Morte no Teatro La Fenice

Donna Leon · Capítulo 3 de 25

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Morte no Teatro La Fenice

Capítulo 3

 

 

Quando Brunetti saiu do camarim, encontrou Miotti esperando por ele. O jovem policial explicou que Franco Santore, o diretor, recusara-se a esperar, dizendo que quem quisesse falar com ele poderia encontrá-lo no Hotel Fenice, ao lado do teatro. Brunetti aquiesceu, quase aliviado por saber da existência de outros hotéis na cidade.

“Com isso, resta-nos a soprano”, disse Brunetti, avançando pelo corredor. O habitual cartão fixado cora tachinhas estava na porta. “Flavia Petrelli — Violetta Valéry.” Sob essa inscrição, havia uma linha do que pareciam ser caracteres chineses, traçados com uma fina caneta preta.

Ele bateu à porta e fez um sinal para que os outros ficassem do lado de fora.

“Avanti!”, ele ouviu e abriu a porta.

Duas mulheres o esperavam na sala, e ele ficou surpreso por não ser capaz de dizer qual das duas era a soprano. Como todo mundo na Itália, Brunetti ouvira falar em “La Petrelli”. Ele a vira cantar uma vez, alguns anos antes, e tinha uma vaga lembrança de ver fotografias suas nos jornais.

A mais morena das duas estava de pé, de costas para a penteadeira, enquanto a outra se encontrava numa cadeira de madeira, junto à parede do fundo. As duas ficaram caladas quando ele entrou, e Brunetti aproveitou o silêncio para estudá-las.

A que estava de pé lhe pareceu ter cerca de trinta anos. Trajava suéter roxo e saia preta comprida cuja barra roçava um par de botas de couro pretas, de fino couro de cabrito e de salto baixo. Brunetti lembrou vagamente ter passado com sua mulher pela vitrine dos Fratelli Rossetti e de ouvi-la dizer ser uma loucura gastar meio milhão de liras com um par de botas. Botas como aquelas, não havia dúvida. Seu cabelo negro des cia até os ombros com um ondulado natural que podia ser cortado pelo pior dos cabeleireiros e ainda assim parecer perfeito. No rosto de um leve tom azeitonado, seus olhos destoavam: eram de um verde-claro que o fazia pensar em vidro, mas então, lembrando-se das botas, em esmeraldas.

A mulher que estava sentada parecia ser alguns anos mais velha e tinha os cabelos — nos quais se distinguiam alguns fios grisalhos — cortados bem curtos, o que lhe dava uma certa aparência de imperador romano da época da decadência. A severidade do corte realçava a delicadeza do nariz e das feições do rosto.

Andou alguns passos em direção à mulher que estava sentada e fez um movimento que podia ser interpretado como uma mesura. “Signora Petrelli?”, perguntou ele. Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça, mas não disse nada. “Tenho muita honra em conhecê-la e sinto apenas que isso aconteça em circunstâncias tão lamentáveis.” Como estava diante de uma das mais importantes cantoras de ópera do momento, ele sentia um impulso quase irresistível de dirigir-se a ela na linguagem afetada da ópera, como se estivesse interpretando um papel.

Ela novamente moveu a cabeça, sem fazer nada para aliviá-lo da responsabilidade de levar a conversa adiante.

“Gostaria de falar com a senhora sobre a morte do maestro Wellauer.” Ele lançou um olhar à outra mulher. “E com a senhora também”, acrescentou, deixando que uma delas lhe dissesse o nome da segunda mulher.

“Brett Lynch”, disse a cantora. “Minha amiga e secre tária.”

“É um nome americano?”, perguntou ele a esta última.

“Sim, é”, respondeu a sra. Petrelli por ela.

“Então não seria melhor que falássemos em inglês?”, perguntou Brunetti, orgulhoso da facilidade com que podia passar de uma língua para a outra.

É

“É mais fácil falarmos em italiano”, disse a americana, falando pela primeira vez, num italiano sem o menor sotaque. A reação involuntária de Brunetti não passou despercebida às duas mulheres. “A menos que o senhor queira falar em veneziano”, acrescentou ela, passando facilmente ao dialeto local, que falava perfeitamente. “Mas aí Flavia pode ter dificuldade em acompanhar o que estamos dizendo.” Tudo isso foi dito sem sombra de um sorriso, e Brunetti se deu conta de que teria que esperar um bom tempo antes de ter uma oportunidade de exibir o seu inglês.

“Italiano, então”, disse ele, voltando-se para a sra. Petrelli. “Pode responder a algumas perguntas?”

“Claro”, respondeu ela. “O senhor quer uma cadeira, signor...”

“Brunetti”, completou ele. “Comissário de polícia.”

O título não pareceu impressioná-la nem um pouco. “Quer uma cadeira, dottor Brunetti?”

“Não, obrigado.” Ele sacou o bloco de anotações do bolso, pegou uma caneta que estava enfiada entre as páginas e preparou-se para fingir estar tomando notas, coisa que raramente fazia, preferindo deixar os olhos passearem livremente durante o primeiro interrogatório.

A senhora Petrelli esperou que ele tirasse a tampa da caneta. “O que o senhor gostaria de saber?”, perguntou então.

“A senhora viu o maestro ou falou com ele esta noite?” Antes que ela pudesse falar, ele continuou: “Exceto quando estava no pódio, naturalmente”.

“Só o tempo de dizer ‘buona sera’, quando ele veio para nos dizer ‘in boca ai lupo’, boa sorte. Não mais que isso.”

“E foi a única vez em que a senhora falou com o maestro?”

Antes de responder, ela lançou um olhar a Brett. O policial manteve os olhos fixos na soprano, de forma que não teve ideia da expressão da outra. O silêncio se prolongou, mas antes que pudesse repetir a pergunta a soprano respondeu finalmente. “Não, não o vi novamente. Vi-o quando estava no palco, claro, como o senhor falou, mas não nos falamos outra vez.”

“De forma alguma?”

“Não, de forma alguma”, foi sua resposta imediata.

“E nos intervalos? Onde a senhora estava?”

“Aqui. Com a signorina Lynch.”

“E quanto à signorina Lynch?”, perguntou ele, pronunciando seu nome sem o menor sotaque, embora tivesse precisado se concentrar para fazê-lo. “Onde estava durante o espetáculo?”

“Aqui no camarim durante quase todo o primeiro ato. Desci para ouvir a Sempre libera, mas logo subi de volta. E fiquei aqui até o final da apresentação”, respondeu ela calmamente.

Brunetti lançou um olhar em torno da sala nua, procurando alguma coisa com que ela pudesse ter se ocupado durante tanto tempo. Ela entendeu aquele olhar e tirou um pequeno volume do bolso da saia. Nele se viam caracteres chineses iguais aos que se encontravam no cartão fixado à porta.

“Eu estava lendo”, explicou ela, estendendo-lhe o livro. Ela lhe deu um sorriso amistoso, como se estivesse disposta a falar sobre o livro, se ele desejasse.

“E a senhora falou com o maestro Wellauer esta noite?”

“Como a signora Petrelli lhe disse, falamos com o maestro quando ele veio aqui, mas depois disso não o vi mais.” Brunetti, reprimindo o impulso de dizer não, a signora Petrelli” não disse que elas chegaram juntas, deixou-a continuar. “Do lugar em que eu estava nos bastidores não podia vê-lo, e fiquei aqui durante os dois intervalos.”

“Aqui com a senhora Petrelli?”

Desta vez foi a americana que olhou para a outra mulher antes de responder. “Sim, com a senhora Petrelli, exatamente como lhe disse.”

Brunetti fechou seu bloco de notas, onde apenas rabiscara o sobrenome da americana, como para se deixar penetrar por todo o horror de uma palavra composta de cinco consoantes. “Caso eu precise fazer outras perguntas, pode me dizer onde encontrá-la, signora Petrelli?”

“Cannaregio, número 6134”, respondeu ela, para surpresa do policial — visto tratar-se de um bairro inteiramente residencial.

“O apartamento é seu, signora?”

“Não, é meu”, interrompeu a outra mulher. “Eu também vou estar lá.”

Ele reabriu o bloco e anotou o endereço e, ato contínuo, perguntou: “E o número do telefone?”.

Ela deu o número, dizendo-lhe que não se encon trava na lista telefônica, acrescentando que o endereço era perto da basílica de SS. Giovanni e Paolo.

Assumindo sua atitude formal, ele fez uma pequena mesura. “Obrigado a ambas, senhoras, e lamento o momento difícil por que estão passando.”

Se alguma delas achou essas palavras estranhas, nenhuma deu mostras disso. Depois de mais algumas trocas de amabilidades, ele saiu do camarim e, acompanhado dos dois auxiliares que o estavam esperando no corredor, dirigiu-se aos bastidores.

O terceiro policial estava esperando no pé da escada.

“E então?”, perguntou Brunetti.

Ele sorriu, satisfeito por ter alguma coisa para con tar. “Tanto Santore, o diretor, como La Petrelli falaram com ele em seu camarim. Santore entrou no camarim antes do espetáculo, e ela, depois do primeiro ato.”

“Quem lhe disse isso?”

“Um dos maquinistas. Ele disse que Santore parecia estar com raiva quando saiu, mas é só uma impressão. Ele não ouviu nenhum grito ou coisa assim.”

“E a senhora Petrelli?”

“Bem, o homem disse que não tem certeza de que era mesmo La Petrelli, mas que a pessoa estava com uma roupa azul.”

Nesse ponto, Miotti interrompeu. “Ela usa um vestido azul no primeiro ato.”

Brunetti lhe lançou um olhar perplexo.

Ele estava sonhando ou Miotti baixou a cabeça antes de falar? “Vi um ensaio na semana passada, senhor. E ela usa um vestido azul no primeiro ato.”

“Obrigado, Miotti”, disse Brunetti em tom calmo.

“É por causa da minha namorada, senhor. O primo dela é do coro e arranja ingressos para nós.”

Brunetti balançou a cabeça, sorrindo, mas pensou que preferiria que Miotti não tivesse dito aquilo.

O policial que estava dando o informe dobrou a manga da camisa e consultou o relógio. “Continue”, disse-lhe Brunetti.

“Ele disse que a viu chegar no fim do primeiro intervalo e que estava com muita, muita raiva.”

“No fim do primeiro intervalo?”

“Sim, senhor. Ele tinha certeza disso.”

Aproveitando a deixa do policial, Brunetti disse: “Já é tarde, e acho que não vamos conseguir fazer mais nada aqui hoje”. Os outros passearam os olhos pelo teatro, agora vazio. “Amanhã, tentem ver se descobrem mais alguém que a tenha visto. Ou que tenha visto uma outra pessoa entrar.” Eles pareceram ficar mais aliviados quando Brunetti falou que continuariam no dia seguinte. “Por hoje basta. Podem ir embora.” Quando eles já estavam começando a se afastar, Brunetti chamou: “Miotti, será que já levaram o corpo para o hospital?”.

“Não sei, senhor”, disse ele, quase sentindo-se culpado, como se temendo que isso fosse anular a aprovação recebida havia pouco.

“Espere aqui enquanto vou verificar”, disse-lhe Brunetti.

Ele voltou ao camarim e abriu a porta sem se preocupar em bater. Os dois policiais estavam sentados nas poltronas, os pés apoiados na mesa. Ao lado deles, no chão, coberto com um lençol, inteiramente ignorado, jazia um dos maiores músicos do século.

Eles levantaram os olhos quando Brunetti entrou, mas não tiveram nenhuma outra reação. “Podem levá-lo para o hospital agora”, disse ele, depois se voltou e saiu da sala, tendo o cuidado de fechar a porta atrás de si.

Miotti estava onde ele o deixara, consultando um bloco de notas muito parecido com o de Brunetti. “Vamos tomar um drinque”, disse Brunetti. “Com certeza o hotel é o único lugar aberto a esta hora.” Ele suspirou, começando a se sentir cansado. “Um drinquezinho agora cairia bem.” Tomou a esquerda, mas percebeu que estava voltando para o palco. A escadaria parecia ter desaparecido. Havia ficado tanto tempo no teatro subindo e descendo escadas, atravessando e tornando a atravessar corredores, que estava completamente deso rientado e não tinha ideia de como sair.

Miotti tocou-o de leve no braço. “Por aqui, senhor”, disse ele, levando-o pela esquerda, descendo o lance de escada pelo qual tinham subido mais de duas horas antes.

Embaixo, o portiere, vendo o uniforme de Miotti, incli nou-se sob o balcão em que estava e apertou o botão para liberar a borboleta que bloqueava a passagem para fora do teatro. Ele fez um sinal de que bastava empurrar. Sabendo que Miotti já devia ter perguntado ao homem sobre quem tinha entrado e quem tinha saído do teatro naquela noite, Brunetti não se deu ao trabalho de fazer-lhe perguntas. Os dois policiais passaram diretamente do teatro à praça deserta. Antes de tomarem a rua estreita que dava no hotel, Miotti perguntou: “O senhor vai precisar de mim para isso, senhor?”.

“Você não precisa se preocupar por beber de uniforme”, garantiu-lhe Brunetti.

“Não é isso, senhor.” Talvez o rapaz estivesse apenas cansado.

“Então o que é?”

“Bem, senhor, o portiere é amigo de meu pai, assim pensei que, se voltasse agora, talvez pudesse convidá-lo para beber alguma coisa, quem sabe ele me conta mais do que me contou antes.” Como Brunetti ficou calado, ele se apressou a acrescentar: “Foi só uma ideia, senhor. Eu não queria...”.

“Não, é uma boa ideia. Muito boa. Volte e converse com ele. Amanhã de manhã a gente se vê. Acho que não precisamos chegar antes das nove.”

“Obrigado, senhor”, disse Miotti com um riso de satisfação. Ele prestou uma continência a que Brunetti respondeu com um vago gesto de mão, e o jovem voltou ao teatro e ao seu ofício de policial.

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