Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 24
Brunetti teve de esperar mais de uma hora no ancoradouro e, quando o número 5 chegou, ele estava completamente gelado. Não ocorrera nenhuma mudança no tempo, por isso durante a travessia para San Zaccaria ele se refugiou na cabine muito mal aquecida, fitando a névoa branca que se condensava nos vidros das janelas. Chegando à Questura, dirigiu-se ao seu escritório, ignorando as poucas pessoas que o cumprimentaram. Entrou e fechou a porta, mas não tirou o casaco, esperando se aquecer um pouco. Imagens se atropelavam em sua mente. Ele viu a velha senhora, possessa, gritando atrás dele no corredor frio; via as três irmãs dispostas em V; viu a menininha jazendo morta em seu vestido de primeira comunhão. E ele via tudo, via a trama, via o plano.
Finalmente, tirou o casaco e jogou-o nas costas de uma cadeira. Depois, pôs-se mexer na desordem dos papéis acumulados sobre sua escrivaninha. Foi afastando pastas e dossiês, até conseguir achar o relatório de capa verde da autópsia.
Na segunda página achou o detalhe que lhe tinha ficado na memória: Rizzardi anotara as pequenas marcas no braço e nas nádegas, considerando-as apenas “marcas de sangramento subcutâneo, de causa desconhecida”.
Nenhum dos dois médicos com quem tinha conversado afirmou ter aplicado nenhuma injeção no maestro. No entanto, um homem casado com uma médica não precisa marcar uma consulta para tomar uma injeção. Brunetti achou também que ele não precisava ter um encontro marcado para falar com aquela médica.
Ele voltou à pilha de papéis, encontrou o relatório da polícia alemã e começou a ler até achar alguma coisa que lhe ficara na memória. O primeiro marido de Elizabeth Wellauer, o pai de Alexandra, não apenas ensinava na Universidade de Heidelberg como também era chefe do Departamento de Farmacologia. Ela encontrou-se com ele quando ia para Veneza.
“Sim?”, disse Elizabeth Wellauer quando abriu a porta para ele.
“Desculpe-me por incomodá-la mais uma vez, signora, mas há uma informação nova, e eu gostaria de lhe fazer mais algumas perguntas.”
“Sobre o quê?”, perguntou ela, sem mover um dedo para abrir mais a porta.
“O resultado da autópsia de seu marido”, explicou ele, certo de que aquilo seria bastante para fazê-la abrir. Num gesto brusco e nada elegante, ela abriu a porta e afastou-se para que ele entrasse. Em silêncio, ela o levou à sala onde tiveram as duas conversas anteriores e apontou para a cadeira que eleja estava começando a considerar sua. Brunetti esperou que a viúva acendesse o cigarro, gesto tão natural nela que ele já não lhe dava a mínima atenção.
“Quando a autópsia foi feita”, começou ele sem rodeios, “o legista me disse que encontrou pequenas marcas no corpo de seu marido que podiam ter sido causadas por algum tipo de injeção. O mesmo está dito em seu relatório.” Brunetti fez uma pausa, dando-lhe tempo para que ela fornecesse, por iniciativa própria, alguma explicação. Como esta não veio, ele continuou: “O doutor Rizzardi disse que as marcas podiam derivar de injeções de vários tipos: drogas, vitaminas, antibióticos. Disse também que os lugares onde se encontram as marcas eliminam a possibilidade de as injeções terem sido autoaplicadas. Ele era destro, não era?”.
“Sim.”
“As marcas do braço também eram do lado direito, por isso ele não podia ter aplicado essas injeções em si mesmo.” Ele se permitiu uma pequena pausa. “Isto é, no caso de se tratar de injeções mesmo.” Mais uma pausa. “A senhora deu essas injeções em seu marido?”
Ela o ignorou, por isso ele repetiu a pergunta. “A senhora deu essas injeções em seu marido?” Nenhuma resposta. “A senhora entendeu a minha pergunta? A senhora deu as injeções em seu marido?”
“Eram vitaminas”, respondeu ela finalmente.
“Que tipo de vitaminas?”
“B 12.”
“Onde a senhora as conseguiu? Com seu ex-marido?”
A pergunta, não havia dúvida, tomou-a de surpresa. Ela balançou a cabeça, negando veementemente. “Não, ele não teve nada a ver com isso. Eu fiz uma receita quando ainda estávamos em Berlim. Helmut queixara-se de que andava se sentindo cansado, por isso sugeri que tomasse uma série de injeções de vitamina B 12. Eleja fizera isso no passado, e as injeções o tinham ajudado.”
“Quando a senhora começou a aplicar as injeções?”
“Não me lembro exatamente. Há umas seis semanas.”
“E ele não apresentou melhoras?”
“Como?”
“Seu marido. Ele melhorou com as injeções? Elas tiveram o efeito esperado?”
Ela lhe lançou um olhar penetrante quando ele fez essa segunda pergunta, mas respondeu calmamente. “Não, parecem não ter adiantado muito. Por isso, depois de seis ou sete, resolvi suspendê-las.”
“Quem decidiu isso foi a senhora ou o seu marido?”
“Que diferença faz? Elas não estavam adiantando, por isso ele parou de tomá-las.”
“Acho que faz uma grande diferença se foi ele ou a senhora que tomou a decisão. E acho que a senhora sabe disso.”
“Acho que a decisão foi dele.”
‘Onde o remédio foi comprado? Aqui na Itália?”
“Não, não tenho licença para trabalhar aqui. Foi em Berlim, antes de virmos para cá.”
“Entendo. O farmacêutico deve ter um registro disso, não é?”
“Sim. Acho que sim. Mas não lembro onde foram compradas.”
“Quer dizer então que a senhora prescreveu a receita e comprou a medicação numa farmácia qualquer?”
“Sim.”
“Por quanto tempo viveu em Berlim, senhora?”
“Por dez anos. Não sei que importância pode ter isso.”
“Porque me parece estranho que um médico tenha morado por dez anos numa cidade e não seja cliente de nenhuma farmácia. Ou que o maestro não tivesse o costume de comprar remédios numa farmácia determinada.”
Sua resposta atrasou apenas um segundo. “Ele tinha. Ambos tínhamos. Mas naquele dia eu não estava em casa quando fiz a prescrição, por isso a levei à primeira farmácia que encontrei e comprei o remédio.”
“Mas com certeza a senhora se lembra de qual foi a farmácia. Não faz tanto tempo assim.”
Ela olhou pela janela, concentrando-se, tentando lembrar-se. Depois voltou-se para ele. “Desculpe-me, mas não consigo lembrar onde foi.”
“Não tem importância, senhora’, disse Brunetti em tom sumário. “Com certeza a polícia de Berlim descobrirá isso para nós.” Ela olhou para ele, surpresa ou algo mais que isso. “E tenho certeza de que eles vão descobrir que receita era aquela, que tipo de...” Ele fez uma pausa antes de pronunciar a última palavra “... vitamina.”
Embora o cigarro ainda estivesse aceso no cinzeiro, ela estendeu a mão para pegar o maço, depois mudou de ideia e passou simplesmente a girá-lo com a ponta do dedo, fazendo-o deslocar-se exatamente um quarto de volta de cada vez. “Podemos parar com isso agora?”, ela perguntou em tom neutro. “Nunca gostei de jogos, e parece que o senhor também não é muito bom nisso.”
Ao longo dos anos ele vira aquilo acontecer inúmeras vezes, as pessoas chegarem a um ponto em que não podiam ir mais adiante, o ponto em que se viam obrigadas, ainda que com relutância, a dizer a verdade. Como uma cidade sitiada: a primeira linha de defesa cede, depois as tropas dessa linha batem em retirada, primeira concessão ao assédio inimigo. Dependendo do tipo de defesa, o desfecho do combate é rápido ou a coisa se arrasta, empacando ao pé de um ou outro baluarte; pode acontecer um contra-ataque, e pode não aconte- cer nada. Entretanto, o primeiro movimento é sempre igual; era quase com alívio que as pessoas se livravam do peso da mentira, para finalmente abrir as portas da verdade.
“Não era vitamina. O senhor já sabe, não?”, perguntou ela.
Ele concordou.
“E o senhor sabe o que era?”
“Não, não sei exatamente o que era. Acho que algum antibiótico. Não sei qual, mas acho que isso não importa.”
“Não, não importa.” Ela o olhou com um meio sorriso, a tristeza expressa nos olhos. “Netilmicina. Acho que esse é o nome que tem na Itália. A receita foi aviada na farmácia Ritter, umas três ruas antes da entrada do zoológico. Não haveria a menor dificuldade em encontrá-la.”
“O que a senhora disse ao seu marido que era?”
“O mesmo que disse ao senhor, vitamina B 12.”
“Quantas injeções a senhora aplicou nele?”
“Seis, a intervalos de seis dias.”
“Depois de quanto tempo ele começou a notar o efeito?”
“Algumas semanas. A essa altura não conversávamos muito um com o outro, mas ele ainda me via como médica e me consultou sobre o cansaço que vinha sentindo. Depois me consultou sobre o ouvido.”
“E o que a senhora lhe disse?”
“Lembrei-o da idade e disse também que poderia ser um efeito colateral, temporário, das vitaminas. Foi estupidez minha. Tenho livros de medicina em casa e ele podia muito bem verificar o que eu lhe dizia.”
“E ele fez isso?”
“Não, não fez. Ele confiava em mim. Eu era a médica, dele, entende?”
“Então como ele descobriu? Como ele começou a suspeitar?”
“Ele foi consultar Erich. O senhor deve saber disso, ou não estaria aqui fazendo essas perguntas. Já quando estávamos aqui, ele começou a usar óculos com um aparelho auditivo, e assim fiquei sabendo que fora consultar outro médico. Quando sugeri mais uma injeção, ele recusou. Aquela altura ele já sabia, claro, mas não sei como descobriu. Pelo outro médico?”, perguntou ela.
Brunetti concordou mais uma vez.
Ela lhe deu o mesmo sorriso triste.
“E o que aconteceu então, signora?”
“Viemos a Veneza no meio do tratamento. Na verdade, eu lhe dei a última injeção nesta sala. Já então ele devia saber, mas recusava-se a acreditar no que sabia.” Ela fechou os olhos e esfregou-os com as mãos. “É muito difícil saber quando ele se deu conta de tudo.”
“Quando a senhora se deu conta de que ele sabia?”
“Deve ter sido há cerca de duas semanas. De certa forma, me surpreende o fato de ter demorado tanto, mas deve ser porque nos amávamos muito.” Ela o olhou de frente ao dizer isso. “Ele sabia o quanto eu o amava. Por isso não acreditava que eu tinha feito aquilo com ele” Ela sorriu amargamente. “Houve momentos, depois que comecei com isso tudo, em que eu mesma não acreditava, quando eu me lembrava de quanto o amava.”
“Quando a senhora imagina que ele descobriu que tipo de injeção era?”
“Uma noite eu estava aqui, lendo. Eu não havia ido ao ensaio naquele dia, como costumava fazer. Era muito doloroso ouvir a música, as cordas soando pessimamente, as entradas muito adiantadas ou muito atrasadas, sabendo que eu causara aquilo, tão certo como se tivesse tirado a batuta das mãos dele e a ficasse agitando ao acaso no ar.” Ela parou de falar, como se ainda estivesse ouvindo a música dissonante dos ensaios.
“Eu estava aqui, lendo, ou tentando ler, e ouvi...” Ela levantou os olhos nesse instante e, com o tom de um ator que recita um aparte num teatro cheio de gente, disse: “Meu Deus, é difícil evitar essa palavra, não é?”, para depois voltar ao seu papel. “Ele chegou mais cedo, tinha voltado mais cedo do teatro. Eu ouvi os seus passos pelo corredor, entrando na sala. Ele ainda estava de casaco, e trazia nas mãos a partitura de La Traviata. Era uma de suas óperas favoritas. Ele gostava de regê-la. Ele chegou e ficou de pé ali, exatamente ali”, disse ela, apontando para um espaço vazio entre eles. “Ele olhou para mim e perguntou: ‘Você fez isso, não fez?’.” Ela continuou olhando para a porta, como a esperar que as palavras fossem repetidas.
“Você respondeu?”
“Eu lhe devia isso, não?”, respondeu ela, em tom calmo e racional. “Sim, eu confirmei.”
“Qual a reação dele?”
“Ele saiu. Não da casa, apenas da sala. E então tratamos de não nos ver mais, pelo menos não antes da estreia.”
“Ele lhe fez alguma ameaça? Ele a ameaçou de chamar a polícia? De punir a senhora?”
Ela pareceu surpresa com essa pergunta. “De que adiantaria isso? Se o senhor conversou com o médico, ele deve ter dito que o dano é permanente. A polícia não poderia fazer nada, ninguém podia fazer nada para que ele recuperasse a audição. E não havia maneira de me punir.” Ela parou um pouco para acender outro cigarro. “Exceto fazendo o que ele fez”, acrescentou ela.
“E o que foi?”, perguntou Brunetti.
Ela o enfrentou abertamente. “Se o senhor está bem informado como parece, deve saber isso também.”
Ele sustentou o olhar dela, sem a menor expressão no rosto. “Ainda tenho duas perguntas, signora. A primeira é uma pergunta franca, que faço porque não sei a resposta. E a segunda é mais simples, e acho que já sei a resposta.”
“Então comece pela segunda”, disse ela.
“É a respeito do seu marido. Por que ele procuraria punir a senhora dessa forma?”
“Com a expressão ‘dessa forma’ o senhor se refere ao fato de fazer parecer que eu o matei?”
“Sim.”
Ele notou o esforço que ela fazia para falar, viu as palavras começando a se formar e depois escapar, esquecidas. Finalmente ela falou, em voz baixa. “Ele se considerava acima da lei. Acho que acreditava que era o seu gênio que lhe dava esse poder, esse direito. E Deus é testemunha que todos o reforçávamos nisso. Fizemos dele um deus da música, e nós nos prostrávamos e o adorávamos.” Ela parou de falar e olhou para o policial. “Desculpe-me; não estou respondendo à sua pergunta. O senhor queria saber se ele era capaz de tentar fazer parecer que eu fui a responsável. Mas, como o senhor vê”, disse ela, levantando as mãos como se quisesse extrair dele a compreensão, “eu fui a responsável. Portanto, ele tinha o direito de fazer isso comigo. Teria sido menos terrível se eu o tivesse matado; isso teria mantido o deus intocado.” Ela se calou, mas Brunetti se guardou de fazer qualquer comentário.
“Estou tentando fazer o senhor entender como ele encarou o fato. Eu o conhecia tão bem, sabia como se sentia, o que pensava.” Ela parou mais uma vez, depois continuou em seu esforço para fazê-lo entender. “Aconteceu uma coisa estranha comigo depois que ele morreu e comecei a me dar conta de como ele tivera o cuidado de me chamar aos bastidores e me deixar entrar em seu camarim. Pareceu-me então, e ainda me parece, que ele tinha o direito de fazer o que fez, para me punir. De certa maneira, ele era a sua música. E eu a matei, em vez de matá-lo. Antes de morrer, ele já estava morto. Matei sua alma. Percebi isso durante os ensaios, quando o vi tentando enxergar por cima dos óculos e tentando ouvir, com o inócuo aparelho auditivo, o que estava acontecendo com a música. E ele não conseguia ouvir. Não conseguia ouvir.” Ela balançou a cabeça diante de algo que não conseguia compreender. “Ele não tinha que me punir, senhor Brunetti. Isso já estava feito. Já passei o tempo que tinha que passar no inferno.”
Ela cruzou as mãos no regaço e continuou. “Aí, na noite da estreia, ele me disse o que ia fazer.” Quando ela notou a surpresa de Brunetti, explicou: “Não, ele não me disse com todas as letras, não foi bem assim. Na ocasião, não percebi”.
“Isso aconteceu quando você foi ao camarim dele?”, perguntou Brunetti.
“Sim.”
“O que aconteceu?”
“A princípio, ele não disse nada ao me ver na porta. Simplesmente olhou para mim. Mas ele deve ter visto alguém no corredor, atrás de mim. Talvez tenha pensado que essa pessoa queria entrar no camarim.” Ela baixou a cabeça, cansada. “Eu não sei. Tudo o que ele disse parecia ter sido ensaiado: o que Tosca diz quando vê o corpo de Cavaradossi — Finire cosi, finire cosi. Na ocasião eu não entendi — terminar assim, terminar assim —, porém devia ter entendido. Ela diz isso pouco antes de se matar, mas eu não entendi. Na ocasião, não.” Brunetti surpreendeu-se ao ver um riso quase divertido brilhar fugazmente em seu rosto. “Isso era bem dele, ser dramático no último minuto. Na verdade, melodramático. Surpreende-me que ele tenha tirado suas últimas palavras de uma ópera de Puccini.” Ela olhou para ele, séria. “Espero que isso não soe estranho. Mas pensei que ele gostaria de ser lembrado citando algo de Mozart. Ou de Wagner.” Brunetti assistiu à sua luta contra uma crescente histeria. Ele se levantou e foi a um armário que havia entre as duas janelas e pôs um pouco de conhaque num copo. Ficou por um instante com o copo na mão, e olhou para o campanário de San Marcos. Depois voltou para perto dela e lhe ofereceu o copo.
Sem muita consciência do que estava fazendo, ela o pegou e tomou um pouco da bebida. Brunetti voltou à janela e continuou a fitar o campanário. Quando se convenceu de que este continuava como sempre fora, sentou-se novamente à frente dela.
“Pode me dizer por que fez aquilo, signora?”
Sua expressão de espanto nada tinha de fingida.
“Se o senhor foi inteligente o bastante para descobrir como fiz, com certeza deve saber por que fiz.”
Ele balançou a cabeça. “Não vou dizer o que imagino porque, se por acaso estiver enganado, vou desonrar a memória desse homem.” No momento em que pronunciava aquelas palavras, Brunetti se sentia como um personagem de um libreto de Puccini.
“Isso quer dizer que o senhor entende, não é?”, perguntou ela, inclinando-se para pôr o copo ainda cheio de conhaque perto do maço de cigarros.
“Sua própria filha, signora?”
Ela mordeu o lábio superior e assentiu com um movimento de cabeça que mal se podia perceber. Quando ela parou de morder os lábios, Brunetti viu neles a marca branca dos dentes. Ela estendeu a mão para o maço de cigarros, pegou-o, passou para a outra mão e falou em voz tão baixa que ele teve que se inclinar para a frente para conseguir ouvi-la. “Eu não fazia a menor ideia”, disse ela, sacudindo a cabeça em repulsa ao horror que sentia. “Alex não tem nenhum gosto especial por música. Ela nem ao menos sabia quem ele era quando comecei a me encontrar com ele. Quando eu disse que queria me casar com ele, ela pareceu interessada. Depois, quando lhe disse que ele tinha uma fazenda e que tinha cavalos, ela ficou interessadíssima. É a única coisa de que gosta realmente, cavalos, como a heroína de um livro infantil inglês. Cavalos e livros sobre cavalos.
“Ela tinha onze anos quando nos casamos. Eles se davam bem. Depois, quando descobriu quem ele era — acho que seus colegas lhe disseram —, pareceu um pouco assustada com ele, mas isso passou. Helmut era muito bom com as crianças.” Ela parou e fez uma careta diante da ironia grotesca do que acabara de dizer.
“E então. E então. E então”, repetia, incapaz de se libertar das malhas da memória. “Naquele verão, eu precisei voltar para Budapeste. Para ver minha mãe, que não está muito bem de saúde. Helmut falou que eu não devia me preocupar com isso, que não haveria problemas. Peguei um táxi e fui para o aeroporto. O aeroporto estava fechado. Não me lembro bem por quê. Talvez uma greve. Um problema com os funcionários da alfândega.” Ela olhou para o policial. “Não importa por que o aeroporto estava fechado não é?”
“Não, signora.”
“Ficamos esperando por muito tempo, mais de uma hora, e então nos informaram de que todos os voos tinham sido cancelados e que o aeroporto só voltaria a funcionar na manhã seguinte. Peguei outro táxi e voltei para casa. Entrei em casa. As luzes estavam apagadas, por isso subi as escadas. Como Alex sempre teve um sono agitado, fui ao seu quarto ver como estava. Ver como estava.” Ela olhou para ele, o rosto vazio, sem expressão.
“Quando cheguei no alto das escadas, eu a ouvi. Pensei que ela estava tendo um pesadelo. Não era um grito, só um barulho. Como um animal. Só um barulho. Só isso. E fui ao seu quarto. Ele estava lá. Com ela.”
“O mais estranho disso tudo”, continuou ela num tom absolutamente calmo, como se estivesse contando um fato misterioso e quisesse ouvir a opinião dele, “é que não me lembro do que aconteceu. É verdade que sei que ele foi embora, mas não me lembro nem do que eu lhe disse, nem do que ele me disse. Fiquei com Alex naquela noite.
“Depois”, prosseguiu, “alguns dias depois, ele me disse que Alex tivera um pesadelo.” Ela deu um sorriso de tristeza e de incredulidade. “Foi só o que ele disse. Nunca falamos sobre isso. Mandei Alex para a casa dos avós, para que continuasse os estudos morando com eles. E nunca falamos sobre esse assunto. Oh, como éramos modernos, como éramos civilizados. Naturalmente, paramos de dormir juntos; e paramos de ficar juntos. E Alex se fora.”
“Os avós dela souberam do que acontecera?”
Com um rápido movimento de cabeça ela disse que não. “Não; eu disse a eles o que disse a todo mundo, que eu não queria que ela interrompesse os estudos quando viéssemos a Veneza.”
“Quando a senhora decidiu fazer o que fez?”, perguntou Brunetti.
Ela deu de ombros. “Não sei. Um dia, simplesmente, a ideia estava lá. A única coisa realmente importante para ele, a única coisa que ele amava de verdade era a sua música; por isso decidi que era aquilo que eu ia tirar dele. Na época, achei que era muito justo.”
“E agora?”
Ela refletiu muito sobre a pergunta. “Sim, ainda me parece justo. Tudo o que aconteceu me parece justo. Mas a questão não é essa, não é?”
Para Brunetti já não havia mais nenhuma questão. Ela desaparecera; não havia nem mensagem, nem lição. Tratava-se apenas do mal de que o homem é capaz e da grande perda que daí resulta.
“E agora, o que vai acontecer?”, disse ela, e sua voz parecia subitamente cansada.
“Não sei”, respondeu ele francamente. “A senhora tem alguma ideia de onde ele conseguiu o cianureto?”
Ela deu de ombros, como se achasse aquilo irrelevante. “As possibilidades são várias”, disse. “Ele tinha um amigo químico; ou talvez tenha recorrido aos amigos do passado.” Quando ela viu o ar de perplexidade de Brunetti, explicou: “Da época da guerra. Ele fez muitos amigos poderosos naquela época, e muitos deles hoje são pessoas importantes”.
“Quer dizer que os boatos sobre ele eram verdadeiros?”
“Não sei. Antes de nos casarmos, ele disse que era tudo mentira, e acreditei nele. Agora não acredito mais nisso.” Ela confessou isso em tom amargo, depois se obrigou a voltar à sua explicação. “Não sei onde ele conseguiu, mas sei que não teria nenhuma dificuldade para isso.” Ela deu novamente aquele sorriso triste. “Naturalmente que eu podia conseguir o veneno. Ele sabia disso.”
“Podia conseguir? Como?”
“Não viemos para Veneza juntos. Parei em Heidelberg por dois dias quando estava vindo para cá, para encontrar meu ex-marido.” E este, pensou Brunetti, era professor de farmacologia.
“O maestro sabia que a senhora estava lá?”
Ela fez que sim com a cabeça. “Eu e meu primeiro marido continuamos amigos e ainda temos bens em comum.”
“A senhora lhe contou o que aconteceu?”
“Claro que não”, disse ela, levantando a voz pela primeira vez.
“Onde a senhora se encontrou com ele?”
“Na universidade. Fui encontrá-lo no laboratório. Ele está pesquisando uma nova droga para minimizar os efeitos do mal de Parkinson. Ele me mostrou as instalações e depois fomos almoçar juntos.”
“O maestro soube disso?”
Ela deu de ombros. “Não sei. Posso até ter contado a ele. É provável que tenha contado. Estava muito difícil inventar alguma coisa sobre o que conversar. Esse era um assunto neutro, e certamente ficamos contentes em ter o que conversar.”
“A senhora e o maestro alguma vez conversaram sobre o que aconteceu?”
Ela nem precisava perguntar a que o policial estava se referindo. “Não.”
“Alguma vez falaram do futuro? O que iriam fazer?”
“Não, não de forma direta.”
“O que a senhora quer dizer com isso?”
“Certo dia, quando eu estava chegando em casa e ele estava indo ao ensaio, ele disse: ‘Espere até acabar La Traviata’. Pensei que ele queria dizer que então poderíamos decidir o que fazer. Mas eu já decidira me separar dele. Já tinha escrito para dois hospitais, um em Budapeste, outro em Augsburgo, e já falara com meu ex-marido para conseguir um lugar para mim em um hospital.”
De uma maneira ou de outra, pensou Brunetti, ela estava comprometida. Havia provas de que estava planejando um futuro separada dele, ainda antes de sua morte. Agora estava viúva, e riquíssima. E, se o caso com sua filha viesse a público, havia provas também de que, em sua viagem para Veneza, parara para falar com o pai da menina, homem que com certeza tinha acesso ao veneno que matou o maestro.
Nenhum juiz italiano iria condenar uma mulher pelo que ela havia feito, se ela contasse o que acontecera com sua filha. Considerando as provas de que Brunetti dispunha — o testemunho de Santina sobre sua irmã, as conversas com os médicos e mesmo o suicídio de sua segunda esposa, à época em que sua filha tinha doze anos —, nenhum tribunal da Itália a acusaria de homicídio. Entretanto, tudo isso teria que ser confirmado pelo testemunho da menina, da menina crescida que amava os cavalos e ainda era uma criança.
Brunetti sabia que aquela mulher nunca permitiria que a filha testemunhasse, independentemente das consequências que aquilo traria para ele própria. Além disso, ele sabia que nunca permitiria que aquilo acontecesse.
E sem o testemunho da filha? Havia a óbvia frieza entre os dois, o acesso fácil que ela tinha ao veneno, sua presença no camarim naquela noite, em flagrante contraste com seu comportamento habitual. Tudo aquilo parecia muito verdadeiro. Se ela fosse acusada apenas de ter dado injeções que lhe destruiriam a audição, isso a livraria da acusação de homicídio, mas à custa de envolver a filha no processo. Ele sabia que aquilo era impossível.
“Antes de ele morrer, antes de tudo isso acontecer”, principiou Brunetti, deixando que ela interpretasse como quisesse o “tudo isso”, “seu marido mostrou preocupação com a própria idade? Ele receava a decadência física?”
Ela parou um pouco antes de responder, espantada com a falta de propósito da pergunta. “Sim, falamos sobre isso. Não sempre, mas uma ou duas vezes. Uma vez, quando todos tínhamos bebido um pouco a mais, falamos disso com Erich e Hedwig.”
“E o que ele disse?”
“Se eu não me engano foi Erich. Ele disse que se no futuro alguma coisa o impedisse de trabalhar — não que o impedisse de exercer seu trabalho de cirurgião, mas que fizesse com que já não fosse o mesmo, incapaz de exercer a medicina —, ele disse que, sendo médico, sabia como resolver o problema.”
“Era muito tarde”, continuou ela. “Estávamos todos muito cansados, por isso a conversa ficou muito mais grave do que deveria ser. Ele disse isso e então Helmut afirmou que o entendia perfeitamente e que faria a mesma coisa.”
“A senhora acha que o doutor Steinbrunner ainda se lembra dessa conversa?”
“Acho que sim. Foi no último verão. Na noite do nosso aniversário de casamento.”
“Seu marido falou alguma coisa mais específica que isso?” Antes que ela tivesse tempo de responder, Brunetti acrescentou: “Em presença de outras pessoas?”.
“O senhor quer saber se há testemunhas disso?”
Ele fez que sim.
“Não, não que eu lembre. Mas naquela noite a conversa era tão séria que não havia dúvida para nenhum de nós sobre o que eles quiseram dizer.”
“E seus amigos se lembrarão da conversa dando-lhe o mesmo significado que a senhora lhe dá?”
“Sim. Acho que sim. Acho que eles não viam com bons olhos o fato de eu ser esposa de Helmut.” Depois de dizer isso, ela levantou os olhos arregalados de terror. “Você acha que eles sabiam?”
Brunetti balançou a cabeça negativamente, esperando poder convencê-la de que eles não sabiam, não poderiam saber nada daquilo sobre ele, e ficou em silêncio. Contudo, Brunetti não tinha nenhum motivo para acreditar naquilo. Ele mudou de assunto. “A senhora se lembra de outra ocasião em que seu marido falou desse assunto?”
“Há as cartas que ele escreveu para mim antes do nosso casamento.”
“O que ele dizia nessas cartas?”
“Ele brincava, tentando minimizar nossa diferença de idade. Dizia que eu nunca haveria de ter o trabalho de ficar cuidando de um marido velho e imprestável, que ele trataria de evitar que isso acontecesse.”
“A senhora ainda tem essas cartas?”
Ela inclinou a cabeça e disse calmamente: “Sim. Ainda guardo comigo tudo o que ele me deu, todas as cartas que me escreveu”.
“Ainda não entendo como a senhora pôde fazer isso”, disse ele. Pelo seu tom de voz, percebia-se que ele não estava chocado nem escandalizado, simplesmente intrigado.
“Eu também não sei como pude fazê-lo. Pensei tanto sobre isso que provavelmente inventei novas razões que explicassem meu ato, novas justificativas. Para puni-lo? Ou talvez eu quisesse torná-lo fraco a ponto de torná-lo absolutamente, completamente dependente de mim. Ou talvez eu soubesse que ele iria fazer o que fez. Ou simplesmente já não sei mais e acho que nunca vou entender por quê.” Brunetti achou que ela tinha terminado, porém ela acrescentou, com voz gélida: “Mas estou satisfeita de tê-lo feito, e o faria novamente”.
Ele desviou o olhar. Como Brunetti não era advogado, não saberia dizer a natureza daquele crime. Agressão? Roubo? Se você rouba a audição de alguém, o que está roubando? O crime é ainda mais grave se a audição da vítima é mais importante para ela que para a maioria das pessoas?
“Acredita que ele a chamou ao seu camarim para que se pensasse que era a culpada pela morte dele?”
“Não sei, pode muito bem ter sido isso. Ele acreditava em justiça. No entanto, se ele quisesse isso, poderia ter arranjado as coisas de forma a me comprometer ainda mais. Desde aquela noite tenho pensado nisso. Talvez ele tenha deixado as coisas nesse pé para que eu nunca tivesse certeza do que ele pretendia. E, sendo assim, ele não seria responsável pelo que quer que me acontecesse em decorrência disso.” Ela deu um pequeno sorriso. “Helmut era um homem muito complexo.”
Brunetti inclinou-se para ela e pôs a mão em seu braço. “Signora, ouça com toda a atenção o que aconteceu durante esta nossa conversa”, disse ele, após tomar uma decisão, pensando em Chiara, e tendo a certeza de que estava fazendo o que era correto. “Conversamos sobre a forma como seu marido falou à senhora do medo diante da progressiva surdez que o acometia.”
Surpresa, ela quis protestar. “Mas...”
Ele a interrompeu antes que ela pudesse continuar. “Ele lhe contou sobre a surdez, do medo que ela lhe infundia. Que procurara o amigo Erich na Alemanha e depois um outro médico, em Pádua, e que ambos lhe disseram que estava ficando surdo. Isso explica o comportamento dele aqui, sua evidente depressão. E que a senhora me afirmou temer que ele se suicidasse quando se desse conta de que sua carreira chegara ao fim, de que ele não tinha mais nenhum futuro como músico.” Sua voz revelava todo o cansaço que sentia.
Quando ela esboçou um protesto, Brunetti disse apenas: “A única pessoa que iria sofrer com a revelação da verdade é a única pessoa inocente”.
Ela foi obrigada a calar-se diante da verdade daquela afirmação. “Como pude fazer tudo aquilo?”
Ele não tinha ideia de como devia aconselhá-la; nunca antes ajudara um criminoso a conseguir um álibi ou a escamotear os indícios de um crime. “O importante aqui é que a senhora me falou sobre a surdez dele. Tudo o mais decorrerá disso.” Ela olhou para Brunetti, ainda espantada, e ele lhe falou como se ela fosse uma criança obtusa que se recusasse a entender uma lição. “A senhora me falou isso da segunda vez em que conversamos. Contou-me que ele estava tendo sérios problemas de audição e conversara com seu amigo Erich.” Ela quis protestar mais uma vez, e ele teve vontade de sacudi-la para tirá-la daquele embotamento. “Ele também disse à senhora que procurara outro médico. Eu registrarei tudo isso em meu relatório sobre a nossa conversa.”
“Por que o senhor está fazendo isso?”, perguntou ela finalmente.
Ele fez um gesto evasivo.
“Por que está fazendo isso?”, ela repetiu.
“Porque a senhora não o matou.”
“E o resto? E o que eu fiz a ele?”
“Não há nenhuma forma de fazer a senhora pagar por isso sem fazer que sua filha sofra ainda mais.”
Abalada com a verdade daquela afirmação, ela se encolheu. “O que mais devo fazer?”, perguntou ela, mostrando-se obediente.
“Ainda não sei bem. Não se esqueça de que falamos sobre isso já da primeira vez em que estive aqui.”
Ela ia começar a falar mas parou.
“O quê?”
“Nada, nada.”
Brunetti pôs-se de pé de repente. Sentia-se constrangido de ficar ali sentado, conspirando. “Então é só isso. Acho que a senhora vai ter que testemunhar diante do juiz de instrução.”
“O senhor estará presente?”
“Sim. A essa altura já terei terminado meu relatório e dado minha opinião.”
“E qual será sua opinião?”
“Será a verdade, signora.”
Ela falou num tom normal. “Já não sei mais qual é a verdade.”
“Vou dizer ao procuratore que minha investigação revelou que seu marido se suicidou quando percebeu que estava ficando surdo. Foi exatamente isso o que aconteceu.”
“Sim”, repetiu ela. “Foi exatamente assim.”
Brunetti a deixou sentada na sala onde ela dera a última injeção no marido.
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