Morte no Teatro La Fenice
Capítulo 23
Brunetti atravessou novamente a pé a cidade adormecida, perturbado com o que acabara de ouvir. Ele pensava que sabia alguma coisa sobre o amor, tendo aprendido sobre isso com Paola. Mas seria ele uma pessoa convencional a ponto de o amor daquela mulher — pois não havia dúvida de que se tratava realmente de amor — tivesse que lhe permanecer alheio porque não se enquadrava nas suas ideias? Rejeitou esses pensamentos como o pior tipo de sentimentalismo, concentrando-se na pergunta que se fizera no bar: será que sua simpatia por aquela mulher, a atração que alguma coisa nela exercia sobre ele tornara-o cego para aquilo que deveria estar fazendo? Flavia Petrelli certamente não parecia ser uma pessoa que mata a sangue-frio. Ele não tinha nenhuma dúvida de que, num momento de raiva ou de paixão, ela seria capaz de matar alguém; a maioria das pessoas é. No caso da cantora, seria uma faca nas costelas ou um empurrão escada abaixo, e não veneno, administrado friamente, quase sem paixão.
Quem, então? A irmã da Argentina? Ela teria voltado e vingado a morte de sua irmã? Depois de ter esperado meio século? A hipótese era ridícula.
Quem, então? Não o diretor, Santore. Não se faz isso por causa do cancelamento do contrato de um amigo. Depois de uma vida dedicada ao teatro, Santore com certeza tinha muitos contatos e conseguiria facilmente outro papel para seu protegido, ainda que este tivesse pouquíssimo talento. Mesmo se ele não tivesse talento nenhum.
Sobrava a viúva, mas o instinto de Brunetti lhe dizia que o sofrimento dela era real e que sua falta de interesse em procurar o responsável não era motivada pela necessidade de se proteger. Ela parecia querer proteger o defunto, e isso fez Brunetti voltar ao ponto de partida, precisando e querendo saber mais sobre o passado do homem, sobre seu caráter, sobre as falhas em sua cuidadosa pose de retitude moral que levariam uma pessoa a colocar veneno em seu café.
Brunetti sentia-se incomodado pelo fato de não gostar de Wellauer; ele não sentia nem um pouco daquela compaixão indignada que sentia por aqueles cujas vidas foram roubadas. Brunetti não podia se impedir de acreditar que — ele não podia exprimi-lo de forma mais clara — Wellauer fora, de certa forma, corresponsável por sua própria morte. Ele bufou; todo mundo de certa forma é corresponsável pela própria morte. Contudo, por mais que tentasse, essa ideia não o abandonava nem se tornava mais clara, e por isso ele continuava procurando o detalhe que podia estar relacionado a essa morte — e continuava sem o achar.
A manhã seguinte foi tão melancólica quanto seu estado de ânimo. Formara-se um intenso nevoeiro durante a noite, não vindo do mar, mas das águas acima das quais a cidade se erguia. Quando ele saiu à rua, frias volutas de vapor d’’água vieram roçar o seu rosto, insinuando-se na gola de seu casaco. Só se podiam ver alguns metros à frente; um pouco mais adiante, tudo se perdia no nevoeiro, os edifícios desapareciam completamente, como se tivessem ido embora. Fantasmas envoltos numa névoa tremeluzente e argêntea passavam por ele na rua, dando a impressão de flutuar como se estivessem desencarnados. Se ele os acompanhava com o olhar, logo desapareciam, engolidos pela espessa camada de bruma que enchia as ruas estreitas e que pairava sobre as águas feito uma maldição. A intuição e uma grande experiência lhe diziam que não haveria serviço de barco no Grand Canal; o nevoeiro estava forte demais para isso. Brunetti caminhava um tanto às cegas, deixando que seus pés o guiassem e que décadas de familiaridade com pontes, ruas e encruzilhadas o fizessem chegar ao Zattere e ao embarcadouro onde os barcos 5 e 8 paravam, a caminho de Giudecca.
O serviço estava muito limitado, e os barcos, sem a menor preocupação com os horários, surgiam do nevoeiro ao acaso, com a tela de radar acesa. Ele esperou durante quinze minutos até que um número 5 chegou de repente e abalroou o embarcadouro, sacudindo-o e fazendo com que algumas pessoas que nele se encontravam perdessem o equilíbrio e caíssem umas sobre as outras. Só o radar conseguia orientar-se; as pessoas se amontoaram na cabine, cegas como toupeiras na areia.
Quando saiu do barco, Brunetti não teve alternativa senão andar para a frente até quase tocar os edifícios fronteiros ao embarcadouro. Mantendo-os sempre à distância de um braço, ele andou em direção do lugar onde, pelo que lembrava, ficava a passagem do túnel. Quando chegou a uma abertura na linha dos edifícios, entrou por ela, ainda sem ter certeza de que se tratava da Corte Mosca. Não conseguiu ler a placa, embora ela estivesse apenas alguns centímetros acima de sua cabeça.
A umidade intensificara o cheiro de urina de gato; o frio tornava-o mais penetrante. As plantas mortas do pátio agora jaziam sob um manto de neblina. Ele bateu à porta uma vez e em seguida com mais força. Ouviu-a gritar de dentro da casa: “Quem é?”
“O comissário Brunetti.”
Mais uma vez ele ouviu o lento e raivoso roçar de metal contra metal quando ela abriu os pesados ferrolhos da porta, puxando-a para si. O grande aumento da umidade obrigou-a, a certa altura, a puxá-la um pouco para cima, para evitar que um ressalto no piso a impedisse de abrir. Ainda usando seu casaco, dessa vez todo abotoado, ela não se deu ao trabalho de lhe perguntar o que queria. Afastou-se apenas o bastante para que Brunetti entrasse, depois bateu a porta atrás dele. Mais uma vez ela a fechou com todo o cuidado antes de conduzi-lo pelo corredor estreito. Chegando à cozinha, ele foi sentar-se junto ao aquecedor, e ela parou de modo a empurrar com o pé os trapos para a abertura sob a porta.
Santina arrastou-se até sua poltrona e deixou-se cair nela, e logo estava envolta em mantas e xales.
“O senhor voltou.”
“Sim.”
“O que deseja?”
“A mesma coisa que da outra vez.”
“E o que é? Sou uma mulher idosa, e não me lembro das coisas.” A expressão inteligente de seus olhos negava isso.
“Gostaria de saber algumas coisas sobre sua irmã.”
Sem se dar ao trabalho de perguntar sobre qual das duas, ela indagou: “O que o senhor quer saber?”.
“Não quero que reviva a sua dor, senhora, mas pre ciso saber mais sobre Wellauer para que possa entender por que ele morreu.”
“E se ele tiver merecido morrer?”
“Signora, todos nós merecemos morrer, mas ninguém tem o direito de decidir isso por nós.”
“Por Deus”, disse ela com um risinho. “O senhor é um verdadeiro jesuíta, não é? E quem decidiu quando minha irmã devia morrer? E quem decidiu como seria essa morte?” De forma tão súbita como surgira, sua raiva cessou, e ela perguntou novamente: “O que o senhor quer saber?”.
“Estou informado de sua ligação com ele. Sei que correu o boato de que Wellauer engravidou a sua irmã. E sei que ela morreu em Roma em 1939.”
“Ela não morreu apenas. Ela se esvaiu em sangue até morrer.” Disse isso num tom sinistro como o sangue e a morte. “Ela sangrou até a morte num quarto de hotel, o quarto em que ele a colocou depois do aborto, e onde nunca foi visitá-la.” Em seu rosto, a dor da velhice lutava com a dor da lembrança. “Quando a encontraram, ela já estava morta havia um dia. Talvez dois. E se passou mais um dia antes que eu fosse informada da sua morte. Eu estava em prisão domiciliar, mas os amigos vieram me avisar. Saí de casa. Tive que bater num policial para fazer isso, derrubá-lo no chão e chutar o seu rosto, para poder sair. Mas saí. E nenhuma das pessoas que me viram chutá-lo, nenhuma delas parou para ajudá-lo.”
“Meus amigos foram comigo”, continuou Santina, “para onde ela estava. Tudo o que era preciso fazer já fora feito; e nós a enterramos naquele dia mesmo. Não contamos com a presença de nenhum padre, por causa da forma como ela morreu. Por isso, simplesmente a enterramos. A sepultura era muito pequena.” Sua voz sumiu, sufocada pelo peso da memória.
Ele já assistira muitas vezes a cenas como essa, no passado, por isso teve o discernimento de se manter calado. As palavras tinham se libertado, e ela não iria parar até dizê-las todas, libertando-se delas. Brunetti esperou, pacientemente, vivendo o passado junto com ela.
“Vestimo-la toda de branco. Depois a enterramos naquela sepultura minúscula. Aquele buraco minúsculo. Voltei para minha casa após o funeral e eles me prenderam. Mas como eu já estava presa, não fazia a mínima diferença. Perguntei-lhes pelo policial, e disseram que ele estava bem. Pedi-lhe desculpas quando o encontrei mais tarde. Depois da guerra, quando os aliados estavam na cidade, ele ficou escondido no porão de minha casa por um mês, até que sua mãe veio e o levou. Eu não nada tinha contra ele, nenhuma razão para lhe querer mal.”
“Como aconteceu?”
Ela olhou para ele sem entender.
“Sua irma e Wellauer.”
Ela passou a língua nos lábios e contemplou as mãos deformadas, que mal se podiam ver entre as mantas. “Eu os apresentei. Wellauer ficou sabendo como começara minha carreira de cantora, por isso quando elas vieram a Alemanha para me ver cantar ele me pediu que o apresentasse a Clara e a pequena Camilla.”
“A senhora já estava envolvida com ele naquela época?”
“O senhor quer saber se ele já era meu amante?”
“Sim.”
“Sim, era. A relação começou quase imediatamente, quando fui para lá cantar.”
“E o caso dele com sua irmã?”
A cabeça dela projetou-se para trás, como se ele a tivesse golpeado. Inclinou-se para a frente, e Brunetti pensou que ela ia bater nele. Em vez disso, ela cuspiu. Uma pequena gota de saliva aquosa caiu em sua coxa e lentamente infiltrou-se no tecido de sua calça. Ele estava perturbado demais para limpá-la.
“Vá para o diabo. Vocês são todos iguais. Sempre iguais”, bradou descontrolada, com raiva. “Vocês olham para alguma coisa e veem sujeira onde querem ver.” Ela falava cada vez mais alto, repetindo com desprezo as palavras dele. “O caso dele com minha irmã. O caso dele.” Ela se inclinou para Brunetti, os olhos franzidos de ódio, e sussurrou: “Minha irmã tinha doze anos. Doze anos. Nós a enterramos com o vestido da primeira comunhão; ela era apenas uma criança. Uma menininha.”
“Ele a estuprou, senhor policial”, continuou Santina. “Ele não teve nenhum caso com minha irmãzinha. Ele a estuprou. Da primeira vez, e muitas outras, quando então a ameaçou, ameaçou-a de dizer para mim que menina má era ela. E, quando ela ficou grávida, ele nos mandou a ambas de volta a Roma. E eu não sabia nada da história. Porque ele ainda era meu amante. Fazendo amor comigo e estuprando minha irmã. O senhor está entendendo, senhor policial, por que estou feliz que ele tenha morrido e por que eu disse que ele merecia morrer?” Seu rosto estava transtornado pela raiva que ela trazia dentro de si havia meio século.
“O senhor quer saber toda a história, senhor policial?”
Brunetti aquiesceu. Agora ele via, compreendia.
“Ele voltou para Roma, para dirigir a Norma em que eu deveria cantar. E ela lhe disse que estava grávida. Estava assustada demais para nos contar, com medo de que a acusássemos de ser uma menina má. Então ele providenciou o aborto, e em seguida a levou para o quarto de hotel. Largou-a lá, e ela sangrou até morrer. E, quando morreu, não tinha mais que doze anos.”
Brunetti viu a mão dela erguer-se de entre as mantas e xales, viu-a tentar bater nele. Bastou-lhe recuar um pouco a cabeça para evitar o golpe. Ela bateu com a mão no braço da cadeira, que era de madeira, e gritou de dor.
Ela se levantou bruscamente da cadeira, espalhando xales e mantas pelo chão. “Saia de minha casa, seu porco. Seu porco.”
Brunetti pulou da cadeira fugindo dela, por pouco não tropeçou na perna da cadeira, e saiu esbarrando pelo corredor, fugindo daquele acesso de raiva, enquanto ela o seguia com a mão erguida. Ela parou, ofegante, enquanto ele tentava abrir os ferrolhos. Já no pátio, Brunetti ainda a ouvia gritar contra ele, contra Wellauer, contra o mundo. Ela bateu a porta e a aferrolhou, continuando a vociferar. Ele se viu lá fora tiritando no nevoeiro, perturbado com a raiva que provocara na cantora. Forçou-se a respirar fundo, para esquecer aquele primeiro instante em que ela o amedrontara; o momento em que ficou realmente assustado com o terrível turbilhão de lembranças que a fizera precipitar-se da cadeira, investindo contra ele.
OceanofPDF.com