estava doente. Ela o fez, os críticos ficaram fascinados e Flavia ficou famosa da noite para o dia.” Ele se inclinou para a frente e tocou as costas da mão de Brunetti com um dedo. “Acho que, para efeito dramático, seria mais conveniente dividir a história em duas partes: vida profissional e vida pessoal.” Brunetti aquiesceu.
“Isso, quanto à vida profissional, ela ficou famosa, continuou famosa, continua famosa.” Padovani tomou mais um pouco de vinho e se serviu de mais.
“Agora passemos à vida pessoal. Entra o marido. Ela estava cantando no Liceo em Barcelona, dois ou três anos depois de seu sucesso em Roma. Ele era um sujeito importante na Espanha, da indústria de plásticos, acho; seja como for, alguma coisa muito chata e muito lucrativa. De qualquer modo, rios de dinheiro, legiões de amigos com mansões e nomes importantes. Romance de conto de fadas, coroas de flores, caminhões de presentes onde quer que ela estivesse cantando, joias, as tentações habituais, e La Petrelli — que na verdade não passa de uma moça provinciana de uma cidadezinha perto de Trento — terminou por ceder, apaixonou-se e casou-se com ele. E com suas fábricas, seus plásticos e seus amigos importantes.”
Antonia veio e levou seus pratos, lançando um olhar de desaprovação para o de Padovani, que ainda estava meio cheio.
“Ela continuou sua carreira e foi ficando mais e mais famosa. Ele parecia gostar de viajar com ela, gostava de ser o marido latino da famosa diva, de conhecer mais pessoas famosas, de ver a própria foto nos jornais — todo esse tipo de coisa de que as pessoas de sua classe precisam. Então vieram os filhos, mas ela continuou cantando e se tornando cada dia mais famosa. Porém, logo ficou evidente que a lua-de-mel acabara. Ela cancelou uma apresentação, depois outra. Logo depois disso, parou de cantar por um ano, que passou na Espanha com ele.”
Antonia aproximou-se da mesa com uma grande bandeja de metal com o branzino. Ela o depositou na mesinha de serviço, cortou habilmente dois pedaços do peixe de carne branca e colocou os pratos com as respectivas porções diante dos dois clientes. “Espero que gostem disto.” Os homens trocaram um olhar, em silenciosa aceitação da ameaça.
“Obrigado, signora”, disse Padovani. “Pode me trazer a salada?”
“Quando acabar o peixe”, disse ela, e voltou para a cozinha. Este, pensou Brunetti, é um dos melhores restaurantes da cidade.
Padovani comeu um pouco do peixe. “Então ela voltou a cantar, de forma tão brusca quanto havia parado. Durante o período em que não cantara para o público, sua voz se tornara mais ampla, adquirindo esse timbre extraordinário que tem atualmente. No entanto, já não se via mais o marido; houve uma separação discreta e um divórcio ainda mais discreto, realizado aqui e, quando se tornou possível, foi confirmado também na Espanha.”
“Qual foi o motivo do divórcio?”, perguntou Brunetti.
Padovani levantou a mão para conter a impaciência do policial. “Tudo a seu tempo. Quero que minha narrativa tenha o ritmo de um romance do século XIX. Então, como eu disse, ela começou a cantar novamente, a nossa Flavia, com uma voz mais estupenda que nunca. Mas nunca a viamos. Não a viamos em jantares, em festas, em apresentações de outros cantores. Ela se tornara uma espécie de reclusa, vivia tranquilamente com seus filhos em Milão, onde cantava com regularidade.” Ele se debruçou sobre a mesa. “O suspense está aumentando?”
“É de tirar o fôlego”, confessou Brunetti, levando à boca mais um pouco de peixe. “E o divórcio?”
Padovani sorriu. “Bem que Paola me avisou que você é um bisbilhoteiro. Está bem, está bem, você terá a verdade. Mas, infelizmente, a verdade, como sempre acontece, é bastante banal. Acontece que ele batia nela regularmente, e de forma bastante severa. Ele devia achar que é assim que um homem de verdade tem que tratar a esposa.” Ele deu de ombros. “Mas não sei.”
“Então ela o deixou?”
“Só quando ele a agrediu a ponto de ter que baixar num hospital. Mesmo na Espanha há pessoas que consideram esse tipo de comportamento intolerável. Ela foi para a embaixada italiana com os filhos. Sem dinheiro e sem passaportes. Nosso embaixador à época, como todos eles, era um sujeito servil e tentou mandá-la de volta para o marido. A esposa dele, porém, uma siciliana — e que ninguém diga uma palavra contra os sicilianos —, se plantou nos serviços consulares até que foram emitidos três passaportes; depois pegou o carro e levou Flavia e os filhos ao aeroporto, onde comprou três passagens de primeira classe para Milão, por conta da embaixada, e ficou com eles até o avião levantar voo. Ela ouvira Flavia cantar Odabella três anos antes e, ao que parece, achou que aquilo era o mínimo que devia fazer pela cantora.”
Brunetti se viu perguntando a si mesmo o que isso teria a ver com a morte de Wellauer e, desconfiado com o tom irônico de Padovani, perguntava-se também o quanto de verdade havia naquilo.
Como se tivesse lido os pensamentos de Brunetti, Pa dovani inclinou-se para a frente. “É verdade. Pode acreditar.”
“Como você ficou sabendo de tudo isso?”
“Guido, você trabalha como policial tempo suficiente para saber que quando a pessoa chega a um certo nível de notoriedade já não existem segredos.” Brunetti sorriu, concordando, e Padovani continuou. “Agora vem a parte mais interessante, a volta de nossa heroína à vida. E a causa, como sempre nesse tipo de história, foi o amor. Ou pelo menos”, disse ele depois de pensar um pouco, “a luxúria.”
Brunetti, sabendo da satisfação do outro com a história que estava contando, ficou tentado a se vingar revelando a Antonia que Padovani não comera o peixe todo, mas o escondera no guardanapo.
“Seu período de reclusão durou quase três anos. Em seguida houve uma série de... digamos, relacionamentos. O primeiro foi com um tenor com quem ela estava cantando. Um tenor muito medíocre, diga-se de passagem, mas, felizmente para ela, um homem encantador. Infelizmente para ela, porém, ele tinha uma esposa igualmente encantadora, para a qual mais que depressa voltou. Depois vieram, em rápida sucessão”, Padovani começou a contá-los nos dedos enquanto os nomeava, “um barítono, outro tenor, um bailarino ou talvez o diretor, não tenho muita certeza, um médico que parece ter chegado de mansinho, sem ninguém notar, e finalmente, maravilha das maravilhas, um contratenor. E então, da mesma forma brusca como começara, a coisa parou.” O mesmo fez Padovani, quando Antonia pôs a salada à sua frente. Ele a temperou, colocando vinagre demais para o gosto de Brunetti. “Ela não foi vista com ninguém durante um ano inteiro. E de repente a americana entrou em cena, parecendo ter conquistado a divina Flavia.” Percebendo o interesse de Brunetti, ele perguntou: “Você a conhece?”.
“Sim.”
“E o que acha dela?”
“Gosto dela.”
“Eu também”, concordou Padovani. “Essa história dela com Flavia não faz sentido.”
Brunetti sentia-se constrangido em mostrar interesse pelo assunto, por isso não pediu a Padovani mais informações sobre ela. Entretanto, não era preciso pedir que o outro se estendesse sobre o tema. “Elas se conheceram há cerca de três anos, durante a exposição de arte chinesa. Foram vistas algumas vezes depois disso, almoçando juntas, indo ao teatro, mas aí a americana teve que voltar à China.”
Padovani abandonou de repente o seu tom malicioso. “Li os livros dela sobre arte chinesa, os dois que foram traduzidos para o italiano e o menor em inglês. Se ela não é a mais importante arqueóloga da atualidade, logo haverá de ser. Não sei o que ela vê em Flavia, pois esta, embora possa ser um gênio, é uma espécie de prostituta.”
“Sim, mas e o amor?”, perguntou Brunetti. Depois emendou a pergunta, seguindo o exemplo de Padovani. “Ou a luxúria?”
“Para gente como Flavia não há problema; isso não as impede de trabalhar. Mas a outra tem em suas mãos uma das mais importantes descobertas arqueológicas de nosso tempo, e creio que é sensata e inteligente o suficiente para...” Padovani parou de repente, pegou o copo de vinho e o esvaziou. “Desculpe-me. Eu nunca me deixo embalar desse jeito. Deve ser influência da nobre Antonia.”
Mesmo tendo consciência de que o assunto em nada interessava à investigação, Brunetti não conseguiu se impedir de perguntar: “Ela foi a primeira... mulher na vida de Petrelli?”.
“Acho que não, mas as outras foram casos passageiros.”
“E este é diferente?”
“Para qual das duas?”
“Para ambas.”
“Como já dura uns três anos, eu diria que sim, é sério. Para ambas.” Padovani pegou a última folhinha de sua tigela de salada. “Talvez eu esteja sendo injusto com Flavia. Porque esse caso tem lhe custado muito caro.”
“Como assim?”
“Há muitas cantoras lésbicas”, explicou ele. “É estranho que quase todas elas sejam meios-sopranos. Mas o problema não é esse. A dificuldade é que elas são muito mais hostilizadas que seus colegas homossexuais. Por isso nenhuma delas ousa falar sobre a própria vida, e a maioria é discreta e procura apresentar a amante como secretária ou agente. Porém, é difícil para Flavia disfarçar Brett de alguma coisa. Por isso as pessoas comentam, e tenho certeza de que cochicham e lhes lançam olhares oblíquos quando chegam juntas a algum lugar.”
Bastou a Brunetti lembrar-se do tom de voz do portiere para constatar a verdade do que o outro acabara de dizer. “Você esteve no apartamento delas?”
“Aquelas claraboias...”, disse Padovani, e ambos riram.
“Como ela conseguiu aquilo?”, perguntou Brunetti, a quem impediram de instalar simples janelas isolantes.
“Ela é de uma das famílias mais tradicionais dos Estados Unidos. Amealhou seu dinheiro há mais de duzentos anos; tornou-se muito respeitável. Um tio dela deixou-lhe o apartamento, um tio que ganhou no jogo há cerca de cinquenta anos. Quanto às claraboias, dizem que ela tentou conseguir alguém para fazê-las, mas ninguém queria levantar um dedo sem o devido alvará. Então ela própria simplesmente subiu no teto, tirou as telhas, fez as aberturas no telhado e pôs as armações.”
“E ninguém a viu fazendo isso?” Em Veneza basta segurar um martelo em frente a um edifício para que todos os telefones entrem em ação nas casas da redondeza. “Ninguém chamou a polícia?”
“Você viu a que altura ficam as claraboias. Quem a visse ali não poderia saber o que ela estava fazendo e iria imaginar que estava simplesmente verificando o estado do telhado ou pondo uma telha no lugar.”
“E depois?”
“Quando as claraboias estavam em seu lugar, ela ligou para a prefeitura e disse o que tinha feito. Pediu que mandassem alguém para calcular o valor da multa.”
“E aí?”, indagou Brunetti, espantado de ver um estrangeiro se sair com uma solução tão ao estilo italiano.
“Eles foram até lá alguns meses depois. Porém, quando chegaram ao apartamento e viram um trabalho tão bem feito, não queriam acreditar que ela mesmo o fizera e insistiram para que ela lhes desse o nome dos ‘cúmplices’. Ela repetiu que ela mesma fizera o trabalho, e eles continuaram sem acreditar. Finalmente, ela pegou o telefone, ligou para o gabinete do prefeito e pediu para falar com ‘Lúcio’. E isso às barbas de dois arquitetos da prefeitura, que a olhavam de metro em punho. Ela trocou algumas palavras com ‘Lúcio’, passou o telefone para um dos arquitetos e disse que o prefeito queria falar com ele.” Padovani representou toda a cena, terminando por passar um telefone invisível por cima da mesa.
“Então o prefeito trocou algumas palavras com eles, e os arquitetos subiram no telhado, mediram as claraboias, calcularam o valor da multa e ela os mandou de volta à prefeitura com um cheque nas mãos.” Brunetti jogou a cabeça para trás rindo tão alto que chamou a atenção das pessoas em volta.
“Espere, você ainda não sabe da melhor”, disse Padovani. “O cheque foi descontado e ela nunca recebeu nenhum comprovante de que pagara uma multa. E me disseram que as claraboias figuram devidamente nas plantas que compõem o cadastro da cidade.” Eles riram juntos dessa vitória da inteligência sobre a autoridade.
“E de onde vem todo esse dinheiro?”, perguntou Brunetti.
“Deus meu, quem sabe? De onde vem o dinheiro dos americanos. Aço. Ferrovias. Sabe como são as coisas lá. Não importa se você mata ou rouba para conseguir o dinheiro. O negócio é mantê-lo por uns cem anos, e aí a família se torna aristocrata.”
“Isso é muito diferente do que se passa aqui?”
“Claro”, disse Padovani sorrindo. “Aqui temos que segurar o dinheiro por quinhentos anos antes de nos tornar aristocratas. E há outra diferença. Na Itália, você tem que se vestir bem. Na América, é difícil saber quem são os milionários e quem são os serviçais.” Lembrando-se da botas de Brett, Brunetti quis objetar. Contudo, era impossível interromper Padovani, que voltara a tomar impulso. “Eles têm uma revista. Não consigo lembrar o nome, mas todo ano publicam uma lista das pessoas mais ricas da América. Só os nomes e de onde vem o dinheiro. Acho que eles devem ter medo de publicar suas fotos. As poucas que publicam bastam para que a gente pense que o dinheiro realmente é a fonte de todo o mal ou, pelo menos, do mau gosto. Todas as mulheres parecem ter sido defumadas sobre uma fogueira. E os homens, meu Deus, os homens. Por Deus, quem os veste? Você acha que eles comem plástico?”
A volta repentina de Antonia impediu que Brunetti respondesse a essa questão. Ela perguntou se eles queriam frutas ou bolo como sobremesa. Demonstrando estar com pressa, ambos disseram que preferiam café no lugar da sobremesa. Ela não gostou nada daquilo, mas retirou a mesa.
“Para responder a sua pergunta”, disse Padovani quando ela se foi, “não sei de onde vem o dinheiro, mas parece que a fonte é inesgotável. O tio dela foi bastante generoso com vários hospitais e sociedades beneficentes da cidade, e ao que parece ela faz o mesmo, embora a maioria de suas doações se destine a restaurações.”
“Quer dizer que isso explica a mãozinha de ‘Lúcio’.”
“Com toda a certeza.”
“E quanto a sua vida pessoal?”
Padovani lhe lançou um olhar estranho; ele se dera conta, a certa altura da conversa, de quão pouco aquilo tinha a ver com a investigação da morte de Wellauer. No entanto, isso não o impediria de contar o que sabia. Afinal de contas, o grande charme do mexerico está em sua total inutilidade. “Muito pouco. Quer dizer, não se tem certeza de nada. Ela parece sempre ter praticado esse mesmo culto, se é que me entende, mas pouco se sabe sobre sua vida particular antes de vir para cá.”
“E quando foi isso?”
“Há cerca de sete anos. Isto é, que ela passou a morar aqui. Ela passou muitos anos aqui, com o tio, quando era criança.”
“Isso explica por que fala veneziano.”
Padovani sorriu. “E estranho ouvir alguém que não é dos nossos falando-o, não é mesmo?”
“Sim.”
A essa altura, Antonia voltou com os cafés, trazendo também dois copinhos de grappa, que ela disse ser cortesia do restaurante. Embora nenhum dos dois quisesse tomar aquele líquido forte, eles fingiram experimentar e elogiaram a sua qualidade. Ela saiu, desconfiada, e Brunetti surpreendeu-a voltando-se e olhando para eles da porta da cozinha, como se esperasse que os dois derramassem a grappa nos sapatos.
“O que mais você sabe sobre a vida privada dela?”, perguntou Brunetti, sem disfarçar a curiosidade.
“Ela a mantém realmente muito privada, acho. Tenho um amigo em Nova York que estudou com ela. Harvard, naturalmente. Depois Yale. Em seguida, foi para Taiwan e depois para a China continental. Ela foi um dos pri meiros arqueólogos ocidentais a trabalhar lá. Em 83 ou 84, acho. Ela escreveu seu primeiro livro nessa época, quando estava em Taiwan.”
“Ela não é jovem demais para já ter feito tudo isso?”
“Sim, acho que sim. Mas ela é muito, muito boa.”
Antonia passou perto deles, levando café para a mesa vizinha, e Brunetti pediu-lhe a conta sem dizer nada, apenas fazendo o gesto de preencher um cheque. Ela balançou a cabeça.
“Espero que alguma coisa possa lhe ser útil”, disse Padovani, com sinceridade.
“Eu também”, respondeu Brunetti, sem querer admitir que não seria e tampouco que simplesmente estava interessado nas duas mulheres.
“Se eu puder ajudar de outra forma, por favor, ligue”, disse Padovani. “A gente poderia vir aqui novamente. Mas se viermos peço que traga com você dois policiais bem parrudos para me protegerem da... Ah, signora Antonia”, disse ele com toda a naturalidade quando ela se aproximou da mesa e colocou a conta em frente a Brunetti. “Comemos maravilhosamente bem e espero voltar aqui o mais rápido possível.” O efeito daquela lisonja espantou Brunetti. Pela primeira vez naquela tarde, Antonia sorriu para eles, um sorriso radiante e de puro prazer que revelava covinhas dos dois lados da boca e dentes perfeitos e brilhantes. Brunetti invejou a técnica de Padovani; ela seria muito útil para interrogar suspeitos.
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